EU ACHO …

IGG REAGENTE

Quando experimentei os primeiros sintomas de uma gripe diferente, um pouco mais forte, estávamos no início do isolamento social. Há dois meses, só quem fosse internado com forte suspeita de Covid-19 tinha chance de fazer o teste para diagnóstico da doença. A gripe demorou para ir embora. Perdi o olfato, o que me deixou com a pulga atrás da orelha. Será? No final de abril, surgiu a chance de fazer o teste na rede privada, prova e contraprova. O resultado foi claro: pelos níveis dos anticorpos IgG, tive Covid-19.

É estranho — para dizer o mínimo — receber uma notícia dessas. Há o alívio inicial por ter superado a doença de forma quase assintomática e, aparentemente, não ter infectado ninguém, coisa impossível de se ter certeza. O que mais me chocou foi pensar que, como eu, milhões de brasileiros ainda serão infectados. É quando a ficha cai.

No início da pandemia, e bem antes de saber quando poderia ser testado, escrevi o seguinte: “Nossas escolhas vão determinar como irá se comportar o sistema de saúde e, em última instância, a vida dos infectados. Deixo a discussão para quem conhece o assunto, mas gostaria que dela participassem não apenas médicos e profissionais de saúde, mas a sociedade. O cerne da questão envolve bioética e, portanto, valores
e escolhas.”

A Covid-19 impõe renúncias momentâneas e definitivas — de vidas, de empresas, de planos para o futuro, de relações, de felicidade… Concordo com o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, quando disse que não podemos dar preço a uma vida. Mas essa decisão nos será imposta, queiramos ou não. Aliás, isso já está acontecendo.

Tenho 65 anos, estou no grupo de risco. Se não tivesse Covid-19 estaria escrevendo um texto que não recomendasse estritamente manter e reforçar o afastamento social?
Provavelmente, sim. É extremamente triste assistir ao derretimento da atividade produtiva. E aos efeitos cada vez mais terríveis da paralisação econômica que, como sempre, baterão com força na população desassistida. Escola fechada para um garoto pobre, por exemplo, significa refeições a menos, o fim do acesso a computadores e internet, sem falar da defasagem de aprendizado em razão da paralisação das aulas.

“Os africanos ocidentais recordam prontamente a devastação causada por paradas mais longas. Os alunos mais velhos de hoje ainda têm claro como o fechamento prolongado da escola durante o surto de Ebola, em 2014, levou a um aumento nas gestações não planejadas de adolescentes e no abandono escolar relacionado”, apontou uma reportagem da revista The Economist, publicada no final de abril.

O que fazer, então? Como achatar a curva de contágio para impedir o colapso do sistema de saúde e, ao mesmo tempo, não sufocar a atividade econômica? É fácil defender o isolamento morando bem, dispondo de 50 m2 por pessoa, e com garantia de salário ao final do mês.

Mas o Brasil é profundamente desigual. Portanto, não há modelo nem resposta certa, na minha opinião. O que não significa abdicar de responsabilidades. Pelo contrário.

Assistimos todos os dias a ações que unem ONGs, empresas e comunidades em iniciativas a fim de garantir o mínimo de saúde e dignidade a quem mais precisa.
Felizmente, gestos de empatia e solidariedade não têm faltado nessa hora escura. Que eles sirvam de exemplo às instâncias de poder, todas elas, e aos nossos dirigentes. O que esses gestos mostram é que sem entendimento, sem disposição para negociar, não há solução eficaz.

*MILTON REGO é presidente-executivo da
Associação Brasileira do Alumínio (Abal)

OUTROS OLHARES

A FÉ RESISTE

A religião agora passa pelo streaming e pelas redes sociais. Por meio delas, as igrejas estão pregando suas crenças, e atuando de maneira racional para proteger seu rebanho das ameaças do coronavírus. A partir do isolamento obrigatório e da proibição das aglomerações, os grupos religiosos intensificaram um processo de digitalização e atendimento remoto que tornam cada vez mais dispensável a presença física para a realização de muitos rituais e cultos, e também para doações e oferta de dízimos. De pastores a babalorixás, de padres a xeques islâmicos, de rabinos a xamãs – todos os líderes religiosos estão se especializando em cerimônias e atendimentos online.

