EU ACHO …

A ECONOMIA DA EXCLUSÃO

Do debate sobre a renda básica à discussão sobre desigualdade de gênero e racial, o país que se revela é devastador.

Como muitos leitores já sabem, tenho usado parte de meu tempo neste período de quarentena para me dedicar a um canal que criei no YouTube com a finalidade de disseminar conhecimentos sobre economia e de trazer alguns debates. A hora que eu perdia entre idas e vindas do trabalho agora uso nessa empreitada. Entre explicações sobre economia e debates com interlocutores, tem ficado cada vez mais evidente que nossa economia, essa economia que aceitamos como natural e pela qual passamos a conviver com injustiças diversas, é profundamente excludente. Segundo dados do IBGE, em 2018, quando a economia brasileira estava “em bom estado”, isto é, não havia crise e o país ensaiava uma retomada, tínhamos cerca de 12 milhões de desempregados. Desses 12 milhões de desempregados, dois terços eram pessoas negras e pardas. Dois terços. Estamos agora no meio de uma pandemia, e o desemprego haverá fatalmente de subir. Se a queda do PIB for da ordem de 10% neste ano, conforme estimo, teremos, em breve, mais de 20 milhões de desempregados no país, ou 10% da população brasileira. Vou repetir: em poucos meses, 10% da população brasileira provavelmente estará desempregada. Quem serão essas pessoas? A julgar pelos dados de 2018, certamente a composição do desemprego será marcada pela gritante disparidade racial, refletindo o que já está acontecendo em outros países. Aqui nos Estados Unidos, onde a taxa de desemprego alcançou exorbitantes 14,7% no mês de abril, os que perderam seus empregos foram desproporcionalmente negros e hispânicos.

Eis outra dimensão de nossa imensa economia da exclusão: cinco anos após a chamada PEC das Domésticas ter sido sancionada – a emenda constitucional que regularizou o trabalho doméstico garantindo equidade de benefícios -, 70% das pessoas que trabalham no setor continuam na informalidade. Como também mostram os dados do IBGE, as mulheres são maioria no trabalho doméstico (97% dos cerca de 6,5 milhões de trabalhadores nesse setor), e, portanto, são elas as mais atingidas pela informalidade. Trata-se de mais de 4 milhões de pessoas trabalhando em condições precárias, muitas delas mães que sustentam famílias. São mães que sustentam famílias sem receber sequer um salário mínimo integral. Como revelam diversos estudos do Ipea, essas mulheres são majoritariamente negras e de baixa escolaridade. As trabalhadoras domésticas, lembra­ nos o IBGE, são as que têm o menor rendimento médio entre todos os trabalhadores do mercado de trabalho.

Somos um país que cria muitos obstáculos para a entrada e a permanência de negros, pardos e mulheres no mercado de trabalho. Países que excluem, documentam os estudos empíricos, são países que têm pouco dinamismo e baixo crescimento. Países excludentes são aqueles que perpetuam as desigualdades, as quais se tornam estruturais por se reproduzirem de geração em geração, na falta de ações transformadoras. Nada disso é novidade, os dados brasileiros são conhecidos e há muita gente dedicada a estudar e esmiuçar esses temas há décadas.

O que há de diferente agora? Nada. E tudo. Nada, haja vista que a economia da exclusão é uma característica nossa como pais. E tudo porque o momento atual suplica por apoio a uma mudança profunda. Tenho trazido para este espaço a discussão sobre a renda básica permanente no Brasil, e ela é um pilar fundamental a partir do qual podemos tornar não só nossa economia mais inclusiva, mas fazê-lo reconhecendo a dignidade das pessoas. importante debater os entraves institucionais que contribuem para a manutenção de uma parte considerável de nossa população em condições de extrema precariedade e considerar os dezenas de milhões de adultos e crianças que não têm acesso a quase nada. Como bem disse o presidente da Cufa, com quem debati dia desses, o verdadeiro Estado Mínimo apregoado pelo ministro da Economia está nas favelas, nas comunidades, nas periferias.

