EU ACHO …

UM SABÁTICO DIÁRIO

A pandemia assusta e angustia. Diante de tantas perdas e dor, será que ainda é possível falar em felicidade? Depende do que entendemos por felicidade. Mais do que uma emoção ou sentimento, falo de uma atitude proativa e positiva voltada para o aumento do bem-estar — nosso e de todas as pessoas. Sob esse ponto de vista, a felicidade é parte dos estados positivos que compõem o bem-estar psicológico. Basicamente, trata-se de sentir-se bem e de funcionar bem no dia a dia. Os benefícios são cruciais para o esforço de manter-se a salvo do novo coronavírus — e é a ciência que está dizendo isso. Os pesquisadores Abdurachman e Herawati publicaram um estudo chamado “O papel do bem-estar psicológico no aumento da resposta imune: um esforço otimizado para lidar com a infecção”. Nesse trabalho, eles selecionaram 105 estudos publicados desde 1995. E concluíram o seguinte: o bem-estar psicológico pode aumentar a resposta que nosso sistema imunológico dá às infecções. Por outro lado, o stress, a ansiedade e a depressão têm o efeito oposto: eles enfraquecem o sistema imunológico e nos tornam mais vulneráveis a doenças.

Há, aí, um poderoso argumento para continuar mantendo a felicidade em foco. É claro que funcionar bem no dia a dia não é fácil neste momento em que experimentamos mudanças e restrições tão drásticas. Mas é possível, sim. O isolamento físico não tem de ser, também, emocional. O período passado em casa não precisa ser um tempo desperdiçado. A preocupação pode ser contrabalançada com uma busca criativa pela regeneração e pela reinvenção. O medo e a ansiedade podem ser amenizados pela oportunidade inusitada que esta ocasião nos traz: de uma profunda comunhão com a humanidade.

Todos nós necessitamos de um sabático — que não precisa ser de um ano nem envolver viagens. Trata- se apenas de tirar um tempo, uma hora por dia, por exemplo, em sua residência, para cuidar de você mesmo.

E, como tantos de nós precisamos ficar em casa por causa da pandemia, o sabático diário é uma boa pedida para enfrentar este tempo de incertezas. Uma coisa que você pode fazer agora, ou fazer mais intensamente, é exercitar a gratidão. É nos momentos mais difíceis que mais encontramos motivos para nos sentir gratos. Quando nos defrontamos com a precariedade e a finitude da existência, a preciosidade de certos gestos se torna mais evidente. Se você acha que não há motivos para ser grato em meio a um confinamento forçado, pense de novo. Enquanto você tem a chance de se resguardar da exposição ao coronavírus, inúmeros trabalhadores estão sujeitos a se infectar para que você possa ter suas necessidades atendidas. Expresse sua gratidão. Estudos sugerem que a gratidão melhora a saúde física. Pessoas gratas sentem menos dores e são menos predispostas a ter febre. A saúde mental também é beneficiada, pois a gratidão “limpa” emoções tóxicas como raiva, frustração e ressentimento, além de reduzir a agressividade. Ela não apenas diminui o stress como, também, desempenha um papel importante na superação de traumas. Um estudo revelou que a gratidão foi um dos principais fatores para aumentar a resiliência depois dos ataques do 11 de Setembro nos Estados Unidos. Resiliência é a capacidade de superar adversidades sem prejuízo das características originais. Aqueles que reconheceram e apreciaram os esforços de todos os que arriscaram ou perderam a vida para salvar a vida de outros se tornaram mais resilientes. A gratidão nos deixa menos autocentrados e mais abertos para os outros. E autocentrado é a última coisa que você quer ser neste momento, pois isso o colocaria à deriva em um mar de ruminações, temores e ansiedades. Agradeça mais, sinceramente, e observe as mudanças em seu estado de espírito.

FLORA VICTORIA – é mestre em psicologia positiva pela Universidade da Pensilvânia (EUA). Autora do livro O Tempo da Felicidade, lançado pela Harpercollins, participou do episódio Você Precisa de um Sabático?, do podcast Jornada da Calma.