Na outra ponta, gente dos mais diversos credos está buscando, para manter suas rotinas de fé, esses canais de comunicação em busca de um momento de reza e reflexão ou de conversas remotas com seu guia. Há uma demanda crescente por aconselhamento espiritual à distância. “A pandemia causou uma reestruturação completa da pastoral, tanto na parte administrativa como nas rotinas religiosas”, afirma o padre Carlos André da Silva Câmara, da Paróquia São Pedro Apóstolo, no bairro paulistano da Lapa. “Sacramentos como o casamento e a primeira comunhão foram suspensos, mas as missas estão acontecendo normalmente”. Carlos André vê essa compulsória migração para a Internet como algo necessário e acha que pode trazer mais ganhos do que perdas. Para ele, a palavra de Deus está chegando aos fiéis da mesma forma e a paróquia está em comunhão sem que as pessoas estejam presentes. “Nós somos uma Igreja unida, mesmo com cada fiel dentro de sua casa. É o momento de valorizar a Igreja doméstica. Pedi para as pessoas montarem um cantinho de oração para nossos encontros diários”, diz. Outro serviço espiritual que o padre Carlos está impulsionando são as lives de louvor para levar alegria aos fieis. A primeira experiência foi feita em abril e a próxima está programada para o dia 31 de maio. As confissões individuais estão mantidas, sem versão remota, mas com máscaras e distanciamento.

LIBERAÇÃO PAPAL

Em março, diante do avanço exponencial do coronavírus, o Vaticano, através da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, publicou dois decretos em que reconhece a validade das missas online nestes tempos de isolamento social. O próprio Papa Francisco celebrou a missa de Páscoa com a Basílica de São Pedro totalmente vazia. E pediu, por streaming, que os fieis se unam espiritualmente e não fisicamente durante o tempo da calamidade sanitária. O Papa destacou que se trata de uma medida excepcional, apenas “para sair do túnel” da difícil situação atual. Mas deu um excelente exemplo de que o principal sacramento da Igreja, a celebração eucarística, em que pão e vinho se transubstanciam no corpo e sangue de Jesus Cristo por meio das palavras pronunciadas pelo padre, pode ser vivenciado à distância, sem materialidade, nada que a impressão 3D não possa resolver nos próximos anos.
Há um efeito inesperado e positivo da pandemia. De um modo geral, os padres estão percebendo um aumento da participação dos fieis nas missas virtuais, em comparação com o número de pessoas que normalmente participavam das celebrações presenciais. As próprias missas do Papa, transmitidas por streaming, estão tendo uma audiência recorde.

Na sua pequena paróquia, o padre Carlos André verifica isso claramente. “Posso dizer que a vida espiritual na paróquia até se intensificou”, afirma. Nas missas presenciais diárias, a igreja recebia, em média, cerca de 30 pessoas, e, agora, na cerimônia remota, esse número chega a 50. “A frequência aumentou até pela maior facilidade de acesso”, explica o padre. “Hoje, nossa audiência inclui gente que mora em outras cidades ou que sofre de algum problema de saúde e não pode sair de casa”.

EBÓS E RAMADÃ

Para outras religiões, o efeito tem sido parecido. Por causa das restrições de mobilidade, o terreiro Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá, localizado na região da Cantareira, na Zona Norte de São Paulo, suspendeu todos seus trabalhos presenciais e não está recebendo seus filhos de santo. Mesmo assim, o antropólogo e babalorixá, Rodney William, que comanda o centro, tem conseguido manter a maior parte de suas atividades à distância. “Tem alguns ebós, como nos rituais de iniciação e renovação de votos, que foram suspensos porque dependem da presença dos fiéis”, diz. “Mas muitas práticas cotidianas do terreiro, como o jogo de búzios e os ebós mais simples estão mantidas”. Os ebós ou despachos são as oferendas feitas aos santos como agradecimento ou como convocação. O jogo de búzios tem sido realizado on-line pelo Zoom ou pelo WhatsApp e, no momento das oferendas, o babalorixá entra em contato com o filho de santo para que ele acompanhe o ritual. “Pessoas que atendo há anos eram reticentes às consultas on-line, mas agora estão satisfeitas”, afirma William. “Elas estão precisando e conseguindo exercer sua fé à distância”. Como acontece com os padres católicos, o babalorixá tem trabalhado muito mais nestes tempos de pandemia. A procura pelo atendimento via Internet tem aumentado.

