EU ACHO …

O NOVO TURISTA PÓS-COVID-19

Era 1918 quando a gripe espanhola assolou o mundo, matando quase 100 milhões de pessoas e deixando outros milhões de indivíduos por meses em Lockdown. Talvez por isso, 1920 tenha sido marcado pelas maiores descobertas e realizações. Época em que se superou a dicotomia de pensamento dos conservadores e na qual se caiu na estrada — todos atrás de seus sonhos. Havia uma pressa em alcançar o tempo enclausurado misturado com a alegria de estar vivo para poder vivê-lo.

Voltando para os nossos (coincidências à parte) anos 20, depois de mais de dois meses de confinamento por conta da pandemia da Covid-19 surgem relatórios de empresas como a Trip.com, divulgando que o mercado de turismo da China já está ganhando força com as atrações turísticas naturais esgotadas para o ano todo. Ou a pesquisa recente da Skift Research que constatou que um terço dos americanos esperam viajar logo após a liberação total da quarentena.
É possível traçar, a partir daí, um perfil de viajantes mais imediatistas em busca de experiências que vão além do Resort e da Torre Eiffel. A procura será por aquele canto inexplorado, longe da massa. Sabemos que as viagens internacionais levarão mais tempo para se recuperar e que os países “se reabrirão” em diversos momentos, porém essa reabertura escalonada será confusa e pouco permissiva, exigindo documentação e exames de saúde mais rigorosos. Nesse caso, as road trips pelo Brasil irão aumentar e os viajantes terão a necessidade de se sentirem mais emocionalmente conectados ao destino.

O turismo de luxo não será mais ligado à ostentação e sim às experiências que envolvem o bem-estar físico e mental. Acostumem-se com novos vocabulários e modelos de viagens, como, por exemplo, o Couchsurfing: uma rede que põe em contato viajantes de turismo imersivo com anfitriões dispostos a abrir as portas das suas casas para recebê-los. O guia turístico será visto como na comunidade Rent a local friend, onde pessoas que amam viajar partilham o seu modo de vida e lugares favoritos da sua cidade com novos amigos. Ou, ainda, o que era antigo transfer será ao estilo Beep Me que conecta pessoas interessadas em encontrar caronas de longa e curta distância pelo mundo.

E se não for para compartilhar cultura e conhecimento em uma viagem tão sociável, os hotéis terão de se readaptar. Esqueçam o exagero. Pensem em autenticidade e percebam que o novo “5 estrelas” estará mais ligado a um serviço de experiências únicas, e, claro, com as readaptações das novas normas de saúde. A percepção dos fornecedores de serviços turísticos terão de sacar essa nova demanda e fazer com que a viagem fique na memória dos seus clientes para sempre. Só torcemos para que isso comece logo.

**FLÁVIA VITORINO

OUTROS OLHARES

A REVOLTA DOS ENTREGADORES

Essenciais na pandemia, eles fazem greve contra os baixos ganhos e para abrir a caixa-preta dos critérios das empresas de aplicativo de entregas

Durante semanas, eles foram os donos das ruas desertas. Enquanto quem podia se escondia em suas casas e apartamentos, protegido por hectolitros de álcool em gel, milhares de entregadores percorriam dezenas de quilômetros todos os dias em motos e bicicletas para levar comidas, remédios, bebidas e o que mais estivesse ao alcance de um clique de aplicativo de celular. Como a Geni da música, em vez da gratidão diante do horror, muitos desses profissionais relatam uma rotina de medo, ressentimento, pagamentos miseráveis e desconfiança. “As pessoas que já eram meio receosas com entregadores ficaram piores durante a pandemia. Tem gente que abre só uma fresta da porta para pegar o pedido e nem dá boa tarde. Cheguei a ser todo borrifado de álcool na entrada de um condomínio. As pessoas dentro de casa estão se sentindo protegidas, mas a gente, que está na rua, arrisca a própria pele e nem é recompensado por isso”, desabafou Ronald, de 29 anos, morador de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que pediu que seu nome completo não fosse divulgado por medo de retaliações dos aplicativos – pior do que tudo isso que ele relata, é sua conta ser suspensa e não conseguir ganhar nada.

Agora, no momento em que muitas cidades começam a reabrir, a conta chegou. Em um movimento inédito, na quarta-feira 1º de julho centenas de entregadores ligados a aplicativos decidiram cruzar os braços e encostar as mochilas, num protesto contra o tratamento que recebem das plataformas e a baixa remuneração em troca do trabalho muitas vezes extenuante e perigoso. “Na pandemia, cheguei a trabalhar das 8 da manhã às 7 da noite, e fazer apenas uma entrega. Voltei para casa com RS 8,90 e tive de tirar toda a roupa, jogar em cima da laje e tomar um banho por causa do coronavírus. Tenho quatro filhas, uma delas de 6 anos, e tenho medo de pegar a doença e passar para elas”, contou Robson, de 39 anos, morador do Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo, que também pediu para seu nome não ser publicado, pelos mesmos motivos do colega carioca.

