A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IDENTIDADE E SENTIDO PARA A ALMA

O arquétipo trickster pode ser definido como um elemento que integra o inconsciente coletivo, representado por personagens da mitologia, do folclore, da literatura, da poesia, do teatro e do cinema

“O que nos reserva o futuro?” É com essa indagação que Carl Gustav Jung inaugura as linhas de Presente e Futuro (Jung, O. C., Vol. X/I§488). O pensador de Zurique lembra que, em momentos de profundas interrogações políticas e incertezas econômicas e espirituais, como o atual, o ser humano volta seus olhos para o futuro. Como Zaratustra, com seu “desejo de eternidade”, vive-se o impulso, resgatado pela poesia de Rimbaud, de “atravessar o limiar de uma consciência ordinária, a fim de atingirmos o tesouro cuja existência pressentimos no fundo”.

A importância de se trazer a contribuição do arquétipo do trickster para, a partir dele, falar sobre subversão não violenta, mediação de opostos, identidade e sentido no âmbito da cura da alma brasileira diz respeito ao diálogo que esse arquétipo propõe com todas as estruturas narrativas, as formas de socialização e os modos de subjetivar que, mesmo esgotados e reduzidos a estereótipos, ainda guardam, em sua essência, o gérmen do novo e a possibilidade do recomeço.

O trickster é uma das “pessoas psicológicas” que compõem o inconsciente coletivo, encarnado por personagens de inúmeras histórias da mitologia, do folclore, da literatura, presente na poesia, no teatro, no cinema e nas produções da cultura criativa em geral. A essas imagens pode-se chamar arquetípicas, posto que elas remetem às “representações simbólicas da psique total, entidade maior e mais ampla que supre o ego da força que lhe falta”. É importante salientar que, para Jung, toda afirmação sobre o arquétipo deve ser feita a partir da riqueza polissêmica das metáforas e dos símbolos, já que os arquétipos “pertencem à autocontradição interna e à duplicidade das metáforas míticas […]; são incognoscíveis econhecíveis através de imagens”. Assim, o que se conhece do arquétipo é o seu numen, isto é, a energia emanada do arquétipo que o atravessa e a consequente modificação fruto de seu impacto sobre a consciência.

Nesse ponto depara-se com uma importante sensibilidade poética e um giro epistemológico notável por parte de Jung. É importante lembrar que o pensador suíço lida com as fantasias arquetípicas do inconsciente coletivo já em seu cotidiano psiquiátrico no hospital de Burghölzli, na Suíça, validando assim seu percurso teórico com pacientes esquizofrênicos e, desse modo, evidenciando uma de suas maiores contribuições à chamada Psicologia Analítica, qual sejam, o caráter e a concepção estética e criadora de imagens que caracterizam a atividade da psique. A possibilidade de socialização dos pacientes psiquiátricos, na visão de Jung, estava baseada em uma ética do cuidado que favorecesse a comunicação e o acolhimento dessas fantasias e delírios, em relação com a cultura e sociedade.

Ao desenvolver a noção de arquétipo, inspirada nessas possibilidades “poiéticas” e mitológicas percebidas em seus pacientes de Burghölzli, Jung definiu o termo como um substrato psicológico comum a toda humanidade, procurando assim confrontar e ressignificar o já estabelecido literalismo e o consequente estigma da loucura que ele ativa. Suas premissas teóricas estão fundamentadas na experiência empírica e inspiradas em consistentes categorias filosóficas, mas ganham profundidade e potência quando sentidas a partir da realidade poética, simbólica e metafórica da psique.

Além dessa concepção mitopoética, prospectiva e homeostática da psique, também é importante frisar que, para a Psicologia Analítica, os arquétipos pertencem à esfera da psique objetiva (inconsciente coletivo), enquanto os complexos são representações mentais unidas por experiências afetivas de intensa carga emocional para o indivíduo, fazendo parte da psique subjetiva, isto é, do inconsciente pessoal.

INTERSECÇÃO

Há aqui um ponto de encontro interessante, entre o complexo e a possibilidade de análise de características culturais e intersubjetivas de um grupo ou país, já que “a origem do complexo é frequentemente o que se chama de trauma, um choque emocional ou algo parecido, através do que uma parcela da psique é ‘encapsulada’ ou se cinde”. Abre-se então a possibilidade hermenêutica de pensar acerca de alguns fenômenos em termos de complexos culturais, estando sua gênese relacionada a traumas coletivos e situações que ainda não foram reparadas socialmente ou psicologicamente elaboradas. No caso, no Brasil, podemos falar dos miasmas gerados pela colonização, a escravidão e os traumas impostos à formação da identidade cultural brasileira, constituída a partir do preconceito tomado como norma, do etnocentrismo como imposição da verdade do colonizador, do jeitinho do colonizado como resposta que improvisa saídas tanto quanto perpetua a corrupção como modus vivendi e operandi. Alguns exemplos dos traumas persistem constelados, atuando como poderosos complexos culturais na psique coletiva brasileira.

