EU ACHO …

ELOGIO, ASSÉDIO E O PRÓXIMO ELEVADOR

Elogio, assédio e o próximo elevador

Uma amiga psicanalista que mora há alguns anos nos Estados Unidos conta que já ouviu, de mais de um homem, um relato curioso: eles evitam entrar no elevador com uma mulher que esteja sozinha. Esperam pelo próximo, com medo de que uma palavra, um gesto ou um olhar mal colocado naquele curtíssimo espaço de tempo entre o andar A e o andar B possa ser confundido com assédio.

É um exagero, sim (e bem americano…). Mas em um mundo de fronteiras cada vez mais borradas, não é difícil entender que os homens estejam confusos sobre o comportamento adequado diante de uma mulher, em especial nos ambientes de trabalho, em que a revolução de costumes é profunda e continua acontecendo. Muitos se explicam dizendo que não sabem mais sequer como elogiar uma colega, não importa onde cada um esteja no organograma. E, mesmo com todos os cuidados, acham sempre que estão errando.

Olhar de perto um caso que movimentou o LinkedIn na semana passada pode ajudar a entender onde.

Uma mulher que trocou de emprego resolveu fazer o que se faz normalmente nessa rede social dedicada às conexões profissionais: disparou vários convites para aumentar sua rede de contatos, o tal network. Um dos novos colegas aceitou o convite enviado, cumprimentou a mulher pela troca e arrematou a mensagem com uma frase bastante entusiasmada sobre a beleza dos olhos dela, que viu apenas na foto do perfil (eles não se conheciam pessoalmente, mas isso também é normal nas redes sociais).

Como não era a primeira vez que acontecia, a mulher decidiu reagir. Em um longo e incisivo post, preservou a identidade do homem mas explicou publicamente a ele que “LinkedIn não é Tinder” (ou seja, não é o lugar para ser abordada dessa maneira, nem ela está ali para isso). Disse ainda que preferia ser elogiada por atributos profissionais num ambiente idem.

E porque esse assunto está na pauta, em dois dias o post já tinha quase 1.000 comentários e 7.000 reações. Com um pouco de tudo, incluindo os radicalismos – de um lado, ela foi chamada de “feminista azeda” por “rejeitar elogios”; de outro, recebeu a sugestão de buscar um advogado para fazer “valer seus direitos” e denunciar o “assédio”.

Isolando esses extremos, no batalhão dos ponderados muitas outras mulheres relataram já ter passado pelo desconforto de ouvir um elogio esquisito em seu ambiente de trabalho. De se perguntar se aquilo era “cantada” ou assédio, e até se havia sido provocado por algum comportamento inadequado dela mesma. Quem um dia já precisou adotar o sorriso amarelo como escudo numa conversa profissional sabe do que elas estão falando.

Porque esses relatos, e um bocado de pesquisas nos ambientes de trabalho, mostram que é bem comum uma mulher receber elogios nebulosos quanto à intenção (no caso em questão, aliás, era elogio ou “cantada”?). E não raramente, quando protesta, ainda precisa ouvir que o problema não estava na intenção nebulosa do outro, mas na sua cabeça. (Sim, esse comentário também apareceu no post do LinkedIn.)

Essas abordagens incluem quase sempre considerações sobre a aparência física da mulher. Ainda que entusiasmadas, e positivas, não deixam de ser inconvenientes. E se vierem acompanhadas de insistência, criam o cenário perigoso: mesmo em um mundo de fronteiras borradas, um simples “não” já deveria servir para estabelecer a fronteira final. Passar dela é ingressar no território do assédio.

Não é difícil entender – basta uma dose de boa vontade para rever comportamentos normalizados, e mudar. Como aconteceu nesse caso. Depois de ler os argumentos enfileirados no post e em boa parte dos comentários, o homem acabou enviando uma mensagem de desculpas que a mulher aceitou e publicou junto do seu texto, encerrando o assunto. Cada um cedeu um pouco, e ambos certamente aprenderam muito.

Quem acha que isso é impossível tem mesmo é que ficar esperando o próximo elevador.

