A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE IGUAIS

Mecanismos que atuam na vida intrauterina e na puberdade podem determinar a base das preferências sexuais

Já pensou ser discriminado por exibir alguma característica determinada biologicamente, como a cor dos olhos, ainda que você se sinta bem com isso e não consiga imaginá-los de outra cor? Imagine também se dezenas de teóricos e grupos militantes escrevessem livros inteiros explicando como, por influência dos pais, para agradar aos amigos ou por causa das más companhias, você “escolheu” tê-los assim. Além de tentarem convencê-lo disso, exigem que você mude a cor deles. Soa angustiante? Ao que tudo indica, isso é o que vem acontecendo com muitos de nós – não em relação à cor dos olhos, claro, mas quanto à preferência sexual.

Esqueça aquelas pequenas e contestadas diferenças nas habilidades espaciais, verbais e cognitivas entre homens e mulheres. Do ponto de vista cerebral, o que os distingue mesmo é tão óbvio que acaba sendo esquecido: a preferência sexual. A partir da adolescência, a maioria dos rapazes (cerca de 90% a 95%, dependendo de quem conta) sente-se atraída sexualmente por garotas. Para a alegria deles – e a continuidade da espécie – a recíproca é verdadeira: a grande maioria delas sente atração sexual por garotos.

A única razão que explica a heterossexualidade como preferência normal da nossa espécie é o simples fato de ela ser encontrada na maioria da população. O termo “normal” se refere a uma curva característica que descreve, em grandes populações, a distribuição de parâmetros como estatura ou massa corporal. Como a maioria das pessoas mede em torno de 1,70 metro, e cerca de nove entre dez medem entre 1,5 0 metro e 1,90 metro, diz-se que tem altura normal quem cair dentro desse grupo. Que dizer, então, daqueles que escapam à normalidade por serem altos ou baixos demais? Para a medicina, não se enquadrar, estatisticamente, não significa ser doente. É claro que estaturas anormais podem resultar de alterações do funcionamento do organismo. É o caso, por exemplo, do gigantismo, causado por distúrbios hormonais. No entanto, muitas vezes um parâmetro foge à normalidade em razão da herança genética ou de outros fatores biológicos que não perturbam em nada o bem-estar do indivíduo. Além disso, o que é normal em uma população pode ser anormal em outra.

NORMALIDADE RELATIVA

Considere, por exemplo, a distribuição da cor dos olhos. No Brasil é normal tê-los escuros. Já na Suécia isso é exceção, pois lá a regra é ter olhos azuis. Incluir-se na norma ou não, nesse caso, obviamente não afeta a saúde. É por isso que se diz que a característica fora do normal e que não prejudica a saúde é uma variação. Assim, ter olhos castanhos no Brasil é normal; na Suécia é uma variante. Os brasileiros de olhos castanhos que moram na Suécia não são considerados doentes por isso, nem são coagidos a ocultá-los atrás de incômodas lentes de contato.

Quando se entendem as definições de normalidade e de variação, torna-se natural aceitar que a distribuição de características determinadas biologicamente não é uma questão de escolha. Daí o hoje disseminado repúdio ao racismo e as tentativas legais de proteger da discriminação pessoas negras, idosas ou portadoras de necessidades especiais. Os homossexuais são alvo de preconceito em grande parte por causa de décadas de teorias e lobbies políticos e religiosos para que a homossexualidade fosse considerada doença, ou ao menos uma opção inconveniente a ser revertida. No entanto, todas as evidências indicam o contrário: a preferência sexual é determinada biologicamente e ainda no útero – o que faz da homossexualidade uma variação, já que a maioria da população é heterossexual. Para desespero daqueles que acham que podem “consertar” a sexualidade dos outros, as neurociências apontam para a origem biológica da preferência sexual humana. Para infelicidade de muitos religiosos, políticos e psicoterapeutas, não há nenhuma evidência de que fatores sociais a influenciem. Cerca de 10 % da população (masculina e feminina) procuram preferencialmente parceiros do mesmo sexo. E esse número não muda entre os que foram criados por pai e mãe heterossexuais, por dois pais gays, por duas mães lésbicas, com ou sem religião.

