EU ACHO …

O VALOR DA INTUIÇÃO

Seríamos nós mais marcados pela determinação do que imaginamos? Somado à filosofia e à literatura, o conceito de intuição de Henri Bergson nos remete à construção da liberdade, criatividade e inventividade

O século XIX é reconhecido como aquele em que ocorreram amplas transformações, principalmente nas ciências.

Foi no século XIX o grande acontecimento da invenção da fotografia que daria continuidade à reprodutibilidade técnica. Grandes movimentos artísticos e literários potencializaram, mais do que nunca, os movimentos de vanguarda que aconteceriam nas primeiras décadas do século XX.

No entanto, na área das ciências, o século XIX foi marcado por uma atmosfera determinista por inúmeros caminhos. Bergson, Freud, Marx e tantos outros pensadores importantes devem ser, entre outras coisas, vistos como aqueles que deram aberturas tão necessárias aos espaços do indeterminado, e com isso os ventos de uma liberdade sopram, finalmente, por todos os lados.

Henri Bergson (1859-1941) foi um pensador que buscou, de todas as maneiras, um profundo diálogo entre a filosofia, as ciências e a literatura. Sua vasta e profunda produção é composta de conceitos muito importantes. Na verdade, determinantes para que possamos entender melhor este vasto universo que habitamos. E mais importante do que isso: Bergson é o filósofo das paixões alegres, por lembrar Espinoza. O filósofo francês é aquele pensador que potencializa o ser humano. Que acredita no pensamento inventivo e criativo. E até que somos seres inesgotáveis em busca de objetivos que realmente tragam uma atmosfera menos asfixiante para este mundo tão cheio de conflitos, inclusive, os existenciais.

EXISTÊNCIA DO TODO

Um dos conceitos mais importantes propostos por Bergson é o da intuição. Intuição para Bergson não é o de senso comum. Ou seja, ligada a um vago pressentimento ou coisa parecida. Intuição para Bergson é, sobretudo, duração. Duração tem a ver com a fundação ontológica do ser. Está ligada à memória e temporalidade. Intuição faz parte do processo de raciocínio que, realmente, nos leva a pensar no que existe de mais profundo. Intuição significa, para Bergson, liberdade. E como ele fundamenta tudo isso?

Bergson é um metafísico que, no entanto, não oferece certezas. Mas, como bom pensador, nos coloca perspectivas possíveis para serem refletidas e questionadas. Um ponto importante que diz respeito à intuição é a sua concepção de cosmologia. Aquela, na realidade, que antecede qualquer proposição. Para Bergson existe um todo. O todo está dado. No entanto ele é aberto! O que isso significa? Que, segundo ele, habitamos um universo cheio de determinações por, necessariamente, nos lembrarmos de Peirce. Ou seja, somos seres muito mais marcados pela de­ terminação do que imaginamos, assim como os elementos que nos cercam.

Quando nascemos, muitas coisas já estão determinadas sem que tenhamos, conscientemente, interferido. Um elefante hoje continuará, tudo indica, a ser um elefante no dia de amanhã. Uma flor não se transformará em uma abelha. O mundo que nos permeia precisa das constantes e das invariáveis. Enfim, se prestarmos atenção veremos que o universo é muito mais determinado do que imaginamos. Um mundo sem determinações seria totalmente caótico! No entanto, de acordo com Bergson, existem as indeterminações. Ou seja, os espaços em que podemos construir nossa liberdade, criatividade e inventividade.

TEMPO DAS MULTIPLICIDADES

Mas afinal como Bergson fundamenta a intuição? Nas felizes reflexões de Deleuze, inseparável das leituras de que possamos fazer de Bergson, intuição é uma espécie de método que ele aplica à sua própria filosofia. Tem como fundamento a duração. Duração refere-se, primordialmente, ao tempo subjetivo. Incomensurável. Tempo qualitativo. A duração diz respeito a um tempo que o ser humano não tem como medir. O tempo dos relógios é implacável, obedece a uma cronologia. O tempo enquanto duração é o tempo das multiplicidades, embora seja indivisível. Atravessa o ser humano de acordo com suas experiências e sensações plenamente individuais.

Nas palavras de Bergson: “A verdade é que a filosofia não é uma síntese das ciências particulares e que se ela muitas vezes se coloca no terreno da ciência, às vezes abarca em uma visão mais simples os objetos de que a ciência se ocupa, não o faz intensificando a ciência, não o faz levando os resultados da ciência a um grau mais alto de generalidade. Não haveria lugar para dois modos de conhecer, filosofia e ciência, se a experiência não se apresentasse a nós sob dois aspectos diferentes: por um lado, sob forma de fatos que se justapõem a fatos, que se repetem aproximadamente, que se medem aproximadamente, que se desenrolam enfim no sentido da multiplicidade distinta e da espacialidade, e, por outro lado, sob forma de uma penetração recíproca que é pura duração, refratária à lei e à mensuração”.

Veja-se que Bergson coloca em xeque o quanto as ciências desprezam as relações humanas em face de algum objeto. Não somente um objeto de pesquisa. Mas tantos outros. Justamente porque as ciências jamais foram capazes de nos dar algo em si mesmo. Escapou às ciências a interioridade humana. O grande argumento de Bergson é mostrar, pelo conceito de duração, que somos seres separados das coisas. Na verdade, rigorosamente falando, somos exilados de nós mesmos. Visto que somos existencialmente interiores ao tempo, por lembrarmos as condições a priori de Kant. O conceito de duração busca mostrar que jamais temos uma relação direta com o que quer que seja. Escapamos de nós mesmos pelo tempo.

CONSTRUTORES DE LIBERDADE

Por sua vez, os grandes escritores, destacadamente, Proust, vai ao encontro do conceito de duração de Bergson quando mostra que nosso passado é inseparável de nós e ao mesmo tempo é ele que nos identifica pela memória. Na verdade, se comparados com um cavalo que galopa senhor absoluto de sua liberdade sob um presente não desdobrável e consegue flutuar pelos ares, perceberemos o quanto a condição humana é paradoxal. Somos seres condenados, permanentemente, a construir nossa liberdade, como diria o bom e velho Sartre!

ANA MARIA HADDAD BAPTISTA – é graduada em Letras. Possui mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pós-doutoramento em História da Ciência pela Universidade de Lisboa e PUC/ SP. Autora de diversos livros publicados no Brasil e no exterior. Atualmente é pesquisadora e professora da Universidade Nove de Julho em São Paulo.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.