Os rendimentos dos aplicativos de entrega são sua principal fonte de renda. Como muitos outros, o motoboy viu nas plataformas uma oportunidade de ganhar mais e ter mais flexibilidade, e abandonou os empregos de motorista e instalador de aparelhos de gás. Uma reclamação comum é que, na crise profunda da pandemia, muitos outros seguiram o mesmo caminho, e a explosão de oferta fez os ganhos despencar. “Recebi um pedido para percorrer 26 quilômetros que ia pagar só R$ 6. Essetipo de coisa começou a gerar revolta. Por isso começamos a nos movimentar. No início éramos apenas cinco, mas o grupo cresceu rápido porque muitos já estavam com a mesma intenção”, disse Robson, um dos líderes do movimento em São Paulo.

O que começou há cerca de três meses como trocas dereclamações empontos de reunião de entregadores se transformou em uma revolta de razoáveis proporções, mas num movimento ainda descentralizado. Segundo entregadores ouvidos, ao todo, são cerca de 20 grupos de WhatsApp, com quase 300 integrantes cada um – um número expressivo, mas uma fatia ínfima de um grupo estimado em centenas de milhares no país todo. Articuladores apontam como o “marco zero” da revolta uma cena corriqueira ocorrida em frente ao shopping Plaza Sul, na Zona Sul de São Paulo, um ponto de concentração de entregadores que ficam à espera de pedidos. “A gente estava conversando e de repente caiu um pedido para um entregador que trabalha de bicicleta. Ele precisaria fazer 9 quilômetros para ganhar RS 16. A gente pensou: ‘Está ficando cada vez pior”, lembrou Mineiro, um dos motoboys na linha de frente da paralisação.

Foi naquele dia que os entregadores da região criaram um grupo de WhatsApp para discutir condições de trabalho. O número de participantes do grupo foi crescendo até atingir o limite máximo de participantes, e então novos grupos surgiram. A primeira paralisação, no dia 11 de abril, em São Paulo, teve adesão baixa: 480 apareceram, com seusindefectíveis bagageiros coloridos com os nomes das empresas. No protesto de julho, a estimativa é que o número tenha sido dez vezes maior.

O principal motivo da discórdia entre aplicativos como iFood, Rappi e Uber Eats e os entregadores é a remuneração, um cálculo tão obscuro quanto os mais intrincados algoritmos que parecem adivinhar o que queremos jantar naquele dia. O valor do frete varia de acordo com a empresa, mas pode incluir questões como o clima (em dias chuvosos, por exemplo, paga-se mais), o dia da semana, o horário, a zona de entrega, a distância percorrida, o veículo do transportador e a complexidade do pedido. Enquanto os profissionais nas ruas multiplicam os relatos de dezenas de quilômetros pedalados em troca de poucos reais, as principais empresas apresentam dados para contar outra história. A Rappi, por exemplo, afirma que cerca de 75% dos cadastrados em seu aplicativo ganham mais de R$ 18 por hora rodada. O iFood diz que os seus recebem quase RS 22, mas não especifica quanto tempo cada um deles precisa ficar parado e conectado para conseguir fazer uma corrida. “Pela lógica do modelo de negócios da economia compartilhada, o entregador não ganha pela hora logada”, disse Diego Barreto, vice-presidente de estratégia e financeiro do iFood.

Uma das demandas dos entregadores é justamente mais transparência nos cálculos, que segundo eles mudam a toda hora, sem maiores explicações. Em média, dizem os articuladores do movimento, as empresas de aplicativos pagam menos de RS 1 por quilômetro rodado, quando descontados alguns custos. Outro ponto de atrito é o valor mínimo recebido por entrega. Algumas empresas passaram a estabelecer um patamar mínimo de RS 5, mas os profissionais cobram que o piso seja fixado no dobro disso.

Como pano de fundo desse confronto, existe a disputa mais ampla da chamada “gig economy”, ou economia dos aplicativos, para fixar qual a relação desses trabalhadores com as empresas. De um lado, as companhias defendem que são prestadores de serviço, com pouco ou nenhum vínculo formal, como medida para minimizar seus custos e maximizar seus ganhos. Trabalha quem quer, quando quer e na hora que quer, em uma situação ganha-ganha, argumentam. É verdade que a escolha de se conectar no app é do entregador, mas, na prática, eles não têm tanta opção. Mais de 44 mil entregadores do iFood ficam cinco ou mais horas por dia logados emseu aplicativo. As empresas parecem esquecer que são elas que determinam onde os entregadores devempegar a comida, onde devem entregá­la e a rota a seguir.