RASTRO SEXUAL

Entretanto, há uma coisa em comum aos que preferem se relacionar com homens (mulheres hétero e homens homo), que é diferente naqueles que se sentem atraídos por mulheres (homens hétero e mulheres homo): a maneira como o cérebro de um e outro reage aos feromônios.

Sexo é um assunto tão importante, biológica e evolutivamente (afinal é o que torna possível a continuidade das espécies), que existem regiões do cérebro dedicadas exclusivamente a ele. Várias ficam no hipotálamo, estrutura responsável pela regulação de muitas funções do organismo, como frequência cardíaca, pressão arterial e comportamentos mais complexos como aproximação sexual e cópula. Situadas no hipotálamo ou não, todas as estruturas cerebrais relacionadas ao sexo respondem aos feromônios.

Essas substâncias são usadas por inúmeras espécies – leve duras, javalis e humanos – com a finalidade última de reproduzir-se. As alterações fisiológicas e comportamentais que elas produzem são sempre de cunho social. Cada indivíduo fabrica o feromônio característico de sua espécie, na versão “macho” ou “fêmea”, e o efeito no cérebro de seus pares do sexo oposto é avassalador. Quando tudo dá certo, o resultado é um filhote.

Muito voláteis, os feromônios entram pelo nariz, onde são detectados pelo órgão vomeronasal – e não pelo epitélio olfativo, razão pela qual são inodoros. Em seguida a informação é encaminhada para o hipotálamo. O comportamento desencadeado depende radicalmente de como essa região é ativada. O hipotálamo dos homens heterossexuais responde fortemente ao feromônio feminino EST (estra-1,3,5(10),16 -terrae-3-nol), um derivado do hormônio estrogênio (estrógeno), produzido durante o ciclo menstrual. A mesma região do cérebro das mulheres heterossexuais reage ao feromônio masculino ANO (4,16-androestadie -3-nona), que deriva de hormônios sexuais masculinos e é encontrado no suor, na pele e nos pelos axilares dos varões. Como era de esperar, o ANO aumenta a excitação das mulheres e diminui a dos homens quando ambos são heterossexuais.

Depois da detecção segue-se uma cascata de eventos em outras regiões do cérebro (como amígdala, córtex cerebral e sistema de recompensa) que provoca excitação sexual e faz com que se busque o dono ou a dona do feromônio em questão. Embora sejam inodoras, parece que essas substâncias são um dos principais determinantes do interesse e da aproximação sexual. Elas fazem com que 90% dos homens prefiram se aproximar delas e vice-versa, sem que ninguém saiba que tudo começa pelo nariz.

As estruturas que respondem aos feromônios e regem o comportamento sexual são as mesmas em homens e mulheres. Suspeitou-se, porém, que elas pudessem ser diferentes entre os sexos, de modo a garantir que o cérebro deles e delas reagisse de forma diferente a feromônios femininos e masculinos. Esse dimorfismo sexual de fato existe e está diretamente relacionado ao comportamento diferenciado que garotos e garotas passam a exibir a partir da adolescência, quando as estruturas cerebrais envolvidas amadurecem e tornam-se sensíveis aos feromônios.

As diferenças começam já na porta de entrada: no órgão vomeronasal (ver ilustração abaixo). Desse ponto em diante, em todas as estruturas da chamada via vomeronasal, os homens têm mais neurônios que as mulheres para processar os sinais gerados pela detecção dos feromônios. O tamanho de algumas estruturas também é maior neles, como o bulbo olfativo acessório (que recebe os sinais do órgão vomeronasal) e as próximas estações de processamento: núcleo póstero-dorsal da amígdala medial (pd MEA), núcleo intersticial da estria terminal (BST) e área pré-óptica medial do hipotálamo. Como esse dimorfismo depende da ação de hormônios sexuais masculinos, ele se manifesta apenas a partir da adolescência.

A importância da via vomeronasal para o comportamento sexual fica evidente quando ela é alterada experimentalmente. O bloqueio da síntese de um único receptor para hormônios femininos em uma área específica do hipotálamo, por exemplo, é suficiente para abolir o comportamento sexual de fêmeas de camundongo. Com o hipotálamo insensível ao estrogênio, elas não só deixam de aceitar as investidas dos machos como passam a rejeitá-los – simplesmente porque um único gene, o responsável pela síntese do receptor, foi silenciado.

