EU ACHO …

BOAS RAZÕES PARA VOCÊ SER PESSIMISTA

Os Indiferentes e os Idealistas constituem uma daquelas clássicas divisões da humanidade (flamenguistas versus corintianos, ateus versus crentes, pretos versus brancos etc.). Portanto esse artigo já começou mal, porque os Indiferentes constituem a esmagadora maioria da humanidade. Se isso não bastasse, pela primeira vez em dois séculos os Idealistas (simpáticos à utopia) estão sem norte e desiludidos, ao contrário dos que triunfaram com o “Fim da História”, de Francis Fukuyama. Os Indiferentes são pragmáticos, individualistas, imediatistas, conformistas e negacionistas: exatamente porque se identificam com o status quo acham que tudo isso aqui é balela. Há uma subdivisão entre eles: a maioria (99%?) é apenas gente ignorante, facilmente manipulável pelos poderes constituídos do Estado, das igrejas e das corporações. Outro motivo para ficar ainda mais pessimista, uma vez que aquilo que chamamos de “massa” é decisivo na história. Sem seu engajamento nada muda. É assim na publicidade como na política.

Os ignorantes, em qualquer escala social, vivem apenas para comer e trabalhar, num ciclo que se inicia na juventude e só termina com a morte. Têm um conhecimento apenas remoto das ameaças que rondam nossa existência. Não se incomodam nem irão se incomodar jamais, desde que consigam se alimentar, pagar as contas no final do mês e garantam alguma diversão (futebol, novela, clube etc.).

Aquele 1% restante de Indiferentes compõe uma minoria esclarecida que prefere considerar-se “realista”: uma forma de não se comprometer com nada que transcenda o próprio umbigo. São influenciadores sociais (daí sua importância), com formação superior, atuando nas diversas profissões liberais: médicos, engenheiros, advogados, jornalistas, eventualmente algum intelectual e raros artistas. Boa parte deles tem clareza de que o futuro da humanidade não é nada promissor, porém não se importa: isso é problema “dos outros, não meu”. São os crentes de que “o mundo foi sempre assim e continuará sendo”. Não acreditam no ser humano, cuja perversidade os paralisou como aquelas presas do escorpião. Sentem-se absolutamente impotentes e nem gostam de conversas sérias como essa: preferem mil vezes falar mal da vida alheia, contar piadas, jogar conversa fora. Como os ignorantes — também o são, apesar de instruídos — preferem mais tocar a vida a se comprometer. Outra razão para ser pessimista: não contem com eles. Para nada.

Essa parcela dos Indiferentes tem a ilusão de potência (vez por outra ameaçada por crises econômicas) porque pertence à classe média e média alta; a ilusão de estar segura porque se esconde das ameaças externas em apartamentos e condomínios fechados. Acostumados ao glamour da boa vida, acham que o consumismo é positivo e deve ser mantido, porque afinal é único modelo social de “sucesso”. Os Indiferentes não conseguem avaliar a própria realidade senão como desejável e até necessária, reproduzindo-a na “educação” dos filhos. Embora tolerem certo liberalismo nos costumes, tendem a ser conservadores por aquela razão e por outras. O único futuro que têm em mente é o que lhes garante o padrão estabelecido: isso pressupõe a conservação das relações sociais existentes — o que, por sua vez, leva a humanidade a passos largos para o cadafalso. Incluindo sua descendência, que julga estar protegendo com um comportamento suicida. Por óbvio, serão os cúmplices do Sistema, se o pior acontecer.

Como foi dito, a outra parcela da humanidade é formada pelos Idealistas. Os Indiferentes costumam menosprezá-los, taxando-os de “românticos” e “poetas” (ah, se não fosse o romantismo e a poesia, nesse mundo!). Genuínos filhos de Rousseau, acham que a humanidade é corrompida socialmente, mas pode ser consertada. São otimistas, apesar de serem quase os únicos a enxergar o iceberg diante do Titanic. Que ruma para o desastre quase certo. O idealista acredita que é preciso escolher outro caminho, outra forma de organização social, outra forma de produzir e de se relacionar com a Natureza. Porque é evidente: os recursos a bordo são limitados, mas a ganância é infinita. A médio longo prazo, com o aumento populacional, sabe-se que a Terra não suportará a demanda por alimentos, seja qual for o modelo econômico — mesmo o dos utópicos (que só existe na teoria). Mas uma coisa é minimizar impactos e racionalizar exploração e consumo. Outra, pior, pisar no acelerador. É o que estamos fazendo, e com gosto, por meio do consumo descartável: em no máximo um ano é preciso trocar o celular e uma série de outros bens. Na maioria dos casos, só para ficar bem na foto.

