EU ACHO …

O “NOVO NORMAL” E O (RE)PROPÓSITO DA CASA

A expressão “novo normal” vem sendo exaustivamente usada, nos últimos meses, quando se percebeu que o Coronavírus havia impactado de forma indefectível a sociedade global. A origem do termo não é recente e há muito debate em torno de quem a cunhou. É certo, contudo, que sempre foi vinculada ao período de readequação da sociedade, após uma grande crise, como a primeira grande guerra mundial.

Vários estudos e artigos vêm apontando as principais tendências sociais para o nosso novo normal. Dentre elas, a tão proclamada democratização do digital e a consequente hiperconectividade – que acabou sendo impulsionada por uma doença, não por um gigante da tecnologia.

Categorias demográficas que, antes, por limitação econômica ou temporal, resistiam à virtualização de seu cotidiano, foram ineludivelmente convertidas. Recentemente, presenciei uma centenária exultante no aniversário do bisneto, por Zoom, afirmando que a primeira coisa que fará após a quarentena é trocar o computador e o celular. Ela percebeu que essa é a forma mais fácil de acompanhar a vida dos seus familiares. O que nos leva à outra tendência – as reconexões afetivas.

A privação de contatos com o mundo externo nos mostrou o quanto somos seres sociais. Como já disse um conhecido antropólogo brasileiro, é a rede de relações sociais que dá realidade aos membros da sociedade. Em nome dos laços de amizade e parentesco, dos amores, somos impelidos à rua, a frequentar locais e encontrar pessoas. Ao sermos impedidos de fazermos isso, por determinação legal ou medo, percebemos o valor das conexões que, por hora, são contornadas pela conectividade tecnológica ou pela intensificação das poucas relações presenciais possíveis no momento. Estamos nos conectando com pessoas que não falamos há anos, mas que eram afetivamente significativas – telefone, e-mail, WhatsApp… – tudo vale a pena, quando o afeto não é pequeno.

Outro aspecto que vem sendo muito destacado é a valorização do “local”. Quanto mais vizinho e mais conhecido melhor, tirando preço do eterno topo da lista das prioridades dos compradores – não que este ainda não seja importante. Pelo risco de contaminação, quanto menos deslocamento para as poucas coisas inevitáveis à sobrevivência, melhor. E, de quebra, ajudamos o comércio próximo a passar por uma das maiores crises econômicas do pais, sem fechar suas portas (consumo consciente).

São muitas tendências projetadas ao “novo normal”, mas gostaria de me dirigir, agora, a uma das que me chama atenção: a ressignificação da casa. A casa vem assumindo um papel diferente na vida das pessoas e impactando nossos rituais e consumos. Recentemente, por exemplo, numa “live”, uma consultoria apontou o crescimento na venda de ingredientes para fazer o pão – fermentos, farinhas, etc. – e imediatamente me lembrei que realmente não havia encontrado trigo integral para comprar, justamente, para fazer uma receita de pão.

Ou seja, não é teoria, é prática. E isso é uma nova aventura, um novo patamar culinário, sem precedentes na família. Sem empregados domésticos – também em quarentena – relembramos o caminho do fogão e da lavanderia. Num primeiro momento forçados, mas, aos poucos, começamos a tirar aprendizados e prazeres dessas experiências. O ritual culinário, agora, se mistura com o gastronômico, que para muitos, antes, se restringia aos restaurantes.

O consumo de conteúdos também assumiu outro patamar. De repente, percebemos que aquela televisão, que andava meio esquecida, estava com seu prazo de validade vencido; e uma smart TV se transformou num artigo de primeira necessidade. O Netflix é o rei, com todas suas séries e filmes a um clique, mas também satura. E novos hábitos são adquiridos e, provavelmente, não serão esquecidos após a quarentena. O entretenimento doméstico e familiar ganhou uma importância que, há tempos, inexistia. Eu, que tenho o privilégio de morar em casa numa metrópole, redescobri o jardim, a mesa de ping-pong e o colchonete empoeirado, agora, namorando com os halteres e o Nike Training.