Dessa forma, deve-se evocar uma leitura simbólica do arquétipo do trickster baseada fundamentalmente nas contribuições de Carl Gustav Jung e seus continuadores, propondo assim um movimento subversivo-criativo, uma reflexão construtivo-destrutiva, necessários para reparar o tecido da relação europeu/índio/negro cristalizada e verticalizada no Brasil, e também para que afirme uma identidade cultural e uma cidadania plena e responsável, para além do “jeitinho brasileiro”. A essência da subversão aqui proposta, figurada pelo arquétipo do trickster, relaciona-se com a necessidade de amadurecer uma consciência comunitária, baseada na preservação -inovação criativa de nossas qualidades mestiças. Desse modo, seriam ressignificados os aspectos seculares de nossa psique coletiva, por meio de uma proposição que equilibre os aspectos polares, desde sempre dissociados pelos dualismos reducionistas da realidade. O pragmático em diálogo com o lúdico, o místico com o heroico, o lógico com o mágico, o cômico com o trágico instaurariam uma trajetividade que poria em movimento o cotidiano, o qual seria assim inseminado com uma visão de mundo muito própria dos ritos, tradições festivas e folclóricas do Brasil, na busca de um imaginário de superação e reparação.

O trickster é um personagem que, no contexto das narrativas em que irrompe como elemento de mediação, não aceita submissão, tampouco o culto ao cinismo convencional, muito menos investe na manutenção das personas sociais, do indivíduo entregue ao dissimular-se em aparências ou discursos puramente retóricos. Falar desse arquétipo é estar alinhado com o seu numen de mudança, baseado em autenticidade, autonomia, integridade e liberdade. As características muito próprias do trickster são sistematicamente banidas das sociedades totalitárias em geral, por serem elementos de forte questionamento da sujeição do indivíduo ao coletivo, da homogeneização dos discursos e práticas. O humor, característica essencial do trickster, é sumamente malvisto nesse modelo de sociedade rigorosa, séria, unilateral, paranoica e produtiva. Como escreve Todorov, “uma das tarefas mais difíceis (nesse modelo social) é manter o senso de humor – sinal de distância com relação à autoridade e, portanto, de autonomia”. 

ROMPIMENTO

O trickster é retratado, nas histórias tradicionais, como um personagem capaz de romper automatismos alienantes e de promover insights profundos que conduzem à mudança significativa. Em muitas narrativas da mitologia universal, ele é representado por personagens zoomórficos, tais como corvo, coiote, lebre ou hiena, isto é, animais cujas qualidades não são a força ou a ferocidade ou violência, mas a mobilidade, a astúcia e a leveza. No Brasil, ele aparece representado por personagens bem conhecidos, como os folclóricos Saci Pererê e Pedro Malasartes. O trickster é essencialmente um questionador, um outsider que, dotado de muita energia e dinamismo, sempre convida os personagens mais convencionais à desnaturalização de suas condutas e à sensibilização quanto a temas estabelecidos a priori. Mesmo a incoerência de um momento histórico é explicitada por tricksters sumamente famosos, como o Carlitos, de Charles Chaplin, o Macunaíma, de Mário de Andrade, e a dupla João Grilo e Chicó, de Ariano Suassuna. Sua função psicológica na narrativa também é a de conscientizar egos inflados e fixados na pobreza do literalismo conceitual, a exemplo da personagem do conto dos Irmãos Grimm, que se sente livre para afirmar, contra todo o senso comum, que “o rei está nu”. As trapalhadas e confusões que emergem desse personagem marginal e questionador são derivadas de seu caráter mediador e, por isso, seu movimento é filho da revelação imaginativa e do erro propositivo, sendo, em última instância, de caráter restaurador. Como linha de força desse arquétipo, movendo-se para além das percepções racionais do ego heroico, pode-se dizer que seu maior compromisso seja o de revelar o sentido real das coisas, para além das representações, oportunismos, dualismos e estratégias de manipulação.

O alívio que esse personagem promove nas narrativas que descortinam contextos emocionalmente engessados ou estéreis relaciona-se com sua habilidade de oferecer, pela via do lúdico, do inusual e do cômico, uma resposta de transformação adequada, porém, muitas vezes imprevista e brusca, embora raramente violenta, já que esse anti-herói sombrio está intimamente ligado ao discurso desviante e anti-hegemônico, com o flanar de asas que nos leva para longe de conexões esgotadas e das verdades consagradas.

A importância do estudo dos mitos, artes, religiões, filosofia e disciplinas ascéticas para a Psicologia Analítica é que, além de configurarem linguagens próprias da totalidade psíquica, estes são instrumentos que ajudam o “indivíduo a ultrapassar os horizontes que o limitam e a alcançar esferas de percepção em permanente crescimento”. Ao resgatar a função primária da mitologia e dos símbolos, a Psicologia Analítica oferece a plataforma para atingir o tesouro mencionado, enquanto auxílio arquetípico efetivo e impulso para tirar da potência os atos que ainda aprisionam em estruturas titânicas de dominação, repressão, unilateralismo, literalismo e poder. É preciso liberar o presente para ser vivido aqui e agora e, somente a partir da experiência, imaginar outros futuros. Assim como também é preciso trazer à tona os tensionamentos, de modo a gerar revisões e subversões criativas a temas cristalizados, permitindo assim que o cotidiano seja renovado a partir de energias ainda não experimentadas e de motivações mais profundas e coesivas.