Por isso os Idealistas acreditam que estamos caminhando para a extinção certa e deliberada. De acordo com isso, os poetas dizem que a covid-19 é um grito da Terra: a revolta de Gaia. Afirmam que o coronavírus não é um parasita, mas um anticorpo. Provavelmente têm razão, mas a maioria prefere ridicularizá-los ou os ignorá-los. Consideram-nos radicais, chatos, fatalistas, fracassados, ingênuos. É pura verdade que os românticos normalmente não dispõem nem de recursos nem de apoio. Sua voz não repercute. E é claro: não há nenhuma garantia de que suas crenças nos conduzirão a um lugar melhor, e nem mesmo de que eles sejam pessoas melhores. Apenas duas coisas os diferenciam dos Indiferentes, o que já serve de advertência: uma, a convicção de que o caminho que estamos seguindo vai nos destruir, a outra o inconformismo que leva à ação transformadora. Não há nenhuma dúvida de que também querem acabar a ordem vigente: estejam certos disso. Mas é porque acreditam, com base em fortes evidências, que é isso ou o fim da humanidade dentro de 100, 150 anos (nada, em termos históricos).

Para os Idealistas, os Indiferentes vivem a ilusão de que o porteiro do condomínio irá protegê-los da escassez de água no mundo, e o vigia do calor abrasivo que se anuncia. Trancafiados em seus confortáveis apartamentos, no Edifício Terra, vivem isolados com suas geladeiras supridas e sua provedora de conteúdo streaming ao alcance do controle remoto. Comem pipoca enquanto as pilastras que sustentam o prédio onde moram estão em franco processo de decomposição. De que adianta toda aquela comodidade, se o Edifício Terra vai ruir por sua omissão, com todos dentro?

Nossa extinção é inevitável porque, independente dos fatores de risco bastante tangíveis que só uma mudança de atitudes poderia atenuar ou impedir — o Aquecimento Global é apenas um dos vários Cavaleiros do Apocalipse à nossa testa —, os Indiferentes continuarão a adorar o próprio umbigo e a proteger com unhas e dentes seu estilo de vida. Não há dúvida nenhuma de que assim se comportarão até nos levar à morte, como loucos.

* J.C. GUIMARÃES – Publicado originalmente na Revista BULA

OUTROS OLHARES

A ESTÉTICA DOS PROTESTOS

O streetwear veio da periferia e foi apropriado pelo luxo. Com as manifestações antirracistas, as grifes terão de reversua história

Nos protestos antirracistas pelo mundo desde o final de maio, lojas de grifes de luxo foram saqueadas e tiveram suas vitrines pichadas. As imagens não são apenas simbólicas para ilustrar o racismo sistêmico no Ocidente contra os negros, que saíram às ruas para cobrar mudanças após a morte do segurança George Floyd pelas mãos de um policial branco em Minneapolis, nos Estados Unidos. As cenas ilustram um paradoxo: as mesmas roupas usadas pelos jovens das periferias e vistas por parte do poder público como ameaça tomaram-se objetos de desejo nas passarelas chiques das capitais da moda.

A estética urbana composta de abrigos esportivos, tênis vistosos, bandanas e acessórios de metal é quase um uniforme dos protestos recentes, como se assumisse a função de roupa de combate da juventude inconformada com a repressão. Ao longo dos últimos anos esse combo passeia pelas semanas de moda e infla os caixas das marcas – mas com a mesma força é uma espécie de alerta para que policiais abordem, revistem e, em situações mais corriqueiras do que se imaginava, matem quem as veste.

Talvez o caso mais emblemático dessa relação esquizofrênica da moda com as ruas tenha sido a morte do adolescente negro Trayvon Martin em 2012, assassinado a tiros por um segurança que suspeitava de seus movimentos próximo ao condomínio no qual trabalhava, em Sanford, na Flórida. Um dos motivos para essa suspeita e seu desfecho trágico teria sido o casaco que o rapaz de 17 anos usava. Naquele ano, os jornais americanos estamparam a chamada Million Hoodie March, a marcha em que jovens vestiam hoodies, como são chamados os moletons com capuz.

Na mesma época começaram a sair as primeiras reportagens sobre a explosão da considerada grife de streetwear maiscool do mundo, a Supreme. Cinco anos depois, 50% da marca, que vende esse mesmo tipo de moletom com capuz, só que feito em parceria com grifes que aumentam em dezenas de milhares de dólares seu valor no varejo, seria comprada por 500 milhões de dólares pela firma de private equity Carlyle Group.

Desde a virada do século, as indústrias da moda e do entretenimento transitam nesse estado de dicotomia constante. A chegada do hip-hop aos ouvidos das elites brancas e a ascensão de ícones da cultura pop fora do padrão loiro das divas adolescentes foram acompanhadas de um estouro da indumentária streetwear. Seus elementos estéticos, oriundos das regiões periféricas dos centros urbanos, eram vinculados no cinema, na música e nas séries de TV ao crime, mas logo ganharam nova roupagem no guarda-roupa de grifes como Louis Vuitton, Calvin Klein e Gucci.

”Ocorreu um processo de anulação das origens da cultura streetwear. Ela começou nos anos 1970, e não nos 1990, como se propagou. Não tem nada a ver com o skate californiano, mas, sim, com os jovens pretos das periferias que não tinham como pagar por roupas caras e usavam peças esportivas de segunda mão”, afirma a estrategista de imagem e conteúdo Igi Ayedun, fundadora do MJournal, plataforma de análises já usada por empresas como C&A e Coca-Cola.

