EU ACHO …

SEM VÍRUS EM NOSSO DNA, MORRERÍAMOS NO ÚTERO

A palavra DNA se tornou até sinônimo de essência. Nosso DNA propriamente dito, contudo, desmente essa visão simplista.

O químico americano Wendell Stanley investigava nos anos 1930 o mistério em torno da natureza dos vírus, então tida como “impossível de definir”. Tomou uma amostra do primeiro que fora identificado no século XIX, causador de uma doença em plantas de tabaco, e purificou-a até obter cristais. O composto manifestava um comportamento bizarro. Ficava meses guardado sem que nada acontecesse, como sal de cozinha. Assim que era misturado com água, transformava-se de novo no agente nocivo. “Quando cristal, o vírus se comportava como gelo ou diamante. Quando colocado na planta de tabaco, multiplicava-se como qualquer coisa viva”, escreve Carl Zimmer em A planet of viruses (Um planeta de vírus). Ninguém sabia dizer se era um ser vivo ou não. “A velha distinção entre morte e vida perde algo de sua validade”, constatou o jornal The New York Times. Descobriu-se depois que aquele salnão era feito só de proteínas, como Stanley imaginava, mas também de compostos conhecidos como ácidos nucleicos, descobertos 30 anos antes do primeiro vírus, mas cuja função só ficaria clara décadas depois. Quando os cientistas entenderam enfim que tais ácidos – hoje os universalmente conhecidos RNA e DNA – são os compostos básicos da vida, portadores das instruções genéticas para a reprodução de todo ser vivo, o mistério estava esclarecido. Mas a implicação da natureza dupla dos vírus ainda está longe de absorvida.

A noção de que não sejam uma forma de vida voltou a ser posta em xeque recentemente, com a descoberta de vírus gigantes, comuns na água de qualquer bebedouro. Isolados, tais vírus são substâncias inertes, de tamanho comparável a uma bactéria. Na natureza, sequestram o maquinário de células infectadas para reproduzir seus milhares de genes, codificando até proteínas que corrigem erros na replicação. “O vírus gigante é uma fábrica viral, parece e age como uma célula”, conta Zimmer. “É tão parecido que descobriu-se que também pode ser infectado por um vírus próprio.” A estranheza não para por aí.

Seria impossível aos virólogos do tempo de Stanley imaginar, nas palavras de Zimmer, que “o genoma humano é composto, em parte, de milhares de vírus que infectaram nossos ancestrais distantes, ou que a vida podem ter começado 4 bilhões de anos atrás, a partir de vírus”. É uma ideia que ele chama de “quase filosófica em sua estranheza”. “Gostamos de pensar em nossos genomas como nossa primeira identidade”, diz Zimmer.

A palavra DNA se tornou até sinônimo de essência. Nosso DNA propriamente dito, contudo, desmente essa visão simplista.

“Cada um de nós carrega em nosso genoma quase 100 mil fragmentos de DNA de retrovírus (um tipo de vírus que usa os cromossomos da célula infectada para se reproduzir), ou algo como 8% de nosso DNA”, escreve Zimmer. “Para pôr tal número em perspectiva, considere que os 20 mil genes que codificam proteínas no genoma humano correspondem a apenas 1,2% de nosso DNA.”

Sem o DNA que herdamos de um vírus, nenhum de nós teria nascido. Células na camada externa da placenta humana precisam desse código genético para produzir uma proteína essencial à transmissão de nutrientes do sangue materno aos fetos. “Em nosso momento mais íntimo, quando uma nova vida humana emerge de uma antiga, vírus são essenciais à sobrevivência”, diz Zimmer. Cientistas franceses já conseguiram até fazer renascer, a partir do código genético humano, um retrovírus batizado “Fênix”. ”Não há nós e eles”, afirma. “Nós, humanos, somos uma mistura indissociável de vírus e mamífero. Tire nossos genes de vírus e morremos no útero. É provável também que dependamos de nosso DNA viral para nos defender de infecções.” Vírus também podem, segundo Zimmer, explicar a origem da vida. Um virólogo francês propôs que o RNA viral tenha evoluído para a molécula de DNA, de modo a proteger seus genes de ataques. “Os hospedeiros acabaram se apropriando desse DNA, e então conquistaram o mundo. A vida que conhecemos, noutras palavras, precisou dos vírus para começar.”

* HÉLIO GUROVITZ

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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