OUTROS OLHARES

A INOVAÇÃO NA PANDEMIA

Se o consumidor não pode sair para fazer compras por conta da pandemia, os mercadinhos mudam-se para os condomínios em busca dos clientes

No isolamento social imposto pela Covid-19, as plataformas digitais transformaram-se em grandes aliadas das empresas fornecedoras de bens e serviços para atender milhares de consumidores que estão trancados em suas casas e apartamentos. Com iniciativas para garantir o mínimo de conforto e praticidade ao consumidor, empresas que operam dentro do popular vending machine e modelos de marketing nos ambientes corporativos, encontraram soluções que passaram a fazer parte do “novo normal”. Elas viabilizaram a chegada dos minimercados a condomínios residenciais, que já fazem parte da rotina dos moradores desses conglomerados habitacionais. Normalmente, esses mercadinhos são instalados em salões de festas, garagens ou hall de entrada dos prédios.

Com experiência na gestão de pontos de vendas, a Vendify instalou mercadinhos em 25 condomínios da capital paulista em apenas 75 dias, período em que a quarentena esteve mais rigorosa. A ideia de, um dos sócios do negócio, criar uma opção ao fato de que o ambiente corporativo, onde atuava, esvaziou-se durante o isolamento social que motivou o trabalho em home-office. “Se está todo mundo em casa, vamos atrás desses clientes”, explicou Peres.

VISITAS VIRTUAIS

Além de compras de alimentos básicos, os moradores de condomínios também não precisam sair de casa para comprar ou alugar um imóvel novo. O segmento imobiliário criou um serviço para atender os clientes sem que eles saiam de casa para visitar os empreendimentos onde gostariam de vir a morar. As imobiliárias filmam os imóveis com drones, captam imagens de todo o interior e fornecem o material em 3D, como se o cliente estivesse fazendo um tour virtual. “Até a pandemia, as visitas eram presenciais. Agora, as visitas passaram a ser de 95% a 100% virtuais”, diz Guilherme Sawaya, da Cyrela.

Outro nicho aberto à inovação digital é o da saúde. Em maio, a rede Prevent Senior criou um sistema de drive-thru para coleta de exames laboratoriais, sem que o paciente precise sair de casa. Já a Magic Fitness é outra plataforma que vem oferecendo alternativas para quem deseja se exercitar e não pode frequentar as academias, fechadas por conta da pandemia. A empresa fornece aulas online personalizadas por R$ 35. Esses serviços criativos estão dando tão certo, que dificilmente deixarão de compor o cenário comercial, mesmo após o fim da pandemia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 07 DE JULHO

AMOR, TÃO GRANDE AMOR!

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3.16).

Quem poderia descrever a imensidão do amor de Deus? Que linguagem poderia expressar essa verdade tão extraordinária? O poeta assim expressou: “Ainda que os mares fossem tinta e as nuvens fossem papel; ainda que as árvores fossem pena e os homens escritores; nem mesmo assim, se poderia descrever o amor de Deus”. Deus amou de forma superlativa o mundo hostil e os pecadores rebeldes. Amou-os não apenas com palavras, mas com o maior de todos os sacrifícios. Por amor a pecadores indignos, Deus entregou seu próprio Filho. Entregou-o para ser humilhado, cuspido, esbordoado e pregado na cruz. Entregou-o para morrer pelos nossos pecados. Entregou-o como nosso representante e fiador. O propósito de Deus nessa entrega é duplo: livrar-nos da perdição eterna e conceder-nos a vida eterna. Cristo não morreu para que os incrédulos fossem salvos, mas para que os que creem sejam salvos. A salvação é dádiva de Deus, e a fé é o meio de apropriação dessa dádiva. O amor de Deus por nós é mais que um sentimento; é uma entrega, um sacrifício. Deus nos amou e deu tudo, deu a si mesmo, deu a seu Unigênito Filho. A morte de Cristo na cruz não foi a causa do amor de Deus, mas sua consequência. Esse é um amor superlativo e maiúsculo. Esse é o amor de Deus por você e por mim!

GESTÃO E CARREIRA

A ERA DOS CISNES VERDES

Projeções de que haverá cada vez mais catástrofes imprevistas decorrentes das mudanças climáticas mobilizam bancos centrais de diversos países e dominam as principais discussões econômicas no mundo

Bank of England head Mark Carney attends a session during the World Economic Forum (WEF) annual meeting in Davos, on January 21, 2020. (Photo by Fabrice COFFRINI / AFP)

