EU ACHO …

LIÇÕES DA ARTE PARA A LIDERANÇA

A arte é um dos melhores caminhos para compreendermos o mundo a nossa volta e refletirmos como nele nos inserimos. Desta fonte também podemos tirar importantes lições para pensamento e exercício da liderança, a partir de história, literatura e filosofia. Incluo nesse rol o esporte, que considero uma possível forma de expressão artística. Todas essas dimensões, além, obviamente, do cotidiano, complementam e ilustram o aprendizado advindo de conceitos, resultados de pesquisas, propostas acadêmicas e observação direta, bem como da análise de casos práticos da trajetória de líderes em várias áreas de atuação.

Aqueles que já participaram de algum Programa de Desenvolvimento de Líderes promovido pela Empreenda, empresa que dirijo, já exercitaram reflexões baseadas em aprendizados sobre liderança, carreira e vida empresarial extraídos de alguns filmes, peças teatrais, exposições de arte, músicas, textos literários e eventos esportivos. Tenho convicção de que o aprendizado sobre esses temas se dá muito além da ‘sala de aula’ e da leitura de livros técnicos e acadêmicos.

Podemos aproveitar esse momento de isolamento social imposto pela covid-19 para aprofundar nossa incursão pelo campo das artes, em busca de inspiração e conhecimentos sobre liderança.

Na pintura, por exemplo, as obras vanguardistas de Tarsila do Amaral, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Claude Monet e Pablo Picasso são fontes inesgotáveis, com análises sobre a representatividade de vários de seus trabalhos. Considere ainda que a própria trajetória e comportamento desses artistas se tornaram exemplos marcantes do exercício da liderança.

A tela “Le Levant du Soleil” / “Impression, soleil levant”, de Monet, pintada em 1874-1872, foi um marco decisivo na história da pintura, inaugurando o movimento Impressionista. Já a personalidade multifuncional de Leonardo da Vinci como pintor, escultor, arquiteto, matemático e inventor o consagrou como um precursor da liderança inovadora e transformadora, tão requisitada pelo mercado nos tempos atuais.

Uma possibilidade de imersão, para quem está em casa e possui algum tempo para o ‘lazer funcional’, é visitar virtualmente alguns dos melhores museus do mundo como o Prado, de Madrid (ESP); a Galeria Ufizzi, de Florença (ITA); e o Hermitage, de São Petersburgo (RUS).

Já no teatro, peças como “12 Homens e uma Sentença” nos coloca de frente ao complexo processo decisório, incluindo a capacidade de influenciar e negociar, quando um júri popular está decidindo se condena ou não um jovem acusado de assassinato. Esta peça é baseada no famoso filme homônimo produzido em 1957, disponível nos diversos sistemas de streaming.

Outro destaque recente é o monólogo “A Sombra do Invisível”, cujo roteiro é baseado em cartas trocadas entre Van Gogh e seu irmão Theo. A peça permite um belo mergulho em aspectos da autogestão, que persiste como uma espécie de “calcanhar de Aquiles” para líderes geniais na execução de tarefas e projetos, mas vulneráveis na capacidade de liderar a si próprio.

Outras obras teatrais antigas muito marcantes no meu aprendizado pessoal foram “Galileu Galilei” e “A Morte do Caixeiro Viajante”. Também podemos assistir, em casa, vídeos de vários musicais famosos como “Ópera do Malandro”, “Rent”, “Chicago” e “Os Miseráveis”.

Obviamente, o cinema não fica atrás e pode provocar debates extraordinários no que tange temas vinculados à liderança. Tenho utilizado muito os filmes “Invictus” e “O Diabo Veste Prada”. Entretanto, destaco algumas obras imperdíveis mais recentes, de 2019, como “Dois Papas”; “Judy”, sobre uma estrela brilhante no palco, Judy Garland, enquanto vivenciava uma lua minguante na sua vida pessoal; e “Ford vs Ferrari”, com várias lições sobre competição das marcas, colaboração entre equipes, coragem, traição e dinâmica das relações familiares e sociais no campo do trabalho.

Nesse momento delicado e de escassez que atravessamos, o filme “Perdido em Marte” merece ser visto, pois relata a capacidade de resgate e da enorme pressão de tempo, além da determinação do astronauta, que foi ‘abandonado’ em Marte, para sobreviver a uma adversidade extrema. Vale refletir sobre os pré-requisitos para um turnaround, seja na economia ou nas empresas e famílias, diante do atual período de confinamento forçado.

