EU ACHO …

UMA NOVA ÉTICA DA VIDA NA TERRA PARA O PÓS-PANDEMIA

A crise da Covid-19 forçou o mundo a parar e refletir sobre o caminho que vinha tomando. De um dia para o outro, ficamos retidos em casa, mudamos radicalmente nossos hábitos e reinventamos nossa forma de viver e trabalhar.

Após o choque inicial, começaram os clamores por um “novo normal”. E passamos a ver autoridades, dirigentes de empresas e consultores a invocar a necessidade de redefinirmos o mundo que queremos depois desta crise planetária.

Passados 70 dias de isolamento, tenho me questionado como pode o mundo ter sido surpreendido com uma pandemia dessa dimensão. Como os países mais ricos não se prepararam para um evento dessa magnitude? Como podem os sistemas de saúde mundiais serem totalmente ineficazes para atender a população enferma? Tudo isto numa era de big data, da Inteligência Artificial, da robótica, da biogenética, e da nanotecnologia. Interrogo-me se as empresas não poderiam ter uma atuação mais proativa e diligente, com seus investimentos sociais, para prevenir esse cenário. Só em São Paulo, o governador João Dória arrecadou mais de meio bilhão de reais em doações privadas, das quais a EDP fez parte. Fica a pergunta: se esses recursos existiam, não poderiam ter sido usados em projetos estruturantes de saúde pública que nos preparassem para enfrentar a pandemia?

Meu olhar recai inevitavelmente sobre a “sustentabilidade”, que, segundo uma de muitas definições, “é a busca pelo equilíbrio entre o suprimento das necessidades humanas e a preservação dos recursos naturais, não comprometendo as próximas gerações”. Hoje, vemos que há uma lacuna fundamental nesse conceito, que incentiva políticas de perenidade econômica, de preservação do meio ambiente, de bom relacionamento com a sociedade e até uma perspectiva intergeracional, mas não carrega um foco explícito na preservação da vida humana. Falta-lhe a visão sistêmica necessária para encarar desafios de escala global. E esta, em particular, é uma crise que se revelará, a seu tempo, um fenômeno correlato das mudanças climáticas. David Wallace-Wells, no best-seller A Terra Inabitável, discorre sobre as “pragas do aquecimento”, estimando que o planeta deve abrigar mais de 1 milhão de vírus que o homem ainda desconhece.

Nas empresas, a sustentabilidade costuma se inserir no campo do marketing ou como extensão de uma área de meio ambiente. Não é comum ser uma área autônoma, forte, com participação diária na tomada de decisão. Pior: suas políticas são vistas como recomendações de boas práticas, não como imperativos. No entanto, a pandemia mostrou-nos que a sustentabilidade é sim uma questão “de vida ou de morte”. Por isso, é preciso fazer evoluir o conceito de sustentabilidade para o de uma nova ética da vida na Terra.

A ética, contrariamente à sustentabilidade, tornou-se um tema estratégico, que mobiliza os Conselhos de Administração e as lideranças das empresas, com a criação de diretorias, programas de compliance e códigos de conduta. Da ética emanam imperativos que as companhias cumprem rigorosamente. E este é o momento para escolhermos um novo modelo de vida na Terra para a era pós-Covid, com os princípios e valores que nortearão nossa vivência futura.

**MIGUEL SETAS é presidente da EDP no Brasil

OUTROS OLHARES

UM PROBLEMA DE COR

Vidas negras importam? Não no brasil, mostram os números e a realidade

No último país do continente a abolir a escravidão, o desbalanço entre as raças começa cedo. A depender da cor de sua pele, uma mulher grávida pode ter duas vezes mais risco de morrer no parto. Nascidos, os bebês correm o dobro de risco de perecer antes do primeiro ano de vida. Também se reflete na morte. Os dados mais recentes sobre a diferença entre a expectativa de vida entre negros e brancos, de 2011, sugerem que os primeiros vivem, em média, cinco anos a menos. Estão mais sujeitos a mortes evitáveis, aquelas que se pode prevenir por ações efetivas dos serviços de saúde. Reflete-se também nas novíssimas doenças: a morte pelo coronavírus, indicam os dados preliminares, cresce desproporcionalmente conforme a tez do paciente. E também aos assassinatos. Apesar da tendência de queda nos números globais do morticínio brasileiro, pretos e pardos são as grandes vítimas das duas modalidades que seguem em alta: o feminicídio e a morte por intervenção policial. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública do ano passado, negros somam 75,4% dos mortos em decorrência de intervenções da polícia em 2018. Também compunham mais da metade dos policiais mortos em confronto. Das mulheres assassinadas pelo machismo,6 em cada 10 são negras. A dolorosa realidade reflete-se ainda nos números do IBGE: entre 2012 e 2017, a taxa de homicídios manteve-se estável na população branca, mas cresceu entre pretos e pardos, de 37,2 para 43,4 homicídios por 100mil habitantes.