Enquanto subiam os preços das ações dos grupos Kering, LVMH e PVH, para citar os donos das marcas mais atuantes nessa estética, as linhas sociais que separam quem pode ou não pagar por seus produtos ficavam mais evidentes. ”A origem do problema é que a relação que a moda construiu com os jovens periféricos não foi autêntica, e sim puramente comercial”, afirma Kevin David, diretor criativo da agência e produtora Mooc. ”Quando um branco usa esses elementos de moda, é legal, mas, quando um negro usa, é marginal. A estética dos protestos é a estética desse vilão criado pela sociedade.”

De acordo com David, para que as mudanças nesse entendimento aconteçam é preciso mexer nas próprias estruturas internas das marcas de moda, não apenas naquilo que se vende na foto. Isso tem acontecido, ainda que lentamente. Dois anos atrás, a Louis Vuitton contratou o estilista Virgil Abloh para chefiar a divisão masculina da marca. Ele se tornaria o primeiro negro de origem pobre à frente de uma marca de luxo. Sob sua tesoura, a grife francesa promoveu diversos projetos de inclusão de jovens das periferias americanas.

Aqui no Brasil ainda é raro ver nos ateliês jovens estilistas negros. O mineiro Otavio Augusto furou esse bloqueio quando participou da equipe que assinou uma coleção da Ellus no ano passado inspirada nas origens da marca paulista com o streetwear. A estética do desfile na São Paulo Fashion Week foi toda construída em cima da indumentária industrial, com roupas utilitárias semelhantes às dos protestos de hoje. Na passarela, os modelos usaram máscaras de proteção. ”Não há outro caminho para desfazer o racismo instalado na moda a não ser ocupar os espaços criativos”, diz Augusto, que planeja lançar neste ano a própria marca.

”As marcas que quiserem comunicar para os jovens vão ter de rever sua estratégia para vender a estética da rua, porque eles vão estar mais atentos ao discurso e à prática das empresas”, afirma o diretor criativo do Studio Frágil, Vinícius Tex. Vinícius é um dos nomes por trás de uma colaboração emblemática entre sua plataforma de design e a marca carioca Ahlma. A peça em questão é uma camiseta, já esgotada no mercado, em que se viam nas costas uma arma e um aviso, infelizmente, cada vez mais urgente: “Não atire”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 05 DE JULHO

CANTANDO À MEIA-NOITE

Por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus… (Atos 16.25a).

Paulo e Silas estavam em Filipos, colônia romana na província da Macedônia. Nessa cidade, Lídia, uma empresária da cidade de Tiatira e vendedora de púrpura, se convertera a Cristo. Uma jovem possessa de um espírito de adivinhação acabara de ser libertada, fato que provocou profundo desgosto entre aqueles que lucravam com sua adivinhação. Tomados de ira, arremeteram contra Paulo e Silas e os prenderam. Incitaram o povo e as autoridades contra os dois missionários. O resultado é que ambos foram açoitados em praça pública e depois lançados no interior de uma prisão imunda, com o corpo ensanguentado. A injustiça, a humilhação e a dor não conseguiram apagar as chamas do fervor espiritual no coração desses dois obreiros. À meia-noite, eles oravam e cantavam louvores a Deus. Aquela prisão escura, úmida e insalubre se tornara um templo de adoração, e seus pés presos no tronco, uma razão ainda mais eloquente para erguerem a voz e cantarem louvores ao Senhor. Nosso Deus inspira canções de louvor nas noites escuras. O louvor não é consequência das circunstâncias favoráveis. O louvor coexiste com a dor e, muitas vezes, é temperado com lágrimas. Aquela reunião de oração na cadeia trouxe o céu à terra. Deus enviou um terremoto que abriu as portas da prisão. O carcereiro, apavorado ao ver as portas abertas e concluir que os prisioneiros haviam fugido, tomou a decisão de se matar. Aquela não foi, porém, a noite de sua morte, mas a noite de sua salvação, pois ali na prisão ele conheceu a Cristo e foi salvo.

GESTÃO E CARREIRA

A TENTAÇÃO DE EMPREENDER

Jovem contraria as estatísticas mostrando que com foco, ousadia e persistência é possível sair da periferia e conquistar o mundo

Dener Lippert tinha tudo para fracassar na vida escolhendo caminhos tortuosos desde a infância, mas, ao invés disso, preferiu percorrer o caminho para o sucesso que alcançou no empreendedorismo, como CEO da V4 Company – assessoria de marketing.

O empresário foi abandonado pelo pai na infância. Cresceu com a mãe e seus irmãos no bairro Mathias Velho, localizado em Canoa, no Rio Grande do Sul. Enquanto sua mãe saía para fazer bicos e sustentar a família, ele assistia a seus irmãos cometerem pequenos delitos. Até pensou em seguir por esse caminho, mas percebeu que era melhor alimentar outro sonho, o de empreender e ter um futuro melhor.