Ainda no audiovisual, recomendo algumas séries como, por exemplo, “Succession”, na Netflix, que pode ser magistralmente complementada com a leitura ou um vídeo da peça “Rei Lear”, de William Shakespeare.

Essa forma de aprendizado, permeada pelo lazer e enriquecimento cultural, surge em várias outras manifestações da arte como dança, música e literatura. Todas são pródigas em lições para a liderança, assim como diversas modalidades do esporte. Porém, esse já seria tema para um próximo texto.

Ao ler essas sugestões, se vier à mente algum filme, peça, atividade cultural ou ideia que possa servir de fonte de aprendizado, por favor, não hesite em me provocar. Sou eterno aprendiz no tema liderança e em outros temas.

CÉSAR SOUZA – é o fundador e presidente do Grupo Empreenda, consultor e palestrante em Estratégia Empresarial, Desenvolvimento de Líderes e na estruturação de Innovation Hubs. Autor de “Seja o Líder que o Momento Exige”

OUTROS OLHARES

VERGONHA DE VOAR

Ganha força o movimento ambiental que defende o boicote a viagens de avião por causa das altas emissões de CO2

Os millennials, aqueles que hoje têm entre 20 e 30 e poucos muitos anos, fazem parte da primeira geração que cresceu e se tornou adulta sabendo dos perigos do aquecimento global. Foi a partir da década de 1980 que o tema ganhou atenção em escala mundial, embora os cientistas preocupados com mudanças climáticas já viessem se encontrando com mais regularidade desde os anos 1960. Por estarem mais expostos ao problema do que seus pais e avós, muitos desses jovens passaram a adotar medidas ambientalmente responsáveis, entre elas evitar a compra de um carro ou restringir seu uso. Mas a pregação contra a indústria automobilística, muitas vezes engajada, costumava poupar um outro setor poluente – o das empresas aéreas. Quem tem um automóvel emite, em média, 2 toneladas de carbono por ano. Uma viagem de ida e volta entre São Paulo e Paris larga 5 toneladas na atmosfera.

É essa incongruência no discurso ambiental de parte dos millennials que agora começa a mudar. Um dado entrou no radar: o setor aéreo é hoje responsável por 2% das emissões globais de C02, mas, se a demanda por voos continuar crescendo, esse percentual poderá chegar a 22% até 2050. No verão europeu, o príncipe Harry e Meghan Markle, duque e duquesa de Sussex, sentiram na imprensa e nas redes sociais a mudança de clima. Ambos foram alvo de críticas ferozes por terem usado um jato particular para ir da Inglaterra a Nice, no sul da França, onde ficariam em uma das casas do cantor Elton John logo depois de outra viagem, feita, também em jato particular, para Ibiza, na Espanha. A reação se deveu sobretudo ao fato de o casal ter publicado meses antes em sua conta no Instagram a seguinte mensagem: “Com quase 7,7 bilhões de pessoas habitando a Terra, cada escolha, cada pegada, cada ação faz a diferença”. Em janeiro deste ano, o Fórum Econômico Mundial, em Davos – a cidade nos Alpes Suíços que se transforma na meca da comunidade financeira internacional -, também foi criticado. Enquanto se discutiam os efeitos da mudança do clima sobre o crescimento da economia mundial, mais de 1.500 jatinhos e helicópteros foram usados para reduzir a distância entre aeroportos próximos até o evento.

Uma das evidências das crescentes críticas à indústria aérea é a popularização da expressão “flygscam”, que em sueco quer dizer “vergonha de voar”. Foi na Suécia que surgiu, ainda em 2017, o movimento das pessoas contra viagens de avião. Tudo começou quando o músico sueco Staffan Lindberg anunciou que ele e outros cinco amigos não frequentariam mais aeroportos. Entre eles estava a cantora lírica Malena Ernman, mãe de Greta Thunberg, a menina ativista que se tornou símbolo internacional. O medalhista olímpico Bjõrn Ferry também garantiu que só tomaria trens para participar de competições. Outras celebridades seguiram o exemplo. A hashtag #jagstannarpãmarken (fique em terra) viralizou. Em agosto, Greta Thunberg cruzou o Oceano Atlântico em uma viagem de duas semanas de barco, em vez de gastar um punhado de horas de avião, para participar da Cúpula do Clima da ONU em Nova York.

