A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O GRANDE DESAFIO

Dados sobre o crescimento de suicídio e automutilação entre adolescentes reacenderam o debate acerca da atenção dada a essa difícil fase da vida em que o processo de desenvolvimento de recursos, inclusive psicológicos, está longe de estar consolidado

A adolescência é marcada por contradições entre independência e dependência, autonomia e submissão, onipotência e impotência. Enfrentar essa fase da vida é ao mesmo tempo contagiante e aterrorizador. Os jovens passam por uma inconstância de sentimentos que variam de graus altos e baixos e é exatamente nesse ponto que devemos ter os olhos atentos. Essa variação de humor e comportamento pode levar o jovem a ter atitudes impulsivas por segundos, mas de uma gravidade extrema.

Os últimos acontecimentos nos levaram a noticiários alarmantes acerca de uma crescente onda de suicídios no mundo. Alguns especialistas apontam esse dado para uma nova febre na internet conhecida como o jogo Baleia azul. Esse é o fenômeno do momento, mas há tantos outros que podemos descrever que atraem jovens e os colocam em risco. Porém, nessa primeira análise, vou me concentrar em entender o jogo, ou melhor dizendo, sua repercussão contagiante, aterrorizando famílias com a ideia do suicídio juvenil, e para isso é preciso lançar alguma luz sobre o que significa ser adolescente nos dias de hoje.

Baleia azul, até onde podemos conhecê-lo, é um jogo de desafios crescentes. De certa maneira lembra uma gincana, estimula os participantes a ultrapassar obstáculos com progressiva dificuldade – sendo que a última prova exige maior coragem, pois é literalmente a prova de que é possível superar o medo da morte.

RITUAIS PASSADOS

Podemos considerar que o principal desafio dessa fase da vida é tornar-se adulto. Um desafio repleto de peripécias e reviravoltas, um desafio bastante exigente e de longa duração.

Em culturas diferentes das nossas, nas quais as sociedades permaneceram estáveis, o jovem é submetido a rituais de iniciação para ingressar no mundo das responsabilidades, das obrigações e dos direitos reservados aos adultos. Os jovens adentram na vida adulta à medida que se mostram capazes de vencer os desafios e ultrapassar os obstáculos propostos pelos rituais de passagem, que funcionam como provas a garantir força, competência, integridade, aptidões e competências necessárias à sobrevivência. Os rituais de passagem têm duração determinada e espaço apropriado; findo o ritual o jovem se torna, imediatamente, adulto.

Em nossa cultura não há rituais dessa ordem, não temos provas preestabelecidas, no entanto nossos jovens repetem esse padrão. No passado mais remoto eram as competições em armas da cavalaria, a pressa em servir o exército e ir para a guerra; os jogos tipo roleta-russa foram frequentes na era vitoriana como também os desafios em defesa da honra e os duelos. A juventude sempre flertou com a morte, afinal, para nos tornarmos adultos é preciso matar, simbolicamente, a criança que um dia fomos.

A adolescência, em nossa sociedade e nos dias de hoje, tende a durar muito tempo. Pode, inclusive, não terminar, pois nem todos os adolescentes tornam-se adultos no sentido de falar em nome próprio, responsabilizar-se por si, assumir e respeitar compromissos. Muitos se retiram para a “terra do nunca”, recusam-se a perder a infância, procuram retê-la, eterna e fantasiosamente. Assim, é possível entender que os videogames funcionam para os jovens como refúgios – o jogador acredita controlar o mundo. Também há os que estacionam na adolescência e não a ultrapassam, desejando viver com liberdade sem responsabilidade.

Vejamos algumas dificuldades em se tornar adulto para compreender o universo de questões que o jovem precisa enfrentar para se desenvolver.