Com 12 anos começou a trabalhar em uma produtora de festas locais. Enessa idade já entendeu a importância de fazer contatos para prosperar. Quando estava com 14 anos, foi tentado a ir ao festival Planeta Atlântida para assistir ao show do Charlie Brown Jr., mas não tinha dinheiro para realizar essa vontade. Esse detalhe, no entanto, não o impediu de conquistar o seu desejo. “Organizei, então, meu primeiro empreendimento. Um colega e eu alugamos um ônibus e cobramos ingresso de pessoas interessadas em ir ao show também. E foi ali que tudo começou”, relembra emocionado.

VIRANDO A PAGINA

Depois dessa primeira empreitada, Lippert, ao mesmo tempo que trabalhou em empregos formais, tirando cópias em uma faculdade ou como estagiário em um escritório de contabilidade, percebeu que sua real vocação era empreender, resolveu então criar um grupo para organizar festas e movimentar mais a cidade onde morava. “No processo de divulgação desses eventos, comecei a ter contato com o mundo do marketing e a me encantar mais com essa área”, afirma.

Para estudar melhor o tema, o jovem decidiu ingressar na universidade fazendo um curso dessa área, por meio do Prouni, mas revelou que nunca chegou a terminar a graduação; pois logo cedo já surgiu a oportunidade de abraçar a ideia de um negócio. ”Pelos conceitos que conheci no curso, ainda como estudante, e a partir de percepções que tive do mercado de comunicação e marketing, resolvi não esperar mais e abrir a minha própria empresa”, revela.

E, em 2012, o jovem Dener Lippert, na época com 17 anos e como um “simples” estagiário na área comercial de uma indústria, decidiu então dar a primeira versão da V4 Company. O negócio funcionava entre panelas e cadeiras na cozinha da casa de sua mãe e tinha o objetivo de atender às demandas de comunicação digital, social media e campanhas digitais, para pequenas empresas de moda.

SUCESSO IMINENTE

Segundo ele, diferente do intuito inicial, após um período de aceleração, a companhia mudou seu foco para desenvolver uma estratégia mais realista. “Como aprendi na própria universidade e inspirado nos conceitos difundidos por Sergio Zyman, resolvemos mudar o foco para otimizar as vendas dos clientes”, mostra.

Criaram então uma estratégia personalizada e acompanharam ativamente todo o caminho de vendas. Implementaram um processo efetivo e, de lá para cá, a V4 já desenvolveu mais de 300 projetos em sete países, por exemplo, Spotify, Wizard e W12. E, como o céu é o limite para Lippert, para aumentar o poder de atuação, principalmente regional, resolveu expandir a empresa através do mercado de franchising. “Para aumentar a capilaridade e o alcance, já contamos com mais 80 unidades de franquias espalhadas em todas as regiões do Brasil”, comemora.

Hoje, com 25 anos, o CEO e fundador da V4 Company diz que uma das habilidades mais importantes que aprendeu ao longo da sua jovem trajetória empreendedora é a consistência. Ou seja, entendeu que um dos caminhos do sucesso é sempre seguir o plano e garantir que todos da marca estejam crescendo ao mesmo tempo. “O segredo é o planejamento, e digo de longo prazo. Eu tenho planilhas com planejamentos de até 25 anos. Então quando penso em desistir olho para elas e vejo que estou no caminho, é só questão de tempo. Crescendo de pouco em pouco, mas rumo ao sucesso”, conclui.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TODOS JUNTOS E ESTRESSADOS

A pandemia do novo coronavírus tem provocado uma montanha-russa de emoções e os impactos na saúde mental já começam a ser sentidos. Para quem está a ponto de explodir, é hora de pedir ajuda

Assim como muitas pessoas, Vilson Locatelli Junior, de 31 anos, começou 2020 pronto para dar um novo rumo à sua vida: novo emprego, nova cidade e a primeira filha a caminho. Ele sabia que seria um desafio. Ainda no final de 2019, Locatelli encerrou numa sexta-feira o período na empresa onde estava havia oito anos, sua filha nasceu no sábado e na segunda-feira ele assinou o contrato com a Kraft Heinz como gerente de produção e melhoria contínua na fábrica de Nerópolis, no interior de Goiás, onde trabalham mais de 1.000 funcionários. Em 20 dias, ele e a família saíram de Ipumirim, em Santa Catarina, para morar em Goiânia. E então veio a pandemia do novo coronavírus. Juntamente vieram também o estresse e a pressão de todos os papéis que ele desempenhava. Às novas responsabilidades de gestão foram acrescentados os protocolos de segurança contra a covid-19 na fábrica. Aos cuidados com a filha somaram-se a preocupação de sair todos os dias, aumentando o risco de contágio e ainda de perder momentos preciosos de seu crescimento. ”Aí, eu balancei. Sou uma pessoa organizada e acho que tenho uma boa inteligência emocional, mas chegava ao final do dia sem ter respostas de como segurar todos os pratos que equilibrava. Eu queria ser igualmente responsável por criar minha filha, não apenas ‘ajudar’ minha esposa, mas me vi saindo de casa e chegando tarde sem encontrá-la acordada”, conta ele. ”Eu me sentia cada dia mais angustiado e cheguei a chorar sozinho.” A fase difícil levou o gerente a buscar ajuda. Ele procurou a assistência psicológica oferecida pela Kraft Heinz aos empregados e começou as sessões por Skype. Era a primeira vez que fazia terapia na vida.