Em pleno mês do Ramadã, iniciado no dia 24 de abril, os muçulmanos também reforçaram seus cuidados para enfrentar a pandemia. Regras foram estabelecidas pelos líderes religiosos para forçar as mesquitas a fecharem suas portas. O “iftar”, um intervalo de jejum ao anoitecer em que se realiza uma refeição festiva e familiar se tornou mais discreto e menos alegre. Os populares bazares de Ramadã, onde se compram doces para comer nesses intervalos do jejum, foram suspensos em vários países. Na maior nação muçulmana, a Indonésia, a recomendação geral é para que os fieis fiquem em casa.

Na Malásia, a principal autoridade islâmica do conservador estado de Kelantan, determinou o cancelamento das orações públicas e das refeições em família. Em alguns países, as mesquitas foram abertas, mas se exige que as pessoas mantenham uma distância segura umas das outras durante as rezas e usem máscaras. No Brasil, líderes islâmicos transmitem suas orações noturnas, as Tarawih, em lives pela Internet e as doações de alimentos no Ramadã, normalmente destinados para os banquetes nas mesquitas, foram convertidas em cestas básicas que estão sendo entregues para famílias pobres.

DÍZIMO ELETRÔNICO

Entre os evangélicos, a adesão aos cultos on-line também tem sido ampliada, mas há várias denominações resistentes a suspender as cerimônias presenciais e que negam a letalidade do vírus. Igrejas como a Universal, Mundial e Renascer mantêm as portas de seus templos abertas, mas restringiram a ocupação a 30%, por determinação legal e passaram a exigir o uso de máscaras e a oferecer álcool gel na entrada dos cultos. A Renascer, inclusive, que já teve vários de pastores contaminados pela Covid-19, mede a febre dos fieis na porta dos templos. Diante da necessidade imperiosa de manter a distância entre as pessoas, outra nova modalidade ritualística que ganha força é a celebração “drive in”, em que os fieis ouvem a missa de dentro de seus carros e tocam buzinas para fazer suas louvações ao senhor. Há também o serviço “drive thru”, em que os fieis passam de carro em frente ao templo e recebem a benção de pastores e padres. Igrejas de vários pontos do país adotaram o sistema, como a DNA, de Itu (SP), a Igreja Evangélica Batista de Vitória (ES), que realizou sua primeira celebração “drive in” no início deste mês, e a Verbo da Vida, de Campina Grande (PB). Mesmo nesses casos, os cultos são transmitidos pelas redes sociais.

Outra questão premente para o funcionamento das igrejas é o pagamento de dízimos e realização de doações. E para viabilizá-los diversas iniciativas estão sendo tomadas. O bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, por exemplo, mandou colocar um QR Code nas transmissões de seus cultos por redes sociais para que os fieis façam suas doações. O Templo de Salomão, sede da Universal, tem recebido entre 2 mil e 3 mil pessoas nos seus cultos de fim de semana. Na paróquia de São Pedro, as doações de roupas e alimentos continuam chegando e de 15 em 15 dias e o padre passa um número de conta bancária para receber o dizimo e manter sua obra. A partir da próxima semana, a paróquia vai disponibilizar um aplicativo de doações para que os fieis se cadastrem e deem suas contribuições regulares. De alguma forma, todas as igrejas estão se adaptando aos novos tempos de rituais remotos. É preciso proteger os fieis e, definitivamente, não há qualquer tipo de imunidade divina ao vírus da Covid-19.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 06 DE JULHO

O SANGUE PURIFICADOR

… e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado (1João 1.7b).