Entre o berço e o caixão, os que não carregam a insígnia da brancura estão sujeitos a uma vida de violações e privação aos direitos causadas por uma estrutura que, embora não esteja escancarada na letra da lei, se impõe sobre 55% da população por uma complexa engenharia de cores. Mais negros vivem em domicílios sem coleta de lixo (12% contra 6% dos brancos), sem abastecimento de água por rede geral (20% contra 11%,) e sem esgoto sanitário por rede coletora ou pluvial (43% contra 26%), vulnerabilidade sanitária que aumenta a exposição a vetores de doenças. São minoria entre os cargos gerenciais, e maioria entre desempregados e trabalhadores informais. Mesmo com o diploma na mão, recebem menos que os colegas brancos. Entre a safra de parlamentares eleita em 2018 para a Câmara dos Deputados, apenas 125 dos 513 se declararam pretos ou pardos. Quando se fala negro, fala-se conjuntamente das populações preta e parda no Brasil. Trata-se de uma conquista histórica do movimento negro que terminou incorporada oficialmente pelo IBGE. E se justifica por duas razões. Estatisticamente, pela uniformidade de características socioeconômicas dos dois grupos. E, do ponto de vista teórico, porque as discriminações sofridas por ambos são da mesma natureza. Ou seja, é pelo quanto são pretos que os pardos são discriminados. Em tempos nos quais o mundo pergunta se as vidas negras importam, os números brasileiros mostram, infelizmente, que aqui não. Não por falta de esforços para lidar com essa realidade. “É verdade que, para uma parte minoritária da sociedade, vidas negras não só não importam, como precisam ser ceifadas. Uma outra camada continua em silêncio, entre as muitas razões, para manter sua condição de privilégio. Mas, para nós, as vidas negras importam muito. Lutamos há séculos para mudar esse quadro”, avalia Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil. Nascida no Morro dos Cabritos, no Rio de Janeiro, Werneck formou-se em Medicina pela Universidade Federal Fluminense. Foi, durante anos, a única estudante negra do curso. “Se o racismo espolia e exclui muita gente, é natural que ele seja vantajoso à outra parte”, analisa. A chance de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é, em média, 2,5 vezes superior àquela de um jovem branco, segundo dados do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial de 2018. Além do sofrimento físico e psicológico, o morticínio mina a confiança nas instituições, amplia os gastos com saúde e implica perda de produtividade econômica, especial quando essas taxas atingem com mais intensidade a população jovem. A média de idade dos assassinados no Brasil gira em torno dos 29 anos. A face mais explícita dessa realidade dá-se nas relações com a polícia. Quando a morte vem pelas mãos do Estado, o sarrafo etário é ainda mais baixo. Um terço das vítimas tem entre 20 e 24 anos. O ápice das mortes em decorrência de intervenções policiais no Brasil dá-se aos 20 anos de idade. Em São Paulo, estado mais populoso do País, a polícia matou um negro a cada 16 horas no primeiro trimestre deste ano, segundo dados oficiais do governo paulista. Não se trata de um fenômeno isolado. Uma pesquisa da própria corporação, concluiu que, nos últimos 20 anos, o número de mortes de civis pela PM cresceu 46%. Elizeu Lopes, ouvidor das polícias do estado, minimiza: “É importante fazer uma distinção entre o agente policial e a polícia. O racismo no Brasil é estrutural, não está restrito a uma instituição. Tudo isso é consequência dos sintomas da realidade brasileira, de um processo de uma mudança estrutural que não foi concretizada”.