Os rituais de beleza também surpreenderam. Com cabeleireiros fechados, só nos restou aprender a pintar o cabelo em casa – descobrindo que se compra todo o necessário, mesmo importados, por comércio eletrônico, com entrega em poucos dias. Cortar o cabelo também virou diversão para as crianças. E o que parecia complicadíssimo, provou-se relativamente fácil. Novas práticas, novos consumos.
O trabalho, finalmente, ganhou a licença que precisava para adentrar a casa sem timidez. Tivemos de encontrar seu lugar ideal – já que são vários em home-office e home schooling, simultâneos, em lives e webconferências – e, de repente, sons e backgrounds domésticos começaram a invadir o universo externo (e vice-versa) embaralhando seus códigos de ética e rituais. Daí surgem novos pactos familiares e profissionais, além de compras de produtos que nos ajudem a equacionar essa nova realidade. Em casa, foram fones e mobiliários, por exemplo.

Em geral, a casa e a rua se complementam e disputam espaço na vida de cada um. Nesse “novo normal” a casa nos fez encontrar, nela, as respostas para demandas que buscávamos em lugares, sem saber que estavam ali mesmo, em casa.

CECÍLIA ANDREUCCI – é conselheira de administração, mestre em consumo e doutora em comunicação.

OUTROS OLHARES

EM QUARENTENA COM O AGRESSOR

Antes da pandemia chegar, a violência doméstica e o abuso sexual infantil já eram recorrentes em todo o mundo. Saiba por que o isolamento intensifica esses crimes

A violência contra a mulher e também a violência sexual infantil vêm crescendo no Brasil nos últimos anos. Cresce ainda mais agora em meio à imprescindível quarentena para o combate eficaz ao coronavírus. Os motivos são claros: mulher e marido violentos, mães e pais que habitualmente agridem filhos, todos estão nesse momento mais tempo juntos e em um lugar fechado — os seus lares. Somente os mal intencionados responsabilizariam o distanciamento social e a quarentena pelo aumento nesses crimes. Com ou sem isolamento, quem é violento é violento e ponto final. A restrição à circulação surge, assim, apenas como o dedo para um gatilho psíquico que já compõe o temperamento de algumas pessoas. “O que está ocorrendo, e é inegável que de fato está acontecendo, é a intensificação desse quadro”, diz Samira Bueno, diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Os dados do Fórum mostram que a violência contra a mulher é uma “epidemia” – que, como o vírus, saltou para uma “pandemia”. Em março de 2018, havia o registro de 6.775 ocorrências de violência doméstica. Agora, também em março, o índice de agressão à mulher subiu 20%, traduzidos em 9.817 casos. O Ministério Público aponta o acréscimo de 51% nas prisões em flagrante em decorrência de violência doméstica contra a mulher. São Paulo, epicentro da doença dos ataques de coronavírus, não está isolado nesse trágico fenômeno. Em outra análise, agora feita pelo software SEMrush, no qual foram analisadas pesquisas na internet, a busca no Google por “Lei Maria da Penha” apresenta o estratosférico salto de 238% em Pernambuco, seguido por Rio de Janeiro, com 124%. E não é diferente a situação em outros países. Na Europa, por exemplo, 33% das mulheres sofreram algum tipo de violência física, emocional ou sexual durante a quarentena.

Aos 44 anos, A.F (preserva-se aqui o nome da vítima) levou dias para conseguir falar sobre a violência que sofreu do marido sem cortar palavras com choro. “A gente vai tolerando, relativizando, até porque ninguém é violento vinte e quatro horas por dia”, diz ela. “Só percebemos a gravidade quando estamos com olhos roxos e braços quebrados”. Sem suportar seus próprios conflitos interiores, o agressor os projeta em outra pessoa. Dentro de um lar, sob a tensão da pandemia e numa forçada convivência (o que não justifica comportamentos abusivos), dá para imaginar em quem a pessoa projetiva descarregará o seu curto-circuito emocional: na parte fisicamente mais fraca, ou seja, na mulher. “Eles trazem em sua psique inúmeras inseguranças”, explica a conceituada psicóloga Mariete Duarte, integrante da Clínica Maia e especializada em psiquiatria pela Universidade de São Paulo. “Para mascarar seus conflitos, agressores costumam usar drogas lícitas como o álcool, e isso pode liberar comportamentos reprimidos sob a forma de agressividade física”. Não é sem razão, portanto, que a OMS recomendou a diminuição do consumo de bebidas alcoólicas em todos os países, enquanto durarem seus respectivos distanciamentos sociais. É preciso evitar o vírus e é igualmente preciso evitar a saturação emocional de pessoas vivendo vinte e quatro horas juntas e durante dias. Apesar da recomendação da OMS, no Brasil, infelizmente, empresas de delivery registraram um aumento de 50% no pedido de bebidas alcoólicas.