 

JUNIA NOGUEIRA DE SÁ – é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à Women Corporate Directors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.

OUTROS OLHARES

COMEÇOU O FUTURO

Voos reduzidos, uso de máscara: eis o “novo normal” dos, digamos assim, passageiros da pandemia. A expectativa é que tudo isso será mantido no período pós-surto

Começou o futuro

É como se o verbo viajar tivesse sido sequestrado do dicionário da realidade. Nestes dias em que, para bilhões de pessoas mundo afora, sair de casa se tornou sinônimo de ir no máximo até o supermercado ou à farmácia, os aeroportos, por exemplo, se tornaram verdadeiros desertos – sem nenhum oásis. Quem, por motivos inadiáveis, é forçado a embarcar em um voo de carreira frequentemente vê reproduzido dentro das aeronaves um cenário semelhante: quase ninguém nos assentos, tampouco nos corredores. E atenção, senhores passageiros: esse é apenas um dos aspectos que se desenham no horizonte para o pós-pandemia, o “novo normal” que deverá se estabelecer a partir das lições – muitas amargas – que serão deixadas pelo surto de Covid-19. Dito de outra forma: o futuro, no âmbito do turismo, já começou. Está no presente.

Tudo se inicia em terra, com a adoção de medidas para preservar o distanciamento físico entre os viajantes. Dentro dos aviões, os novos protocolos das companhias impõem reforço na higienização, com o uso de mais desinfetantes, aumento da filtragem do ar e uma distribuição na ocupação dos assentos a fim de permitir que os passageiros não fiquem próximos – o que, convenhamos, não tem sido difícil com os aviões vazios (há voos saindo dos Estados Unidos com apenas dezessete pessoas a bordo). Além disso, em um número crescente de empresas aéreas, os viajantes vêm sendo obrigados a usar máscara – algo que havia sido determinado antes para toda a tripulação.

Em tempos de crise, pode-se recorrer ao passado para enxergar de que maneira o presente começa a funcionar como um rascunho, por assim dizer, do futuro. Logo após os atentados terroristas ao World Trade Center de Nova York, em 11 de setembro de 2001, as normas de segurança das viagens aéreas foram radicalmente modificadas. A inspeção dos passageiros tornou­ se muito mais rígida, o que resultou em enormes filas no raio x; restringiu-se bastante o que pode ser levado na bagagem de mão; a porta da cabine dos pilotos passou a ser à prova de balas. Depois de quase duas décadas, praticamente ninguém se lembra de como eram as coisas antes. Tudo passou a ser perfeitamente aceitável. A expectativa do setor de viagens é que o mesmo ocorra com as medidas de precaução de agora.

Por enquanto, para tentar reverter o inacreditável tombo provocado pela eclosão da Covid-19 – só no Brasil o número de voos caiu 90% desde o começo da pandemia do novo coronavírus -, as empresas aéreas vêm lançando mão de uma série de estratégias. Há, por aqui, promoções que podem fazer o preço de um bilhete internacional ficar até 60% mais barato. Numa medida acertada, algumas companhias também decidiram simplesmente não cobrar taxas para a remarcação de passagens. E para quem está preocupado com o vencimento de suas milhas – que talvez demore muito até que possam ser utilizadas – a notícia é boa. Grande parte das empresas, que voam para os diferentes continentes, optou pela renovação dos seus programas de fidelidade – alguns deles até janeiro de 2022.

Nada mau – sobretudo considerando que, dada a reviravolta do mercado, os viajantes do período pós-pandemia não possam esperar somente céu de brigadeiro. Com a redução no número de passageiros, devido à limitação da ocupação de assentos, não se descarta a possibilidade de que o valor das passagens aéreas chegue mesmo a dobrar. Os embarques, que neste momento de campanha cerrada pela quarentena se tornaram rapidíssimos, poderão demorar até quatro horas, ao longo das quais os viajantes serão submetidos à checagem de saúde, incluindo testes de sangue (e não meramente a tomada de temperatura, feita hoje em dia em vários locais). Ainda assim, após experimentar tamanho confinamento; depois de só poder ir até o supermercado ou à farmácia –  ah, isso será o de menos.