Cinco anos atrás, antes de o movimento ganhar fama, a empresária sueca Susanna Elfors criou o grupo Tãgsemester no Facebook, hoje com quase 120 mil membros. A ideia inicial, segundo contou, era permitir que pessoas de todas as idades pudessem compartilhar suas experiências de trem dentro e fora da Europa. “Políticos dos parlamentos europeu e sueco também se interessaram. Fomos para Bruxelas de trem. O ministro de Infraestrutura da Suécia se inspirou e está investindo em ferrovias no país”, disse. O grupo acabou dando origem a um livro com as histórias de viagens de seus integrantes. Há um ano, ela e seu parceiro Andreas Sidkvist abriram uma empresa para promover destinos que podem ser feitos por ferrovias. “Nossa ideia é partir do flygscam para o tagskryt (orgulho de andar de trem)”, disse. A empresária defende que as pessoas tirem férias mais perto de casa.

O que parecia ser mais uma excentricidade pode criar problemas para o setor aéreo. No encontro recente em Seul, na Coreia do Sul, da Associação Internacional de Transportes Aéreos (lata, na sigla em inglês), que reúne as principais empresas do setor, a preocupação com o flygscam era clara. “Inquestionável, esse sentimento vai crescer e se disseminar,” disse o número um da lata, Alexandre de Juniac, a uma plateia com 150 presidentes do segmento. A partir de 2020 na França, as companhias estarão sujeitas a uma nova taxa ambiental, que será aplicada sobre cada voo. As empresas alegam que a cobrança deverá afetar sua competitividade, já que não existe o mesmo tributo em outros países. Mas há discordâncias.

O presidente da aérea EasyJet, Johan Lundgren, é uma das vozes a defender que “a aviação precisa se reinventar o mais rápido possível”. “A mudança do clima é um problema de todos nós”, afirmou ele neste mês, durante o anúncio de que a empresa se tornaria a grande companhia do setor a operar todas as suas linhas com emissão líquida zero de C0 2. Uma das precursoras das vendas de bilhetes aéreos mais acessíveis na Europa, a EasyJet quer ser reconhecida pelo esforço de sustentabilidade. A partir de agora, vai compensar todas as emissões de seus voos. Além disso, assinou um memorando de entendimento com a Airbus para a pesquisa de aeronaves híbridas e elétricas. “A compensação é apenas uma medida temporária, enquanto novas tecnologias são desenvolvidas, de modo que a empresa vai continuar apoiando novas tecnologias, o que inclui o desenvolvimento de aviões híbridos e elétricos, e o trabalho voltado para reinventar e descarbonizar a aviação no longo prazo”, disse Lundgren.

A holandesa KLM também tem anunciado investimentos crescentes em projetos sustentáveis. Em 1990, criou o Centro Ambiental KLM e hoje trabalha com a estratégia de sustentabilidade “2030 e adiante”. A partir do programa Fly Responsibly (Viaje de Maneira Responsável, em tradução livre), passou a oferecer aos passageiros a possibilidade de contribuir para programas de compensação das emissões de C02 sempre que comprarem um bilhete aéreo. Os recursos vão para projetos como o de reflorestamento que tem desenvolvido no Panamá. Para os clientes corporativos, há a possibilidade de investir no Programa KLM Corporate de Biocombustíveis. A aérea ainda recomenda que os clientes usem trem, quando possível, e destaca que a viagem de avião entre Bruxelas e Amsterdã é bem mais demorada que a de trem. A empresa vai inclusive substituir um de seus voos Amsterdã-Paris por um trajeto ferroviário em parceria com a operadora franco-belga Thalys. O porta-voz da KLM Royal Dutch Airlines, Manel Vrijenhoek, garantiu que o custo da inação será ainda mais alto. “Se quisermos celebrar nosso aniversário de 200 anos (da aviação), precisamos nos tornar mais sustentáveis. Fazemos isso a partir de nossas iniciativas para reduzir as emissões de C02 em termos absolutos, mas podemos dar passos ainda maiores se o setor trabalhar em conjunto”, afirmou Vrijenhoek.