Ele pode e deve realizar muitas ações fora do âmbito familiar, está sendo progressivamente capacitado para ter independência, muito embora não seja independente financeiramente nem responsável legal por seus atos. Algumas vezes regride, pede e exige a proteção dos pais e familiares, não se sente capaz de enfrentar as tarefas diárias e se torna novamente dependente. Outras vezes, acredita ser livre e se responsabiliza por seus atos; flerta abertamente com a independência, pode ir e vir, pode ajudar os pais nas tarefas diárias, não precisa de supervisão permanente, pois adquiriu condições para se cuidar. Quando era criança não experimentava esse tipo de liberdade, pois dependia de adultos para os cuidados pessoais e para a circulação social. O adolescente oscila entre esses polos.

Ele também vive a contradição entre submissão e autonomia. Autonomia se apresenta na capacidade de falar no próprio nome, ter ideias e sentimentos que reconhece como pertencentes ao eu, não procedentes do âmbito familiar. Estão em jogo emancipação e soberania. Implica em se responsabilizar por ações, pensamentos e sentimentos; desprender-se da família e de seus códigos. Convenhamos: muitos adultos não conseguem adquirir esse grau de autonomia. Adolescentes experimentam movimentos em direções opostas, sujeitam-se à família e clamam por liberdade.

Na infância a onipotência do pensamento é soberana. Fantasia e magia, formas de pensamento peculiares da criança, cedem lentamente espaço ao pensamento mais realista. A onipotência pode perdurar por muitos anos e está associada à necessidade heroica, revolucionária, de transformação do mundo. Jovens querem deixar sua marca no mundo, desejam ser autores de proezas, pois no âmbito familiar são realmente importantes e foram pequenas majestades, enquanto no âmbito social têm pouca importância, quando não são desprezados e/ou desvalorizados. A onipotência é mortífera, a impotência é deprimente demais. Para o adolescente é difícil perceber potência possível, ele oscila entre o tudo e o nada.

CRISE PERMANENTE

Quando somos jovens, temos a sensação de estarmos protegidos, como se nenhum mal pudesse nos acontecer. Nunca ficaremos doentes. Não vamos morrer e muito menos perder o controle. É comum o jovem esquecer que é humano e, portanto, perecível. Afinal, na maioria das vezes, se encontra no ápice da força física e da saúde. Ele não pensa nos perigos, nem na fragilidade da vida. Acre- dita que pode tudo. Seu “prazo de validade” ainda não acabou, mas, se não cuidar de si, pode ter sérios problemas, a morte, com certeza, é um desses problemas. O oposto dessa forma de pensamento é a impotência completa e o desespero. Também é nessa fase da vida que grande parte dos jovens descobre a morte e, para negá-la, pretende fama e reconhecimento. Pensar em suicídio como forma de escapar do sofrimento e das inúmeras impossibilidades da vida, fugir das responsabilidades, esquivar-se da vergonha e da desonra são muito frequentes nessa etapa e em todas as crises que enfrentamos. A adolescência é uma crise permanente. O jovem possui uma característica peculiar de ser “do contra”, e é assim que ele se constitui; até que possa ganhar um contorno próprio e se sentir alguém singular, único, ele marcará posições pela negatividade. Ser “do contra” é muito diferente de ser algo ou ser por alguma coisa afirmativa. Apenas a conquista da autonomia confere singularidade e um lugar próprio, marcado pela afirmação e positividade. Além da negatividade que funciona como uma espécie de desobediência permanente, há também a competição como ato positivo, as questões dessa forma de pensamento são: quem tem mais, quem é melhor ou maior. O inverso é: o pior, o mais fraco, o que nada tem.

Embora o jovem tenha conquistado grande dose de independência e seja capaz de lidar com situações fora do âmbito familiar, ele ainda não conquistou a autonomia. Ele procura negar a dependência dos pais e cuidadores, quer se sentir mais autônomo e mais independente do que realmente é. Assim, transgride as regras, se revolta contra a família, a ordem estabelecida e a lei. A lei deve ser entendida como um representante dos pais, que foram os primeiros a lhe impor princípios morais. O jovem questiona e não se submete. Ele quer experiências novas, intensas, experimenta drogas, bebe; grande número de acidentes de carro acontece com jovens alcoolizados. Muitos jovens nessas condições esquecem de usar proteção nas relações sexuais e se contaminam com doenças sexualmente transmissíveis, como o vírus da Aids e o HPV, ou correm o risco de engravidar.