Na outra ponta do processo há a Justiça. Pretos e pardos são mais condenados, compõem 65% da massa carcerária brasileira, hoje calculada em mais de 800 mil detentos. O fenômeno é atribuído, em grande parte, a uma distorção trazida pela Lei de Drogas, aprovada em 2006. Ao não estabelecer parâmetros objetivos para diferenciar traficante de usuário, costuma prevalecer na hora do julgamento o entendimento da tríade formada por polícia, Ministério Público e magistrados. Um levantamento da Agência Pública mostrou que os negros são mais condenados por tráfico e com menor quantidade de drogas. A agência analisou 4 mil sentenças de tráfico em 2017. E concluiu que a maioria das apreensões é inferior a 100 gramas e que 8 em cada 10 processos com até 10 gramas tiveram testemunho exclusivo de policiais. O debate final sobre um dos artigos da lei, que trata da descriminalização do porte para uso pessoal aguarda decisão do STF. Presa em junho passado após uma controversa ofensiva do Ministério Público paulista contra movimentos de moradia popular, a cantora e ativista cultural Preta Ferreira passou 109 dias na cadeia. “Quando cheguei na prisão, vi muitas pessoas negras como eu muitas vezes condenadas sem julgamento”, relata. A experiência aproximou-a das teses do abolicionismo penal. “Só pediam pela Preta Livre, Preta Livre. Por que têm que direcionar a mim? Todos são presos políticos, quando o País não oferece educação e acesso igualitário, todos os presos são políticos”.

A onda global de protestos antirracismo provocada pela morte do norte-americano George Floyd ressuscitou um antigo debate sobre o enfrentamento à violência racista. Diante das imagens de confronto aberto entre policiais e manifestantes, levantou-se uma suposta “passividade” dos negros brasileiros em relação a uma realidade tão (ou até mais) violenta quanto à dos Estados Unidos. Por lá, o risco de um homem negro ser atingido pela polícia, segundo uma pesquisa do ano passado, é de 96 em 100 mil – mais de 2,5 vezes o risco de um homem branco. A diferença é a mesma no Brasil. Mas a corporação brasileira é bem mais letal. No ano passado, a PM teve envolvimento na morte de 5.804 cidadãos negros. Entre os norte-americanos, no mesmo período, foram pouco mais de mil. Só no estado do Rio de Janeiro, um terço desse total morreu nos últimos dois meses pelas mãos da PM, apesar da diminuição do crime durante a pandemia. O caso mais emblemático foi a morte de João Pedro Pinto, morto dentro de casa no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Em mais uma ofensiva sem nenhum planejamento ou apoio de inteligência, agentes da Polícia Civil e da Polícia Federal entraram em uma das residências da comunidade atirando e jogando granadas. Um dos tiros atingiu o menino. No Complexo da Maré, onde o coronavírus matou até agora ao menos oito moradores, o temor pela doença coexiste com o medo dos fuzis. “A juventude preta da favela deixou de viver para sobreviver”, afirma o estudante Breno Laerte, morador do complexo. Entre as táticas para evitar o pior, o jovem jamais sai sem um documento de identidade em mãos e evita reagir a abordagens policiais. Embora lamente o desdém da sociedade às mortes, ele rejeita a tese de que não se luta contra a violência policial no Brasil. “Todas as ações que estão ocorrendo nas favelas, distribuição de cestas básicas, distribuição de itens de higiene pessoal, estão acontecendo por nossa conta. Muita gente diz que o que ocorre nos EUA deve ser feito no Brasil. Está sendo feito. Tem uma galera lutando há muito tempo, mas parece que a ‘branquitude’ só enxerga isso agora.”

O caminho para o fim da impunidade é longo. Embora seja obrigatório instalar inquéritos para todos os casos, quase nunca o desfecho é a punição. “Muitas vezes não há investigação diligente da morte, fica-se restrito às palavras dos policiais envolvidos”, lamenta Daniel Lozoya, defensor público do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos do Rio de Janeiro. Há alguns anos, a CPI dos Autos de Resistência, de autoria do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) apurou inquéritos sobre mortes cometidas por policiais fluminenses. Concluiu, em 2016, que 98% dos casos eram arquivados. A realidade mudou pouco. “O sistema de Justiça criminal é marcado pelo racismo. Um policial que dispara contra um jovem negro tem na retaguarda um comandante da tropa, o secretário de Segurança, o governador. Ao lado, como dever de fazer o controle, tem o Ministério Público. Todo mundo sabe. Homicídios por policiais são homicídios cujo autor tem nome, endereço conhecido, local de trabalho conhecido, é sabido qual arma usou. Todos os elementos estão ali. O homicídio da polícia é fácil de resolver”, pontua Jurema Werneck. E não apenas no Brasil. “Na Jamaica e nos Estados Unidos é a mesma coisa.”