Mesmo assim, o movimento de fuga dos passageiros começa a ser notado para além das redes sociais com suas hashtags. A escandinava SAS registrou uma redução de 2% no tráfego de passageiros em 2019, enquanto a operadora do aeroporto da Suécia já fala em uma queda de 9% no número de passageiros em voos domésticos neste ano em comparação com 2018. Ambas atribuem o fenômeno ao movimento ((vergo n h a de voar”. Um dos maiores bancos europeus, o sueco Klarna Bank AB está reduzindo seus voos de negócios. Acabou com os voos de funcionários dentro da Europa e está tentando cortar as viagens mais longas. A má vontade com o aviões, no entanto, tem criado novas oportunidades às operadoras de trem, que também tentam se reinventar. Trata-se de um setor que exige investimentos maciços e cujos resultados demoram a ser vistos.

Após quase uma década, o trem-bala britânico HS2 ainda não saiu do papel. E, se isso acontecer, pode ser que só saia em 2040. Além dos protestos da população ao longo das áreas afetadas pelas linhas que comporão os ramais Londres-Birmingham e Leeds-Manchester, as estimativas para o orçamento desse projeto bilionário só fazem crescer (atualmente está em US$ 110 bilhões, segundo a mídia local). A Eurostar International Ltd. está tentando uma fusão com a concorrente Thalys em um projeto que apelidaram de Green Speed. Juntas, querem transportar boa parte dos passageiros que hoje viajam de avião e automóvel. A ideia é turbinar o número de usuários em dois terços até 2030. Já a alemã Deutsche Bahn AG tem por objetivo atrair nada menos que 200 milhões de passageiros para seus trajetos de longa distância, o que significa um aumento de 35% de seu fluxo. A empresa planeja investimentos na ordem de US$ 171 bilhões nos próximos 11 anos. A austríaca OEBB, por sua vez, aposta nos serviços noturnos entre Viena, Bruxelas e Amsterdã. Se quiserem mesmo ocupar os espaços deixados pelas aéreas, as operadoras de trem vão ter de oferecer mais do que investimentos. Cerca de um quarto dos trens de longa distância da Deutsche Bahn se atrasam. Na França, os passageiros do Trem de Grande Velocidade (TGV) têm migrado para ônibus e para as chamadas« companhias aéreas budget”, mais baratas, porque os preços dos bilhetes ferroviários são altos. Mas não tão caros quanto os britânicos. Além disso, existem 11 mil regras nacionais que atrapalham a circulação dos trens na Europa, porque levam a mais de uma parada nas fronteiras por questões técnicas ou troca de funcionários.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 04 DE JULHO

RIOS DE ÁGUA VIVA

Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva (João 7.38).

A Festa dos Tabernáculos era a mais alegre do calendário de Israel. Peregrinos vinham de todas as regiões a Jerusalém e durante uma semana habitavam em cabanas, festejando com gratidão as colheitas. Durante a festa, havia uma cerimônia muito bonita, em que o povo, liderado pelos sacerdotes, levava água do tanque de Siloé até o templo, reavivando na memória do povo a promessa da salvação. O último dia da festa era o ponto culminante. Essa procissão acontecia sete vezes no dia. E foi nesse período que Jesus colocou-se em pé e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva (João 7.37,38). Vemos aqui duas verdades preciosas. Em primeiro lugar, um convite precioso. O convite é dirigido a todos, sem distinção. É um convite pessoal e ao mesmo tempo universal para um relacionamento pessoal com Cristo. É um convite endereçado aos sedentos. É um convite que implica um rompimento com o passado e uma caminhada na direção de Jesus. É o convite da salvação. Em segundo lugar, uma promessa preciosa. Jesus oferece vida santa, abundante e esplêndida àqueles que nele creem. Para que não fique nenhuma dúvida, Jesus esclarece a maneira certa de crer nele: como diz a Escritura. Não basta crer; não basta crer como diz a igreja; não basta crer segundo o nosso entendimento. É preciso crer em Cristo como diz a Escritura. O resultado é certo: do seu interior fluirão rios de água viva.