A pandemia vem impondo desafios desconhecidos de qualquer aspecto que se observe – econômico, corporativo e pessoal. No microcosmo individual as barreiras estremeceram: antes lugar de refúgio, a casa virou escritório, escola, academia. Pessoas acumularam suas funções profissionais com tarefas domésticas e educacionais antes terceirizadas. Dias úteis se mesclaram com fins de semana e feriados. Com mais de três meses de quarentena, essas mudanças têm gerado uma montanha-russa de emoções, e os impactos na saúde mental- ainda não totalmente esclarecidos – começam a dar seus primeiros sinais. Apesar de a Classificação Internacional de Doenças agregar a síndrome de burnout, em 2022, como um ”problema associado ao emprego ou ao desemprego”, ainda não existe um consenso sobre a definição exata do conceito. ”Em termos psiquiátricos, é um quadro controverso. Mescla-se com outros quadros, como depressão e ansiedade, mas associados ao mundo do trabalho”, diz o psicanalista Christian Dunker. No mundo corporativo, a condição já era uma preocupação antes da pandemia. Todos os anos a economia global perde mais de 1 trilhão de dólares devido à queda de produtividade por causa de depressão e ansiedade. No ano passado, uma pesquisa da consultoria de benefícios Mercer Marsh mostrava que 30% das organizações no Brasil já estudavam implantar iniciativas em prol da saúde mental. Em um novo estudo – este durante a quarentena – a organização viu o número de funcionários em busca de serviços de saúde mental passar de 2,2 milhões para 8,1 milhões, antes e depois da pandemia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, até 2019 o Brasil contabilizava cerca de 12 milhões de pessoas acometidas pela depressão, o que corresponde a 5,8% da população. A taxa é superior aos 4,4% da média global. Quando o tema é ansiedade, o Brasil é campeão mundial. São quase 20 milhões de acometidos, o que equivale a mais de 9% da população.

SOLIDÃO NO HOME OFFICE

O aumento da incidência de transtornos como depressão e ansiedade, que já eram um problema de saúde pública no Brasil e no mundo, é o sintoma inicial de um período que pode ficar marcado pela evolução do adoecimento mental. Ainda não existem levantamentos científicos consistentes sobre o tema, mas um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicado em maio, apontou uma progressão em alguns quadros por causa da quarentena. Em um comparativo de um grupo de cerca de 1.500 pessoas entrevistadas em março e em abril, o número de participantes que apresentaram sintomas relacionados à depressão aumentou 90%, e as queixas sobre crises agudas de ansiedade tiveram alta de 70%. ”Já esperávamos um crescimento dessas patologias”, diz Alberto Filgueiras, cientista do Instituto de Psicologia da Uerj, que comandou o estudo. ”O interessante é notar os fatores psicossociais e comportamentais associados ao adoecimento mental.”

Algumas das conclusões obtidas no estudo da Uerj são contrárias ao que se poderia pensar. Quem faz home office pode sofrer por se sentir preso em casa e imaginar que, quem está pelas ruas, pelo menos se movimenta mais, pega sol, tem um dia mais dinâmico. ”De maneira geral, todos os trabalhadores estão em condições mentais piores, mas quem precisa sair de casa apresentou maior nível de adoecimento mental”, diz Filgueiras. ”O ponto é que as pessoas sabem que a covid-19 é uma doença potencialmente letal, e sair para trabalhar implica risco à própria vida.” Para ele, a reabertura precoce da economia pode ter um efeito nocivo na saúde mental: envolve a obrigação de sair de casa, o risco de demissão a quem contrariar a ordem e um medo ainda maior de infecção, já que as ruas estarão mais cheias. De forma parecida, a presença de crianças em casa tende a ser vista como um fator de estresse, pois exigem atenção e tempo dos pais, que têm o desafio de equilibrar a vida pessoal e profissional numa rotina em que tudo acontece ao mesmo tempo. O estudo, no entanto, mostrou que estar com os filhos em ambientes domésticos pode ser um fator de proteção. ”Saber onde a criança está e ver que está em segurança causa uma grande sensação de alívio”, diz o cientista. Outras conclusões do estudo, no entanto, corroboram ideias já conhecidas, como o fato de que as mulheres sofrem mais do que os homens. A explicação passa longe de argumentos genéticos: a realidade é que são elas as responsáveis majoritárias pelas tarefas domésticas, que continuam sendo acumuladas com o trabalho remunerado, seja ele executado em casa ou não.