Temos um governo cujo discurso é o da exclusão. Contudo, temos uma pandemia e uma crise econômica que revelam de forma crua a extensão dessa exclusão, as injustiças a ela associadas e a precariedade da vida de imensa parte de nossa população, logo, de nossa economia. Podemos optar por manter a economia da exclusão. Ou podemos finalmente fazer algo para começar a resolver problemas que, se não solucionados, implicarão desperdício de vidas e redução da capacidade de desenvolvimento do Brasil.

** MONICA DE BOLLE é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

VIDAS DE VIDRO

Em busca de distração, diversão, likes e ganhos, o mundo tenta transportar a realidade para as telas das lives

Uma regra tácita dos megashows de estrelas do pop estipula a que tudo que acontecia no palco deveria parecer fácil. As coreografias elaboradas, os cenários colossais, a interação do artista com vídeos, lasers e efeitos especiais, a troca rápida de figurino entre uma canção e outra — tudo isso exigia muito ensaio e preparação; na hora do show, porém, um Prince ou uma Beyoncé deslizavam   entre músicos e dançarinos com impecável naturalidade. A pandemia do Covid-19 vem mexendo com nossa noção de tempo, e a era dos megashows parece enterrada na mais remota camada geológica – é difícil acreditar que no início do ano ainda se noticiava o cancelamento da apresentação da Madonna por problemas de produção, não por razões de saúde pública. O artista que deseja permanecer relevante hoje tem de recorrer às lives em redes sociais e sites de vídeos, e as antigas regras não valem mais. O cenário caseiro desses eventos admite que os cantores se mostrem mais relaxados. Se no passado nunca se ouviria Elton John reclamar do peso de um de seus chapéus encimados por um chafariz de plumas, hoje já se admite que um cantor sertanejo se queixe de um simples par de sapatos pretos. Aconteceu na live de Bruno & Marrone, que no pico teve 1,2 milhão de espectadores e já acumula mais de 27 milhões de views no YouTube. Marrone reclamou que seus sapatos apertavam, e Bruno respondeu de pronto: “Não tira que seu pé é feio demais” (temos de elogiar o cantor por evitar uma manjada piada de chulé).

Esse climão despachado tem sido comum às lives sertanejas. A produção é montada na casa dos artistas, que muitas vezes trazem membros da família para cantar ou bater papo. A dupla Jorge & Mateus fez seu show na garagem, circunstância que, segundo foi dito no início da live, evocaria seu início de carreira. Gusttavo Lima anunciou uma pausa na apresentação alegando que precisava ir ao banheiro, pois já bebera demais. Mas toda essa informalidade é, por contraditório que isso pareça, profissional. A cerveja que obrigou Gusttavo Lima a uma parada no banheiro (e que o fez lamentar a ressaca em um vídeo na manhã seguinte) patrocinou a live. Garrafas de uma marca concorrente – se é correto chamar de concorrentes dois produtos feitos pela mesma megaempresa – figuraram com destaque na garagem de Jorge & Mateus. E garrafas dessa mesma marca reapareceram em um balde de gelo na mesa entre Bruno e Marrone. Ao lado do balde, como um sinal ominoso dos tempos, via-se um frasco de álcool em gel. Em geral, as lives servem às campanhas humanitárias, mas isso não as resguarda da sanha dos fiscais sanitários da internet, que têm criticado o número de pessoas envolvidas nessas produções. Michel Teló e Marília Mendonça escaparam dessa: fizeram shows modestos, sozinhos em casa, e com playback.

Para quem vivia principalmente de shows, a apresentação ao vivo pela internet é a alternativa que restou. Não é assim só para o sertanejo: no circuito bem mais modesto dos repentistas nordestinos, a live em rede social também impôs. Mas já antes da pandemia firmara-se como estratégia promocional de celebridades e subcelebridades sedentas de atenção – todas em busca do vídeo que se tornaria viral, adjetivo que agora voltou a ser empregado em seu significado literal. O isolamento social acrescentou uma nota de urgência a esses arroubos narcísicos. Da atriz holliwoodiana ao influencer nem tão influente assim, todos se apresentam como evangelistas do isolamento social, o que seria louvável se a construção da imagem pessoal não viesse antes da causa sanitária. Eventualmente, os famosos em isolamento social brindam os fãs com bem­ vindos momentos de leveza, como o singelo vídeo em que Sam Neill, de Jurassic Park, interpreta “Creep”, do Radiohead, com um ukulele. E a pandemia promete ter também sua versão do Live aid: neste sábado, com lives em várias plataformas e transmissão por canais de TV, será realizado o festival One world: together at home, para angariar fundos para o combate à pandemia. Participarão, entre vários outros, Lady Gaga, Paul McCartney, Billie Eilish e Elton John.