O pecado é uma realidade inegável. Seus efeitos podem ser notados todos os dias em nossa vida, família e sociedade. O pecado é a transgressão da lei de Deus e a falta de conformidade com essa lei. Pecamos contra Deus por palavras, obras, omissão e pensamentos. Não somos pecadores porque pecamos; pecamos porque somos pecadores. Fomos concebidos em pecado, nascemos em pecado e vivemos em pecado. Não podemos purificar a nós mesmos. O pecado atingiu nossa razão, emoção e vontade. Todas as áreas da nossa vida foram afetadas pelo pecado. Nenhum ritual religioso pode limpar-nos do pecado. Nenhum sacrifício feito por nós pode restaurar nossa relação com Deus, uma vez que o pecado faz separação entre nós e Deus. Aquilo que não podemos fazer, entretanto, Jesus, o Filho de Deus, fez por nós. Por sua morte temos vida e por seu sangue temos purificação de todo pecado. Não apenas de alguns pecados, mas de todo pecado. Em Jesus temos pleno perdão e copiosa redenção. O apóstolo João é enfático ao dizer que o sangue de Jesus, o Filho de Deus, nos purifica não apenas de alguns pecados, mas de todo pecado. Em outras palavras, não há vida irrecuperável para Jesus. Qualquer pecador, por mais sujo, por mais decaído, por mais degradado, pode tornar-se nova criatura e ser completamente limpo pelo sangue purificador de Jesus. O profeta Isaías chega a dizer que, ainda que os nossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã (Isaias 1.18).

GESTÃO E CARREIRA

COMO VOCÊ MEDE SUA VIDA EM UM ANO?

São 12 meses, 365 dias, 8.760 horas ou 525.600 minutos. Todos esses números são representações de um ano. Pois é, passou rápido mesmo e chegamos ao final de mais um ciclo. E a pergunta que fica é: Como você poderia medir sua vida no ano de 2020?

Em dias, em noites, em pores do sol, em xícaras de café, em centímetros, em quilômetros. em risos, em discussões, em cabelos brancos, em angústias, nas estações do ano, em viagens, barreiras que enfrentou, em resultados financeiros, nas contas pagas, nos erros, nos acertos, nas promoções, em aniversários, em domingos ensolarados, em sextas-feiras de alegria, no que aprendeu ou no que esqueceu… Poderia enfileirar uma série de medidas para você escolher. Mas será que nossa vida pode ser medida através dessas métricas? Como você mede um ano para viver? Este artigo foi inspirado em uma música do musical Rent, Seasons of Love, o qual convido todos vocês a ouvirem e refletirem sobre a mensagem dessa canção.

No final do ano que passou é comum colocarmos na balança as nossas realizações pessoais e profissionais, e principalmente fazermos planos para o ano que se inicia e que tudo seja diferente e melhor. O fato é que todos nós tivemos acontecimentos bons e outros nem tão bons assim. Dizem que a vida nos ensina através das discórdias, eu procuro utilizar tudo para aprender, crescer e avançar. Faço um convite para que analise tudo que aconteceu em seu último ano, pense bem nos detalhes e vai se dar conta de que todos os acontecimentos fizeram você ser uma pessoa melhor, portanto, foram bons. Talvez naquele momento que aconteceu o fato tenha sido negativo para você, mas hoje pode chegar à conclusão de que o efeito que gerou foi positivo.

Tudo depende do foco. Para qual acontecimento você realmente está olhando? Repare quando deseja comprar carro novo, quando já se decidiu pela cor e modelo, de repente começa a ver vários carros similares na rua. Ou quando alguém de sua família engravida, vocêcomeça a ver lojas de bebê justamente naquele shopping que sempre frequentou e nunca tinha reparado em tais lojas. Isso se chama foco, para onde sua atenção está direcionada.

Você deve estar se perguntando: Mas como posso mudar meu foco? Adoro “como fazer”. Toda teoria é inútil se não soubermos como aplicá-la.

Sempre fui uma pessoa muito pragmática, prática, com grande necessidade de saber como fazer as coisas. A dica é pensar nos momentos positivos que vivenciou ao longo do ano; vai ajudar se listar e escrevê-los em um papel.

Para exemplificar, vou contar um pouco o que aconteceu comigo em 2020. Assim como vocês, tive fatos muito positivos, como iniciar o ano ganhando três prêmios de melhor professora pela FGV; de ser entrevistada em inúmeros programas de TV e rádio; de ministrar treinamentos para mais de 12 mil pessoas; viajar quase o país todo ministrando palestras; ministrar treinamentos nos EUA; lançar meu quarto livro chamado Daily Shots com 365 Inspirações para começar bem seu dia no trabalho. Enfim, foram muitas realizações e vitórias.

Claro que nem tudo são flores, tive que lidar com situações muito difíceis como demissão de funcionários; mudança inesperada de escritório; enfrentar concorrência acirrada no mercado, muitas vezes desleal; fui surpreendida por uma cirurgia no útero; vivenciei o luto pela morte do meu avô, tio e amigo querido – foi um sufoco!