Governos e juízes têm atribuído cada vez mais responsabilidades às companhias, em busca de um equilíbrio que não iniba a força desse setor, mas não jogue os trabalhadores na incerteza total. Ações na Justiça brasileira já tentaram estabelecer vínculo empregatício entre colaboradores e as empresas de aplicativo, mas o tema gerou entendimentos divergentes e jurisprudência distinta. Para citar dois exemplos: em dezembro de 2019, a juíza Lávia Lacerda Menendez, da 8ª Vara do Trabalho de São Paulo, julgou que existia, sim, vínculo empregatício entre os entregadores da Loggi e a empresa. Na ocasião, a decisão foi provocada por ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho e, além de determinar o reconhecimento de vínculo, multou a empresa em R$ 30 milhões. Já em janeiro deste ano uma decisão da juíza Shirley Aparecida de Souza Lobo Escobar, da 37ª Vara do Trabalho de São Paulo, julgou improcedente uma ação civil pública que pedia o reconhecimento de vínculo empregatício entre o iFood e os entregadores. A cada nova ação, é reaceso o debate.

Para o procurador do Ministério Público do Trabalho e professor de Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rodrigo Carelli, a articulação dos entregadores tende a crescer. “A organização vai se fortalecer, até o momento em que haja uma mudança”, disse ele, que critica a falta de clareza nos algoritmos dos aplicativos.

Um debate forte nos Estados Unidos, e que começa a chegar por aqui, é o do papel de quem recebe essas encomendas no conforto do lar. “Os americanos estão dispostos a gastar quantias extravagantes em seus smartphones. Agora chegou a hora de eles pagarem um pouquinho a mais também pelo trabalho artificialmente mal pago que esses telefones tornaram possível”, disse em editorial o New York Times. E não é só aquela gorjeta generosa no dia de chuva, para aliviar a consciência diante do entregador ensopado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE JULHO

A HUMILHAÇÃO DE JESUS

A si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz (Filipenses 2.8).

A encarnação do Filho de Deus é um dos maiores mistérios da história. Há um só Deus, que subsiste em três Pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esses três são da mesma substância, de tal maneira que o Filho é coigual, coeterno e consubstancial com o Pai e o Espírito Santo. Porém, para realizar a nossa redenção, o Deus Filho se fez carne, esvaziou-se da sua glória e, na plenitude dos tempos, nasceu de mulher, sob a lei, para ser nosso fiador e substituto. Sendo Deus, fez-se homem; sendo rico, fez-se pobre; sendo Senhor, fez-se servo. O Pai da eternidade entrou no tempo e vestiu pele humana. Humilhou-se até a morte, e morte de cruz. Mesmo diante das mais severas aflições, não retrocedeu em seu propósito de nos salvar. Mesmo perseguido, cuspido e esbordoado pela fúria dos pecadores, amou-os até o fim. Mesmo pregado na cruz, rogou ao Pai para perdoar seus algozes. Mesmo cravejado pelas setas da morte, matou a morte com sua própria morte e triunfou sobre ela em sua gloriosa ressurreição. Em sua humilhação extrema, abriu-nos o caminho do paraíso. Porque Cristo se humilhou, nós poderemos ser exaltados. Porque Cristo morreu, nós poderemos viver eternamente. Porque Cristo sofreu dor atroz, nós poderemos ser consolados para sempre. Porque Cristo foi abandonado, nós poderemos ser aceitos. A humilhação de Cristo abriu-nos o caminho de volta para Deus.

GESTÃO E CARREIRA

O TRABALHO DEPOIS DA PANDEMIA

A crise da covid-19 está influenciando a maneira como profissionais de todo o mundo lidam com a carreira. Descubra quais serão as grandes mudanças que devem ocorrer quando a quarentena terminar.

Na segunda quinzena de março, quem passava pela região da Avenida Faria Lima não reconhecia o centro financeiro e empresarial mais movimentado da cidade de São Paulo. Não estavam mais ali os onipresentes carros, patinetes e profissionais que trabalham em empresas famosas daquela área (como Klabin, PiTelli, Google, XP e Microsoft, para citar só algumas) e transformam o local num vaivém frenético durante o horário comercial. Só sobraram os motoboys de delivery. Tanto que, no dia 17 de março, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou somente 31 quilômetros de congestionamento às 19 horas. A média do horário é de 89 quilômetros.