Outras celebridades preferem fazer da intimidade um espetáculo, com resultados constrangedores. Em uma live, Gwyneth Paltrow e o marido, Brad Falchuk, conversam on-line com uma “coach de intimidade”. A atriz dos filmes da Marvel queixa-se da dificuldade de manter a chama acesa quando o casal está preso em casa, com cachorros e filhos de um casamento anterior – com Chris Martin, do Coldplay, que aliás fez uma simpática live cantando músicas pedidas por fãs. Dias depois, a intimidade veio ajudar os negócios: no Goop, seu site de produtos de beleza, saúde e lifestyle, Paltrow recomendou às fãs consumidoras os melhores vibradores para brincadeiras a dois durante o isolamento.

A exposição da vida privada estaria já no nascedouro do culto aos famosos, sugere o historiador francês Antoine Lilti em A invenção da celebridade 1750-1850 (editora Civilização Brasileira). No século XVI­II, pinturas de Voltaire em situações comezinhas – jogando xadrez, andando a cavalo, recebendo um visitante – foram reproduzidas em gravuras e venderam bem em Paris e Londres. O artista suíço Jean Huber, autor dos quadros originais, não se furtou nem de mostrar o grande iluminista na hora matinal em que deixa a cama, de camisolão, e veste os culotes, equilibrado sobre uma perna só. Mesmo nesse desalinho, o autor de Cândido ainda reafirma a fama de Mestre, com maiúscula: já está ditando um texto para seu secretário. Hoje, quando o celular e a câmera digital tomaram o lugar do pintor, as celebridades ainda tentam se equilibrar entre a existência protegida e irreal que o estrelato lhes concedeu e a necessidade de se mostrarem acessíveis, “gente como a gente”. Quando Gwyneth Paltrow exibe a conversa com a tal “coach de intimidade”, ela acredita que o público vai se identificar com suas dificuldades para manter o interesse em sexo durante o confinamento em sua mansão. Mas comentaristas vêm pontuando o abismo socioeconómico entre essas celebridades e o cidadão comum que talvez já tenha perdido seu emprego na crise desencadeada pelo vírus que veio de Wuhan. Em um texto inflamado, Amanda Hess, articulista do New York Times, especula que a pandemia, ao escancarar a desconexão dos astros com a vida na superfície terrestre, ainda vai “desmontar a cultura da celebridade”. Mas isso já é atribuir poderes sobrenaturais à Covid-19.

Os sertanejos – que não são milionários apenas em views no YouTube – ao que parece conseguem andar com naturalidade na beira do abismo social brasileiro. Gusttavo Lima deu um recado aos credores no início da uma música: pagamento, só daqui a alguns meses. E a piada soou estranhamente autêntica, ainda que a live tenha sido feita à beira da piscina de uma mansão com absurdas colunas jônicas, em Goiânia. Bruno apresentou-se como um empresário socialmente responsável: lembrou que só em março ele e Marrone cancelaram nove shows, e que muitos funcionários dependem da dupla para sobreviver. O momento mais precioso dessa live – quiçá de todas as lives – foi quando o mesmo Bruno, já sob a influência da cerveja patrocinadora, pôs­ se a filosofar sobre os efeitos socioculturais da Covid-19: “Essa pandemia veio para equilibrar”, disse, para em seguida partir para uma consideração sobre os méritos relativos de capitalismo e comunismo: “Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno”, recomendou. Alguém tem de avisar ao sertanejo que a “terceira via” caiu em descrédito com a queda do primeiro-ministro britânico Tony Blair, em 2007.