ANSIEDADE FINANCEIRA

E a pandemia não poupa ninguém. Se é difícil para quem está com a família toda em casa, estar separado dela também é um desafio. Sem poder visitar os pais em Belo Horizonte e em home office, Adriana Beatriz de Souza Affonso, de 37 anos, teve de lidar com a solidão de seu apartamento em São José dos Campos, no interior de São Paulo, e com a mudança de suas funções como gerente de comunidades na Buser, startup de viagens de ônibus, depois da paralisação dos itinerários e eventos. Ainda assim, ela se considera privilegiada, pois viu a vida de colegas de turismo, setor no qual tem 15 anos de experiência, desmoronando. ”Desde o primeiro momento, a Buser comunicou que não demitiria ninguém, o que passou segurança e, quando precisei, ajuda emocional”, desabafa ela, que aderiu a um programa da empresa que oferece quatro sessões de terapia por mês aos funcionários.

Os fatores de estresse no trabalho, como acúmulo de funções ou pressão para alta performance, já eram conhecidos e ameaçavam a saúde mental dos trabalhadores no Brasil. Para eles, a quarentena e a crise econômica trouxeram novas fontes de desgaste psicológico, como o medo do desemprego, a insegurança financeira e o próprio isolamento social. Gleyson Alves Pereira, de 27 anos, assistente de canal de lojas físicas da Oi em Fortaleza, sentiu na pele as novas pressões quando sua mãe, no grupo de risco da doença, perdeu a renda que tirava das corridas de Uber e seu padrasto teve a jornada e o salário reduzidos. O sustento da família passou a ser sua responsabilidade e ele precisou trancar a matrícula da faculdade. ”Mesmo estudando psicologia, nunca achei que faria terapia. Mas, quando chegou o comunicado da empresa sobre o novo benefício, aceitei na hora. Meu nível de estresse estava altíssimo e não sabia como falar disso em casa. A terapia, os exercícios de respiração e a ioga me ajudaram muito”, diz ele.

Com uma operação extensa no Brasil e uma realidade nova da covid-19, a Oi lançou em março um aplicativo para monitorar a saúde física e mental dos funcionários. O recurso simples pergunta à pessoa como ela está se sentindo, oferecendo atendimento remoto para quem se queixar. Desde o dia 23 de março, o app já teve mais de 111.000 interações. A partir delas, foram 7.410 contatos com médicos para tirar dúvidas e dar orientações. E 123 funcionários que relataram questões de saúde mental foram encaminhados para atendimento psicológico remoto. ”Estamos testando e aprendendo coisas novas dia após dia neste período. O trabalho remoto nos levou a criar uma solução de tecnologia que abriu novas possibilidades para ampliar o cuidado com as pessoas e ter uma agenda mais humanizada”, diz o diretor de gente e gestão, Marcos Mendes.

Enquanto a ciência ainda começa a mergulhar nas relações entre a pandemia e a saúde mental do trabalhador, as empresas, em contato direto com os funcionários, fazem mapeamentos para esclarecer a questão. No Mercado Livre, por exemplo, uma primeira pesquisa foi realizada com os 3.000 empregados em março, no início da quarentena, abordando as dificuldades que o período vinha impondo. O ponto mais crítico foi o desafio de equilibrar a nova rotina de trabalho com o cotidiano pessoal. ”Sabemos que alguns funcionários precisam parar para cozinhar, alimentar os filhos, e que isso não vai se limitar a 1 hora”, diz Patrícia Monteiro, diretora de recursos humanos do Mercado Livre no Brasil. Para mitigar o problema, a organização adotou uma série de medidas, que vão desde treinamento de líderes para gerar empatia e aprimorar a gestão em ambiente virtual até a criação de um grupo voltado para bem-estar, com aulas de atenção plena (o famoso mindfulness), ioga e até sessão com um epidemiologista para tirar dúvidas sobre a pandemia. As pesquisas de acompanhamento passaram a ser feitas a cada duas ou três semanas, e uma evolução, ainda que lenta, foi observada. ”Nosso estudo mais recente mostra que 33% dos funcionários encontraram o ponto de conforto para trabalhar de casa, um número que, no início da pandemia, estava mais pulverizado”, diz Monteiro.

O número pode parecer baixo, mas obter conforto no home office não é tarefa fácil. Um funcionário da fintech Stone, que deu entrevista em condições de anonimato, afirmou que a rotina de trabalho tem sido muito mais intensa em casa. ”Começo a trabalhar ainda na cama, às vezes antes das 8 horas, respondendo a mensagens no WhatsApp ao acordar. Depois disso, vou para a sala e continuo trabalhando. Se chegar algo à noite, a ordem é responder: não existe um limite de horas trabalhadas no dia”, diz. O empregado afirma que existe banco de horas, mas que o cansaço emocional e físico é imenso. ”Junto com a operação, somam-se os problemas pessoais, a ansiedade, as dores na coluna e no pulso.” Segundo o funcionário, há um movimento de pessoas pedindo demissão simplesmente por não aguentar a pressão. Contatada pela reportagem, a Stone afirma respeitar a legislação trabalhista quanto às horas extras e treinar seus líderes para a melhor adaptação dos funcionários durante a quarentena. A empresa diz, ainda, que problemas pontuais podem ocorrer, mas que os excessos não representam a cultura da organização.