Outra questão importante desse período é a sexualidade. Há um incremento hormonal considerável, pressão dos impulsos sexuais (medo desses mesmos impulsos), transformações físicas, mudança na aparência dos corpos; jovens podem ter relações sexuais, têm condições biológicas e certa independência, embora, muitas vezes, não tenham autonomia suficiente. Longo processo de experiência pode levá-los a desenvolver conhecimento sobre sua sexualidade e corpo; processo é acompanhado de fortes angústias, medos inomináveis e desejo incontrolável. Também pode ser seguido por explosões violentas, acessos de raiva e crueldade. Há pressão por relacionamentos amorosos, não apenas por sexo, e amor, como sabemos, é arte difícil e fugidia.

Além da sexualidade e do amor, o jovem enfrenta o “grande” mundo; está fora do âmbito protetor da família e deve se provar capaz de sobreviver sem ajuda dos pais e cuidadores. Como está em processo de desenvolvimento de recursos, que nem de longe estão consolidados, ele se utiliza, muitas vezes, mais de movimentos de fuga do que de enfrentamento de problemas. Pensamento mágico e incapacidade de compreender os perigos de certas situações andam junto com a onipotência juvenil. Nesse processo de crescente socialização, o grupo ganha grande importância, substituindo a família e impondo novos parâmetros, novos gostos e nova moda. Muitos jovens passam a dizer não para suas famílias, acima de tudo estão revoltados com o sistema, mas dizem sim e se submetem ao grupo de amigos sem pestanejar, pois temem a exclusão e precisam, mais do que nunca, do reconhecimento de seus pares – trocam a dependência familiar pela fraterna. O jovem é bastante suscetível a ser influenciado e, muitas vezes, imita os outros procurando dar contorno para sua própria identidade em formação.

Convenhamos, é muito difícil ser adolescente, tão difícil que muitos adultos esquecem boa parte desse período da vida.

ABSTRATO E ETÉREO

Hoje vivemos numa sociedade baseada na informação e virtualidade, cada vez mais dominada pela técnica e distante do saber singular. Nessa forma de organização a experiência vem sendo substituída pela ciência, pela imagem, pela comunicação. Virtualidade e tecnologia levaram a realidade a perder substância que, cada vez mais abstrata, entrou em crise. Nada é o que parece ser. Somos encharcados de informações diárias, nos sentimos perdidos e impotentes ao não discernir a verdade. Vivemos num mundo mais abstrato e etéreo onde o homem tem cada vez menos importância e acesso aos fatos. Duvidamos de tudo, não confiamos nas informações, suspeitamos da realidade. Nessas condições o homem se sente frequentemente impotente e incapaz. Surge então um novo regime em que atos substituem o pensamento. Atos intensos, violentos, como gritos de desespero frente ao estranhamento do mundo.

Ações violentas tomam o lugar do pensamento, a intensidade se transforma em prova de realidade, posto que nos afastamos da esfera da experiência. Se o mundo nos chega pela informação, e não temos como julgar qual informação é mais verdadeira, o que é real, adotamos o excesso como parâmetro de verdade. Real e verdadeiro é “o que causa”, como diriam nossos jovens. Para existir tem que “causar”.

Quando pensamento e ação trocam de lugar surge nova maneira de ser do homem e do mundo. Antigamente era assim: me sinto tenso, vou beber um cálice de vinho para relaxar. A ação era consequência do pensamento. Hoje a ação substitui o pensamento, então pegamos uma taça e nos vemos imediatamente relaxados. Dessa maneira realizamos ações e mais ações, ininterruptamente. Estamos constantemente em busca de alívio sem termos noção do que queremos aliviar e para que servem essas ações, mas são elas que nos dão a prova de que existimos, conferindo alguma substância para homem/ mundo cada vez mais rarefeito.