A poesia do trickster é sua destruição. Como Shiva, o terceiro deus de trimurte hindu, ele está sempre se dissolvendo, recomeçando e fluindo. No trickster, nada engessa ou cristaliza, tudo se movimenta e se revela num continuum que é a própria vida. Em resposta ao saber fálico e hierárquico das compreensões unilaterais, o arquétipo do trickster convida para outras, nem sempre novas, mas sempre renovadoras, perspectivas e olhares: eis a autorização de um saber que experimenta, inova, articula e regride, quando necessário, superando a insistência num saber que analisa, abstrai e teoriza e num pensar compulsivo e autorreferente, que atrofia as demais funções psíquicas da consciência. Cabe lembrar do “samurai malandro”, o poeta Paulo Leminski, que encarnou um trickster pulsante, na roupagem mista, mestiça e não polarizada de sua “tropicalidade-zen”. Ele que não excluiu nenhum dos opostos, muito menos fixou a consciência nos extremos radicalizantes que o ego impõe como visão de mundo. Esse poeta soube seguir “sem demagogia, com amor e humor, talento e lucidez […], abrindo caminhos na selva selvagem da linguagem, no repertório caótico de nossas cabeças cortadas […]”.

Captando o empobrecimento da vida interior do homem contemporâneo, Jung assevera que a readaptação da existência humana a novas demandas éticas e existenciais deve ser baseada em uma cosmovisão que restaure os símbolos genuínos do desenvolvimento humano, além de integrar e direcionar os fluxos da energia instintiva, superando os pressupostos teóricos que impõem uma compreensão unilateral do homem.

Sugere Leon Bonaventure, na introdução de As Conferências de Tavistock, que Carl Gustav Jung estava assentado sobre uma sólida tradição filosófica e mística, subvertendo o caminho da Psiquiatria convencional da explicação do normal pelo patológico e por outro lado afirmando uma Psicologia fundamentada pelo arquétipo do centro, baseada numa atitude fenomenológica de descrição das realidades fundamentais da alma humana e na experiência viva e empírica do processo de individuação. Bonaventure destaca ainda que Jung pode ser facilmente considerado como um continuador da tradição humanista de pensamento, aquela que é comprometida com o Mysterium Animae, o mistério da alma.

TRADIÇÃO SÓLIDA

Deve-se a inúmeros continuadores do pensamento de Jung a articulação da abordagem junguiana com os acontecimentos históricos e culturais do Brasil. Entre eles estão Roberto Gambini e Eliana Atihé, ambos em busca de compreender e afirmar que o cerne vivo de uma nação é seu manancial imaginário e o acervo simbólico ativo e dinâmico de sua cultura. Disso emerge a compreensão de que a consciência mítica não é um epifenômeno de representações sociais, mas sim a pedra angular de qualquer grupo social ou país. Resguardada como possibilidade de encontro com essa “alma do mundo” revitalizadora, a ressonância poética dos nossos símbolos genuínos e das imagens arquetípicas que eles figuram serve como fator de equilibração psicossocial e também como forças de reparação da alma de um povo, de um país, de um mundo.

Esses e outros pensadores ajudam na difícil missão de ressignificar a história para, ao colocar o “Brasil no divã” ou subverter as narrativas, despertar a alma individual para a reemergência de um modo mais integrado de conhecimento e experiência, em que razão e intuição dialoguem em favor da totalidade. Desse modo, buscando compreender os movimentos da alma brasileira em seus sofrimentos, conflitos e dificuldades, bem como suas alegrias e prazeres, com a sombra e a luz sempre entrelaçadas, espera-se ativar algumas das possibilidades criativas e prospectivas que encaminhem para a superação das contradições que imobilizam, no sentido de viver o paradoxo que verdadeiramente todos somos.

A irreverência do arquétipo do trickster revela um modo de evidenciar aquilo que poucos observam, criticando os valores, os radicalismos e excessos que impedem o estabelecimento de uma ordem moral, cultural e política que sirva, de fato, à união dos opostos com vista à totalidade e não à dissociação, ao conflito crônico e à desintegração, por outro lado propiciando a “libertação da consciência do fascínio do mal, não sendo mais obrigada a vivê-lo compulsivamente”.

Eis afinal o trickster como o arcano sem número do Tarot, inspirando dissoluções sem retorno, destruindo para possibilitar a reconstrução a partir de outras soluções e alternativas, apagando velhos caminhos e abrindo novos. O arquétipo da delação premiada, da indignação política, da reunião dos opostos aparentemente inconciliáveis, aquele que convoca, com sua astúcia, com sua inteligência não racional, com sua visão bilateral e com os esculachos que ridicularizam os poderosos de todas as lateralidades possíveis, a força para transformar e as oportunidades para ampliar a consciência, no sentido de integrar a sombra excluída que parasita a todos. Afinal, para o trickster, a mudança é só uma grande brincadeira.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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