A cobrança por produtividade parece ser um fator comum na quarentena, podendo vir da liderança, mas também do próprio funcionário. Segundo Giovane Oliveira, psicólogo da startup Vittude, o excesso de trabalho é uma queixa generalizada. ”Fora do escritório, as pessoas tendem a ficar tensas porque ninguém as vê trabalhando, produzindo”, diz. ”Muitas vezes os chefes também pedem muitos retornos durante todo o dia para ter certeza de que o funcionário está cumprindo o planejamento. Isso dispara um mecanismo de ansiedade muito forte, e o empregado começa a duvidar da própria competência.” O quadro pode evoluir para um círculo vicioso: a tendência é a aquisição de compulsões, compensando no consumo de comida não saudável ou bebida alcoólica, potencialmente gerando mais ansiedade.

O descontrole em relação à alimentação apareceu em uma ação voltada para a saúde mental dos funcionários da Votorantim, grupo que emprega 35.000 pessoas. Ao oferecer consultas com nutricionistas e psicólogos, a empresa notou que as vagas dedicadas à nutrição acabaram em tempo recorde. ”De maneira geral, existe um cenário de ansiedade ligado a muitos fatores que acontecem ao mesmo tempo”, diz Vinícius Holanda, gerente de benefícios da Votorantim. ”Há medo da situação econômica do país, da contaminação, do incerto. Existem, ainda, o home office, a necessidade de ser multitarefa em casa e até mesmo questões pontuais, como o excesso de videoconferências.” Na empresa, a saída também passa pelo treinamento dos gestores, que têm reuniões mensais para abordar o andamento dos times. De acordo com Holanda, a ideia é trabalhar com flexibilidade para que os funcionários consigam adaptar a rotina às tarefas domésticas. Horários de almoço devem ser integralmente respeitados, e o tempo de trabalho, teoricamente, é controlado.

ESTRESSE NA LINHA DE FRENTE

Para além das ansiedades e dificuldades de grande parte dos trabalhadores, um grupo em particular está sofrendo duramente os efeitos da pandemia: o dos profissionais de saúde. Os que estão na linha de frente do combate à covid-19 assistem ao drama que já causou mais de 51.000 mortes e infectou quase 1.200.000 pessoas, segundo a atualização do dia 23 de junho. Além disso, os próprios profissionais são vítimas preferenciais da doença. De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil teve 31.790 casos de profissionais da saúde confirmados para covid-19. O número de casos em suspeita beira os 200.000, sendo enfermeiros e técnicos de enfermagem metade desse contingente. Isso tem levado o estresse às alturas no setor. Um estudo publicado no Jornal da Associação Médica Americana e realizado com profissionais de saúde de Wuhan, primeira região a ser atingida pelo novo coronavírus na China, 50,4% dos participantes relataram sintomas de depressão e 44,6% de ansiedade. O problema é que esses efeitos são de longo prazo. No início dos anos 2000, a epidemia de sars na China colocou profissionais de saúde em quarentena, o que gerou sintomas de estresse pós-traumático até três anos depois. Em Taiwan, a mesma epidemia ocasionou transtorno de estresse agudo em 5% dos profissionais de saúde da linha de frente.

Foi no final de abril que Renato Martins, de 40 anos, percebeu que algo estava muito errado. Após quase dois meses trabalhando na emergência do Hospital de Cotia e na enfermaria do Hospital das Clínicas em São Paulo atendendo pacientes que chegavam com sintomas do novo coronavírus, o médico estava exausto. Ele dormia menos de 2 horas por noite, achando inútil descansar se poderia ler sobre novas descobertas da doença. Ao mesmo tempo, ele começou a duvidar se era um bom profissional, pois sentia que seu trabalho não estava ajudando os pacientes. ”Eu não estava entendendo, mas fiquei muito mal. Eu me isolei dos amigos e da família, estava irritado, paranoico e sentia uma tristeza que nunca havia tido antes. Não conseguir salvar pacientes me trazia uma angústia enorme”, diz ele. Tudo culminou após um plantão no hospital com um alto número de óbitos, quando ele teve uma reunião com sua chefe e começou a chorar de repente. Sem conseguir controlar as emoções, ele pediu ajuda. Após a ligação para o número de emergência de saúde mental do Hospital das Clínicas, veio a explicação: burnout, a síndrome do esgotamento profissional. O pedido de ajuda e a conversa com uma psicóloga por telefone foram os primeiros passos para entender o que passou. Com a urgência da crise de saúde, ele não parou de trabalhar. No entanto, a terapia e o acompanhamento psiquiátrico mostraram a ele que é necessário se cuidar para poder cuidar bem de seus pacientes.

Compartilhar suas angústias e pedir auxílio de seus colegas no hospital foram passos importantes para aliviar a pressão e sentir que não estava lutando sozinho. As descobertas de Martins valem para todos. Em tempos anormais de uma pandemia, é ainda mais vital pedir ajuda para tratar o corpo e a mente.