As ruas desertas em São Paulo – e em tantas outras cidades – são um reflexo da pandemia do coronavírus, que colocou o mundo inteiro em quarentena. E, quando dizemos o mundo, é o mundo mesmo. Um levantamento feito pela agência de notícias AFP mostrou que, no começo de abril, quase 4 bilhões de pessoas estavam em casa devido às restrições de mobilidade. Isso significa que metade da população do planeta ficou sem botar o pé na rua.

O isolamento social é fundamental para que a curva de contágio da covid-19 seja mais lenta, o que minimiza o impacto nos sistemas de saúde, que poderiam colapsar caso todos ficassem doentes ao mesmo tempo. Mas essa medida, importante para salvar vidas, naturalmente desacelera a economia. Ao opor duas necessidades básicas humanas, a sobrevivência física e a sobrevivência financeira, esta crise se torna uma das mais complexas da história. E as consequências econômicas já são sentidas. O Brasil, que não estava no melhor dos cenários antes do coronavírus aterrissar em território nacional, já começa a sentir o baque. De acordo com o IBGE, o produto interno bruto (PIB) do primeiro trimestre caiu 1,5% e a expectativa do governo é que, até o fim do ano, a queda seja de 4,7%. A estimativa dos analistas do banco Goldman Sachs é ainda mais pessimista e projeta uma retração de 7,7%. Para os trabalhadores, a conta chegou.

A Medida Provisória nº 936, que deu às empresas a oportunidade de suspender contratos e reduzir salários e carga horária temporariamente sem precisar de acordos coletivos em vários casos, fez com que 7 milhões de profissionais com carteira assinada vissem seus holerites diminuir de uma hora para outra. Além disso, o país perdeu 1,1 milhão de vagas CLT entre março e abril, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Só em abril, quando mais de 860 .000 postos foram fechados, as demissões cresceram 17% e as admissões caíram 56,5% em comparação ao mesmo mês em 2019. Esses foram os piores resultados de abril na série histórica, que começou a ser medida em 1992.

Com esses índices, não é de estranhar que ansiedade, preocupação e insegurança sejam sensações que acometem todos os profissionais – mesmo os que ainda estão empregados ou conseguindo manter seus negócios de alguma maneira. Uma pesquisa feita pelo Datafolha em maio exemplifica o desalento: 69% das pessoas acreditam que a pandemia do coronavirus irá impactar a atividade produtiva por muito tempo. O que mais se ouve no mercado é que, mesmo quando a pandemia passar, o mundo nunca mais será como antes. E o que isso significa para o trabalho? A resposta não é simples. Mas já existem alguns indícios de como o trabalho será no pós-coronavírus. E alguns aspectos são bem complicados para a ponta mais fraca da cadeia – o trabalhador. Nas próximas páginas, respondemos a cinco grandes questionamentos.

AS RELAÇÕES PROFISSIONAIS SERÃO PRECARIZADAS?

Um dos grandes temores dos profissionais é que, com a crise, a precarização das relações de trabalho se aprofunde. Existem alguns indícios que mostram que essa preocupação pode ser válida. Um deles é o fato de que as negociações individuais entre patrão e empregado devem se tornar padrão. Isso já estava previsto na reforma trabalhista de 2017, mas veio à tona com força por causa da MP nº 936, que permitia que quem ganhasse mais de 12.202,12 reais ou menos de 3.135 reais negociasse redução salarial e suspensão de contrato diretamente com a empresa. A MP passou por votação na Câmara, que diminuiu a faixa para 2.090 reais, e agora segue para o Senado.

O problema desse tipo de negociação é que ela não é equilibrada: um dos lados (o do funcionário) é mais fraco e se sente pressionado a ceder, mesmo contra sua vontade. “A pandemia acentuou alguns processos. De março para cá está ficando muito claro o que pode acontecer quando o empregado fica refém da negociação individual. Ele aceita qualquer coisa, pois precisa sobreviver, precisa do salário”, diz Flávio Roberto Batista, professor de direito do trabalho e seguridade social da faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Os acordos individuais fazem com que as relações de trabalho deixem de ser um conjunto de regras gerais, o que cria uma imprevisibilidade. Afinal, não há mais um parâmetro global regendo todas as questões. “Isso gera o que alguns autores chamam de “uberização do trabalho”, o que pode até aumentar a jornada”, diz o antropólogo Michel Alcoforado, sócio do Grupo Consumoteca, que atua com transformações culturais e comportamento.