A necessidade de validação social durante o isolamento forçado talvez responda por essa nova onda de lives. Machado de Assis, no século XIX, examinou esse desejo imperioso na figura de Jacobina, protagonista do conto “O espelho”. Quando jovem, recém­ escolhido para o razoavelmente prestigioso cargo de alferes da Guarda Nacional, Jacobina, por uma série de circunstâncias fortuitas, se vê de repente sozinho em uma propriedade rural, abandonada até pelos escravos. Ao longo das semanas de solidão, a imagem que ele vê no espelho torna-se difusa, imprecisa, até que ele resolve vestir a farda de alferes – e pronto: seus traços se tornam de novo claros e distintos. Para o espelho das redes sociais, é preciso criar fardas novas e mais brilhantes. E isto não vale só para celebridades: a quarentena reavivou a profecia nunca comprovada de Andy Waehol, segundo a qual todos um dia serão famosos por 15 minutos. Quinze minutos ou 18 horas? Esse foi o tempo total que um rapaz brasileiro levou para contar o número de grãos de arroz em um saco de 1 quilo, ao longo de cinco lives no Facebook. Cômputo final: 50.966 grãos.

No Twitter, abundam pequenas produções caseiras em que se registram atividades extravagantes no isolamento. Geralmente, aliás, elas vêm marcadas com o número de dias que o autor passou fechado em casa. Um dos melhores, realizado por um holandês no 14º dia de isolamento, mostra o que parece ser um passageiro instalado em uma poltrona de avião, bebericando vinho branco. A câmera se afasta e então se vê que a janela do avião era a tampa de uma máquina de lavar. É um humor tristonho, evocando o tempo tão recente e tão distante em que viagens de avião não eram excepcionais.

O mundo teve então um vislumbre da lavanderia de um holandês anônimo – não mais: agora sabemos que ele se chama Jeroen Gorhvorst -, e as redes sociais também nos convidam a visitar a sala de estar de Gwyneth Paltrow e a piscina de Gusttavo Lima. A privacidade agora é devassada em tempo real. O antigo ethos vitoriano que resguardava a casa como um espaço de sagrada intimidade já havia, é claro, morrido entre os séculos XIX e XX. Em 1933, Walter Benjamin celebrava, no breve ensaio Experiência e pobreza, o fim dos interiores burgueses, personalizados com bibelôs e cortinas franjadas. O filósofo alemão preconizava o surgimento de uma “nova barbárie”, constituída por homens e mulheres libertados do peso da cultura e da história, que viveriam em casas de vidro desenhadas por arquitetos modernistas como Adolf Loos e Le Corbusier. O vidro, diz Benjamin, é um material desprovido de memória, que não guarda rastros. Fica implícita outra qualidade: a transparência. O mundo das lives e do novo coronavírus talvez possa ser lido como uma versão distópica (e paródica) do sonho de Benjamin. Seus “novos bárbaros” expõem sua vida vazia de história e memória na superfície de vidro do touchscreen.

Na literatura distópica, há quase sempre um personagem solitário que perturba o consenso de uma sociedade até então monolítica em seu conformismo. É o papel que o Selvagem faz em Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e Winston Smith em 1984, de George Orwell. A moda das lives encontrou um improvável resistente: Caetano Veloso. O compositor que em “Sampa” se admitia Narciso parece não se reconhecer na versão digital do espelho machadiano. Em vídeos no Instagram, Paula Lavigne, sua mulher e empresária, tornou folclórica a imagem do cantor comendo paçocas, ao que parece para se consolar da depressão do confinamento. É um reality show das redes sociais: entre uma e outra paçoca devorada pelo baiano, Lavigne insiste para que ele faça sua live, a exemplo dos sertanejos. Com visível contrariedade, Caetano promete que fará a live – um dia, quem sabe. Sim, seria bom ouvir Caetano interpretando suas melhores canções ao violão, no recesso de sua casa. Ao mesmo tempo, porém, há algo de admirável nessa recusa ranheta dos imperativos das redes sociais. Resista, Caetano, resista!

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE MAIO

O REMÉDIO PARA O CORAÇÃO AFLITO

Converteste o meu pranto em folguedos… (Salmos 30.1a).