GESTÃO E CARREIRA

SEM TRABALHO INFANTIL

É difícil encontrar alguém que não goste de chocolate. Mas há um problema por trás de sua produção que muita gente não imagina. A principal matéria-prima, o cacau é produzida por centenas de milhares de pequenas fazendas familiares e, em certos casos, envolve trabalho infantil ou de adultos com salários extremamente baixos, que em nada contribuem para a dignidade de quem planta, rega e colhe o fruto. Em 2012, a Hershey’s se comprometeu a comprar 100% de cacau certificado até 2020 e agora a companhia anuncia ter atingido sua meta. Os selos de certificação, emitidos pela Rainforest/UTZ, já podem ser vistos nas embalagens de alguns chocolates e em breve estarão em toda a linha de produtos. “É uma certificação que garante a total sustentabilidade, seja ambiental, ao evitar desmatamentos, seja social, ao respeitar aqueles que trabalham na cadeia de produção. Somos a primeira companhia global a atingir a meta de comprar 100% de cacau certificado”, diz Marcel Sacco, diretor geral da Hershey’s no Brasil e América Latina. O executivo afirma que a meta agora é comprar apenas açúcar certificado até o fim do ano.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO LIDAR COM FINAIS NEM TÃO FELIZES?

Pessoas e vínculos não são para sempre. Essa é uma verdade tão óbvia quanto difícil de aceitar. Eu, você e tudo o que construímos possui um prazo de validade. Mas, ainda que saibamos que nada é eterno, costumamos sofrer quando encaramos os finais, seja de um relacionamento, de um trabalho, de uma viagem, seja de uma vida. A dor costuma ser grande quando perdemos algo ou alguém que não estávamos dispostos a deixar para trás.

Quando ciclos terminam, normalmente sentimos um vazio interno. O tamanho desse vazio depende da situação e do impacto que ele tem sobre nós. Fins inesperados, como a morte prematura de alguém querido ou uma demissão repentina, costumam ser choques maiores. Fins esperados, como o término de um curso no exterior ou a chegada da aposentadoria podem ser planejados, e o vazio, amenizado. Porém, mesmo diante de fins “conhecidos”, nem todos se preparam. Se a situação presente estiver confortável, é comum adiar o pensamento sobre o depois. A tendência humana é agir como se o momento presente fosse eterno.

Os vazios que sentimos têm relação direta com os papéis que representamos na sociedade e que, a cada fim de ciclo, deixamos de interpretar. Imagine que, ontem, você era o CEO de uma grande empresa, marido de alguém que amava, dono de uma casa na praia e de um carro importado. E, de repente, por algum motivo fora de seu controle, deixa de ter algum – ou alguns – desses títulos. Ao perdermos papéis que nos qualificam, muitas vezes, perdemos também o rumo.

O que considero um problema é viver sempre em busca de qualificações externas, ou seja, dependendo daquilo que independe de você. Estar atrás de um emprego, um parceiro, um carro ou uma casa melhores. Essa é uma corrida infindável, porque, mesmo que consiga suprir os desejos que vão surgindo, provavelmente um dia tudo isso perderá o sentido. E aí nos deparamos com o vazio do lado de dentro.

É muito comum as pessoas não se darem conta disso até o momento em que vivem uma situação-limite, como uma doença grave. Quando o sofrimento acaba, passam a refletir: “Por que eu quero um carro do ano? Para que eu trabalho 12 horas por dia e não vejo meus filhos?”. A relação custo-benefício pode ganhar novas perspectivas.

O que poderia, então, completar esse buraco que cresce dentro de nós se as conquistas externas não têm o poder de nos satisfazer por completo? O que costumo sugerir aos meus pacientes é uma reflexão profunda sobre o que os move. Por que você levanta da cama de manhã? Não é um exercício simples – e, por isso mesmo, muitas pessoas procuram auxílio para atravessar momentos de mudança.

A psicologia incentiva as pessoas a viverem seu sofrimento e o divide em algumas fases. pelas quais a maioria das pessoas passa, nesta ordem: culpar alguém pelo fim, seja ele mesmo ou o outro; resistir ao término; negar a realidade, criando fantasias; ter dificuldade para ver sentido na vida; e, finalmente, uma fase de levantar a cabeça e dizer: “Bom, aconteceu, sofri, mas e agora? Vou começar tudo de novo”.

Depois dessa experiência de altos e baixos, vale fazer um balanço do que sobrou da experiência em você: boas lembranças, mágoas, ensinamentos? Mas a ideia não é remoer o passado com amargura e culpa. O exercício é avaliar o que aconteceu, o que poderia ter sido feito melhor, sem culpa. É a partir dessa auto avaliação que se pode extrair aprendizados e perceber o que sobrou, o que formará essa nova pessoa, agora pronta para outros ciclos.