Ao longo das últimas décadas, as discussões sobre as mudanças climáticas deixaram de rondar apenas a esfera dos debates científicos para alimentar o repertório de ambientalistas e, mais recentemente, tornaram-se parte indissociável de qualquer debate entre líderes das principais nações do inundo. Diante de eventos climáticos cada vez mais impactantes, como o persistente incêndio na Austrália que desde setembro já consumiu uma área quase do tamanho da Inglaterra e causou 36 mortes, além da destruição de milhares de casas e a morte de milhões de animais, o tema passou a predominar nas conversas de outro grupo: o dos economistas. No dia 20 de janeiro, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), entidade baseada na Suíça e considerada “o banco central dos bancos centrais”, divulgou um extenso documento no qual alerta que as mudanças climáticas podem ser o gatilho de uma nova crise financeira global Segundo o BIS, esse risco está associado a eventos não previstos, que a instituição chama de “cisnes verdes” – uma analogia aos “cisnes negros”, o termo foi criado por Nassim Taleb, ensaísta libanês radicado nos Estados Unidos, para se referir a eventos improváveis com grande impacto. “Abordagens tradicionais de gerenciamento de riscos, baseadas na extrapolação de dados históricos e em suposições de normalidade, são amplamente irrelevantes para aferir os riscos futuros relacionados ao clima”, diz o estudo, de coautoria do brasileiro Luiz Awazu Pereira da Silva, ex-diretor de política econômica do Banco Central do Brasil que desde 2015 ocupa o cargo de vice-gerente-geral do BIS.

Riscos sistêmicos para a economia gerados por prejuízos decorrentes de eventos como secas, enchentes e furacões justificam a preocupação. Um estudo da consultoria McKinsey, divulgado neste ano, afirma que até 2030 os 105 países pesquisados, responsáveis por 90% da economia global, deverão enfrentar mudanças ambientais, como aumento de chuvas e de pessoas expostas a calor extremo. A Índia, um dos países mais expostos a elevação da temperatura, pode ter de 2,5% a ,4 5% do produto interno bruto em risco dentro de dez anos se o cenário se mantiver. O estudo também alerta que as reservas do setor de seguros são insuficientes para arcar com os prejuízos materiais caso a ocorrência de situações extremas continue a crescer no ritmo atual. Dados reunidos pela resseguradora Munich RE mostram que o número de catástrofes naturais disparou nas últimas décadas. Em 1980, foram registrados 249 eventos relevantes, entre terremotos, chuvas, furacões e secas. No ano passado, o número chegou a 848. As seguradoras perderam 225 bilhões de dólares com problemas climáticos no biênio 2017-2018, período de maior prejuízo para o setor em 40 anos. A última década foi a mais quente desde o final do século 19, segundo um estudo conduzido pelo serviço meteorológico britânico em parceria com a Nasa, agência espacial americana. Em 2019, a média das temperaturas se manteve 1,05 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais.

As evidências podem não ser suficientes para convencer o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No Fórum Econômico Mundial, realizado de 21 à 24 de janeiro em Davos, na Suíça, Trump criticou o que chamou de “alarmismo ambiental” propagado por “profetas do apocalipse”, em alusão à ativista sueca Greta Thunberg e seu grupo de jovens defensores do meio ambiente. Mas os sinais de que a humanidade está diante de uma escalada de eventos climáticos catastróficos são suficientes para criar temores no mercado financeiro. “Esse tema deixou de ser uma questão de nicho para se tornar um valor fundamental das instituições”, afirmou Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra, banco central britânico, durante painel realizado em Davos. “Até onde enxergo, existe uma reforma fundamental em curso no sistema financeiro.”

Alarmista para uns, realista para outros, a tese de que é preciso se preparar para o pior e, ao mesmo tempo, acelerar a transição para uma economia de baixo carbono começa a mobilizar a ação de diversos bancos centrais. Carney, que deixará o comando do banco central britânico em março, mas seguirá como conselheiro do primeiro-ministro Boris Johnson, lidera um movimento que defende uma atuação mais efetiva por parte dos reguladores financeiros para conter o aquecimento global 2 graus acima dos níveis pré-industriais, como determina o Acordo de Paris. “Uma vez que as mudanças climáticas se tornem um risco real e imediato para o equilíbrio financeiro, pode ser tarde demais para estabilizar o aquecimento da atmosfera em 2 graus”, afirmou o dirigente, em discurso proferido em março de 2019. Para isso, ele propõe ã criação de regras e padrões de investimentos que levem em consideração o custo das emissões de carbono, além da destinação dos recursos financeiros geridos pelos bancos centrais, como as reservas internacionais, aos setores de baixa emissão.