As diferenças entre norte­ americanos e brasileiros passam também por questões históricas. Todos os motins, revoltas e conjurações que contaram com a participação de negros, como a Balaiada e a Revolta dos Malês, foram brutalmente reprimidos, com direito a enforcamentos e corpos esquartejados expostos pela cidade. Uma reação contrária ao chamado “haitianismo”: o temor de que os negros brasileiros formassem maioria e se insurgissem como os moradores da ilha da América Central. Ao longo dos séculos, esse pavor ganhou diferentes contornos. De pavor direto passou aos intelectuais eugenistas da República, entre eles Renato Kehl, Vital Brazil e Monteiro Lobato. “Houve um movimento da psicologia que nasceu com teorias de que violência, agressão, alcoolismo, perversão sexual, todos eram problemas congênitos do negro”, explica Ale Santos, pesquisador da história da cultura negra e autor do livro Rastros de Resistência. Esse ideário, além de permear até hoje as relações raciais brasileiras, se traduziu em diversas tentativas de desarticular a formação de uma intelectualidade negra brasileira. Durante a ditadura, o regime acabou com a Frente Negra Brasileira e o Teatro Experimental do Negro de Abdias do Nascimento. Agora, o artífice dessa empreitada é Sérgio Camargo, um negacionista do racismo empossado presidente da Fundação Palmares que considera o movimento negro “escória”. “Nunca houve um rompimento direto com o racismo científico no Brasil”, pontua Santos. O trecho que previa “a emancipação lenta dos negros” desapareceu da Constituição de 1824, que não fez nenhuma menção à escravidão, cujo fim só se daria dali a 64 anos. Nos Estados Unidos, onde a abolição da escravatura veio mais cedo e por meio de uma guerra civil com a participação dos negros, os libertos puderam pensar em como se integrariam àquela sociedade. Não sem tensões. O presidente Abraham Lincoln achava que os negros não tinham lugar na América branca, e que aproveitariam a liberdade para empreender uma jornada de retorno à África. Como efeito colateral, as leis segregacionistas e o pendor separatista deram liberdade à intelectualidade negra dos EUA. No Brasil, isso só ocorreria com mais amplitude no fim dos anos 1980. Diante dessas diferenças, Santos questiona as loas brasileiras aos protestos aos moldes norte-americanos. “O Brasil tem uma tradição de chacina, de genocídios, de todas as revoltas populares. Se um negro é identificado, podem ele e os amigos ser assassinados num bar, dentro de uma favela. As chacinas da Candelária e do Carandiru são partes da história recente brasileira, é preciso se proteger de várias formas.”

Essa efervescência global nas ruas, em meio à maior crise sanitária do século, cujo impacto na economia não mostrou sua pior face, abre oportunidades únicas. Se as revoltas não duram para sempre, é fato que sempre projetam um futuro. Segundo Sílvio Almeida, presidente e advogado do Instituto Luiz Gama e atualmente professor convidado da Duke University, na Carolina do Norte, a urgência ultrapassa as tensões raciais. “É claro que essa adesão global tem a ver como poder econômico e cultural dos Estados Unidos. Mas a raiz é uma crise ampla e global, é a crise do capitalismo, é uma crise civilizatória. O gatilho é o racismo para que a insatisfação exploda”, pontua. É importante evitar, avalia, uma visão “moralizante” do racismo e atacar sua estrutura. “Não se pode aceitar o trabalho uberizado. Lutar contra ele é parte da luta antirracista, não podemos cair no papo de que não podemos ter renda mínima. As vítimas dessas mudanças têm cor, não têm? Os filtros da meritocracia são racializados”. Jurema Werneck, de sua parte, prefere não fazer apostas, mas um convite: “É preciso que mais gente se mova. Essa não é a primeira crise, e se não avançarmos, vamos entrar em outra. Corremos hoje muito mais risco do que em 2013. Todos deveriam aproveitar essa satisfação e transformá-la em luta. Ou não vai sobrar nada para ninguém”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 01 DE JULHO

A PODEROSA VOZ DE DEUS

A voz do SENHOR é poderosa; a voz do SENHOR é cheia de majestade (Salmos 29.4).

Deus faz ouvir sua voz através das obras da criação, dos lampejos da consciência, das verdades que emanam das Escrituras. Mas sobretudo Deus faz ouvir sua voz poderosa por intermédio de Cristo, seu Filho bendito. A voz de Deus é poderosa. Despede chamas de fogo, faz tremer o deserto e despedaça os cedros do Líbano. Quando Deus troveja das alturas e faz ouvir sua voz, o universo inteiro se dobra a essa poderosa manifestação. Deus falou, e tudo veio a existir. Deus criou todas as coisas pela palavra do seu poder. O poder criador está em sua voz. A voz de Deus se faz ouvir também em nossa consciência. A consciência é um tribunal interior de acusação e defesa. Deus colocou em nós a noção de certo e errado. Sempre que praticamos o pecado, uma luz vermelha acende em nosso interior. Embora o pecado tenha afetado diretamente essa noção, a ponto de uma pessoa ter uma má consciência ou mesmo uma consciência cauterizada, ainda podemos ouvir a voz de Deus através da consciência. A voz de Deus está clara nas Escrituras. A Palavra de Deus é a vontade expressa de Deus para nossa vida. Quando lemos e interpretamos corretamente a Palavra, ouvimos a própria voz de Deus. A carta aos Hebreus nos diz: Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho… (Hebreus 1.1,2a).