Outro ponto importante vem do home office forçado: as empresas compreenderam que a produtividade não precisa ser focada nas cargas horárias, mas nas entregas – e isso pode abrir uma avenida para a substituição dos empregados integrais por trabalhadores freelancers ou terceirizados. “Em um contexto de imprevisibilidade em relação ao futuro, os chamados contratos sob demanda ganham força e o CLT começa a fazer menos sentido, o que gera mais insegurança no trabalhador”, afirma Michel. O advogado Cristóvão Macedo Soares, sócio do escritório Bosisio Advogados, complementa: “As tecnologias que existem hoje permitem a contratação de pessoas para demandas ou projetos específicos, com foco apenas na entrega do resultado esperado. Por isso, serão necessárias garantias básicas e representação sindical, o que só será possível com mudanças legislativas e apoio do Estado”.

NOVA ROTINA

Pesquisa feita pelo grupo Consumoteca com 2.000 pessoas de todo o Brasil e divulgada com exclusividade, mostra quais são as percepções sobre o trabalho na pandemia

COMO VOCÊ GOSTARIA DE TRABALHAR?

43% – Preferem mesclar o escritório com o home office

31% – Querem teletrabalho como rotina oficial

Os jovens da geração z não se adaptaram a trabalhar de casa. Apenas 27% querem fazer isso de maneira integral

VOCÊ TERÁ NOVOS HÁBITOS DE TRABALHO APÓS A PANDEMIA?

GERAÇÃO Z ……………………… 62%

GERAÇÃO Y ……………………… 55%

GERAÇÃO X ……………………… 45%

QUE NOVIDADES EXPERIMENTOU NO TRABALHO DURANTE A QUARENTENA?

53% – GERAÇÃO Z – Usou ferramentas pessoais para trabalho pela primeira vez

28% – GERAÇÃO Y – Usou uma nova ferramenta de comunicação de equipe pela primeira vez

48% – GERAÇÃO X – Fez uma videochamada pela primeira vez

A ROTINA MUDARÁ DEPOIS DA PANDEMIA?

57% SIM – CLASSE A       

52% SIM – CLASSE B        

52% SIM – CLASSE C

O HOME OFFICE SE TORNARÁ IMPOSIÇÃO?

Em meados de maio, Mark Zuckerberg conduziu uma video­conferência com os funcionários do Facebook. Em pauta estava o comunicado de que o home office continuará até dezembro de 2020 para quem preferir trabalhar de casa. E ele fez uma previsão: daqui a dez anos, 50% dos funcionários do Facebook deverão exercer suas atividades remotamente. Mas, para o fundador da rede social, isso não significa que tudo ficará como antes para os funcionários. Pelo contrário. Zuckerberg afirmou que a partir de janeiro de 2021 haverá ajustes salariais para os empregados que trabalharem de locais com o custo de vida mais baixo do que a cara. Mento Park, na Califórnia (nos Estados Unidos), onde fica a sede do Facebook. De acordo com ele, os funcionários precisarão informar e comprovar onde sua casa fica e, dependendo da região, terão os ganhos reajustados para baixo. Quem mentir sobre a localização terá sérias penalidades, disse o empreendedor. A decisão de Zuckerberg é extrema, mas demonstra uma das consequências do home office: economia de custos para as empresas. Sem a circulação total dos funcionários, os escritórios tendem a ficar menores, o que diminui gastos com aluguel, manutenção predial, água, luz e energia elétrica, por exemplo. No entanto, algumas empresas estão oferecendo benefícios de home office, como auxílio para pagamento de internet, luz, telefone e mobiliário ergonomicamente adequado. Mas isso vem da vontade da companhia, pois não existe uma lei que determine o que deve ser oferecido aos empregados remotos. A reforma trabalhista de 2017 estabeleceu que funcionários e empresas devem firmar um contrato individual com os termos do teletrabalho. “Teremos ainda anos de discussões judiciais em torno disso. De maneira prática, se houver a necessidade de reforçar o pacote de internet para ter mais velocidade, quem vai bancar a diferença de preço? O empregador é quem deve arcar com os riscos da atividade econômica dele”, diz Flávio, da USP.

Fato é que o home office veio para ficar no Brasil. Segundo uma pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral, 86% das empresas devem manter o trabalho remoto após a pandemia. E existe, também, vontade de parte dos funcionários de continuar nesse esquema – mesmo que o desejo tenha diminuído durante a quarentena. Isso fica claro numa pesquisa da Gallup que mostra que, em abril, 53% dos americanos gostariam de permanecer em home office a maior parte do tempo possível; no início do isolamento o índice era de 62%.