Começou o futuro. 2

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE MAIO

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ÁGUAS AMARGAS SE TORNAM DOCES

Então, Moisés clamou ao SENHOR, e o SENHOR lhe mostrou uma árvore; lançou-a Moisés nas  águas e as águas se tornaram doces (Êxodo 15.25a).

 

O povo de Israel acabara de atravessar o mar Vermelho de forma milagrosa. O mar tornou-se caminho aberto para os hebreus e sepultura para seus inimigos. Agora, o povo tem pela frente o deserto de Sur. Depois de três dias de caminhada, eles não encontraram água. Enfim, chegaram a Mara, mas ali não puderam beber as águas, porque eram amargas. O povo murmura contra Moisés, e Moisés clama a Deus, que lhe aponta uma solução: lançar uma árvore sobre as águas de Mara. Ali Deus provou o povo e lhe deu estatutos. Deus prometeu ao povo que, se eles andassem em obediência, as enfermidades que vieram sobre os egípcios não os alcançariam. Ali Deus se revela ao povo com um novo nome, Jeová Rafá, o SENHOR que te sara (v. 26). Ao saíram de Mara, chegaram a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras. Ali acamparam junto às águas. As águas amargas de Mara são um símbolo da vida antes da conversão. Não há nada neste mundo que nos possa satisfazer. Porém, quando a cruz de Cristo é colocada nessas águas amargas, elas se tornam doces. Quando Cristo entra em nossa vida, somos transformados, restaurados e transformados em instrumentos de vida e não de morte, de deleite e não de tormento, de alívio e não de pesar. É pela cruz de Cristo que essa transformação acontece. Nenhum poder na terra nem no céu pode mudar a nossa vida, a nossa sorte e o nosso futuro a não ser Cristo, e este crucificado. Temos vida pela sua morte, temos cura pela sua cruz!

 

GESTÃO E CARREIRA

DIVERSIDADE QUE VENDE

Brinquedos como a boneca Barbie levam às prateleiras o respeito às diversas identidades e levantam o debate sobre o consumo consciente

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Não é novidade que a publicidade infantil instigue o desejo consumista das crianças. Ela anuncia o que os pequenos precisam e eles desejam o objeto idealizado. Mas também é antiga a discussão sobre os limites das ações publicitárias dirigidas aos mais jovens: são legais ou ilegais? Atualmente, esse debate tem ganhado novos contornos. Há mudanças importantes acontecendo para valorizar o respeito às diferenças e à inclusão. Um exemplo é a gigante dos brinquedos Mattel: a companhia acaba de lançar uma nova linha de Barbie em que as bonecas representam a diversidade cultural, étnica e trazem doenças de pele e deficiências físicas. São 176 novos modelos da linha chamada Barbie Fashionista, que tem nove tipos de corpos, 35 tons de pele e 94 diferentes cabelos. A Hasbro, fabricante da boneca Baby Alive, também criou bebês com a pele negra. Na linha LoL Suprise, da MGA Entertainment, há opções que fogem do padrão “branco e loiro”.

COM A CARA DA AVÓ

“O brinquedo passou a ser um negócio. Não podemos ter o olhar ingênuo de achar que a indústria faz isso apenas para acolher e reconhecer”, explica Raquel Franzim, coordenadora de educação do Instituto Alana. O cenário no qual a criança se desenvolve é mais importante do que o objeto com o qual ela brinca. A Barbie representa apenas uma parcela da identificação.

Raquel questiona: “É o brinquedo que faz a criança brincar ou precisamos cuidar do próprio ato de brincar das crianças?”
Indiferentes às considerações éticas e ideológicas, as crianças aproveitam. A pequena Theodora, quatro anos, sorri com o seu presente de natal: uma Barbie negra, com os cabelos raspados e descoloridos. Quando ela abriu o embrulho, automaticamente associou o objeto à avó, que possui as mesmas características físicas da boneca. A hoteleira Dilane Lopes Moreira, mãe de Theodora, conta que sempre valorizou a convivência da filha com produtos com os quais ela pudesse se identificar. “Todos são bonitos do jeito que são”, é o mantra da casa. Para ela, a Barbie nova está sendo apenas um complemento para a construção da identidade da filha.