A violência contra a mulher e também a violência sexual infantil vêm crescendo no Brasil nos últimos anos. Cresce ainda mais agora em meio à imprescindível quarentena para o combate

O PREDADOR E A MUTAÇÃO

Não só de marido e mulher forma-se uma família. Dentro de lares há também filhos, filhas, enteados, padrastos, madrastas e inúmeras possibilidades de formações parentais. Se no caso de violência doméstica há números e projeções, como saber o que acontece com crianças se confinadas com seus agressores? “Quando você fala de uma criança de cinco ou seis anos, ela nem sabe a violência pela qual está passando”, diz Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta. A consequência de abuso sexual de crianças durante o período de isolamento transforma o futuro em um lugar ainda mais perigoso. A quarentena reforça a existência de um problema recorrente em todo o mundo: o do ser humano como predador do próprio ser humano, ainda que haja uma outra predadora, terrível e invisível, como é a Covid-19. A violência, no entanto, não nasce com a mutação do vírus. A pandemia só evidencia agressores que podem morar sob o mesmo teto.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE MAIO

SALVOS PELO SANGUE

O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; quando eu vir o sangue, passarei por vós… (Êxodo 12.13a).

A Páscoa foi celebrada na noite em que Deus libertou os hebreus da escravidão no Egito. A resistência de Faraó chegou ao fim, quando a morte visitou todos os primogênitos daquela terra milenar. Um cordeiro sem defeito foi morto para cada família, e seu sangue foi passado nos batentes das portas. Quando o anjo passou naquela noite fatídica e viu o sangue aspergido nas portas, não feriu ali o primogênito. O que salvou os hebreus da morte não foi o cordeiro, mas o sangue do cordeiro aspergido nas vergas das portas. O que livrou os hebreus não foi alguma virtude que eles pudessem ostentar, nem mesmo o sofrimento e as injustiças por eles sofridas na escravidão. A única diferença entre os hebreus e os egípcios naquela noite foi o sangue do cordeiro. É assim ainda hoje. Só há dois grupos de pessoas: os que estão debaixo do sangue de Cristo e os que ainda não estão. Não se trata de pertencer a essa ou àquela igreja. Não se trata de obras ou méritos. A única coisa que conta aos olhos de Deus é se estamos debaixo do sangue do Cordeiro imaculado ou não. Quando Deus vê o sangue, não aplica ali o juízo. Aquele sangue do Cordeiro nos batentes das portas era um símbolo do sangue de Cristo vertido na cruz. Somente o sangue de Cristo pode purificar-nos de todo o pecado. Somente pelo sangue de Cristo somos remidos dos nossos pecados. Somente pelo sangue de Cristo temos paz com Deus. Somente pelo sangue de Cristo somos salvos da morte eterna e do juízo vindouro.

GESTÃO E CARREIRA

O PODER FOI PARA A PONTA

O mercado brasileiro de franquias está cada vez mais concentrado em operadores com diversas unidades de uma OLI mais marcas. São os multifranqueados, que já atraem até o interesse de fundos de investimento

Todos os anos, no mês de março ou abril, um grupo de empreendedores brasileiros embarca para Las Vegas, nos Estados Unidos, para a feira mundial de multifranqueados. O aumento do tamanho da turma revela uma evolução no mercado brasileiro de franquias. Em 2017, foram seis participantes; em 2019, 18. Multifranqueados são empreendedores que têm várias unidades de franquias, de uma ou mais marcas. Nos Estados Unidos, alguns operadores têm mais de 1.000 lojas. No Brasil, a tendência é mais recente, mas cresce em ritmo acelerado. Em empresas como a fabricante de cosméticos O Boticário, alguns franqueados chegam a ter uma centena de lojas. O empreendedor Mauro Nomura, dono do Grupo Nomura, é exemplo desse novo tipo de empreendedorismo. Com 31 lojas de calçados Adidas, Arezzo e Schutz, em Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro, Nomura deve faturar 230 milhões de reais neste ano, 33% mais do que em 2019. Em 2010, eran11 lojas, com receita total de 35 milhões de reais. “Há cinco anos, ninguém sabia direito o que era um multifranqueado”, diz Nomura.