ATO VIOLENTO

Em Psicanálise denominamos como regime do atentado ou ato puro essa nova organização nascida na modernidade e enraizada na pós-modernidade. Nesse mundo o ato sem pensamento, o ato violento por si só é prova de realidade. É nesse mundo que jovens se inserem progressivamente.

Um mundo em que causar é existir. Que boatos não se distinguem de verdade e onde tudo pode ser real ou nada pode ser real ao mesmo tempo.

Um jogo como o Baleia azul revela o regime do atentado, um jogo que nunca foi jogado por ninguém conhecido, nem sabemos se o jogo é boato ou se existe, no entanto apavora pais e educadores. Revela a distância que temos dos fatos e das pessoas, revela que não sabemos identificar os problemas ou procuramos causas mágicas para os mesmos, causas fora da esfera de ação possível. Estamos preocupados com o suicídio juvenil porque a mídia revelou haver um suposto jogo suicida/assassino?

Os profissionais de saúde mental, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas sabem que o suicídio é um risco constante em momentos de crise.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o suicídio mata 800 mil pessoas por ano. 1,4% das mortes no mundo são por suicídio, fora os que tentam e não conseguem – acredita-se que para cada suicídio realizado há 20 tentativas frustradas, ou seja, 16 milhões de tentativas por ano.

O suicídio é a segunda causa de morte entre as idades de 15 e 29 anos. É a terceira causa de morte na adolescência. A primeira são os acidentes de trânsito; os meninos são as principais vítimas. Segundo a OMS, se não abordarmos os problemas de consumo de drogas e álcool, se não desenvolvermos projetos de prevenção, se não adotarmos políticas de redução de velocidade e de controle de consumo de álcool para quem dirige e se não melhorarmos o transporte público continuaremos com esses trágicos índices.

Ainda segundo a OMS, a depressão é a principal causa de incapacidade e doença entre adolescentes. Diversos estudos demonstram que metade das pessoas com alguma doença psicológica a desenvolveu antes dos 14 anos. Tratamento adequado e abordagem precoce podem evitar sofrimentos estéreis e mortes.

No Brasil o homicídio é a principal causa de mortes de adolescentes entre 16 e 17 anos. Morrem quase três vezes mais negros que brancos, 93% das vítimas são do sexo masculino. Esses números mostram haver uma espécie de genocídio dessa população, as causas sociais se confundem com as condições psicológicas já descritas.

Vimos que a adolescência é uma fase extremamente delicada e cheia de riscos. Inúmeros jovens pensam em morrer e ou em se matar, proporcionalmente pouquíssimos atuam com eficiência nesse sentido. Muitos deprimem e se isolam. Alguns se cortam e se mutilam e também se drogam e se arriscam. Meninas desenvolvem anorexia e transtornos alimentares com a mesma facilidade que meninos partem para ações impulsivas. As compulsões retratam a atualidade. O bulling dá a forma dos relacionamentos: humilhação e dominação imperam. Estranhamente tememos o jogo Baleia azul, enquanto deveríamos estar assustados com a realidade dos jovens a nossa volta, com os sofrimentos que continuamente negamos, porque não sabemos como ou não queremos abordá-los. Suicídio e morte não podem ser encarados como tabu. Precisamos desenvolver políticas de prevenção em saúde mental. Investir na formação de profissionais para o atendimento de jovens, famílias e escolas. Precisamos falar sobre sofrimentos psíquicos. Sobre a vontade de morrer e de se matar. Quem nunca pensou em escapar do mundo, cessar a dor? A Psicanálise criou uma forma de tratamento para acolher sofrimentos e restos inauditos. A busca por tratamento deve ser estimulada para que muitos desses jovens possam ter não apenas um futuro, mas outro futuro, futuro menos turbulento talvez, mais criativo se possível, em que prevaleçam a autonomia, a responsabilidade por si e o reconhecimento dos outros; para que se sintam sujeitos do próprio destino.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.