 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CORPO E A CULTURA

Hoje já se reconhece a influência social sobre o comportamento, a cognição e o desenvolvimento das habilidades motoras

O corpo e a cultura

Mas seria possível afirmar que meninas e meninos demonstram preferências, competências e atributos de personalidade originalmente configurados conforme o sexo? Será verdade o que aprendemos sobre as justificativas biológicas para as habilidades distintas de garotas e garotos?

Em ampla investigação sobre as construções sexuais e do corpo sexuado, Anne Fausto-Sterling, professora de biologia e estudos do gênero do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular e Celular da Universidade Brown, em Rhode lsland (EUA), cita inúmeras pesquisas que atestam a existência de uma anatomia cerebral específica para cada sexo. Daí viria a base para atribuir às mulheres, a intuição, a falta de aptidão para exatas, a ampla habilidade verbal e o uso simultâneo de ambos os hemisférios cerebrais. Aos homens, em geral, confere-se melhor desempenho espaço-visual, matemático e científico. Articulando biologia, medicina e ciências sociais, a bióloga revela ainda como essas pesquisas usam as relações sociais para estruturar a Natureza e, ao mesmo tempo, reduzem o mundo social a ela. Em outras palavras, passam da discussão das diferenças externas e do ambiente social para as diferenças internas do organismo biológico e quais os efeitos do que se entende por masculinidade e feminilidade.

Refletir sobre os fundamentos dessas afirmações no que se refere à educação, e mais especificamente à sociologia da educação, exige o questionamento de suas origens e do peso do caráter biológico na construção das diferenças. Isso pressupõe, por exemplo, indagar sobre a interferência e sobre o papel da cultura no processo de socialização e educação de meninas e meninos desde suas primeiras experiências de vida na família e na educação infantil.

No âmbito dos modelos cognitivos, é possível comprovar que as diferenças no desempenho em matemática ou na capacidade de linguagem resultam de diferenças cerebrais de cada sexo tidas como inatas? No campo das relações e comportamentos infantis, podemos mesmo supor que elas necessariamente preferem as bonecas e eles, os carrinhos? Elas foram feitas para brincar de roda e eles, de futebol?

A perspectiva sociocultural permite centrarmos o olhar nas formas de controle do corpo infantil, processo este social e culturalmente determinado, que muitas vezes nem sequer percebemos. Poderíamos dizer que as características tidas como masculinas ou femininas resultam de esforços diversos para distinguir corpos, comportamentos e habilidades de meninas e meninos. A influência da socialização e da cultura sobre a cognição, o comportamento e as habilidades motoras de garotos e garotas vem sendo reconhecida por pesquisadores de várias áreas.

A educação infantil não só cuida do corpo da criança como o educa: ele é o primeiro lugar marcado pelo adulto, que impõe à sua conduta limites sociais e psicológicos.

 Nosso corpo, nossos gestos e as imagens corporais que sustentamos são frutos de nossa cultura, dos traços e dos valores sociais por ela apreciados. O corpo é, portanto, uma construção social produzida, moldada, modificada, adornada segundo parâmetros culturais.

Torna-se, portanto, indispensável pensar sobre práticas, habilidades e configurações corporais infantis, assim como sobre os modelos cognitivos nelas referenciados, como configurações de gênero, processadas, reconhecidas e valorizadas na e pela cultura na qual se inserem. É importante perguntar como esses mecanismos sociais se fazem presentes na educação de meninas e meninos, como são inscritos em seus corpos, como disciplinam, regulam e controlam seu comportamento, posturas, verdades e saberes.