Se fosse você, qual dos acontecimentos anteriores focaria sua vida no ano que passou? Foi escrevendo este artigo que me dei conta de que nesta vida o que realmente importa são os momentos de amor. Quando me refiro ao amor, temos múltiplos significados, pode ser afeição, compaixão, agradecimento, atração, querer bem ou até vínculo emocional… Não importa, desde que seja amor, tá valendo!

Portanto, resolvi medir minha vida focando momentos de amor, por exemplo: Fiz uma festa superdivertida para comemorar meus 40 anos de idade; Conheci novos países, como Cuba, Dubai e Índia; Ler os e-mails dos meus alunos e depoimentos espontâneos que recebi de pessoas que nunca sequer vi pessoalmente, mas que leram meus artigos ou me ouviram na rádio e que pedem e confiam nos meus conselhos; Dos churrascos com família na casa dos meus pais; De brincar com meus afilhados e sobrinhos: Dos agradecimentos de pessoas que assistiram às minhas palestras e se sentiram motivadas a seguir em frente com sua vida.

Vamos comemorar e celebrar uma vida de amor, de amizade, de momentos positivos. É o que realmente importa.

Feliz 2021 a todos vocês!

DANIELA DO LAGO – é especialista em comportamento no trabalho, mestra em administração, coach de carreira, palestrante e professora na área de liderança e gestão de pessoas.  www.danieladolago.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A DANÇA DO CIÚME

Pode haver um “módulo inato” que processa a emoção de forma diferente no cérebro masculino e no feminino, dizem evolucionistas

Como muitas emoções que envolvem a escolha de parceiro, o ciúme apresenta-se diferentemente em homens e em mulheres. Algumas correntes de pensamento sugerem a existência de um “módulo inato”, isto é, um circuito cerebral pré-programado com gatilho diverso nas mulheres e nos homens. No acalorado debate entre psicólogos há uma ideia relativamente simples sobre o ciúme nos relacionamentos românticos. Nos anos 90, a psicologia evolucionista começou a aplicar as teorias de Charles Darwin ao comportamento humano, dando origem à ideia de que o ciúme representaria uma vantagem adaptativa para homens e mulheres. As pressões seletivas sobre os dois sexos, entretanto, teriam sido assimétricas.

Essa hipótese continua válida, principalmente depois que novas evidências apontaram para diferenças fundamentais entre a experiência masculina e a feminina do ciúme nos relacionamentos românticos. No entanto, uma análise mais detalhada dessa interpretação evolucionista pode ser muito mais complexa. Certamente o ciúme é uma emoção inata e adaptativa, mas, mais do que em teorias baseadas nas diferenças sexuais das estratégias de acasalamento adotadas por nossos ancestrais, sua expressão é mais bem compreendida com base na teoria do desenvolvimento e em enfoques sociocognitivos.

Pesquisas nessa área se concentram na interação de fatores sociais e cognitivos. Estudando as diferenças culturais, psicólogos já constataram que o ciúme é mais intenso nas sociedades que aceitam o sexo somente no relacionamento conjugal ou nas que dão muito valor à propriedade privada.

A psicologia evolucionista procura explicar peculiaridades da mente humana segundo pressões seletivas que atuaram sobre nossos ancestrais no período Pleistoceno (entre 1,8 milhão e 11 mil anos atrás). De acordo com os pesquisadores dessa vertente, emoções pré-programadas que temos agora não são necessariamente as que favoreceram nossa aptidão evolutiva (ou a perpetuação de nossos genes), mas elas tendem a compensar as diferenças entre o ambiente em que vivemos e o de nossos antepassados remotos. O psicólogo David Buss, da Universidade do Texas em Austin, e vários outros psicólogos evolucionistas afirmam que, no contexto das relações sexuais, um conjunto específico de circuitos cerebrais leva nossa reação emocional a perceber ameaças.

SELEÇÃO NATURAL

Esse módulo emotivo-cognitivo por um lado torna os homens predispostos ao ciúme relacionado à infidelidade sexual da parceira e, por outro, predispõe as mulheres ao ciúme relacionado à traição emocional do parceiro. A diferença na reação masculina e feminina segundo esses pesquisadores, existe hoje porque as pessoas enfrentaram diferentes riscos durante o Pleistoceno. Com base na teoria da seleção natural, mutações que aumentam a aptidão são favorecidas e se perpetuam porque as gerações as herdam dos indivíduos bem-sucedidos.