Iniciativas como essa têm se tornado cada vez mais frequentes – e muitas vezes incluem até planejamentos de expansão feitos sob medida para os bons operadores. A Domino’s, do Grupo Trigo, vendido ao fundo Vinci Partners em 2018 por cerca de 300 milhões de reais, acabou de fechar um plano minucioso de abertura de dez lojas na Região Sul. O trabalho foi feito especialmente para um dos multifranqueados. “Trata-se de um deste Lot e os gestores da marca chegaram à conclusão de que valia à pena aprofundar a relação. “Lot é um excelente operador, com conhecimento do negócio e capacidade para nos ajudar na expansão”, diz Marcelo Cordovil, diretor de expansão da franqueadora. A loja de Brasília tem sido um sucesso, com 13.000 clientes em dezembro.

Empreendedores como Nomura e Lot são expoentes de uma sofisticação no mercado brasileiro de franquias. Os grandes franqueadores preferiam diluir os riscos com a contratação de dezenas ou centenas de franqueados, numa estratégia de expansão definida na matriz. Ao franqueado cabia executar o já definido. Mas a crise econômica dos últimos anos acelerou uma mudança que, na visão de especialistas do setor, seria inevitável. A dificuldade financeira de algumas lojas fez com que as franqueadoras acelerassem a busca por franqueados experientes, dispostos a assumir mais responsabilidade. “Os pequenos franqueados, que tinham só uma loja, tiveram mais dificuldade para enfrentar a perda de clientes”, diz o consultor de franquias Marcelo Cherto, presidente do Grupo Cherto.

Na rede Mania de Churrasco, que faturou 224 milhões de reais em 2019, o dobro de 2017, hoje 70% dos franqueados têm mais de uma loja. Há quatro anos eram apenas 30%. Na Domino’s, os multifranqueados têm metade das 224 franquias no país. Com uma estrutura operacional mais robusta, os multifranqueados em geral conseguem baixar custos, como gastos com energia elétrica e água e também com insumos básicos. Tudo isso ajuda a elevar a rentabilidade do negócio, mantém mais dinheiro em caixa e facilita o ganho de escala. Alguns multifranqueados têm inovado também no pós-venda. O carioca Leonardo Sobral, franqueado de 24 lojas das redes de roupas Levi’s e Hering e da rede de cosméticos O Boticário, criou uma estratégia para tornar fiel a clientela. Os funcionários de sua empresa, a Sfera Multifranquias telefonam para os consumidores para saber se gostaram do produto que compraram. Quando há alguma insatisfação com o produto, um funcionário da Sfera visita os clientes para entender os motivos da reclamação e procurar uma solução. “Convidamos o cliente para ir à loja e oferecemos um atendimento especial”, diz Sobral. Com iniciativas dessa natureza, o valor médio de cada venda da Sfera aumentou 12% no ano passado. “Para as marcas, é um passaporte para o crescimento sustentável”, afirma Alberto Oyama, diretor da unidade de multifranqueados na Associação Brasileira de Franchising.

Os bons resultados dos multifranqueados começaram a chamar a atenção até de fundos de investimento. Segundo apuramos, o Vinci Partners e o americano H.I.G. Capital, com 35 bilhões de dólares em ativos, estudam investimentos. A tendência de ganho de escala dos multifranqueados, a resiliência perante a crise econômica e o aumento da procura por alimentação fora do lar estão entre os fatores de atração. Nomura vem conversando com vários desses fundos. “Provavelmente, em 2021 receberemos algum aporte”, afirma ele. Seria um divisor de águas no setor de franquias, um importante motor da economia. No ano passado, esse mercado movimentou quase 187 bilhões de reais, ante 175 bilhões em 2018. De 2014 a 2018, no auge da queda do consumo das famílias; o setor cresceu cerca de 30%. “ó mercado ainda pode amadurecer mais, com a chegada de novas marcas e o fortalecimento cada vez maior dos bons operadores, como já acontece em outros países”, diz Oyama. A referência é o mercado americano. Mais da metade dos franqueados por lá tem mais de uma loja. O Flynn Restaurant Group, que opera 1.245 restaurantes das marcas de fastfood Aplebee’s, Taco Bell e Arby’s e da rede de padarias Panera Bread, faturou 2 bilhões de dólares em 2019. O grupo recebeu em 2014 investimentos da ordem de 300 milhões de dólares do Ontario’s Teacher’s Pension Plan, um dos maiores fundos de pensão canadenses. O NPC International não fica muito atrás, com 25.000 funcionários e mais de 1.000 lojas de Pizza Hut e Wendy’s, e um faturamento de mais de 1 bilhão de dólares. Já o grupo mexicano Alsea, criado em 1997, opera mais de 3.000 restaurantes de Burger King, Starbucks, Domino’s, P.F Chang’s e Cheescake Factory. As lojas estão distribuídas por México, Chile, Argentina, Colômbia, Espanha e França. A empresa faturou 12,6 bilhões de dólares em 2018 e abriu o capital no México há seis anos. Neste ano, deve abrir na Espanha. “O mercado brasileiro está no caminho certo para chegar ao ponto de maturidade de outros países”, diz Cheito. O risco dessa concentração é desvirtuar o próprio conceito de franquia, que proporciona à dona da marca o controle das decisões – e royalties livres de risco. Uma gestão descentralizada tende a reduzir margens, que passam do franqueador para o franqueado. Para empresas como Domino’s, O Boticário e Arezzo, parece que vale a pena apostar.