 DESEMPENHO ESCOLAR

Homens e mulheres adultos educam crianças definindo diferenças de gênero. As características físicas e os comportamentos esperados para meninos e meninas são reforçados, às vezes de forma inconsciente, nos pequenos gestos e práticas do dia a dia na educação infantil. A forma como a família ou a professora conversa com a menina, elogiando sua meiguice, ou justificando a atividade sem capricho do menino; o fato de pedir para uma menina ajudar na limpeza e ao menino para carregar algo demonstram como as expectativas são diferenciadas para cada sexo. O que é valorizado para a menina não é, muitas vezes, apreciado para o menino e vice-versa.

Meninos e meninas desenvolvem seu comportamento e potencialidades a fim de corresponder às expectativas de um modelo singular e unívoco de masculinidade e feminilidade em nossa sociedade. Muitas vezes família e escola orientam e reforçam habilidades específicas para cada sexo, transmitindo expectativas quanto ao tipo de desempenho intelectual considerado “mais adequado”, manipulando recompensas e sanções sempre que tais expectativas são ou não satisfeitas. Meninas e meninos são educados de forma muito diferente, sejam irmãos de uma mesma família, sejam alunos sentados na mesma sala, a ler os mesmos livros ou a ouvir o mesmo professor. A diferença está nas formas nem sempre explícitas com que membros da família e educadores interagem com as crianças.

Pesquisas apontam que as justificativas para as diferenças de desempenho escolar entre meninas e meninos no ensino fundamental estão relacionadas às representações e às expectativas dos educadores quanto à caracterização dos comportamentos: as meninas são apontadas como mais responsáveis, dedicadas, comunicativas, estudiosas, interessadas, sensíveis, atentas, enquanto meninos são considerados displicentes com os estudos, ausentes, dispersivos, agitados, desatentos, ainda que mais inteligentes.

As diferenças podem ser percebidas, mas não são fixadas na característica biológica apresentada ao nascer. Os significados de gênero – habilidades, identidades e modos de ser – vão sendo socialmente configurados, impressos no corpo de meninos e meninas de acordo com as expectativas de uma determinada sociedade.

 EXPRESSÕES BLOQUEADAS

Se, por um lado, é possível perceber o controle da agressividade na menina, o menino sofre processo semelhante, mas em outra direção: nele são bloqueadas expressões de sentimentos como ternura, sensibilidade e carinho. Não se questiona o caráter desse processo, afirmando-se tratar de fato natural ligado ao sexo biológico. As exceções que se apresentam são consideradas exceções, e assim o preconceito não chega nem a ser arranhado.

As preferências não são meras características oriundas do corpo biológico, são construções sociais e históricas. Portanto, não é mais possível compreender as diferenças entre meninos e meninas com explicações fundadas no determinismo biológico. A teoria do determinismo biológico busca na anatomia e na fisiologia justificativas anatômicas para as relações e identidades de gênero na sociedade moderna. Se acreditarmos nessa explicação natural sobre as diferenças entre os sexos, será inviável uma política social igualitária para a formação de homens e mulheres em áreas como a engenharia e a física.

A desigualdade de gênero ainda presente em nossa sociedade afeta até mesmo as pesquisas sobre o desempenho e o desenvolvimento cognitivo de meninas e meninos. No entanto, afirmações biológicas sobre diferenças sociais nem sempre são válidas do ponto de vista científico, pois esse conhecimento também é socialmente construído. Ultrapassar a desigualdade de gênero implica compreender o caráter social de sua produção, o modo como nossa sociedade opõe, hierarquiza e naturaliza as diferenças entre os sexos, reduzindo-as às características físicas tidas como naturais e, portanto, imutáveis. Implica perceber que esse modo único e difundido de compreensão é reforçado pelas explicações oriundas das ciências biológicas e também pelas instituições sociais, como a família e a escola, que omitem ser essas preferências construídas socialmente e passíveis de transformação.