A teoria do módulo inato entusiasmou muitos pesquisadores, principalmente depois de uma enxurrada de estudos baseados em auto relatos de universitários. Pedia-se aos participantes que imaginassem seu parceiro ou parceira fazendo sexo fora da relação ou apaixonados por outra pessoa. Depois eles deviam escolher qual tipo de infidelidade seria menos perturbador ou aceitável.

Desenvolvido por Buss em 1992, esse método de escolha forçada já foi empregado em várias dezenas de estudos, sobretudo nos Estados Unidos. Ele produz invariavelmente diferenças significativas entre os sexos: mais de 70% das mulheres indicam que a infidelidade emocional é mais difícil de suportar; entre 40% e 60% dos homens relatam que a infidelidade sexual seria pior. Sempre fiquei intrigada com esses dados e resolvi fazer uma revisão sistemática com meta análise. Descobri que a influência do sexo sobre a escolha do tipo de infidelidade é significativa, mas tende a ser menor entre indivíduos mais velhos ou em amostras que incluem homossexuais. Efeito semelhante foi constatado em estudos em outros países, embora um número bem menor de europeus e asiáticos (entre 25% e 30%) tenha escolhido a infidelidade sexual como pior alternativa – o que sugere uma influência cultural comparável à do sexo. É bem possível que essas diferenças sexuais na expressão do ciúme não reflitam necessariamente a existência de módulos inatos. Uma possibilidade pouco cogitada pelos evolucionistas é o simples fato de homens e mulheres tirarem conclusões diferentes sobre a infidelidade hipotética e suas desagradáveis implicações. Tais inferências produziriam os resultados observados no teste de escolha forçada. Segundo uma interpretação alternativa que vem sendo chamada de “tiro duplo”, os homens achariam a infidelidade sexual mais insuportável porque a mulher não faria sexo com outro homem se não estivesse apaixonada por ele. As mulheres, por sua vez, sabem que os homens fazem sexo mesmo quando não há relação de afeto, portanto, a infidelidade sexual do homem não implicaria necessariamente infidelidade emocional. Mas, como o risco de perder o parceiro é maior quando ele faz sexo com outra por quem esteja apaixonado, a infidelidade sexual masculina é uma ameaça maior para as mulheres. As evidências que corroboram essa explicação, no entanto, ainda são um tanto confusas. David De Steno e colegas da Universidade do Noroeste, Estados Unidos, usaram outro enfoque para investigar as causas das diferenças sexuais nos testes de escolha forçada. Se elas refletem módulos pré-programados específicos para cada sexo, então negar às pessoas a oportunidade de refletir sobre a escolha deveria aumentar a amplitude da diferença entre as respostas de homens e de mulheres. Os pesquisadores realizaram o que eles chamam “manipulação da carga cognitiva”. Pediram aos participantes que recordassem uma sequência de sete dígitos ao mesmo tempo que respondiam às perguntas. Essa sobrecarga cognitiva não alterou a resposta dos homens, mas com ela as mulheres tenderam a escolher a infidelidade sexual como o gatilho mais poderoso do ciúme.

MÓDULO INATO

Em vez de usar o método de escolha forçada, vários pesquisadores avaliaram as reações de ciúme por meio da apresentação de cenários de infidelidade sexual e emocional e de escalas de pontuação contínua. Curiosamente, os resultados produzidos por essa abordagem eliminaram quase totalmente as diferenças sexuais e em alguns casos até inverteram sua primeira aferição, mostrando que o ciúme sexual é mais forte nas mulheres. Portanto, o método de escolha forçada parece revelar diferenças sexuais que podem ter raízes evolutivas, mas seus resultados são muito frágeis para sustentar a existência do módulo inato proposto pelos evolucionistas.

Diante das dificuldades com os estudos baseados em auto relatos, os psicólogos partiram para medições fisiológicas do ciúme. Buss e colegas começaram monitorando a atividade do sistema nervoso autônomo em situações imaginárias de infidelidade. Observaram, num estudo de 1992, que a frequência cardíaca e a condutância da pele (que reflete a sudorese) de universitários foram maiores quando eles imaginaram a parceira fazendo sexo com um terceiro. A reação das garotas foi oposta: elas ficaram mais perturbadas com a possibilidade de o parceiro estar apaixonada por outra.