FORA DE CONTROLE

A convivência forçada, o desemprego e a redução de renda levam a situações limites dentro de casa

ESTRESSE NA LINHA DE FRENTE

Para além das ansiedades e dificuldades de grande parte dos trabalhadores, um grupo em particular está sofrendo duramente os efeitos da pandemia: o dos profissionais de saúde. Os que estão na linha de frente do combate à covid-19 assistem ao drama que já causou mais de 51.000 mortes e infectou quase 1.200.000 pessoas, segundo a atualização do dia 23 de junho. Além disso, os próprios profissionais são vítimas preferenciais da doença. De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil teve 31.790 casos de profissionais da saúde confirmados para covid-19. O número de casos em suspeita beira os 200.000, sendo enfermeiros e técnicos de enfermagem metade desse contingente. Isso tem levado o estresse às alturas no setor. Um estudo publicado no Jornal da Associação Médica Americana e realizado com profissionais de saúde de Wuhan, primeira região a ser atingida pelo novo coronavírus na China, 50,4% dos participantes relataram sintomas de depressão e 44,6% de ansiedade. O problema é que esses efeitos são de longo prazo. No início dos anos 2000, a epidemia de sars na China colocou profissionais de saúde em quarentena, o que gerou sintomas de estresse pós-traumático até três anos depois. Em Taiwan, a mesma epidemia ocasionou transtorno de estresse agudo em 5% dos profissionais de saúde da linha de frente.

Foi no final de abril que Renato Martins, de 40 anos, percebeu que algo estava muito errado. Após quase dois meses trabalhando na emergência do Hospital de Cotia e na enfermaria do Hospital das Clínicas em São Paulo atendendo pacientes que chegavam com sintomas do novo coronavírus, o médico estava exausto. Ele dormia menos de 2 horas por noite, achando inútil descansar se poderia ler sobre novas descobertas da doença. Ao mesmo tempo, ele começou a duvidar se era um bom profissional, pois sentia que seu trabalho não estava ajudando os pacientes. ”Eu não estava entendendo, mas fiquei muito mal. Eu me isolei dos amigos e da família, estava irritado, paranoico e sentia uma tristeza que nunca havia tido antes. Não conseguir salvar pacientes me trazia uma angústia enorme”, diz ele. Tudo culminou após um plantão no hospital com um alto número de óbitos, quando ele teve uma reunião com sua chefe e começou a chorar de repente. Sem conseguir controlar as emoções, ele pediu ajuda. Após a ligação para o número de emergência de saúde mental do Hospital das Clínicas, veio a explicação: burnout, a síndrome do esgotamento profissional. O pedido de ajuda e a conversa com uma psicóloga por telefone foram os primeiros passos para entender o que passou. Com a urgência da crise de saúde, ele não parou de trabalhar. No entanto, a terapia e o acompanhamento psiquiátrico mostraram a ele que é necessário se cuidar para poder cuidar bem de seus pacientes.

Compartilhar suas angústias e pedir auxílio de seus colegas no hospital foram passos importantes para aliviar a pressão e sentir que não estava lutando sozinho. As descobertas de Martins valem para todos. Em tempos anormais de uma pandemia, é ainda mais vital pedir ajuda para tratar o corpo e a mente.

FORA DE CONTROLE

A convivência forçada, o desemprego e a redução de renda levam a situações limites dentro de casa

AS LIÇÕES DE OUTRAS QUARENTENAS

Crises sanitárias recentes também colocaram países e grupos de pessoas em isolamento

SARS – Na China, na década de 2000, a síndrome respiratória colocou profissionais de saúde em quarentena e gerou estresse pós-traumático três anos depois.

INFLUENZA – A Austrália teve epidemia de influenza equina em 2007 com donos de cavalos em quarentena. Cerca de 34% deles tiveram estresse psicológico.

EBOLA – No Senegal, entre 2014 e 2016, mais de 90% da população em quarentena nas áreas de alto risco de infecção apresentaram ansiedade e insônia.

FONTES: Lancet, Mercer e UERJ.

A CABEÇA NA QUARENTENA

Sem previsão para acabar, a pandemia e o distanciamento social afetam as emoções e podem criar etapas comportamentais similares às do luto

NEGAÇÃO

Geralmente, o primeiro comportamento. É a ideia de que a pandemia é algo distante e que não vai afetar as pessoas de maneira relevante. Momento em que a quarentena ainda era adotada pontualmente por algumas organizações

INDIGNAÇÃO

Uma segunda fase, quando ainda não se tinha dimensão da pandemia, mas o distanciamento social já era uma realidade. A sensação era de preocupação em razão do impacto econômico da quarentena, com o pensamento de que a situação duraria duas ou três semanas

BARGANHA

Depois, a quarentena é parcialmente aceita, com a ideia de que o sofrimento é necessário para trazer o benefício do fim da pandemia. As dificuldades de adaptação começam a aparecer: desafios do trabalho em casa, conciliação com as tarefas domésticas, cuidado com os filhos

ACEITAÇÃO

Finalmente, com a impossibilidade de prever o fim da quarentena, vem a resignação. É nesse momento que a adaptação é facilitada: não há muitas escolhas senão organizar a rotina e promover as mudanças necessárias para manter o cotidiano e a saúde