Ao buscar as causas sociais e culturais das diferenças entre meninos e meninas, encontraremos suas origens em pequenos gestos cotidianos, em reações automáticas, cujos motivos e objetivos nos escapam, as quais repetimos sem ter consciência do seu significado, porque as interiorizamos no processo educacional. São preconceitos que não resistem à razão e que continuamos a considerar como verdades intocáveis, nos costumes e nas regras inflexíveis. Diante da opressão que vêm sofrendo, meninos e meninas deixam de experimentar, de inventar e de criar.

O modo como estão sendo educados pode contribuir para se tornarem mais completos e/ou para limitar suas iniciativas e suas aspirações. Sem uma plena equidade social, jamais poderemos saber quais são essas possibilidades.

O corpo e a cultura. 2

DIDÁTICA DOS GESTOS, EDUCAÇÃO DO CORPO

É possível propor um projeto educativo que rompa a dicotomia cognitivo-afetiva da prática educativa cotidiana e a hierarquia de valores a ela ligada, enfatizando o entrelaçamento entre o cognitivo e o emocional na evolução do processo de simbolização. Egle Becchi, professora de filosofia da Faculdade de Letras e Filosofia de Pavia, Itália, fala de uma “linguagem dos gestos”: gestos ligados ao dia-a-dia, gestos do ato de brincar, gestos do corpo nos movimentos corpóreos de aproximação, contato e exploração. Para a autora italiana, multo ainda deve ser estudado sobre linguagem gestual, uma “didática dos gestos” que penetra e caracteriza a pedagogia: o uso do corpo acariciado ou punido, as estratégias de voz: o tom, o canto, o grito. A experiência de meninas e meninos na educação infantil pode ser considerada um rito de passagem contemporâneo que antecipa a escolarização, por meio da qual se produzem habilidades.

O minucioso processo de feminilização e masculinização dos corpos, presente no controle dos sentimentos, no movimento corporal, no desenvolvimento das habilidades e dos modelos cognitivos de meninos e meninas está relacionado à força das expectativas que sociedade e cultura carregam. Esse processo se reflete em brinquedos com os quais as crianças “aprendem”, de uma maneira muito prazerosa e mascarada, a se comportar como “verdadeiros” meninos e meninas.

Homens e mulheres educam crianças marcando diferenças bem concretas entre elas. A educação diferenciada exige formas diferentes de vestir; conta histórias em que os papéis dos personagens homens e mulheres são sempre muito diversos, mas a diferenciação com base nos sexos é evidente nos brinquedos Infantis. De acordo com Elena Belotti, ao adulto não basta escolher o brinquedo pela criança: quando presenteia uma menina com uma boneca, não se contenta em simplesmente dar, mas também mostra como se segura nos braços e como se acalenta. É bastante curioso observar como os meninos da mesma idade, não ensinados como as meninas, seguram as mesmas bonecas de maneira muito mais despreocupada, por exemplo, mantendo-as em pé e não à vontade, passando-lhes um braço em volta do pescoço, apertando-as ou mesmo esmagando-lhes a cabeça. Em todos os casos, acalentar a boneca está quase sempre ausente.

A criança, ao brincar, está trabalhando suas contradições, ambiguidades e valores sociais: é na relação com o outro que ela constitui sua identidade. Fica difícil, por exemplo, continuar sustentando a importância de um menino não brincar de boneca, em nossa sociedade atual, na qual cada vez mais o pai assume comportamentos de cuidado com suas próprias crianças.

Ao refletir sobre os primeiros contatos Infantis com os brinquedos no âmbito da educação familiar, é possível perceber que a forma como são guardados e oferecidos pode consistir em uma manipulação da brincadeira, uma pedagogia do gesto e da vontade, configurando, assim, uma “educação do corpo”.

O corpo e a cultura. 3

CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS SEXOS

Desde muito cedo, até mesmo antes de nascer, a identidade de gênero vai se delineando segundo expectativas manifestadas de acordo com o sexo do bebê. Os ditados e crenças populares são exemplos de como os comportamentos e sinais da mãe são associados ao sexo do bebê: se a face da mãe estiver rosada, nascerá um menino, se estiver pálida, será menina; se o bebê estiver agitado e der muitos pontapés, certamente será menino, se estiver mais calmo e a mãe com muito sono, menina.