Jesus estava despedindo-se de seus discípulos e dando-lhes suas últimas instruções. Era quinta-feira, o dia fatídico da traição de Judas, do abandono dos discípulos, da luta de sangrento suor, da prisão humilhante e do julgamento ilegal no Sinédrio. Os discípulos estavam com seus corações aflitos e turbados. Jesus, então, lhes diz: Não se turbe o coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também (João 14.1- 3). Jesus oferece três remédios para a cura de um coração aflito. PRIMEIRO, a fé em Cristo. A fé é uma âncora firme quando singramos os mares revoltos da vida. Não devemos olhar a fúria das ondas nem nos amedrontar com o rugido dos ventos. Devemos olhar para Jesus!

SEGUNDO, a certeza do céu. O céu é a casa do Pai, onde há muitas moradas. É o lugar preparado para pessoas preparadas. A vida não é só o aqui e o agora. Há um futuro de glória para aqueles que creem no Senhor Jesus. O fim da nossa caminhada não desemboca num túmulo gelado, mas no céu de glória.

TERCEIRO, a segunda vinda de cristo. jesus voltará para nos buscar. subiremos com ele, reinaremos com ele e desfrutaremos com ele das venturas benditas do Paraíso. A aflição não precisa ser nosso cálice, nem nosso coração precisa ser sobressaltado pela angústia. Podemos levantar nossos olhos e contemplar, pela fé, as glórias do futuro.

GESTÃO E CARREIRA

ESTÍMULO À INOVAÇÃO

Com apoio e financiamento de grandes empresas, startups da área da saúde começam a apresentar soluções para ajudar no combate à pandemia

Entre as doações mais comuns feitas pelo setor privado para a luta contra a Covid-19 estão toneladas de álcool em gel, milhares de kits com equipamentos de proteção pessoal e até testes para a detecção do novo coronavírus. É uma ajuda necessária, que tem aplacado as dificuldades de estados e municípios em situação mais precária no combate à pandemia. Nesse cenário, chamou atenção a iniciativa anunciada pela JBS, colosso do setor frigorífico que lamentavelmente ganhou visibilidade pela relação pouco transparente com os governos do PT e de Michel Temer. Agora num ato de incomum generosidade, a empresa controlada pela família Batista doou 700 milhões de reais – a segunda maior feita por uma corporação brasileira, atrás apenas do 1 bilhão de reais doados pelo Itaú – para, entre outras finalidades, o desenvolvimento de novas tecnologias que possam auxiliar no diagnóstico e no tratamento de pacientes com a síndrome respiratória. Com esse apoio, um grupo de especialistas seleciona projetos elaborados por empresas inovadoras e de pequeno porte as chamadas startups, que oferecem produtos ou serviços tecnológicos. “Assim como as guerras, as pandemias impulsionam o pensamento inovador”, diz Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein e um dos curadores dos projetos que serão financiados.

A louvável iniciativa da JBS lança luz sobre um setor pouco conhecido e que já apresenta resultados promissores na luta contra a Covid-19. Estima-se que existam cerca de 300 startups de saúde em atividade no Brasil – pequenos negócios conhecidos também como healthtechs. Dessas, sessenta têm boas perspectivas de crescimento, de acordo com monitoramento feito por grupos interessados em investir nas inovações. Faz parte desse time a HiTechnologies, criadora do laboratório portátil chamado Hilab. O equipamento nasceu em 2016 para realizar testes sorológicos de diagnóstico e avaliação de doença como diabetes e Zika. O Hilab analisa as amostras coletadas dos pacientes em minutos por meio de inteligência artificial, com o apoio de uma central remota de biomédicos e bioquímicos. Em março, o aparelho começou a ser utilizado para a identificação de anticorpos contra a Covid-19 no sangue. Com a atualização para fazer frente à pandemia, a HiTechnologies mais do que duplicou sua abrangência de cidades atendidas no país. “O coronavírus tem nos levado a identificar rapidamente iniciativas prontas para atingir grandes mercados”, diz Raphael Augusto, diretor de inteligência da Liga Ventures, aceleradora de empresas desse tipo.

O próprio Hospital Albert Einstein tem funcionado como uma espécie de incubadora dessas startups. Atualmente, são 45 healthtechs inscritas nos programas de financiamento e mentoria da instituição. Um dos protótipos nascidos por ali leva o nome de Fevver e permite a aferição da febre a 2 metros de distância. Instalado em um totem, o equipamento reconhece pontos de calor no rosto do paciente e oferece mais precisão do que os termômetros comuns. Já em operação no Einstein, o aparelho será instalado em prédios comerciais de São Paulo nos próximos meses. Outro projeto, Breath4Lite, utiliza impressoras 3D para a produção de respiradores. Essa estratégia faz com que as máquinas voltadas par doentes com manifestações leves e intermediária da Covid-19 tenha custo inferior ao dos ventiladores mecânicos tradicionais.

