EU ACHO …

BOAS RAZÕES PARA VOCÊ SER PESSIMISTA

Os Indiferentes e os Idealistas constituem uma daquelas clássicas divisões da humanidade (flamenguistas versus corintianos, ateus versus crentes, pretos versus brancos etc.). Portanto esse artigo já começou mal, porque os Indiferentes constituem a esmagadora maioria da humanidade. Se isso não bastasse, pela primeira vez em dois séculos os Idealistas (simpáticos à utopia) estão sem norte e desiludidos, ao contrário dos que triunfaram com o “Fim da História”, de Francis Fukuyama. Os Indiferentes são pragmáticos, individualistas, imediatistas, conformistas e negacionistas: exatamente porque se identificam com o status quo acham que tudo isso aqui é balela. Há uma subdivisão entre eles: a maioria (99%?) é apenas gente ignorante, facilmente manipulável pelos poderes constituídos do Estado, das igrejas e das corporações. Outro motivo para ficar ainda mais pessimista, uma vez que aquilo que chamamos de “massa” é decisivo na história. Sem seu engajamento nada muda. É assim na publicidade como na política.

Os ignorantes, em qualquer escala social, vivem apenas para comer e trabalhar, num ciclo que se inicia na juventude e só termina com a morte. Têm um conhecimento apenas remoto das ameaças que rondam nossa existência. Não se incomodam nem irão se incomodar jamais, desde que consigam se alimentar, pagar as contas no final do mês e garantam alguma diversão (futebol, novela, clube etc.).

Aquele 1% restante de Indiferentes compõe uma minoria esclarecida que prefere considerar-se “realista”: uma forma de não se comprometer com nada que transcenda o próprio umbigo. São influenciadores sociais (daí sua importância), com formação superior, atuando nas diversas profissões liberais: médicos, engenheiros, advogados, jornalistas, eventualmente algum intelectual e raros artistas. Boa parte deles tem clareza de que o futuro da humanidade não é nada promissor, porém não se importa: isso é problema “dos outros, não meu”. São os crentes de que “o mundo foi sempre assim e continuará sendo”. Não acreditam no ser humano, cuja perversidade os paralisou como aquelas presas do escorpião. Sentem-se absolutamente impotentes e nem gostam de conversas sérias como essa: preferem mil vezes falar mal da vida alheia, contar piadas, jogar conversa fora. Como os ignorantes — também o são, apesar de instruídos — preferem mais tocar a vida a se comprometer. Outra razão para ser pessimista: não contem com eles. Para nada.

Essa parcela dos Indiferentes tem a ilusão de potência (vez por outra ameaçada por crises econômicas) porque pertence à classe média e média alta; a ilusão de estar segura porque se esconde das ameaças externas em apartamentos e condomínios fechados. Acostumados ao glamour da boa vida, acham que o consumismo é positivo e deve ser mantido, porque afinal é único modelo social de “sucesso”. Os Indiferentes não conseguem avaliar a própria realidade senão como desejável e até necessária, reproduzindo-a na “educação” dos filhos. Embora tolerem certo liberalismo nos costumes, tendem a ser conservadores por aquela razão e por outras. O único futuro que têm em mente é o que lhes garante o padrão estabelecido: isso pressupõe a conservação das relações sociais existentes — o que, por sua vez, leva a humanidade a passos largos para o cadafalso. Incluindo sua descendência, que julga estar protegendo com um comportamento suicida. Por óbvio, serão os cúmplices do Sistema, se o pior acontecer.

Como foi dito, a outra parcela da humanidade é formada pelos Idealistas. Os Indiferentes costumam menosprezá-los, taxando-os de “românticos” e “poetas” (ah, se não fosse o romantismo e a poesia, nesse mundo!). Genuínos filhos de Rousseau, acham que a humanidade é corrompida socialmente, mas pode ser consertada. São otimistas, apesar de serem quase os únicos a enxergar o iceberg diante do Titanic. Que ruma para o desastre quase certo. O idealista acredita que é preciso escolher outro caminho, outra forma de organização social, outra forma de produzir e de se relacionar com a Natureza. Porque é evidente: os recursos a bordo são limitados, mas a ganância é infinita. A médio longo prazo, com o aumento populacional, sabe-se que a Terra não suportará a demanda por alimentos, seja qual for o modelo econômico — mesmo o dos utópicos (que só existe na teoria). Mas uma coisa é minimizar impactos e racionalizar exploração e consumo. Outra, pior, pisar no acelerador. É o que estamos fazendo, e com gosto, por meio do consumo descartável: em no máximo um ano é preciso trocar o celular e uma série de outros bens. Na maioria dos casos, só para ficar bem na foto.

Por isso os Idealistas acreditam que estamos caminhando para a extinção certa e deliberada. De acordo com isso, os poetas dizem que a covid-19 é um grito da Terra: a revolta de Gaia. Afirmam que o coronavírus não é um parasita, mas um anticorpo. Provavelmente têm razão, mas a maioria prefere ridicularizá-los ou os ignorá-los. Consideram-nos radicais, chatos, fatalistas, fracassados, ingênuos. É pura verdade que os românticos normalmente não dispõem nem de recursos nem de apoio. Sua voz não repercute. E é claro: não há nenhuma garantia de que suas crenças nos conduzirão a um lugar melhor, e nem mesmo de que eles sejam pessoas melhores. Apenas duas coisas os diferenciam dos Indiferentes, o que já serve de advertência: uma, a convicção de que o caminho que estamos seguindo vai nos destruir, a outra o inconformismo que leva à ação transformadora. Não há nenhuma dúvida de que também querem acabar a ordem vigente: estejam certos disso. Mas é porque acreditam, com base em fortes evidências, que é isso ou o fim da humanidade dentro de 100, 150 anos (nada, em termos históricos).

Para os Idealistas, os Indiferentes vivem a ilusão de que o porteiro do condomínio irá protegê-los da escassez de água no mundo, e o vigia do calor abrasivo que se anuncia. Trancafiados em seus confortáveis apartamentos, no Edifício Terra, vivem isolados com suas geladeiras supridas e sua provedora de conteúdo streaming ao alcance do controle remoto. Comem pipoca enquanto as pilastras que sustentam o prédio onde moram estão em franco processo de decomposição. De que adianta toda aquela comodidade, se o Edifício Terra vai ruir por sua omissão, com todos dentro?

Nossa extinção é inevitável porque, independente dos fatores de risco bastante tangíveis que só uma mudança de atitudes poderia atenuar ou impedir — o Aquecimento Global é apenas um dos vários Cavaleiros do Apocalipse à nossa testa —, os Indiferentes continuarão a adorar o próprio umbigo e a proteger com unhas e dentes seu estilo de vida. Não há dúvida nenhuma de que assim se comportarão até nos levar à morte, como loucos.

* J.C. GUIMARÃES – Publicado originalmente na Revista BULA

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.