CONCENTROU E CRESCEU

As redes de franchising expandiram a receita em 44% desde 2014, mantendo quase o mesmo número de unidades

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE IGUAIS

Mecanismos que atuam na vida intrauterina e na puberdade podem determinar a base das preferências sexuais

Já pensou ser discriminado por exibir alguma característica determinada biologicamente, como a cor dos olhos, ainda que você se sinta bem com isso e não consiga imaginá-los de outra cor? Imagine também se dezenas de teóricos e grupos militantes escrevessem livros inteiros explicando como, por influência dos pais, para agradar aos amigos ou por causa das más companhias, você “escolheu” tê-los assim. Além de tentarem convencê-lo disso, exigem que você mude a cor deles. Soa angustiante? Ao que tudo indica, isso é o que vem acontecendo com muitos de nós – não em relação à cor dos olhos, claro, mas quanto à preferência sexual.

Esqueça aquelas pequenas e contestadas diferenças nas habilidades espaciais, verbais e cognitivas entre homens e mulheres. Do ponto de vista cerebral, o que os distingue mesmo é tão óbvio que acaba sendo esquecido: a preferência sexual. A partir da adolescência, a maioria dos rapazes (cerca de 90% a 95%, dependendo de quem conta) sente-se atraída sexualmente por garotas. Para a alegria deles – e a continuidade da espécie – a recíproca é verdadeira: a grande maioria delas sente atração sexual por garotos.

A única razão que explica a heterossexualidade como preferência normal da nossa espécie é o simples fato de ela ser encontrada na maioria da população. O termo “normal” se refere a uma curva característica que descreve, em grandes populações, a distribuição de parâmetros como estatura ou massa corporal. Como a maioria das pessoas mede em torno de 1,70 metro, e cerca de nove entre dez medem entre 1,5 0 metro e 1,90 metro, diz-se que tem altura normal quem cair dentro desse grupo. Que dizer, então, daqueles que escapam à normalidade por serem altos ou baixos demais? Para a medicina, não se enquadrar, estatisticamente, não significa ser doente. É claro que estaturas anormais podem resultar de alterações do funcionamento do organismo. É o caso, por exemplo, do gigantismo, causado por distúrbios hormonais. No entanto, muitas vezes um parâmetro foge à normalidade em razão da herança genética ou de outros fatores biológicos que não perturbam em nada o bem-estar do indivíduo. Além disso, o que é normal em uma população pode ser anormal em outra.

NORMALIDADE RELATIVA

Considere, por exemplo, a distribuição da cor dos olhos. No Brasil é normal tê-los escuros. Já na Suécia isso é exceção, pois lá a regra é ter olhos azuis. Incluir-se na norma ou não, nesse caso, obviamente não afeta a saúde. É por isso que se diz que a característica fora do normal e que não prejudica a saúde é uma variação. Assim, ter olhos castanhos no Brasil é normal; na Suécia é uma variante. Os brasileiros de olhos castanhos que moram na Suécia não são considerados doentes por isso, nem são coagidos a ocultá-los atrás de incômodas lentes de contato.