GESTÃO E CARREIRA

ONDE NASCE A VITÓRIA

O que há em comum entre técnicos multicampeões que forjaram times vencedores em diferentes esportes

A derrota do Brasil para a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014, por um humilhante placar que não vem ao caso, foi o ponto de partida para o livro O Algoritmo da Vitória (Planeta Estratégia, 320 págs.), escrito por José Salibi Neto, um dos fundadores da empresa de educação executiva HSM, e pela jornalista Adriana Salles Gomes. O que faltou para a vitória brasileira? Em busca de respostas, os autores pesquisaram o tema por cinco anos, com a premissa de que um dos segredos do sucesso está no técnico, o líder capaz de, por si só, aumentar as chances de vitória.

Os autores se debruçaram sobre a trajetória de 20 técnicos multicampeões em diferentes esportes e acreditam ter encontrado entre eles oito pontos em comum. Um deles é sintetizado pelo brasileiro Bernardinho Rezende, que ganhou 30 títulos no vôlei, incluindo seis medalhas olímpicas. Ao ressaltar a importância do trabalho em equipe, Bernardinho diz que ”todos os esportes são coletivos, até os individuais”. A russa Larisa Preobrazhenskaya, que transformou seu país em potência do tênis feminino, sabia identificar talentos (ela foi técnica, entre outras, de Anna Kournikova). O escocês Alex Ferguson, que comandou o Manchester United por 27 anos e conquistou 30 títulos, é exemplo de líder que sabia criar um ambiente favorável para formar um time vencedor. O americano John Wooden, o mais vitorioso técnico de basquete universitário de todos os tempos, mostra o valor do ”kaizen mental”: fazer com que os atletas controlem suas emoções e tenham equilíbrio mental.

São lições que podem ser úteis não somente nos esportes mas também para a carreira, os negócios e a vida pessoal.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O GRANDE DESAFIO

Dados sobre o crescimento de suicídio e automutilação entre adolescentes reacenderam o debate acerca da atenção dada a essa difícil fase da vida em que o processo de desenvolvimento de recursos, inclusive psicológicos, está longe de estar consolidado

A adolescência é marcada por contradições entre independência e dependência, autonomia e submissão, onipotência e impotência. Enfrentar essa fase da vida é ao mesmo tempo contagiante e aterrorizador. Os jovens passam por uma inconstância de sentimentos que variam de graus altos e baixos e é exatamente nesse ponto que devemos ter os olhos atentos. Essa variação de humor e comportamento pode levar o jovem a ter atitudes impulsivas por segundos, mas de uma gravidade extrema.

Os últimos acontecimentos nos levaram a noticiários alarmantes acerca de uma crescente onda de suicídios no mundo. Alguns especialistas apontam esse dado para uma nova febre na internet conhecida como o jogo Baleia azul. Esse é o fenômeno do momento, mas há tantos outros que podemos descrever que atraem jovens e os colocam em risco. Porém, nessa primeira análise, vou me concentrar em entender o jogo, ou melhor dizendo, sua repercussão contagiante, aterrorizando famílias com a ideia do suicídio juvenil, e para isso é preciso lançar alguma luz sobre o que significa ser adolescente nos dias de hoje.

Baleia azul, até onde podemos conhecê-lo, é um jogo de desafios crescentes. De certa maneira lembra uma gincana, estimula os participantes a ultrapassar obstáculos com progressiva dificuldade – sendo que a última prova exige maior coragem, pois é literalmente a prova de que é possível superar o medo da morte.

RITUAIS PASSADOS

Podemos considerar que o principal desafio dessa fase da vida é tornar-se adulto. Um desafio repleto de peripécias e reviravoltas, um desafio bastante exigente e de longa duração.

Em culturas diferentes das nossas, nas quais as sociedades permaneceram estáveis, o jovem é submetido a rituais de iniciação para ingressar no mundo das responsabilidades, das obrigações e dos direitos reservados aos adultos. Os jovens adentram na vida adulta à medida que se mostram capazes de vencer os desafios e ultrapassar os obstáculos propostos pelos rituais de passagem, que funcionam como provas a garantir força, competência, integridade, aptidões e competências necessárias à sobrevivência. Os rituais de passagem têm duração determinada e espaço apropriado; findo o ritual o jovem se torna, imediatamente, adulto.