É clara a construção social das diferenças entre os sexos até mesmo antes do nascimento. A socióloga Dulce Whitaker chamou a esse fenômeno “didática da gravidez”, ou seja, a maior valorização do bebê do sexo masculino e a diminuição da auto estima das meninas, atribuídas às crianças no útero materno. Ao nascer, menina e menino já têm sua educação, de certa forma, direcionada: pais e mães já delineiam mentalmente o modelo a seguir. Crianças ainda pequenas construirão um corpo, mas não assexuado; um corpo, um modo de andar, de falar, de agir masculino ou feminino.

O corpo de meninas e meninos também passa, desde muito cedo, por um processo de feminilização e masculinização, responsável por torná-los “mocinhas” ou “capetas”. Esse minucioso processo se repete, até que a violência e a agressividade da menina desapareçam, até que ela comece a se comportar como uma “verdadeira” menina, delicada, organizada e quieta, reprimindo sua agressividade e ressaltando sua meiguice e obediência.

Já para o menino, esse processo se dá ao contrário: na atribuição de tarefas dinâmicas e extrovertidas e, em especial, com a privação da afetividade, não lhe sendo permitido, por exemplo, expressar­ se pelo choro. A masculinidade está calcada na coragem física, no trabalho, na perseverança, na competitividade e no sucesso, elementos entendidos como os mais importantes para sua constituição, considerada hegemônica: a coragem, diretamente relacionada à força física, à energia, à ousadia, à virilidade.

Crianças de ambos os sexos são agressivas, mas nesse processo a agressão, no sentido de satisfazer necessidades, é estimulada para apenas um dos sexos, restando ao outro a passividade.

O corpo e a cultura. 4

O CONCEITO DE GÊNERO

A denúncia do pretenso caráter fixo e binário de categorias como feminino e masculino, contido nas explicações biológicas para as diferenças cognitivas entre os sexos, tem no conceito de gênero parte do reconhecimento do caráter social e historicamente construído das desigualdades fundamentadas sobre as diferenças físicas e biológicas.

Nos dicionários brasileiros o termo gênero é definido como uma forma de classificação e como o modo de expressão, real ou imaginário dos seres. A partir da década de 80, o conceito de gênero foi incorporado pela sociologia como referência à organização social da relação – entre os sexos. A elaboração desse conceito ainda recebe forte influência de áreas como linguística, psicanálise, psicologia, história e antropologia, responsáveis por demonstrar a variabilidade cultural dos comportamentos, aquisições e habilidades consideradas femininas e masculinas. Isso significa que masculinidades e feminilidades plurais são configuradas fundamentalmente pela cultura.

Na década de 90, os estudos da historiadora americana Joan Scott tiveram influência significativa nos estudos brasileiros de gênero, nas reflexões críticas sobre educação, bem como sobre o saber produzido acerca das diferenças sexuais e dos vários significados que esse conhecimento adquire nos distintos espaços de socialização, entre os quais as instituições responsáveis pela educação.

A adoção da perspectiva de gênero, seja em estudos acadêmicos, seja nos espaços de construção de socialização variados, requer o reconhecimento de que mulheres e homens não são iguais, as relações que estabelecem são assimétricas, não há um único modelo de masculinidade ou de feminilidade e as relações de poder perpassam também os relacionamentos entre as mulheres e entre os homens.

Gênero remete então à dinâmica da trans formação social, aos significados que vão além dos corpos e do sexo biológico e que subsidiam noções, ideias e valores nas distintas áreas da organização social: podemos encontrá-los nos símbolos culturalmente disponíveis sobre masculinidade e feminilidade, heterossexualidade e homossexualidade; na elaboração de conceitos normativos referentes aos campos científico, político, jurídico; na formulação de políticas públicas implantadas em creches e escolas; nas identidades subjetivas e coletivas. Ele permite reconhecer a tendência à naturalização das relações sociais baseadas na fisiologia dos corpos e enxergá-los como signos impressos por uma sociedade e por uma cultura.