Antes mesmo da eclosão da pandemia, as healthtechs chamavam atenção de universidades, bancos e gigantes da tecnologia, como o Google. Entre 2014 e 2018, os investimentos no setor mais do que dobraram em todo o mundo e chegaram a 14,6 bilhões de dólares. Com a Covid-19, esse movimento tem se acelerado. “Todos os fundos de investimento estão olhando e apostando na saúde”, diz Julia De Luca, especialista em tecnologia do Itaú BBA. Nesse sentido, doações como a da JBS não apenas ajudam no combate ao coronavírus como também dão impulso a um setor crucial para o país.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MARCAS PARA A VIDA

Apesar de alguns casos preocupantes, as crianças são pouco atingidas pela Covid-19. Mas a clausura da pandemia traz desafios para os pais e pode afetar o comportamento de toda uma geração.

Soprou como um vento arrebatador, no fim de abril, o anúncio feito por autoridades epidemiológicas da Suíça de que crianças abaixo de 10 anos “raramente” são infectadas e não transmitem o novo coronavírus. Seria uma vitória para os avós que, depois de longo inverno, poderiam enfim rever os netos, de quem se distanciaram por imposições sanitárias. Mas não, ou #sóquenão, como escreveriam os mais jovens nas redes sociais. Outros trabalhos científicos, publicados na trilha daquele estudo pioneiro, com a notícia libertadora, baixaram o tom e estragaram um tantinho a festa que mal fora marcada. É verdade, a taxa de infecção infantil é baixíssima: no Brasil do ponto de vista estatístico, meninos e meninas de 1 a 5 anos representam 0,1% das mortes e de 6 a 19 anos, 0,4%.

Não há, contudo, conclusão confiável de que não sejam vetores do microrganismo. Pode ser que sejam, e seria irresponsabilidade dizer o contrário – e a Organização Mundial da Saúde (OMS), sempre cuidadosa, como deve ser, disse não haver quantidade suficiente de levantamentos para sustentar certezas absolutas. Mas uma porção de estudo circulou com avidez e tem sido usada por alguns países da Europa para autorizar uma lenta retomada escolar. Uma das investigações, realizada com 31 famílias na China, Coreia do Sul, Singapura, Japão e Irã, de dezembro de 2019 a março deste ano, mostrou que os mais jovens foram responsáveis por deflagrar a infecção em menos de 10% dos casos – a título de comparação, no caso da gripe aviária o índice é de 50%. Convém, portanto, ir com calma na celebração. Diz o infectologista e pediatra Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações: “Todo cuidado é pouco porque o papel das crianças na transmissão ainda não está claro”. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos afirmou que a gurizada “ainda pode transmitir o vírus a outras pessoas de maior risco, incluindo adultos mais velhos e cidadãos com sérias condições médicas subjacentes”. E a distância entre as duas pontas da pandemia – a dos menos atingidos, no início da vida, e a dos mais frágeis, os idosos – é ainda crucial. Netos de um lado, avós do outro, por precaução e olhos sempre atentos ao que a ciência ilumina.

Em tempo de tanta incerteza em que o otimismo é mercadoria escassa, deu-se um pequeno recuo na semana passada – que não altera, felizmente, a baixíssima letalidade infantil do Sars-CoV-2. Relatos de pediatras de Nova York e do Reino Unido, depois confirmados por um artigo na prestigiada revista britânica The Lancet, com base em levantamentos feitos em Bérgamo, epicentro da contaminação na Itália, revelaram cerca de uma centena de casos do que batizaram de síndrome inflamatória multissistêmica em crianças (MIS-C, na sigla em inglês), semelhante à doença de Kawasaki. As crianças acometidas pela enfermidade, em média de 9 a 11 anos, não tossiam, tampouco manifestaram problemas respiratórios graves, embora tenham apresentado resultado positivo para os anticorpos contra a Covid-19. Tinham febre e erupção cutânea, olhos vermelhos, lábios secos ou rachados, vermelhidão na palma das mãos e na sola dos pés – no entanto, houve pouquíssimos casos de morte. A eclosão dos casos de MIS-C, ainda que poucos, impôs aos médicos uma indagação: por que crianças e adultos reagem de modo tão diferente ao vírus que parou o mundo? A resposta é fascinante.