Até aqui nenhuma novidade – os resultados são compatíveis com os obtidos com o método de escolha forçada. No entanto, a reatividade fisiológica pode refletir muitas emoções diferentes e essa é uma das razões pelas quais os polígrafos ou detectores de mentiras não são muito confiáveis. Aumento da pressão arterial, da frequência cardíaca e da sudorese acompanha diversas emoções como medo, raiva ou excitação sexual. Como os indivíduos estão apenas imaginando a infidelidade, ninguém garante que as alterações dos parâmetros não estejam refletindo outros estados emocionais ou cognitivos. Eu e minha equipe da Universidade da Califórnia em San Diego constatamos que os homens exibiam o mesmo tipo de resposta quando imaginavam eles próprios fazendo sexo com a namorada. Portanto, a maior reatividade pode refletir apenas excitação e não exatamente ciúme sexual. Também não conseguimos confirmar a hipótese segundo a qual as mulheres tendem a exibir reações mais fortes à infidelidade emocional imaginada. Observamos, porém, que a experiência sexual parece modular as respostas delas: mulheres com vida sexual ativa reagiram mais fortemente à possibilidade de infidelidade sexual – sugerindo um padrão de resposta semelhante ao dos homens.

CRIMES PASSIONAIS

Os dados psicofisiológicos fornecem uma resposta ambígua sobre a existência do módulo inato. O método não se revelou bom porque não consegue diferenciar ciúme de simples perturbação. Se, entretanto, as medidas de fato quantificam o sofrimento, os resultados mostram que tanto mulheres quanto homens reagem mais vigorosamente à infidelidade sexual que à emocional, pelo menos quando ambos já tiveram experiências reais de relacionamento.

Há quem argumente que a evidência mais convincente da realidade dos módulos neurais de ciúme específicos para cada sexo pode ser encontrada nos padrões de comportamento violento observados em muitas culturas. Em 1982, Martin Daly e Marga Wilson, da Universidade McMaster, Canadá, revisaram estudos sobre as razões que causaram assassinatos e concluíram que os homens cometeram mais homicídios motivados por ciúme sexual. Entretanto, homens cometem todas as formas de crimes violentos, inclusive assassinato, em índice bem maior que mulheres. A simples comparação é, portanto, enganosa. Outros dois estudos investigaram o ciúme como fator motivador de assassinato tendo em conta as diferenças nos índices globais desse delito. Os resultados descrevem um quadro incrivelmente diferente. Recentemente, eu mesma examinei os motivos de assassinato em 20 amostras multiculturais (totalizando 5.225 crimes) e não encontrei nenhuma diferença sexual global. Anteriormente, Richard B. Felson, da Universidade Estadual de Nova York em Albany, avaliou 2.060 assassinatos registrados em um banco de dados de 33 grandes condados americanos e constatou propensão a assassinar por causa de ciúme duas vezes maior entre mulheres. A abordagem do crime para investigar diferenças da expressão do ciúme entre os sexos, portanto, revelou-se frustrante.

Outra linha de pesquisa que poderia testar a hipótese do módulo inato baseia-se nos casos de ciúme mórbido. Os psiquiatras usam esse termo para descrever pacientes com convicção – frequentemente delirante – de que estão sendo enganados pelo companheiro. Possuídos por raiva ou depressão, é comum sentirem-se compelidos a espionar o parceiro. Os ciumentos mórbidos às vezes usam métodos agressivos para impedir a infidelidade na relação.

Cinco estudos que avaliaram casos de agressão passional cometida por ambos os sexos mostraram que 64% dos homens e 36% das mulheres tinham diagnóstico de ciúme mórbido. Os autores inicialmente interpretaram que a predominância de pacientes masculinos indicava a existência de um mecanismo de ciúme sexual ausente nas mulheres. No entanto, a proporção de transtornos mentais entre os sexos raramente é 1:1 e os homens estão super-representados em vários deles. Alguns psiquiatras argumentam que o ciúme mórbido quase sempre é uma forma de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). A terapia com fluoxetina, amplamente usada para tratar esse distúrbio, costuma ter bons resultados nos ciumentos mórbidos.