A ideia de usar o poder dos bancos centrais para conter as emissões ganhou um tom de urgência agora, mas já vem sendo discutida há alguns anos. “É uma estratégia incomum, mas que pode funcionar”, afirma Sérgio Wetlang, assessor da presidência da Fundação Getúlio Vargas e ex-diretor do Banco Central. Em 2017, oito bancos centrais – de Inglaterra, França, Holanda, Alemanha, Finlândia, Singapura, México eChina – criaram a Network of Central Banks and Supervisors for Greening the Financial System, uma rede de reguladores cujo objetivo é a troca de informações e práticas que favoreçam a mobilização de capital para setores de baixo carbono. Hoje, 54 instituições fazem parte da iniciativa (o Brasil não é signatário). Quando assumiu o comando do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, ex-chefe do Fundo Monetário Internacional, classificou o combate às mudanças climáticas como uma “missão crítica” do BCE.

As medidas práticas começam a despontar. Desde o ano passado, o Banco da Inglaterra conduz testes de estresse climático com bancos e seguradoras do país. Estão sendo considerados três cenários. O mais severo prevê uma elevação de 4 graus na temperatura global até 2080. Os resultados serão divulgados em 2021. No Brasil, a Febraban, federação que reúne os bancos, e o Banco Central conduzem um projeto semelhante. De forma voluntária, as instituições financeiras estão criando a chamada “régua de sensibilidade climática”, que vai determinar a exposição de cada uma às mudanças climáticas. Segundo Mário Sérgio Vasconcelos, diretor de sustentabilidade da federação, os resultados devem sair em dois ou três anos. “Essa é uma pauta nova para o mercado financeiro, porém permanente e liderada pelo setor privado”, afirma Vasconcelos.

Em paralelo, existe um esforço das próprias empresas e instituições financeiras para criar um padrão de divulgação de informações relacionadas a riscos climáticos, algo que vai facilitar a análise de riscos sistêmicos. Em Davos, as quatro maiores empresas de auditoria do mundo, Deloitte. EY (antiga Ernst & Young), KPMG e PwC, assinaram um acordo em que estabelecem um modelo contábil para os dados de impacto climático. A iniciativa foi capitaneada pelo presidente mundial do Bank of America, Brian Moynlhan, diretor do International Business Council, conselho ligado ao Fórum Econômico Mundial que reúne cerca de 100 presidentes de empresas de vários setores. A ideia é unificar diversos padrões de relatórios existentes; entre eles o Global Reporting Initiative (GRI), o mais utilizado atualmente, e o TCFD – sigla em inglês para força-tarefa sobre divulgação de informações financeiras ligadas ao clima, iniciativa presidida por Michael Bloomberg, pré-candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, criada em 2015 pelo Financial Stability Board, órgão internacional que monitora o sistema financeiro. No Brasil, há duas ações para a disseminação do TCFD, uma liderada pela Febraban e outra pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que reúne 60 grandes grupos empresariais, entre eles a fabricante de bebidas Ambev, as de cosméticos Natura e O Boticário, e os bancos Bradesco e Itaú. “É um passo importante para regulamentar as emissões de carbono”, afirma Marina Grossi, presidente do CEBDS.

RISCO DE IMAGEM

Com essas mudanças, a expectativa é que o dinheiro migre espontaneamente dos setores intensivos em carbono para os menos intensivos. “Há uma preocupação crescente do setor financeiro não só com os riscos materiais das mudanças climáticas, mas também com os riscos de imagem”, afirma Ronaldo Seroa da Motta, professor de economia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Um exemplo emblemático está no anúncio feito neste ano por Larry Fink, presidente do conselho e principal executivo da Black Rock, maior gestora de ativos do mundo, com uma carteira de mais de 6 trilhões de dólares. Fink comprometeu-se a deixar investimentos com alto índice de emissões, como a cadeia do carvão.

Fazer essa migração de capital exigirá grandes esforços. A Agência Internacional de Energia estima que adotar globalmente uma matriz energética limpa demandará 3,5 trilhões de dólares por ano até 2050. Carney e Lagarde defendem que os bancos centrais deem um “empurrãozinho” ao comprar os chamados green bonds, títulos vinculados a atividades de baixo carbono. A ideia é polêmica. ”Bancos centrais não têm legitimidade democrática para isso”, disse Jens Weidmann, presidente do Bundesbank (banco central da Alemanha, na abertura de um simpósio sobre mudanças climáticas em outubro. Diante de impasses como esse, só há uma certeza: a conta de todo jeito vai chegar – e, ao que parece, não vai demorar muito.