Entre os brasileiros, o desejo é o meio-termo. Segundo um levantamento do Grupo Consumoteca, feito com 2.000 pessoas de todo o Brasil e de diversas gerações e classes sociais, 41% preferem intercalar home office com idas ao escritório, e só 31% querem ficar em casa o tempo todo quando a quarentena passar. “Um dos maiores legados da pandemia é a capacidade de tornar os profissionais híbridos. Quanto mais as companhias se conscientizarem de que o home office não é motivo de medo, nem de falta de controle ou de baixa produtividade, mais a flexibilidade ganhará força”, diz Ligia Zotini, pesquisadora de futuros e fundadora da consultoria Voicers.

Mas, para que esse futuro híbrido dê certo, será preciso atentar para alguns aspectos. O antropólogo Michel, do Grupo Consumoteca, elenca três deles: a desmaterialização, movimento de levar tudo o que é físico para as plataformas de gestão digital; a assepsia, zelo por limpeza, segurança e readaptação de ambientes; e a descontextualização, em que se perde a noção dos dias e se trabalha mais. “É possível notar isso observando as pessoas em home office. A maioria está trabalhando mais do que no escritório”, afirma Michel. E está mesmo. Segundo uma pesquisa do Centro de Inovação da FGV Eaesp, 46% dos profissionais relataram aumento na carga de atividades no teletrabalho.

Por isso, caberá às companhias criar mecanismos de controle de horas a distância e estimular que ninguém trabalhe além da conta – com o exemplo partindo das Lideranças. Também é necessário possibilitar que empregados que prefiram ir para o escritório tenham essa opção pelo menos durante alguns dias da semana. Afinal, cada um tem suas particularidades, e o home office pode ser complicado para alguns empregados – existem pessoas sem espaço físico em casa para preparar um local voltado para o trabalho ou profissionais que têm dificuldades em conciliar o próprio trabalho com as atividades de parentes ou cônjuges, por exemplo. E isso pode gerar ansiedade, como demonstra uma pesquisa feita pelo LinkedIn com 2.000 profissionais que mostra que 62% estão mais ansiosos no home office. A batalha para se desconectar das atividades profissionais será árdua e exigirá que os empregados tenham disciplina – e criem rituais próprios – para desconectar, mesmo com os equipamentos da empresa 24 horas à disposição.

HABILIDADES IMPORTANTES

Duas atitudes que serão cruciais para sobreviver no mundo pós-covid-19, de acordo com Rafael Souto, CEO da Produtive

AMBILIDADE

Trata-se da junção entre ambição e humildade, competência essencial para o século 21 segundo o consultor Bill Taylor. Isso quer dizer que aquela máxima de que ser líder é ter todas as respostas não existe mais. é preciso não ter medo de mostrar vulnerabilidade em situações desconhecidas, ter capacidade de construir um ambiente colaborativo e estar aberto a aprender sempre. o momento é de incerteza e imprevisibilidade, e ninguém sabe, de fato, o que vai acontecer. “É essencial ter a humildade de dizer “não sei, vamos construir juntos”. não há espaço para profissionais ambiciosos e prepotentes”, diz Rafael.

TRABALHABILIDADE

O modelo baseado em apenas um empregador pode se tornar frágil. por isso, os profissionais precisarão transformar seus conhecimentos em diferentes fontes de geração de renda. Segundo Rafael, a segurança dos profissionais não está mais em ter um emprego, e sim em ter suas habilidades bem claras e encontrar maneiras de gerar valor. “A instabilidade dos negócios vai ser cada vez maior e é arriscado apostar todas as fichas da carreira apenas no trabalho formal. todos devem ter um plano b”, diz Rafael.

O JEITO DE FAZER CARREIRA VAI MUDAR?

Existem vários tipos de carreira possíveis hoje, mas a trajetória mais tradicional – de entrar numa companhia e ir crescendo aos poucos, ano a ano – parece estar em xeque. Com a crise da covid-19, ficou claro para muitos que não se pode jogar todas as fichas na estabilidade da empresa em que se trabalha. “Está ficando menos confortável e seguro depositar toda a confiança em apenas um empregador. E a pandemia deixou isso ainda mais claro com o volume de demissões”, diz Leandro Herrera, fundador da Tera, escola que desenvolve habilidades digitais. Rafael Souto, CEO da consultoria Produtive, complementa: “Há alguns anos defendo o conceito de trabalhabilidade, a capacidade de o indivíduo produzir e gerar renda. Muito além do emprego tradicional, os profissionais terão de encontrar outras alternativas”.