A principal explicação é que os sistemas imunológicos mudam com a idade. O corpo de um adulto quase sempre está preparado para ameaças familiares, já existentes, mas tem dificuldades para combater vírus novos – é o que ocorre agora, com a Covid-19, e também aconteceu com outras cepas de coronavírus que provocaram as epidemias de Sars e Mers. Os jovens foram razoavelmente poupados. Os pequenos, especialmente os bem pequenos, lidam constantemente com vírus que não são necessariamente novos, mas são novos para eles – e o organismo reage com saudável ímpeto pueril. Os bebês nascem com um vasto repertório de células imunes, as chamadas “células T”. O exército de células T é capaz de identificar virtualmente qualquer patógeno, criando uma memória afeita a enfrentar as infecções. Com o tempo, contudo, o metabolismo identifica os inimigos de sempre – mas começa a deixar escapar os novidadeiros. Por isso, doenças como catapora e rubéola são mais graves em adultos. No caso de Covid-19, não é muito diferente com nuances.

É tranquilizador, portanto, que a meninada esteja razoavelmente protegida – viva! – e que por cautela, mantenha-se apartada de quem tem mais idade, até que a ciência entregue um veredicto sobre a ação dos imberbes como transmissores do temido coronavírus. No entanto, em um aspecto a avassaladora mudança comportamental a que todos foram submetidos, com o isolamento social e a quarentena (tradução para estar longe da escola, dos amigos, da hora do recreio, do olho no olho, do sorriso largo e do choro sincero), começa a chamar a atenção de profissionais de saúde, especialmente de psicólogos e psiquiatras. Desenha-se o que poderia ser apelidado, ainda que precocemente, de “geração pandemia”.

Um bom modo de entender o que pode vir a acontecer é olhar para quem já está algumas casas à frente, com a curva de casos pousando. Um estudo da Universidade Miguel Hernández, da região de Alicante, na Espanha, examinou o impacto psicológico do confinamento em crianças do país e da Itália. Cerca de 90% dos 431 pais e filhos espanhóis entrevistados descreveram dificuldade de concentração; ansiedade e irritabilidade. Ressalve-se que, em cidades como Valência, por exemplo, vivia-se até a semana passada ambiente de filme de terror e suspense, com helicópteros rastreando movimentos e agentes de segurança esbravejando nos megafones: “Aqui é a polícia falando. Respeite as regras”. Para a psicóloga Mireia Orgilés, coordenadora do estudo espanhol, embora as crianças tenham grande adaptabilidade à novas situações, elas têm dificuldade de acompanhar rupturas radicais”. O braço espanhol da ONG Save the Children informou que as medidas de distanciamento social poderiam causar ”distúrbios psicológicos permanentes”. A organização entrevistou 6.000 pessoas na Alemanha, Finlândia, Espanha, Estados Unidos e Reino Unido. Na Espanha, 40% alegaram medo de trauma. É bom, contudo, entender que trauma é uma condição subjetiva – pode despontar em alguns, mas em outros não. A Sociedade Americana de Psicologia define trauma como “uma resposta emocional a um terrível evento como um acidente, estupro ou desastre natural; imediatamente após o evento, o choque e a negação são respostas comuns; as reações no longo prazo incluem emoções imprevisíveis, relacionamentos tensos e até sintomas físicos, como dores de cabeça ou náusea”. Embora essas sensações sejam normais, comuns até, algumas pessoas tropeçam para seguir em frente.