RISCO CADA VEZ MAIS PRÓXIMO

As projeções do impacto econômico das mudanças climáticas são dramáticas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS PESSOAS VÃO AO CAMPO E ÀS PRAIAS

Em meio ao sufoco de quase cem dias de quarentena, e mesmo com o risco de contrair e disseminar o vírus, o contato com a natureza acaba sendo uma válvula de escape

Imortalizada na voz da igualmente imortal Elis Regina, a música de Tavito e Zé Rodrix nunca fora tão atual: “eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar do tamanho da paz”. Fenômeno igual ocorre com um dos clássicos de Dorival Caymmi: “o mar quando quebra na praia é bonito!”. Sufocadas por uma cinzenta selva de pedras de edifícios nos grandes centros urbanos e ilhadas por um vírus fatal que ataca por todos os lados, é mais que normal que muitas e muitas pessoas busquem ambientes da natureza, a exemplo do campo e do mar, como válvula de escape para quase cem dias de quarentena — mesmo sabendo que aumentam para si e aos outros o risco de contaminação. Há aqueles que nas primeiras horas confundiram o isolamento com férias, passeios e churrasquinho. Mas há também os que suportaram firmes e agora não aguentam mais. Na verdade, não é de hoje que o verde de parques e o azul do mar exercem influências tranquilizadoras sobre homens e mulheres ­— a diferença é que, agora, isso se faz mais necessário e visível que em qualquer outro momento de um passado recente. Colhidas pelas retinas e transmitidas às substâncias eletroquímicas do cérebro, as cores podem nos excitar, acalmar, revigorar e desatar nós que trazemos na garganta. Como já se disse, funcionam como válvulas de escape. “A quarentena é mais que necessária, mas isso não significa que não chegue uma hora que as paredes asfixiam”, diz a paulista Laís Corveloni. “Eu ia à janela para desanuviar, mas aí dava de cara com mais cimento do prédio da frente. Fui à praia, fiquei isolada e me fez muito bem”.

Laís, que é fotógrafa de ensaios femininos, não tem obrigação de saber o motivo pelo qual o mar da praia de Maresias, no litoral norte de São Paulo, lhe foi apaziguador. Mas estudos científicos explicam a razão: o verde de árvores do campo ou o verde-azul do mar reduzem o estresse e a tensão a ponto de induzirem ao sono. Nesses tempos difíceis, são indispensáveis os ensinamentos do enfermeiro intensivista Nélio Barbosa Boccanera, da psicóloga e enfermeira Sulvia Fernandes Borges Boccanera e da professora Maria Alves Barbosa, no excelente estudo “Color in the intensive therapy environment: perceptions of patients and professionals”. Dizem eles: “o verde é uma cor fria, acalmando tanto física quanto mentalmente (…) atua sobre o sistema nervoso simpático, além de aliviar a tensão dos vasos sanguíneos e diminuir a pressão arterial. É considerado uma cor tranquilizante (…)”. E o azul, como o mar? “(…) reduz o estresse”.

O corpo tomado por uma energia, os músculos acalmados, e, logo em seguida, o organismo pronto para seguir a rotina desgastante de quem mora na maior metrópole do País: é assim que o advogado Pedro Cafaro, se sente depois de abandonar o seu apartamento em São Paulo e refugiar-se por uns dias na cidade mineira de Monte Verde. “Ficar sequestrado em sua própria casa é angustiante”, diz ele. A vontade se impôs na sua alma como uma ordem e Pedro decidiu obedecê-la: “estar no campo é como recarregar as energias. Acalma”. De fato, as sensações corporais de Pedro estão certas. A Universidade de Exeter, na Inglaterra, ensina que viver em áreas arborizadas reduz o estresse e a ansiedade. Assim, os parques dentro de centros urbanos vão muito além do lazer dos cidadãos: podem até ser considerados caso de saúde pública.

Essa questão, do verde do campo e do azul do mar, está diretamente relacionada com a consequência psicológica das cores no cérebro humano. O poeta e pintor alemão Johann Goethe, além de gênio com as palavras, também foi essencial para entendermos a psicologia das cores. Ele escreveu o clássico “Teoria da Cor” e concluiu que tons frios despertam sensações de calma e suavidade. “Azul é a cor mais presente na natureza e o verde está sempre no meio do caminho”, diz o psiquiatra e psicoterapeuta da USP, Wilson Joaquim. “A luz induz à produção de serotonina e, por isso, na praia ou no campo há a sensação de bem-estar, pelo fato de a luz ser muito mais intensa”, diz ele. De volta à música, pois, se com música começamos, acabemos também com ela: Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli ganharam o Brasil no ápice da Bossa Nova, transmitindo calma: “volta do mar, desmaia o sol (…) e a vontade de cantar, céu tão azul, tudo isso é paz…”.