A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENGRENAGENS DO CÉREBRO MASCULINO

O pensamento do homem se organiza como um sistema que o faz ver o mundo como um conjunto de elementos interligados

Meninos e meninas costumam brincar de jeitos diferentes. Ainda pequenos, os garotos frequentemente se interessam por aviões, carros, caminhões e armas; gostam do ronco dos motores, dos estampidos e das sirenes. Por volta dos 2 anos já demonstram forte interesse por blocos de construção e brinquedos mecânicos, enquanto as meninas preferem brincar com bonecas e vestir roupas e experimentar acessórios.

A criança vai crescendo e o padrão se mantém: eles dedicam mais tempo do que elas aos brinquedos mecânicos (miniaturas de veículos, por exemplo) e de construção (como blocos para empilhar). Parecem adorar as montagens e constroem torres e cidades. Com frequência, sentam-se, admiram a obra construída para, em seguida, desmanchar tudo. Eles gostam também de brinquedos cujas funções sejam óbvias – com botões que possam pressionar, luzes que se acendam e aparatos que movimentem outros objetos. Ou seja: meninos adoram sistemas. Podemos entender a sistematização como o impulso de compreender e construir conjuntos de elementos materiais ou ideais relacionados entre si.

Embora seja possível imaginar que isso só vale para garotos da sociedade tecnológica ocidental, registros históricos revelam que o mesmo padrão já era encontrado em comunidades pré-industriais. Nos dias de hoje, esse funcionamento é encontrado no ambiente profissional. Algumas ocupações são quase inteiram ente masculinas, como metalurgia e a fabricação de armas e de instrumentos musicais. Ou a construção e fabricação de embarcações. Não se pode dizer que esse fato seja reflexo da maior força física dos homens, já que em muitas dessas tarefas – como a fabricação de facas ou de violinos – a força não é importante; o foco são os sistemas de construção.

Como estabelecer uma ligação entre as observações de brincadeiras de bebês e crianças e o funcionamento neurológico e cognitivo de adultos? Um elo possível está no fato de que a atenção de homens e mulheres é atraída, desde cedo, por diferentes aspectos do ambiente. Em um teste fascinante, replicado inúmeras vezes nos últimos anos nos Estados Unidos, é mostrada a homens e mulheres uma série de figuras humanas e de objetos mecânicos. Foi utilizado equipamento que permite que imagens da figura humana e de objetos apareçam simultaneamente na mesma área do campo visual – o que provoca uma “competição” entre os dois estímulos pela atenção do observador. Invariavelmente, em todas as edições do teste, os homens perceberam mais sistemas mecânicos do que pessoas, enquanto as mulheres garantiram ter visto mais pessoas do que objetos.

No mundo industrializado, profissões ligadas ao estudo da matemática, da física e da engenharia exigem alta capacidade de sistematização. Podemos até pensar que essas áreas de conhecimento são equivalentes, nos adultos, às brincadeiras infantis com objetos mecânicos e blocos de construção. Na fabricação de instrumentos de precisão, porém, se um detalhe for modificado nos dados de entrada do sistema ou se for alterada a operação, o resultado pode ser radicalmente afetado. Mude um número da fórmula ou a largura do equipamento e todo o sistema deixará de funcionar.

Todas as ciências utilizam como base a sistematização e, em geral, são dominadas por homens. É quase inevitável a observação de que apenas três dos 170 ganhadores vivos do Prêmio Nobel são mulheres. Nos anos 70, a proporção de homens e mulheres atuantes nos campos de matemática, física e engenharia era de nove para um – e assim continua até hoje. O mesmo acontece nas áreas em que se aplica o modelo matemático em relação à economia e à estatística.

A diferença é significativa, mesmo se levarmos em conta fatores culturais e sociais que afastaram representantes do sexo feminino de determinados campos. O padrão observado em diferentes ciências, porém, sugere algo mais sutil. Pesquisa feita nos Estados Unidos pela National Science Foundation revelou que apenas 23% dos cientistas que atuam no ramo da biologia são mulheres – a percentagem cai para 5% em física e 3% em engenharia. Em outros países, foi encontrado o mesmo padrão, embora não haja evidência de que essas duas últimas escolhas ofereceriam carreiras profissionais menos favoráveis.