Por isso, surge um movimento de pessoas buscando, por necessidade, a mescla entre o modelo CLT e o de freelancer, o que é legal, desde que o profissional preste atenção em algumas questões. “A lei só proíbe ter mais de um trabalho se a atividade concorrer com a da empresa CLT ou se atrapalhar o andamento das tarefas”, diz Flávio, da Faculdade de Direito da USP. Em contra­ partida, esse movimento pode gerar uma carga excessiva de trabalho, aumentando o risco de problemas de saúde física e mental.

Quando falamos de ascensão na carreira, um tema que começa a ser debatido é o da mobilidade. Antes da pandemia, era comum que uma das exigências para a sucessão fosse a disponibilidade de mudança de cidade. “Hoje, as companhias se questionam se é preciso transferir o funcionário ou se a empresa pode ir até ele”, diz Rafael. O mesmo vale para as expatriações. Apesar de ainda ser cedo para afirmar, é possível que as transferências entre países diminuam ou passem a ser virtuais – já que as nações deverão ter protocolos mais rígidos para a entrada de estrangeiros. Na prática, a nova carreira internacional seria formada por reuniões e contatos mediados pela tecnologia. “Isso vai gerar menos benefícios para o profissional, que não terá a mesma imersão em uma cultura diferente, mas poderá aumentar a chance de haver mais pessoas de diversos países na empresa”, afirma Bjõrn Hagemann, sócio da consultoria McKinsey.

MAIS ANSIEDADE

Levantamento feito pelo LinkedIn com 2.000 profissionais mostra que o estresse está alto durante o isolamento social

68% – Extrapolam o expediente em pelo menos 1 hora por dia

62% – Estão mais estressados ou ansiosos com 0 trabalho em comparação ao período antes do home office

39% – Sentem-se mais solitários

30% – Estão estressados pela falta de momentos de descontração no trabalho

24% – Sentem-se pressionados a responder e-mails e mensagens mais rapidamente

21% – Trabalham 4 horas a mais por dia

20% – Lidam com a insegurança por não saber o que acontece com seus colegas ou com a empresa

O EMPREENDEDORISMO SERÁ A GRANDE SOLUÇÃO?

Seja pelo desemprego, seja pelo temor de seu setor de atuação nunca mais ser o mesmo (vide as expectativas incertas para o turismo e para os bares e restaurantes, por exemplo), mais brasileiros estão empreendendo. Em maio, o número de microempreendedores individuais chegou à marca de 1O milhões no país – algo que pode ser visto como reflexo da crise. Nesses períodos, é normal que as pessoas fiquem mais estimuladas a tocar os próprios negócios, normalmente por duas motivações.

A primeira é o entendimento de que as empresas existentes, por causa do momento instável, não conseguem criar oportunidades interessantes do ponto de vista profissional. A segunda é a sensação de que, na crise, há menos a perder. “A necessidade de sobrevivência estimula a geração de ideias”, diz José Augusto Figueiredo, presidente no Brasil e vice-presidente executivo para a América Latina da consultoria LHH. Mas empreender num mundo incerto pós-covid-19 será duro. As previsões econômicas são catastróficas, como bem resume o Fundo Monetário Internacional, que afirma que o planeta enfrentará a pior recessão da história desde a Grande Depressão de 1929. “Os mercados emergentes e as nações de baixa renda, por toda a África, América Latina e boa parte da Ásia, correm alto risco”, disse no início de abril Kristalina Georgieva, diretora do FMI.

Segundo Rafael, da Produtive, para embarcar no empreendedorismo é preciso atentar para alguns pontos. Tudo começa com um planejamento bem estruturado, com pesquisa de mercado e análise financeira cautelosa, levando em conta a instabilidade do momento econômico atual. “É preciso muito cuidado para não se descapitalizar.” Em seguida, deve-se deixar de lado a ilusão de empreender para ter mais qualidade de vida e liberdade. “Nos primeiros anos é necessário muito empenho e trabalho, e o retorno é incerto, podendo demorar anos para acontecer”, diz. Quanto aos setores mais promissores, destacam-se saúde, higiene e os baseados em tecnologia. “Produtos e serviços que melhorem a experiência, tornem a vida mais prática e reduzam custos são boas apostas”, diz Rafael.

REDUÇÃO DE CARGA HORÁRIA

A média mundial de horas deve ser 10,5% menor no segundo trimestre de 2020 em comparação ao ano passado

PERIGO À VISTA

436 milhões de negócios nos setores mais ameaçados correm sério risco de quebrar

RENDA BAIXA

81% Deve ser a queda nos rendimentos dos trabalhadores informais de países da África e da América Latina por causa da crise do coronavírus

A ARQUITETURA DO ESCRITÓRIO SE TRANSFORMARÁ?