A tomografia por emissão de pósitrons revelou que o cérebro de mulheres homossexuais (M-homo) responde aos deromônios de forma diferente do de mulheres heterossexuais (H-hétero). A área pré-optica do hipotálamo de M-homo não é ativada pelo feromônio masculino AND, como ocorre nas M-hétero. A exposição ao feromônio feminino EST ativa, tanto nas M-homo quanto nos H-hétero, as regiões dorsomedial e paraventricular do hipotálamo. Experimentos semelhantes com homens homossexuais chegaram a resultados parecidos.

NA GESTAÇÃO

A ativação da via vomeronasal em resposta aos feromônios de um(a) parceiro(a) em potencial é possível apenas na presença dos hormônios sexuais. Entretanto, não adianta inundar o cérebro infantil com eles para que o interesse sexual seja despertado: é preciso que ele passe pela puberdade para poder responder a essas substâncias. É verdade que o primeiro contato do sistema nervoso com os hormônios sexuais ocorre durante a gestação, pois é o pico de testosterona que determina a masculinização do feto e faz com que todas as estruturas da via vomeronasal produzam aromatase, a enzima que tornará possível, na adolescência, a ação do hormônio masculino sobre o sistema nervoso. É também na puberdade que a testosterona induz o crescimento de várias estruturas da via vomeronasal, como pdMEA e BST, no cérebro dos homens. A sensibilização dos neurônios ao longo dela – condição necessária para o interesse sexual – é estimulada tanto pela testosterona quanto pelo estrogênio.

Assim, o comportamento sexual resulta de ações inicialmente organizadoras, e, mais tarde permissivas, desencadeadas pelos hormônios sexuais. A atração que se sente pelo outro, seja este de que sexo for, é resultado da influência de genes e hormônios durante a formação, ainda no útero, de determinadas regiões cerebrais. Estas, por sua vez, determinarão mais tarde, depois de amadurecidas na adolescência, a preferência sexual pelo sexo oposto na maioria das pessoas ou pelo mesmo sexo em algumas. Revelada quando o cérebro adolescente expressa o caminho que tomou ainda na gestação, a preferência sexual não se escolhe: descobre-se.

Quando surgiram nos anos 80 as primeiras evidências de que a sexualidade é determinada biologicamente, militantes do movimento gay manifestaram-se tanto contra como a favor. Alguns grupos acolheram as descobertas como prova de que a homossexualidade não é doença nem opção, e sim biologia inevitável. Outros, ao contrário, sentiram-se lesados em seu direito de optar por essa forma de expressar sua sexualidade.

De lá para cá, um número cada vez maior de estudos mostram que a preferência sexual está associada a diferenças no hipotálamo. O neurocientista (e homossexual assumido) Simon LeVay mostrou, no início dos anos 90, que os homens têm mais neurônios em um pequeno núcleo hipotalâmico, chamado INAH-3, quando comparado à mesma região do cérebro das mulheres. Em homens homossexuais, essa quantidade foi intermediária.

Pesquisas recentes revelam que o hipotálamo de homo e de heterossexuais do mesmo sexo tem características diversas. Pesquisadores suecos mostraram, em 2006, que nem todo hipotálamo masculino responde a feromônios femininos e vice-versa. Usando ressonância magnética funcional, eles observaram que o padrão de respostados neurônios hipotalâmicos correlaciona-se não com o sexo do indivíduo, mas com sua preferência sexual. Assim, homens e mulheres que gostam de mulheres respondem ao feromônio feminino EST; já as mulheres e os homens que se sentem atraídos por homens têm o hipotálamo sensível ao feromônio masculino AND.

O que faz com que o hipotálamo responda diferentemente aos feromônios masculinos e femininos parece ser uma combinação de herança genética com fatore s hormonais durante a gestação. Há fortes evidências de que a exposição a quantidades exageradas de testosterona na vida intrauterina masculiniza a programação biológica de fetos femininos. Consequentemente, essas meninas passam a expressar, a partir da adolescência, o padrão masculino da via vomeronasal e de resposta aos feromônios. Da mesma forma, a homossexualidade masculina está associada a níveis mais baixos de testosterona durante o período fetal, o que parece influenciar o desenvolvimento da via vomeronasal depois da puberdade.