LÓGICA E NÚMEROS

Uma explicação possível para a diferença de representantes homens e mulheres nessas áreas é que o processo de seleção para esses cursos seria tendencioso por utilizar métodos de raciocínio matemático. Tal critério não deixa de ser razoável, já que a habilidade com números e lógica é um bom recurso para previsão do sucesso nesses campos. No entanto, pode ser que a matemática desequilibre a proporção entre homens e mulheres em física e engenharia. Confirmando esses indícios, temos a proporção de dez homens para uma mulher que se situam na faixa mais alta de pontuação no Scholastic Aptitude Math Test (SAT-M), um teste de aptidão matemática aplicado nos Estados Unidos a todos os candidatos às universidades.

Outra explicação possível é que não haveria nenhuma orientação tendenciosa externa nas seleções; homens e mulheres estariam simplesmente escolhendo áreas da ciência nas quais têm mais interesse ou maior aptidão. Neste caso, “escolha” é um termo impreciso (pelo menos se não considerarmos as opções pautadas nos determinantes inconscientes, a respeito dos quais não discutiremos neste texto) – já que nossas ocupações nem sempre são resultado de uma opção consciente, mas simplesmente das oportunidades que se apresentaram. Emprego a palavra “interesse” porque a escolha da ocupação pode ser guiada não somente pela facilidade de desempenhar determinada tarefa, mas também por nossas preferências.

O pesquisador Johnny Lawson, doutor em psicologia pela Universidade de Cambrige, utilizou um teste que chamou de Physical Prediction Questionnaire (Questionário de Previsão Física) para verificar se homens e mulheres compreendem de maneiras diferentes o processo de uso de alavancas (dados de entrada) ligadas a diferentes mecanismos (rodas dentadas encaixadas de várias maneiras) para afetar o movimento de algumas barras (resultado). As barras subiriam ou desceriam. Os homens se saíram melhor na tarefa de prever os resultados, o que não pode ser relacionado a nenhum viés eventualmente provocado por um entrevistador sexista, já que o questionário foi enviado por e-mail e respondido pelos voluntários.

Portanto, sem negar a existência de possíveis fatores sociais na criação de desigualdades entre cientistas homens e mulheres, acredito que devemos continuar abertos à possibilidade de que pessoas de ambos os sexos se sintam mais atraídas por determinadas atividades.

Vamosolhar a matemática com atenção. Com muita frequência, na escola, os meninos tiram notas mais baixas do que as meninas em matemática. Isso parece contrariar a afirmativa de que o cérebro masculino seja melhor sistematizador. No entanto, embora marquem menos pontos pela precisão, os garotos se saem melhor nos testes de habilidade matemática. Apesar de os trabalhos escolares dos meninos serem menos organizados, eles tendem a encontrar soluções mais rapidamente.

EM TODO O MUNDO

As garotas, porém, se destacam em determinados aspectos da habilidade matemática. Durante os anos de estudo, elas se saem melhor em testes de sentenças matemáticas e de raciocínio como o cálculo. Supõe-se que a razão para isso é que para essas tarefas seja mais fácil usar estratégias verbais e a facilidade nesse quesito é uma qualidade principalmente feminina. Quando se trata de tarefas nas quais as estratégias verbais são menos úteis – como geometria, probabilidades e estatística – as garotas costumam ter notas mais baixas.