Em nossa cultura não há rituais dessa ordem, não temos provas preestabelecidas, no entanto nossos jovens repetem esse padrão. No passado mais remoto eram as competições em armas da cavalaria, a pressa em servir o exército e ir para a guerra; os jogos tipo roleta-russa foram frequentes na era vitoriana como também os desafios em defesa da honra e os duelos. A juventude sempre flertou com a morte, afinal, para nos tornarmos adultos é preciso matar, simbolicamente, a criança que um dia fomos.

A adolescência, em nossa sociedade e nos dias de hoje, tende a durar muito tempo. Pode, inclusive, não terminar, pois nem todos os adolescentes tornam-se adultos no sentido de falar em nome próprio, responsabilizar-se por si, assumir e respeitar compromissos. Muitos se retiram para a “terra do nunca”, recusam-se a perder a infância, procuram retê-la, eterna e fantasiosamente. Assim, é possível entender que os videogames funcionam para os jovens como refúgios – o jogador acredita controlar o mundo. Também há os que estacionam na adolescência e não a ultrapassam, desejando viver com liberdade sem responsabilidade.

Vejamos algumas dificuldades em se tornar adulto para compreender o universo de questões que o jovem precisa enfrentar para se desenvolver.

Ele pode e deve realizar muitas ações fora do âmbito familiar, está sendo progressivamente capacitado para ter independência, muito embora não seja independente financeiramente nem responsável legal por seus atos. Algumas vezes regride, pede e exige a proteção dos pais e familiares, não se sente capaz de enfrentar as tarefas diárias e se torna novamente dependente. Outras vezes, acredita ser livre e se responsabiliza por seus atos; flerta abertamente com a independência, pode ir e vir, pode ajudar os pais nas tarefas diárias, não precisa de supervisão permanente, pois adquiriu condições para se cuidar. Quando era criança não experimentava esse tipo de liberdade, pois dependia de adultos para os cuidados pessoais e para a circulação social. O adolescente oscila entre esses polos.

Ele também vive a contradição entre submissão e autonomia. Autonomia se apresenta na capacidade de falar no próprio nome, ter ideias e sentimentos que reconhece como pertencentes ao eu, não procedentes do âmbito familiar. Estão em jogo emancipação e soberania. Implica em se responsabilizar por ações, pensamentos e sentimentos; desprender-se da família e de seus códigos. Convenhamos: muitos adultos não conseguem adquirir esse grau de autonomia. Adolescentes experimentam movimentos em direções opostas, sujeitam-se à família e clamam por liberdade.

Na infância a onipotência do pensamento é soberana. Fantasia e magia, formas de pensamento peculiares da criança, cedem lentamente espaço ao pensamento mais realista. A onipotência pode perdurar por muitos anos e está associada à necessidade heroica, revolucionária, de transformação do mundo. Jovens querem deixar sua marca no mundo, desejam ser autores de proezas, pois no âmbito familiar são realmente importantes e foram pequenas majestades, enquanto no âmbito social têm pouca importância, quando não são desprezados e/ou desvalorizados. A onipotência é mortífera, a impotência é deprimente demais. Para o adolescente é difícil perceber potência possível, ele oscila entre o tudo e o nada.

CRISE PERMANENTE

Quando somos jovens, temos a sensação de estarmos protegidos, como se nenhum mal pudesse nos acontecer. Nunca ficaremos doentes. Não vamos morrer e muito menos perder o controle. É comum o jovem esquecer que é humano e, portanto, perecível. Afinal, na maioria das vezes, se encontra no ápice da força física e da saúde. Ele não pensa nos perigos, nem na fragilidade da vida. Acre- dita que pode tudo. Seu “prazo de validade” ainda não acabou, mas, se não cuidar de si, pode ter sérios problemas, a morte, com certeza, é um desses problemas. O oposto dessa forma de pensamento é a impotência completa e o desespero. Também é nessa fase da vida que grande parte dos jovens descobre a morte e, para negá-la, pretende fama e reconhecimento. Pensar em suicídio como forma de escapar do sofrimento e das inúmeras impossibilidades da vida, fugir das responsabilidades, esquivar-se da vergonha e da desonra são muito frequentes nessa etapa e em todas as crises que enfrentamos. A adolescência é uma crise permanente. O jovem possui uma característica peculiar de ser “do contra”, e é assim que ele se constitui; até que possa ganhar um contorno próprio e se sentir alguém singular, único, ele marcará posições pela negatividade. Ser “do contra” é muito diferente de ser algo ou ser por alguma coisa afirmativa. Apenas a conquista da autonomia confere singularidade e um lugar próprio, marcado pela afirmação e positividade. Além da negatividade que funciona como uma espécie de desobediência permanente, há também a competição como ato positivo, as questões dessa forma de pensamento são: quem tem mais, quem é melhor ou maior. O inverso é: o pior, o mais fraco, o que nada tem.