Quando se entendem as definições de normalidade e de variação, torna-se natural aceitar que a distribuição de características determinadas biologicamente não é uma questão de escolha. Daí o hoje disseminado repúdio ao racismo e as tentativas legais de proteger da discriminação pessoas negras, idosas ou portadoras de necessidades especiais. Os homossexuais são alvo de preconceito em grande parte por causa de décadas de teorias e lobbies políticos e religiosos para que a homossexualidade fosse considerada doença, ou ao menos uma opção inconveniente a ser revertida. No entanto, todas as evidências indicam o contrário: a preferência sexual é determinada biologicamente e ainda no útero – o que faz da homossexualidade uma variação, já que a maioria da população é heterossexual. Para desespero daqueles que acham que podem “consertar” a sexualidade dos outros, as neurociências apontam para a origem biológica da preferência sexual humana. Para infelicidade de muitos religiosos, políticos e psicoterapeutas, não há nenhuma evidência de que fatores sociais a influenciem. Cerca de 10 % da população (masculina e feminina) procuram preferencialmente parceiros do mesmo sexo. E esse número não muda entre os que foram criados por pai e mãe heterossexuais, por dois pais gays, por duas mães lésbicas, com ou sem religião.

RASTRO SEXUAL

Entretanto, há uma coisa em comum aos que preferem se relacionar com homens (mulheres hétero e homens homo), que é diferente naqueles que se sentem atraídos por mulheres (homens hétero e mulheres homo): a maneira como o cérebro de um e outro reage aos feromônios.

Sexo é um assunto tão importante, biológica e evolutivamente (afinal é o que torna possível a continuidade das espécies), que existem regiões do cérebro dedicadas exclusivamente a ele. Várias ficam no hipotálamo, estrutura responsável pela regulação de muitas funções do organismo, como frequência cardíaca, pressão arterial e comportamentos mais complexos como aproximação sexual e cópula. Situadas no hipotálamo ou não, todas as estruturas cerebrais relacionadas ao sexo respondem aos feromônios.

Essas substâncias são usadas por inúmeras espécies – leve duras, javalis e humanos – com a finalidade última de reproduzir-se. As alterações fisiológicas e comportamentais que elas produzem são sempre de cunho social. Cada indivíduo fabrica o feromônio característico de sua espécie, na versão “macho” ou “fêmea”, e o efeito no cérebro de seus pares do sexo oposto é avassalador. Quando tudo dá certo, o resultado é um filhote.

Muito voláteis, os feromônios entram pelo nariz, onde são detectados pelo órgão vomeronasal – e não pelo epitélio olfativo, razão pela qual são inodoros. Em seguida a informação é encaminhada para o hipotálamo. O comportamento desencadeado depende radicalmente de como essa região é ativada. O hipotálamo dos homens heterossexuais responde fortemente ao feromônio feminino EST (estra-1,3,5(10),16 -terrae-3-nol), um derivado do hormônio estrogênio (estrógeno), produzido durante o ciclo menstrual. A mesma região do cérebro das mulheres heterossexuais reage ao feromônio masculino ANO (4,16-androestadie -3-nona), que deriva de hormônios sexuais masculinos e é encontrado no suor, na pele e nos pelos axilares dos varões. Como era de esperar, o ANO aumenta a excitação das mulheres e diminui a dos homens quando ambos são heterossexuais.

Depois da detecção segue-se uma cascata de eventos em outras regiões do cérebro (como amígdala, córtex cerebral e sistema de recompensa) que provoca excitação sexual e faz com que se busque o dono ou a dona do feromônio em questão. Embora sejam inodoras, parece que essas substâncias são um dos principais determinantes do interesse e da aproximação sexual. Elas fazem com que 90% dos homens prefiram se aproximar delas e vice-versa, sem que ninguém saiba que tudo começa pelo nariz.

As estruturas que respondem aos feromônios e regem o comportamento sexual são as mesmas em homens e mulheres. Suspeitou-se, porém, que elas pudessem ser diferentes entre os sexos, de modo a garantir que o cérebro deles e delas reagisse de forma diferente a feromônios femininos e masculinos. Esse dimorfismo sexual de fato existe e está diretamente relacionado ao comportamento diferenciado que garotos e garotas passam a exibir a partir da adolescência, quando as estruturas cerebrais envolvidas amadurecem e tornam-se sensíveis aos feromônios.

As diferenças começam já na porta de entrada: no órgão vomeronasal (ver ilustração abaixo). Desse ponto em diante, em todas as estruturas da chamada via vomeronasal, os homens têm mais neurônios que as mulheres para processar os sinais gerados pela detecção dos feromônios. O tamanho de algumas estruturas também é maior neles, como o bulbo olfativo acessório (que recebe os sinais do órgão vomeronasal) e as próximas estações de processamento: núcleo póstero-dorsal da amígdala medial (pd MEA), núcleo intersticial da estria terminal (BST) e área pré-óptica medial do hipotálamo. Como esse dimorfismo depende da ação de hormônios sexuais masculinos, ele se manifesta apenas a partir da adolescência.