Essas diferenças na área foram documentadas em crianças de sete anos. A psicóloga Doreen Kimura lembra que o mesmo professor ensina cálculo (em que as garotas se saem melhor) e solução de problemas (em que os garotos apresentam melhor rendimento); assim, fica difícil atribuir ao estilo e às expectativas gerais do profissional a responsabilidade pelos padrões de desempenho diferentes em meninos e meninas. O mesmo argumento pode ser aplicado aos pais. Estudos multiculturais sugerem que, na idade pré-escolar, podemos dizer que não há diferenças entre meninos e meninas nas habilidades matemáticas primárias, como contagem básica, numerosidade (ideia de mais e menos), ordinalidade (sucessão dos números) e aritmética simples (adição e subtração). As diferenças entre os sexos só surgem em domínios mais avançados, como geometria, com os quais as crianças só terão contato nos anos mais adiantados da formação escolar. Podemos até ceder à tentação de concluir que esse cenário demonstra o papel exercido pela cultura e pela educação na geração de diferenças, mas estudos multiculturais revelam o mesmo padrão variável entre os sexos no mundo todo. Em culturas tão diversas quanto as de países como Estados Unidos, China, Japão e Tailândia as garotas se saem melhor com cálculos e no estudo de componentes de computação; garotos se destacam na resolução de problemas. No teste de aptidão para a matemática SAT-M, rapazes marcam, em média, 50 pontos a mais do que as moças. Quando os resultados são separados em faixas, ocorre algo interessante: as diferenças aparecem de forma ainda mais marcante nas faixas superiores de desempenho. Entre os participantes que marcaram mais de 500 pontos, encontra ­se uma relação entre masculino e feminino de 2 para 1; acima de 600, a relação sobe para 6 para 1 e, acima de 700 pontos, chega a 13 para 1.

Um panorama semelhante se desenha na Olimpíada Internacional de Matemática, em que competem os melhores matemáticos do mundo. Durante a competição, 85 países apresentam seus seis melhores matemáticos, selecionados em concursos nacionais. A relação dos vencedores está na internet e os que tiverem a curiosidade de consultar verão, pelos nomes – Sanjay, David, Sergei e Adam, por exemplo – que quase todos são do sexo masculino.

NÍVEL DA ÁGUA

Essa tendência se manteve em todos os países e em todos os anos em que houve o torneio. Interessante: a China sempre consegue incluir uma mulher na equipe. No entanto, pelas médias de grupo para os dois sexos, é muito mais provável que os melhores matemáticos sejam homens. O panorama geral sugere que os homens superam as mulheres nesse campo (isento de qualquer componente verbal) desde a escola até os níveis mais altos de escolarização.

Algumas técnicas psicológicas podem ajudar a compreender as diferentes maneiras de homens e mulheres enxergar o mundo e trabalhar com informações que apreendem. O teste tarefa do nível da água (Water levei task), criado pelo educador e psicólogo infantil suíço Jean Piaget, é uma delas. Ele propôs que fosse apresentada aos participantes uma garrafa inclinada em um determinado ângulo e que se pedisse a eles que estimassem o nível do líquido dentro do recipiente. As mulheres, com mais frequência, deduzem que a água deve estar alinhada com a inclinação da garrafa, mas a resposta certa é que, qualquer que seja a inclinação, o nível será sempre horizontal.

A mesma vantagem masculina é observada em um teste similar, o da haste e da moldura. O voluntário vai para uma sala escurecida e lhe é apresentado um modelo em terceira dimensão de um retângulo luminoso (a moldura) com uma haste luminosa dentro dele. A figura é girada em diferentes direções e pede-se à pessoa que posicione a haste de modo que fique em posição vertical. Comprovadamente, alterar a inclinação da moldura não afeta a posição da haste. Se a ideia de verticalidade for influenciada pela inclinação da moldura, diz-se que a pessoa é “dependente do campo”: seu julgamento é facilmente alterado pelos (irrelevantes) dados de entrada do contexto. Se o participante não se deixar influenciar pela inclinação da moldura, podemos dizer que é “independente do campo”: a compreensão só leva em conta os fatores relevantes intrínsecos ao sistema. Segundo a maioria dos estudos, as mulheres são mais dependentes do campo: tendem a se distrair por aspectos irrelevantes, em vez de considerar o sistema. Elas costumam dizer, erroneamente, que a haste fica em posição vertical quando em alinhamento com a moldura.