Embora o jovem tenha conquistado grande dose de independência e seja capaz de lidar com situações fora do âmbito familiar, ele ainda não conquistou a autonomia. Ele procura negar a dependência dos pais e cuidadores, quer se sentir mais autônomo e mais independente do que realmente é. Assim, transgride as regras, se revolta contra a família, a ordem estabelecida e a lei. A lei deve ser entendida como um representante dos pais, que foram os primeiros a lhe impor princípios morais. O jovem questiona e não se submete. Ele quer experiências novas, intensas, experimenta drogas, bebe; grande número de acidentes de carro acontece com jovens alcoolizados. Muitos jovens nessas condições esquecem de usar proteção nas relações sexuais e se contaminam com doenças sexualmente transmissíveis, como o vírus da Aids e o HPV, ou correm o risco de engravidar.

Outra questão importante desse período é a sexualidade. Há um incremento hormonal considerável, pressão dos impulsos sexuais (medo desses mesmos impulsos), transformações físicas, mudança na aparência dos corpos; jovens podem ter relações sexuais, têm condições biológicas e certa independência, embora, muitas vezes, não tenham autonomia suficiente. Longo processo de experiência pode levá-los a desenvolver conhecimento sobre sua sexualidade e corpo; processo é acompanhado de fortes angústias, medos inomináveis e desejo incontrolável. Também pode ser seguido por explosões violentas, acessos de raiva e crueldade. Há pressão por relacionamentos amorosos, não apenas por sexo, e amor, como sabemos, é arte difícil e fugidia.

Além da sexualidade e do amor, o jovem enfrenta o “grande” mundo; está fora do âmbito protetor da família e deve se provar capaz de sobreviver sem ajuda dos pais e cuidadores. Como está em processo de desenvolvimento de recursos, que nem de longe estão consolidados, ele se utiliza, muitas vezes, mais de movimentos de fuga do que de enfrentamento de problemas. Pensamento mágico e incapacidade de compreender os perigos de certas situações andam junto com a onipotência juvenil. Nesse processo de crescente socialização, o grupo ganha grande importância, substituindo a família e impondo novos parâmetros, novos gostos e nova moda. Muitos jovens passam a dizer não para suas famílias, acima de tudo estão revoltados com o sistema, mas dizem sim e se submetem ao grupo de amigos sem pestanejar, pois temem a exclusão e precisam, mais do que nunca, do reconhecimento de seus pares – trocam a dependência familiar pela fraterna. O jovem é bastante suscetível a ser influenciado e, muitas vezes, imita os outros procurando dar contorno para sua própria identidade em formação.

Convenhamos, é muito difícil ser adolescente, tão difícil que muitos adultos esquecem boa parte desse período da vida.

ABSTRATO E ETÉREO

Hoje vivemos numa sociedade baseada na informação e virtualidade, cada vez mais dominada pela técnica e distante do saber singular. Nessa forma de organização a experiência vem sendo substituída pela ciência, pela imagem, pela comunicação. Virtualidade e tecnologia levaram a realidade a perder substância que, cada vez mais abstrata, entrou em crise. Nada é o que parece ser. Somos encharcados de informações diárias, nos sentimos perdidos e impotentes ao não discernir a verdade. Vivemos num mundo mais abstrato e etéreo onde o homem tem cada vez menos importância e acesso aos fatos. Duvidamos de tudo, não confiamos nas informações, suspeitamos da realidade. Nessas condições o homem se sente frequentemente impotente e incapaz. Surge então um novo regime em que atos substituem o pensamento. Atos intensos, violentos, como gritos de desespero frente ao estranhamento do mundo.

Ações violentas tomam o lugar do pensamento, a intensidade se transforma em prova de realidade, posto que nos afastamos da esfera da experiência. Se o mundo nos chega pela informação, e não temos como julgar qual informação é mais verdadeira, o que é real, adotamos o excesso como parâmetro de verdade. Real e verdadeiro é “o que causa”, como diriam nossos jovens. Para existir tem que “causar”.