O open space, o famoso estilo arquitetônico que tomou conta dos escritórios nas últimas décadas e que coloca todos os funcionários lado a lado, sem divisórias, pode estar com os dias contados. Pelo menos da maneira como nós o conhecemos hoje. A pandemia do coronavírus irá demandar que os espaços de trabalho sejam mais privados e distanciados, o que talvez signifique um ressurgimento dos cubículos.

Nos Estados Unidos, uma tendência é a colocação de placas de acrílico separando as pessoas, o que evita que gotículas de saliva se espalhem pelo ambiente. A engenhoca foi batizada de sneeze gards – literalmente, “protetor de espirros”. Por lá já existe, inclusive, uma cartilha para que os escritórios se adaptem à nova realidade de higiene máxima. As sugestões partem do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla, em inglês). Entre as recomendações estão distribuir álcool em gel, disseminar uma etiqueta respiratória (com reforço para que as pessoas cubram tosses e espirros), desencorajar os funcionários a compartilhar equipamentos com os colegas, aumentar a limpeza das áreas comuns, cuidar do sistema de ventilação e substituir itens compartilhados das copas e cafezinhos por descartáveis individuais. Mesmo que essas sugestões não sejam tomadas pelas companhias brasileiras, existe uma tendência para que o distanciamento social e a limpeza mais ostensiva das áreas comuns continuem por um tempo. Além disso, elevadores não poderão ficar lotados e é provável que as companhias façam checagem de temperatura nos funcionários. Com mais pessoas em home office, o tamanho dos escritórios deve diminuir. “Locais grandes e com vários andares tendem a desaparecer com o rodízio de pessoas no escritório”, diz a headhunter Priscila Salgado, fundadora da consultoria Vertical RH.

O que mudará, também, são as interações pessoais. Esqueça salas lotadas para reuniões. Os encontros deverão ser mais curtos e ter a participação apenas das pessoas imprescindíveis presencialmente. Será cada vez mais comum ter parte do time acompanhando as discussões on-line. Isso também deve se refletir nos encontros de negócios: o almoço executivo pode ser substituído por videoconferências, que terão o mesmo objetivo de relacionamento e fechamento de novos negócios.

Os beijinhos, apertos de mãos e abraços – tão queridos pelos brasileiros – talvez fiquem no passado, já que a epidemia deixou as pessoas mais receosas de se tocarem. E também é possível que as confraternizações e happy hours caiam em desuso por certo tempo – pelo menos até todos se sentirem seguros para frequentar bares e restaurantes novamente.

AMEAÇAS DESIGUAIS

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) criou um monitor para acompanhar os impactos que o coronavírus causou no mercado. no quadro a seguir, a OIT mostra qual é o risco em 14 segmentos da economia. Os números de empregados em cada setor são estimativas globais para 2020 *em milhões

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS QUATRO PRINCIPAIS MOTIVOS DE BRIGAS ENTRE CASAIS NA QUARENTENA

CELULAR

O período forçado de convivência entre casais na quarentena representou uma prova de fogo para muitos relacionamentos. Um terço deles relata pelo menos uma briga por semana no decorrer desse tempo, segundo uma pesquisa realizada com 700 entrevistados no Brasil pelo Instituto do Casal, centro de terapia que é referência nesse tipo de conflito em São Paulo. No levantamento, o celular aparece como o principal motivo das discussões. “Ele aproxima quem está longe e distancia quem está perto”, afirma a psicóloga Denise Figueiredo, responsável pela clínica. “Na pandemia, perderam-se os limites sobre o uso.”

DIVISÃO DAS TAREFAS DOMÉSTICAS

Cuidar da casa, organizar a alimentação e dar conta das aulas on-line dos filhos, sem se descuidar das tarefas profissionais no esquema de home office, tornaram-se também centro de conflitos entre os casais, com queixas frequentes de sobrecarga de responsabilidades para um dos lados.

EXCESSO DE CRÍTICAS

Neste período estressante, a fricção de emoções provocada pelo espaço do confinamento virou um campo de batalha, onde cada um dos parceiros passou a bombardear o outro lado com observações desairosas. Com isso, motivos banais se transformaram em estopins de intermináveis DRs.

FALTA DE ROMANCE

Os problemas domésticos, o medo do vírus e a crise financeira estão longe de ser inspiradores para uma lua de mel. “A libido de muitas pessoas diminuiu bastante e, nesses casos. o sexo acabou sendo deixado de lado”, afirma Denise Figueiredo, que relata um aumento de 20% na procura de clientes por sua clínica devido ao acúmulo de problemas de relacionamento na pandemia.