A importância da via vomeronasal para o comportamento sexual fica evidente quando ela é alterada experimentalmente. O bloqueio da síntese de um único receptor para hormônios femininos em uma área específica do hipotálamo, por exemplo, é suficiente para abolir o comportamento sexual de fêmeas de camundongo. Com o hipotálamo insensível ao estrogênio, elas não só deixam de aceitar as investidas dos machos como passam a rejeitá-los – simplesmente porque um único gene, o responsável pela síntese do receptor, foi silenciado.

A tomografia por emissão de pósitrons revelou que o cérebro de mulheres homossexuais (M-homo) responde aos deromônios de forma diferente do de mulheres heterossexuais (H-hétero). A área pré-optica do hipotálamo de M-homo não é ativada pelo feromônio masculino AND, como ocorre nas M-hétero. A exposição ao feromônio feminino EST ativa, tanto nas M-homo quanto nos H-hétero, as regiões dorsomedial e paraventricular do hipotálamo. Experimentos semelhantes com homens homossexuais chegaram a resultados parecidos.

NA GESTAÇÃO

A ativação da via vomeronasal em resposta aos feromônios de um(a) parceiro(a) em potencial é possível apenas na presença dos hormônios sexuais. Entretanto, não adianta inundar o cérebro infantil com eles para que o interesse sexual seja despertado: é preciso que ele passe pela puberdade para poder responder a essas substâncias. É verdade que o primeiro contato do sistema nervoso com os hormônios sexuais ocorre durante a gestação, pois é o pico de testosterona que determina a masculinização do feto e faz com que todas as estruturas da via vomeronasal produzam aromatase, a enzima que tornará possível, na adolescência, a ação do hormônio masculino sobre o sistema nervoso. É também na puberdade que a testosterona induz o crescimento de várias estruturas da via vomeronasal, como pdMEA e BST, no cérebro dos homens. A sensibilização dos neurônios ao longo dela – condição necessária para o interesse sexual – é estimulada tanto pela testosterona quanto pelo estrogênio.

Assim, o comportamento sexual resulta de ações inicialmente organizadoras, e, mais tarde permissivas, desencadeadas pelos hormônios sexuais. A atração que se sente pelo outro, seja este de que sexo for, é resultado da influência de genes e hormônios durante a formação, ainda no útero, de determinadas regiões cerebrais. Estas, por sua vez, determinarão mais tarde, depois de amadurecidas na adolescência, a preferência sexual pelo sexo oposto na maioria das pessoas ou pelo mesmo sexo em algumas. Revelada quando o cérebro adolescente expressa o caminho que tomou ainda na gestação, a preferência sexual não se escolhe: descobre-se.

Quando surgiram nos anos 80 as primeiras evidências de que a sexualidade é determinada biologicamente, militantes do movimento gay manifestaram-se tanto contra como a favor. Alguns grupos acolheram as descobertas como prova de que a homossexualidade não é doença nem opção, e sim biologia inevitável. Outros, ao contrário, sentiram-se lesados em seu direito de optar por essa forma de expressar sua sexualidade.

De lá para cá, um número cada vez maior de estudos mostram que a preferência sexual está associada a diferenças no hipotálamo. O neurocientista (e homossexual assumido) Simon LeVay mostrou, no início dos anos 90, que os homens têm mais neurônios em um pequeno núcleo hipotalâmico, chamado INAH-3, quando comparado à mesma região do cérebro das mulheres. Em homens homossexuais, essa quantidade foi intermediária.

Pesquisas recentes revelam que o hipotálamo de homo e de heterossexuais do mesmo sexo tem características diversas. Pesquisadores suecos mostraram, em 2006, que nem todo hipotálamo masculino responde a feromônios femininos e vice-versa. Usando ressonância magnética funcional, eles observaram que o padrão de respostados neurônios hipotalâmicos correlaciona-se não com o sexo do indivíduo, mas com sua preferência sexual. Assim, homens e mulheres que gostam de mulheres respondem ao feromônio feminino EST; já as mulheres e os homens que se sentem atraídos por homens têm o hipotálamo sensível ao feromônio masculino AND.