Quando pensamento e ação trocam de lugar surge nova maneira de ser do homem e do mundo. Antigamente era assim: me sinto tenso, vou beber um cálice de vinho para relaxar. A ação era consequência do pensamento. Hoje a ação substitui o pensamento, então pegamos uma taça e nos vemos imediatamente relaxados. Dessa maneira realizamos ações e mais ações, ininterruptamente. Estamos constantemente em busca de alívio sem termos noção do que queremos aliviar e para que servem essas ações, mas são elas que nos dão a prova de que existimos, conferindo alguma substância para homem/ mundo cada vez mais rarefeito.

ATO VIOLENTO

Em Psicanálise denominamos como regime do atentado ou ato puro essa nova organização nascida na modernidade e enraizada na pós-modernidade. Nesse mundo o ato sem pensamento, o ato violento por si só é prova de realidade. É nesse mundo que jovens se inserem progressivamente.

Um mundo em que causar é existir. Que boatos não se distinguem de verdade e onde tudo pode ser real ou nada pode ser real ao mesmo tempo.

Um jogo como o Baleia azul revela o regime do atentado, um jogo que nunca foi jogado por ninguém conhecido, nem sabemos se o jogo é boato ou se existe, no entanto apavora pais e educadores. Revela a distância que temos dos fatos e das pessoas, revela que não sabemos identificar os problemas ou procuramos causas mágicas para os mesmos, causas fora da esfera de ação possível. Estamos preocupados com o suicídio juvenil porque a mídia revelou haver um suposto jogo suicida/assassino?

Os profissionais de saúde mental, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas sabem que o suicídio é um risco constante em momentos de crise.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o suicídio mata 800 mil pessoas por ano. 1,4% das mortes no mundo são por suicídio, fora os que tentam e não conseguem – acredita-se que para cada suicídio realizado há 20 tentativas frustradas, ou seja, 16 milhões de tentativas por ano.

O suicídio é a segunda causa de morte entre as idades de 15 e 29 anos. É a terceira causa de morte na adolescência. A primeira são os acidentes de trânsito; os meninos são as principais vítimas. Segundo a OMS, se não abordarmos os problemas de consumo de drogas e álcool, se não desenvolvermos projetos de prevenção, se não adotarmos políticas de redução de velocidade e de controle de consumo de álcool para quem dirige e se não melhorarmos o transporte público continuaremos com esses trágicos índices.

Ainda segundo a OMS, a depressão é a principal causa de incapacidade e doença entre adolescentes. Diversos estudos demonstram que metade das pessoas com alguma doença psicológica a desenvolveu antes dos 14 anos. Tratamento adequado e abordagem precoce podem evitar sofrimentos estéreis e mortes.

No Brasil o homicídio é a principal causa de mortes de adolescentes entre 16 e 17 anos. Morrem quase três vezes mais negros que brancos, 93% das vítimas são do sexo masculino. Esses números mostram haver uma espécie de genocídio dessa população, as causas sociais se confundem com as condições psicológicas já descritas.

Vimos que a adolescência é uma fase extremamente delicada e cheia de riscos. Inúmeros jovens pensam em morrer e ou em se matar, proporcionalmente pouquíssimos atuam com eficiência nesse sentido. Muitos deprimem e se isolam. Alguns se cortam e se mutilam e também se drogam e se arriscam. Meninas desenvolvem anorexia e transtornos alimentares com a mesma facilidade que meninos partem para ações impulsivas. As compulsões retratam a atualidade. O bulling dá a forma dos relacionamentos: humilhação e dominação imperam. Estranhamente tememos o jogo Baleia azul, enquanto deveríamos estar assustados com a realidade dos jovens a nossa volta, com os sofrimentos que continuamente negamos, porque não sabemos como ou não queremos abordá-los. Suicídio e morte não podem ser encarados como tabu. Precisamos desenvolver políticas de prevenção em saúde mental. Investir na formação de profissionais para o atendimento de jovens, famílias e escolas. Precisamos falar sobre sofrimentos psíquicos. Sobre a vontade de morrer e de se matar. Quem nunca pensou em escapar do mundo, cessar a dor? A Psicanálise criou uma forma de tratamento para acolher sofrimentos e restos inauditos. A busca por tratamento deve ser estimulada para que muitos desses jovens possam ter não apenas um futuro, mas outro futuro, futuro menos turbulento talvez, mais criativo se possível, em que prevaleçam a autonomia, a responsabilidade por si e o reconhecimento dos outros; para que se sintam sujeitos do próprio destino.