Não convém acender o sinal vermelho, até porque está tudo ainda no começo e, a bem da verdade, muitas crianças estão adorando ficar em casa, com os pais ao lado, ao alcance de uma brincadeira, do smartphone (claro), de ajuda na lição de casa (virtual, evidentemente). O que se percebe são reações típicas quando a meninada é instada a dizer do que sente falta: dos avós, em primeiríssimo lugar, do ar livre, da bola, do parque, como revelam as pessoas ouvidas. No aspecto mais prático, talvez seja saudável buscar entender o que poderá ser feito logo mais, como retorno a alguma normalidade, do que ensaiar problemas mentais no futuro, que talvez nem ocorram. Um mar de indagações se impõe: quando as aulas voltarem, como reagirão as crianças e o que podem fazer as escolas? Para além das máscaras e da arquitetura – salas mais vazias, testes para Covid-19, mesas distantes, como já se veem na Europa -, as equipes pedagógicas terão de lidar com algo aparentemente tênue, intangível: o medo alimentado pela incerteza e pela insegurança. Aos educadores e pais, evidentemente, caberá aplainar as expectativas da nova vida. “É crucial manter as crianças a par de tudo, mas sem assustá-las” diz a neuropediatra Liubiana Arantes de Araújo, diretora do departamento científico de pediatria do desenvolvimento e comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria.

O fim do isolamento, contudo, não significará o fim da epidemia. Até o aparecimento de uma vacina, o vírus ainda estará circulando e as escolas terão de se adaptar par ser um ambiente seguro. Mas como fazer isso? Diversos países começam a testar modelos que incluem redução na quantidade de alunos por sala, demarcação de distância mínima entre os estudantes, manutenção de aulas remotas, horários diferentes para as turmas e implementação de normas de higiene constantes. Na Dinamarca, por exemplo, apenas o ensino fundamental voltou à ativa. As crianças fazem fila de manhã ao lado de cones de trânsito espaçados em 1 metro e meio; são apenas dez alunos por sala, com um único professor; cinco crianças são permitidas no playground de cada vez. Portugal retomou as aulas presenciais do ensino médio. As medidas de proteção incluem uso obrigatório de máscaras, lavagem das mãos ao entrar e sair da escola, e horários de aula, intervalos e períodos de alimentação diferentes para cada turma. Na França, as aulas presenciais foram retomadas, mas não são obrigatórias. Diz Mireia Orgilés, da Universidade Miguel Hernández: “As crianças devem ser informadas da nova situação que encontrarão no fim da quarentena, na qual o contato social provavelmente permanecerá reduzido ainda por muito tempo”.

Há, sem dúvida, uma sensação de desconhecimento dos próximos passos que chega a ser agoniante. Nada, insista-se, apesar das mais de 330.000 mortes por Covid-19 em todo o mundo, que se compare a experiências de guerras – e também nelas, mesmo com o horror, sempre houve alguma válvula de escape para a sanidade. No início da II Guerra Mundial, milhões de crianças foram evacuadas de Londres e de outras cidades e enviadas para morar em lares adotivos no interior da Inglaterra. Esse êxodo, e o que aconteceu depois dele, virou tema de estudo da psicanalista Anna Freud, filha do pai da psicanálise. Em1943, ela concluiria que os jovens que ficaram com suas famílias, debaixo de bombardeio, mostraram-se mais “felizes” que os exilados. O trabalho de Anna Freud inspiraria um outro de seu contemporâneo John Bowlby, que investigou longas permanências em hospitais. Formou-se, então, uma ideia ainda muito influente, a da “teoria do apego”, que enfatiza o vínculo entre pais e filhos e os danos resultantes da separação. Abre-se, hoje, outro campo de investigação que pode vir a ocorrer com crianças afastadas não dos pais – dos avós, sim, insista-se -, mas dos professores, dos colegas e de tudo o mais? É a novíssima condição da geração pandemia. Passado o vendaval, não é difícil que sejam adultos melhores – e é certo que crescerão com mais informações e mais contato com a vida como ela é. Enquanto isso, ecoará, em famílias distanciadas, a tocante frase do escritor americano Alexander Haley (1921-1982): “Ninguém pode fazer pelas crianças o que os avós fazem. Os avós salpicam uma espécie de pó estelar sobre a vida delas”. Se ainda não dá para encontrá-los, que a solução seja a adotada pela menina Malu, da foto que ilustra este post: todos os dias pela manhã, ela faz uma videoconferência com a vó Vera Lúcia e o vô Chico.