OUTROS OLHARES

A HORA DA PROVA

Em quarentena, milhões de crianças estão sendo avaliadas longe do olhar vigilante do mestre. O sucesso da empreitada vai depender do nível do teste.

A hora da prova costuma ser cercada de ansiedade, cada aluno calibra à sua maneira o incômodo. Na véspera, desenrola-se a clássica corrida para sanar dúvidas, seguida da tensão daquele momento em que se está frente a frente com o tão temido teste no silêncio da classe. Agora, com a quarentena, todo esse rito está sendo vivido de forma inteiramente diferente por milhões de estudantes no país – e com todos os desafios que a distância da escola impõe. Primeiro não há professor a postos na tradicional situação de vigilância, como se estabeleceu desde que os pioneiros colégios jesuítas foram plantados no Brasil. Cabe aos alunos, portanto, decidir se levam a prova a sério ou se cedem à tentação natural de copiar as respostas do livro ou obtê-las nos mais efervescentes do que nunca grupos de WhatsApp. Para os pais, sobretudo de crianças menores, fica o papel de dar uma força para que o processo transcorra de modo que a avaliação preserve sua função original: medir o que cada um verdadeiramente sabe.

A breve experiência já aponta a complexidade de a criançada manter esse tipo de disciplina sem estímulos externos. Longe do olhar atento dos mestres uma turma está convertendo a avaliação numa atividade em grupo, em que as respostas são amplamente compartilhadas e checadas na internet. “Aqui em casa a prova foi comunitária, com debate nas redes”, reconhece a mãe de filhos de 12 e 15 anos, matriculados em um tradicional colégio do Rio de Janeiro, que preferiu não se identificar. “Prevejo um monte de notas altas que não condizem com a realidade de uma escola tão exigente”, ela alerta. Ouvida pela reportagem, uma tia conta que resolveu dar uma mãozinha a duas sobrinhas nos testes de química e física. ”A mudança com a pandemia foi drástica repentina. Acabei colaborando para reduzir o estresse delas num momento em que isso não me parece fazer sentido”, sustenta sua posição.

São amostras de casos da vida seria real que fazem refletir sobre qual seria o caminho mais eficiente e honesto de testar toda uma geração confinada. A maioria dos educadores é a favor da preservação dos exames, mesmo que nas condições adversas atuais, e até enxerga na resolução coletiva, digamos assim, das provas um lado bom. “Ao consultarem um livro ou um amigo, os estudantes estão correndo atrás de respostas, exercitando a capacidade de pesquisa em algum grau e pondo o cérebro para funcionar”, diz Katia Smole, diretora do Instituto Reúna e ex-secretária de Educação Básica do MEC. Isso, que fique claro, quando não praticam a cola pura e simples. Alunos do 8º ano do colégio Pueri Domus, de São Paulo, Gabriel e Maria Eduarda Costa, gêmeos de 12 anos, receberam orientações sobre que espécie de consulta seria válida: eles podem ler de tudo onde bem quiserem, mas nunca usar o ‘corte-cole’ de textos prontos. “A gente precisa aprender a administrar liberdade e responsabilidade”, comenta Gabriel, com jeito adulto. A mãe, Ana Paula, revela: “Eles achavam que seria fácil, que copiariam tudo do Google, mas estão tendo de estudar duro para resolver provas talvez até mais complexas”.

A temporada de avaliação em casa enfatiza a ideia de que, quanto maia elaborada ela for, melhor termômetro será para a escola, que assim ficará sabendo quanto de conhecimento vem sendo assimilado nestes tempos para lá de atípicos. “Se as perguntas forem de múltipla escolha, dessas que você acha a resposta, na internet, sem análise crítica é sinal de que não são adequadas para este período de quarentena nem para depois dele”, afirma Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV. São as questões discursivas, que exigem de crianças e adolescentes que percorram um raciocínio completo e o desenrolem no papel com as próprias palavras, as mais adaptadas a estes tempos.

Vêm-se muitas tentativas nesse sentido por aí. No Colégio Bandeirantes, Em São Paulo, as provas de literatura pedem que o estudante discorra sobre livros e seus autores. Os professores valorizam a singularidade nos textos. ”Ficamos atentos às similaridades no padrão das respostas e, quando está claro que um aluno copiou do outro, anulamos sua nota” explica a diretora pedagógica Mayra Lora. Vários colégios já usam como apoio para frear a cola softwares que caçam semelhanças inequívocas entre as provas e averiguam o tempo que os estudantes as resolvem – se for compatível com a realidade, haverá aí um indício de que a solução não foi para o valer. Alguns ainda optam por deixar os alunos sob o monitoramento de câmeras enquanto se debruçam sobre os exames.

Recém-publicada pela Unesco, uma pesquisa em 84 países mostra que 58 deles recomendaram o adiamento das avaliações e 22 preferiram seguir em frente – o Brasil entre eles à exceção, principalmente, de algumas redes públicas, dadas a “vulnerabilidades de escolas e famílias que às vezes nem acesso ao ensino on-line têm. Certas nações, que já contam com um sistema diversificado de avaliações, não estão aplicando testes, mas trabalho e projetos. É o caso da Finlândia, referência global na sala de aula que caminha sobre uma trilha sofisticada. “A criança executa o projeto depois precisa explicá-lo muito bem explicado ao professor”, relata Marjo Kyllonen, à frente da gestão das escolas na capital, Helsinque. Só poderemos aferir mesmo o patamar de cada aluno quando a vida voltar ao normal”, atenta o professor de matemática Leandro Freitas, do Colégio Liessin, no Rio de Janeiro. Ele e outros estão se esmerando para formular melhor suas provas. Tomara que esse esforço permaneça quando a pandemia passar.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

2 comentários em “OUTROS OLHARES”

  1. Eu achei que as escolas estavam fechadas, mas todo mundo conversa pela internet, então podem estudar também por ela, nada impede.
    Eu fazia um curso de teclado presencial, mas quando tudo começou no Brasil, a escola fechou, e passei a fazer aulas individuais, por Skype, já conversava mesmo com amigos por Skype, mas estudar em casa, no momento, sozinho, mesmo que tenha pedido mais metas ao professor, não venho conseguindo. No dia das aulas, normal. Interajo bem, mas nos momentos que estou somente eu, sem ânimo, muito desmotivado. Mão direita normal, toco minhas músicas, mas à esquerda segue sendo o problema, independência ainda é o problema.

    Curtido por 1 pessoa

  2. É verdade… O fato é que precisamos primeiro nos disciplinarmos para, então, iniciarmos este hábito. Em 2008, quando iniciei a Faculdade de Administração de Empresas, as Universidades particulares estavam iniciando a implantação do Ensino à Distância. No início achei bastante difícil a adaptação ainda que as matérias on-line eram apenas 20% do curso…Hoje, voltando no tempo, vejo que a adaptação não é tão difícil, haja vista o crescimento do uso da internet tenha crescido imensamente em comparação com esta época.
    O que nos preocupa hoje é a falta de tempo dos pais para disciplinar os filhos em casa, deixando aos mestres a tarefa de dar continuidade. ( E pensar que a 1 ano e meio se debatia a adaptação ao homeschooling. Alguns dos pais que embarcaram na ideia são os que hoje reclamam da ausência dos filhos nas salas de aula…) Isto sim, é bastante irônico o que uma pandemia faz com as pessoas…

    Curtir

Os comentários estão encerrados.