O que faz com que o hipotálamo responda diferentemente aos feromônios masculinos e femininos parece ser uma combinação de herança genética com fatore s hormonais durante a gestação. Há fortes evidências de que a exposição a quantidades exageradas de testosterona na vida intrauterina masculiniza a programação biológica de fetos femininos. Consequentemente, essas meninas passam a expressar, a partir da adolescência, o padrão masculino da via vomeronasal e de resposta aos feromônios. Da mesma forma, a homossexualidade masculina está associada a níveis mais baixos de testosterona durante o período fetal, o que parece influenciar o desenvolvimento da via vomeronasal depois da puberdade.

O ser humano não é a única espécie animal da qual alguns indivíduos demonstram preferência sexual pelo mesmo gênero. Diferenças nas estruturas que respondem aos feromônios são encontradas também em carneiros. De 8% a 10 % dos machos avançam insistente e exclusivamente sobre outros machos. Não há nenhum fator social ovino conhecido que poderia tê-los tornado homossexuais. Por outro lado, há uma diferença cerebral importante entre esses animais e seus companheiros hétero: o tamanho de um núcleo localizado numa área do hipotálamo chamada pré-óptica. A região é maior nos carneiros heterossexuais e menor nas fêmeas e nos machos homossexuais. Evidentemente, sempre existe a possibilidade teórica de a base biológica responsável pela preferência sexual mudar em consequência do comportamento homossexual, tanto de homens como de carneiros. No entanto, isso é muito pouco provável pelo que se sabe sobre a dificuldade de “converter” homossexuais em heterossexuais e vice-versa, sobre a indiferença da sexualidade a influências sociais e sobre a existência de padrões semelhantes de comportamento homossexual em outras espécies.

SEXO “ERRADO”

Até algo tão fundamental como sentir-se homem ou mulher parece ser determinado pela biologia do cérebro. Ao examinar, em 2000, um grupo de 42 pessoas composto de homens e mulheres hétero, homo e transexuais, pesquisadores holandeses observaram um número duas vezes maior de neurônios num dos núcleos da via vomeronasal (o BST) nas pessoas que se identificavam como homens em comparação às que se identificavam como mulheres – independentemente do sexo biológico, da preferência sexual e do fato de terem sido ou não tratadas com hormônios sexuais.

Graças a esse tipo de estudo, a atração por pessoas do mesmo sexo ou a sensação de ter nascido do sexo “errado” não podem mais ser consideradas aberrações psicológicas ou frutos de uma educação “equivocada”, familiar ou escolar. Trata-se de variações determinadas biologicamente. E como todo fenômeno biológico, a determinação da identidade e da preferência sexual está sujeita a influências químicas e genéticas nem sempre bem compreendidas. Aliás, seria surpresa para um biólogo se todos fossem perfeitamente iguais, sem nenhuma variação na cor dos olhos ou na preferência sexual. A descoberta de que é o cérebro, e não os hormônios sexuais nem a genitália, que define a identidade ou a preferência sexual é uma das lições das neurociências de maior impacto em nossa vida cotidiana. A atração por um ou outro sexo é inata, não opcional. Por isso as tentativas de convencer pessoas ou outros animais a mudar suas preferências sexuais nunca deram certo.

A ciência é frequentemente criticada por “reduzir” a questão da homossexualidade aos domínios da biologia. Isso deixa transparecer a incrível dificuldade que o ser humano tem de aceitar-se como animal. Gostamos de assistir aos documentários sobre macacos ou leões, mas custa-nos admitir que a Natureza pode ter influência – muitas vezes determinante – também sobre nosso comportamento.

O comportamento sexual não pode ser explicado exclusivamente pela biologia. As pessoas têm sim a opção de fazer o que bem entendem com sua preferência sexual, ainda que lamentavelmente o preconceito e a discriminação tragam complicações psicológicas.

A Natureza não reina sozinha. De fato, é possível optar pelo comportamento heterossexual, contra a preferência biológica ou a favor dela. Nesse caso a família e a sociedade certamente exercem um papel importante. Mas o cérebro é capa de fazer melhor; pode até mudar crenças, teorias e preconceitos, felizmente. Se 100 % da população tem preferência sexual inata e biologicamente determinada, somos todos iguais nesse quesito – mesmo que o cérebro da maioria responda a feromônios do sexo oposto. Tentar mudá-la é como insistir que uma pessoa troque a cor da pele, torne-se menos alta ou mude a cor dos olhos. É inútil, inviável e injusto.