O ser humano não é a única espécie animal da qual alguns indivíduos demonstram preferência sexual pelo mesmo gênero. Diferenças nas estruturas que respondem aos feromônios são encontradas também em carneiros. De 8% a 10 % dos machos avançam insistente e exclusivamente sobre outros machos. Não há nenhum fator social ovino conhecido que poderia tê-los tornado homossexuais. Por outro lado, há uma diferença cerebral importante entre esses animais e seus companheiros hétero: o tamanho de um núcleo localizado numa área do hipotálamo chamada pré-óptica. A região é maior nos carneiros heterossexuais e menor nas fêmeas e nos machos homossexuais. Evidentemente, sempre existe a possibilidade teórica de a base biológica responsável pela preferência sexual mudar em consequência do comportamento homossexual, tanto de homens como de carneiros. No entanto, isso é muito pouco provável pelo que se sabe sobre a dificuldade de “converter” homossexuais em heterossexuais e vice-versa, sobre a indiferença da sexualidade a influências sociais e sobre a existência de padrões semelhantes de comportamento homossexual em outras espécies.

SEXO “ERRADO”

Até algo tão fundamental como sentir-se homem ou mulher parece ser determinado pela biologia do cérebro. Ao examinar, em 2000, um grupo de 42 pessoas composto de homens e mulheres hétero, homo e transexuais, pesquisadores holandeses observaram um número duas vezes maior de neurônios num dos núcleos da via vomeronasal (o BST) nas pessoas que se identificavam como homens em comparação às que se identificavam como mulheres – independentemente do sexo biológico, da preferência sexual e do fato de terem sido ou não tratadas com hormônios sexuais.

Graças a esse tipo de estudo, a atração por pessoas do mesmo sexo ou a sensação de ter nascido do sexo “errado” não podem mais ser consideradas aberrações psicológicas ou frutos de uma educação “equivocada”, familiar ou escolar. Trata-se de variações determinadas biologicamente. E como todo fenômeno biológico, a determinação da identidade e da preferência sexual está sujeita a influências químicas e genéticas nem sempre bem compreendidas. Aliás, seria surpresa para um biólogo se todos fossem perfeitamente iguais, sem nenhuma variação na cor dos olhos ou na preferência sexual. A descoberta de que é o cérebro, e não os hormônios sexuais nem a genitália, que define a identidade ou a preferência sexual é uma das lições das neurociências de maior impacto em nossa vida cotidiana. A atração por um ou outro sexo é inata, não opcional. Por isso as tentativas de convencer pessoas ou outros animais a mudar suas preferências sexuais nunca deram certo.

A ciência é frequentemente criticada por “reduzir” a questão da homossexualidade aos domínios da biologia. Isso deixa transparecer a incrível dificuldade que o ser humano tem de aceitar-se como animal. Gostamos de assistir aos documentários sobre macacos ou leões, mas custa-nos admitir que a Natureza pode ter influência – muitas vezes determinante – também sobre nosso comportamento.

O comportamento sexual não pode ser explicado exclusivamente pela biologia. As pessoas têm sim a opção de fazer o que bem entendem com sua preferência sexual, ainda que lamentavelmente o preconceito e a discriminação tragam complicações psicológicas.

A Natureza não reina sozinha. De fato, é possível optar pelo comportamento heterossexual, contra a preferência biológica ou a favor dela. Nesse caso a família e a sociedade certamente exercem um papel importante. Mas o cérebro é capa de fazer melhor; pode até mudar crenças, teorias e preconceitos, felizmente. Se 100 % da população tem preferência sexual inata e biologicamente determinada, somos todos iguais nesse quesito – mesmo que o cérebro da maioria responda a feromônios do sexo oposto. Tentar mudá-la é como insistir que uma pessoa troque a cor da pele, torne-se menos alta ou mude a cor dos olhos. É inútil, inviável e injusto.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.