A incidência global de TOC é aproximadamente igual entre os sexos, embora alguns estudos registrem prevalência ligeiramente maior entre homens. Além disso, parece ser consenso geral que os transtornos obsessivo-compulsivos sexuais ocorrem mais no sexo masculino.

Analisando uma grande amostra de pacientes com TOC de um hospital psiquiátrico, Patrízia Lensi e colegas da Universidade de Pisa, Itália, verificaram ocorrência na razão de dois homens para cada mulher. Contudo, se o ciúme mórbido é urna manifestação da patologia e representantes do sexo masculino são mais propensos a padecer do distúrbio com obsessões sexuais, é questionável tirar conclusões gerais com base na ocorrência desse transtorno.

GATILHOS EMOCIONAIS

Quando deixamos para trás os estudos de laboratório e examinamos as situações reais de infidelidade, de crimes cometidos e de obsessões pela ameaça de traição, não encontramos diferenças de gênero particularmente marcantes que apoiem a hipótese do módulo inato de ciúme. Diferentemente do que apontam os dados psicofisiológicos, os homens parecem mais suscetíveis ao ciúme violento ou obsessivo, mas de forma compatível com a tendência geral para a agressividade e obsessão sexual observada no sexo masculino.

Apesar de parecer convincente à primeira vista, a teoria do módulo inato revela-se frágil sob exame minucioso. De fato, ela oferece uma oportunidade fascinante de relacionar a psicologia humana à força propulsora da evolução. Mas é preciso lembrar que não sabemos quase nada sobre o ambiente social ou cultural do Pleistoceno. As ameaças à aptidão darwiniana que nossos ancestrais enfrentaram não se apresentaram necessariamente de uma forma que a biologia sozinha seja capaz de predizer. Os índices de adultério podem não ter sido tão altos quanto os psicólogos evolucionistas supõem.

Para os primeiros hominídeos, que viviam em bandos pequenos, a traição poderia não ter o mesmo significado. Os recursos dos machos talvez não fossem valorizados nem as consequências do adultério tão terríveis como se imagina. Uma revisão das sociedades caçadoras ­ coletoras feita por Wendy Wood, da Universidade Duke, e Alice Eagly, da Universidade do Noroeste, Estados Unidos, mostrou que houve um grau considerável de variabilidade cultural nas contribuições dos dois sexos para a subsistência, e que muitas vezes as mulheres parecem ter participado mais. Fica difícil, portanto, inferir as condições que prevaleceram no Pleistoceno com base nas poucas evidências que temos hoje. Mesmo que nossos ancestrais tenham realmente pago um preço alto por não coibir o adultério, é possível que a evolução tenha resolvido o problema de maneira um pouco diferente daquela sugerida pelo módulo inato. Concentrar-se na traição sexual ou emocional de um parceiro pode não ser uma forma eficiente de evitar infidelidade. Segundo os defensores dessa hipótese, o ato sexual é o gatilho que desperta o mecanismo masculino do ciúme, enquanto na mulher esse sentimento é ativado pela evidência de envolvimento emocional do parceiro com outra pessoa.

PUNIÇÃO DARWINIANA

Buss foi um dos que destacaram que a detecção de sinais de infidelidade entre suas vítimas pode ser bem precisa: um indivíduo ciumento já enganado geralmente está certo quando desconfia que uma traição ocorreu novamente. Se os indícios desencadeadores do ciúme fossem evidentes para nossos antepassados do Pleistoceno somente depois de a infidelidade consumada, os deflagradores específicos provavelmente tocariam o alarme tarde demais para evitar a “punição” darwiniana. Em termos de aptidão, a vantagem do ciúme que acompanha a infidelidade sexual é um tanto duvidosa.

Uma estratégia mais eficiente usada por nossos antepassados pode ter sido a vigilância dos precursores da traição. A infidelidade raramente ocorre de forma súbita. Antes da cópula, os humanos ancestrais (assim como os modernos) supostamente adotavam comportamentos que sinalizavam os primórdios do interesse sexual, emocional ou ambos. Em consequência, talvez não tenha havido necessidade alguma de homens e mulheres desenvolverem gatilhos específicos de ciúme. Ao contrário, seria mais fácil se eles ficassem alertas e não se mostrassem sensíveis ao interesse de outros (que não seus parceiros). Essa hipótese é compatível com as evidências de que as diferentes respostas de homens e mulheres à infidelidade não são congênitas.