ESPAÇO E FOCO

Já no teste das figuras encaixadas pede-se ao indivíduo que olhe para uma figura simples (o objeto) e a identifique dentro dele um padrão mais complexo (onde seu fundo se encaixa). Homens costumam ser mais rápidos e precisos em suas respostas. Este pode ser considerado um exercício de sistematização, já que a forma do objeto só permite o encaixe em uma posição e em lugar determinado. Em outras palavras: existe uma regra que descreve essa relação. Se pensarmos no padrão complexo do fundo como um motor de carro, por exemplo, e no objeto como uma das peças, esta só pode ser colocada no motor em uma determinada posição para completar o sistema.

Os homens também são capazes de aprender um caminho em um número menor de tentativas, com o auxílio do mapa, lembrando corretamente mais detalhes sobre direção e distância. Em estudos que tive a oportunidade de acompanhar, pedimos a alguns meninos que fizessem um mapa de uma área que só visitaram uma vez e seu trabalho foi bastante preciso, mostrando, por exemplo, qual a paisagem a sudeste de uma estrada. Se levarmos em conta a organização e apresentação desse material, porém, o risco de termos uma tarefa considerada “insatisfatória” é bastante grande. Já as meninas mostraram a tendência de organizar melhor o trabalho, mas produziram mapas com maior quantidade de erros de localização de pontos importantes.

Os meninos tendem a enfatizar direções, rotas ou sentido de direção, enquanto elas dão ênfase a pontos específicos – a loja da esquina, por exemplo. Essas duas estratégias, marcação de direções versus destaque para pontos específicos, têm sido bastante estudadas. A estratégia direcional é um exemplo de compreensão do espaço como um sistema geométrico e o foco em caminhos revela a consideração do ambiente como sistema.

Em outro estudo, foi mostrado aos voluntários o mapa de um a cidade fictícia. A tarefa era aprender determinado caminho. Os homens cumpriram a tarefa em menos tempo, com menor número de tentativas e de erros. Mais uma vez, as mulheres se lembravam principalmente da paisagem, enquanto eles tinham melhor compreensão direcional do mapa. Outros estudos do tipo costumam chegar a resultados similares. Algumas experiências podem ser realizadas de maneira informal. Por exemplo: leve um grupo de crianças com idades em torno de oito anos a um local desconhecido, dê a elas um mapa e depois peça que desenhem a área. As meninas incluem mais elementos da paisagem e os meninos, mais caminhos. Se a experiência for repetida com um segundo grupo com o mapa e o passeio pelo local reduzidos à metade, para dificultar um pouco a tarefa, os meninos ainda assim se lembram melhor das posições relativas dos lugares. O cérebro masculino “arruma” os elementos em um sistema geométrico ou de rede; o feminino marca os elementos descritivamente.

TALENTOS E ESTEREÓTIPOS

Um novo estudo sobre gênero, desenvolvido pela professora de psicologia Janet Shibley Hyde, da Universidade de Wisconsin, em Madison, revela que as diferenças entre homens e mulheres talvez não sejam tão marcantes como muitos pesquisadores acreditam. Para chegar a essa conclusão, Hyde realizou a revisão dos 46 estudos sobre gênero mais importantes dos últimos 20 anos.

“Claro que há diferenças emocionais e cognitivas entre os sexos. Os homens, de fato, são mais agressivos fisicamente”, observa. Já os problemas de auto estima na adolescência, geralmente associados ao comportamento feminino, afetam igualmente os rapazes. Mas para a psicóloga, o estudo mostra que tendemos a nos concentrar mais nas diferenças do que nas similaridades e exageramos qualquer descoberta científica que aponte pequenos contrastes.

“Se aceitamos que os homens não se comunicam bem, quais as implicações disso para o casamento? Por que um a mulher tentaria conversar com seu marido para resolverem seus problemas se ele fosse incapaz de compreendê-la?”, questiona. “Se temos certeza de que os meninos são melhores em matemática, ignoramos o talento matemático de muitas meninas.” Isso implica limitação das oportunidades profissionais das mulheres em áreas tecnológicas e científicas. “Em vez de continuarmos a acreditar em psicólogos de programas de auditório, precisamos dar ouvidos a dados científicos que nos dizem quando estamos nos aferrando a falsos estereótipos”, sugere Hyde.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.