EU ACHO …

SEM VÍRUS EM NOSSO DNA, MORRERÍAMOS NO ÚTERO

A palavra DNA se tornou até sinônimo de essência. Nosso DNA propriamente dito, contudo, desmente essa visão simplista.

O químico americano Wendell Stanley investigava nos anos 1930 o mistério em torno da natureza dos vírus, então tida como “impossível de definir”. Tomou uma amostra do primeiro que fora identificado no século XIX, causador de uma doença em plantas de tabaco, e purificou-a até obter cristais. O composto manifestava um comportamento bizarro. Ficava meses guardado sem que nada acontecesse, como sal de cozinha. Assim que era misturado com água, transformava-se de novo no agente nocivo. “Quando cristal, o vírus se comportava como gelo ou diamante. Quando colocado na planta de tabaco, multiplicava-se como qualquer coisa viva”, escreve Carl Zimmer em A planet of viruses (Um planeta de vírus). Ninguém sabia dizer se era um ser vivo ou não. “A velha distinção entre morte e vida perde algo de sua validade”, constatou o jornal The New York Times. Descobriu-se depois que aquele salnão era feito só de proteínas, como Stanley imaginava, mas também de compostos conhecidos como ácidos nucleicos, descobertos 30 anos antes do primeiro vírus, mas cuja função só ficaria clara décadas depois. Quando os cientistas entenderam enfim que tais ácidos – hoje os universalmente conhecidos RNA e DNA – são os compostos básicos da vida, portadores das instruções genéticas para a reprodução de todo ser vivo, o mistério estava esclarecido. Mas a implicação da natureza dupla dos vírus ainda está longe de absorvida.

A noção de que não sejam uma forma de vida voltou a ser posta em xeque recentemente, com a descoberta de vírus gigantes, comuns na água de qualquer bebedouro. Isolados, tais vírus são substâncias inertes, de tamanho comparável a uma bactéria. Na natureza, sequestram o maquinário de células infectadas para reproduzir seus milhares de genes, codificando até proteínas que corrigem erros na replicação. “O vírus gigante é uma fábrica viral, parece e age como uma célula”, conta Zimmer. “É tão parecido que descobriu-se que também pode ser infectado por um vírus próprio.” A estranheza não para por aí.

Seria impossível aos virólogos do tempo de Stanley imaginar, nas palavras de Zimmer, que “o genoma humano é composto, em parte, de milhares de vírus que infectaram nossos ancestrais distantes, ou que a vida podem ter começado 4 bilhões de anos atrás, a partir de vírus”. É uma ideia que ele chama de “quase filosófica em sua estranheza”. “Gostamos de pensar em nossos genomas como nossa primeira identidade”, diz Zimmer.

A palavra DNA se tornou até sinônimo de essência. Nosso DNA propriamente dito, contudo, desmente essa visão simplista.

“Cada um de nós carrega em nosso genoma quase 100 mil fragmentos de DNA de retrovírus (um tipo de vírus que usa os cromossomos da célula infectada para se reproduzir), ou algo como 8% de nosso DNA”, escreve Zimmer. “Para pôr tal número em perspectiva, considere que os 20 mil genes que codificam proteínas no genoma humano correspondem a apenas 1,2% de nosso DNA.”

Sem o DNA que herdamos de um vírus, nenhum de nós teria nascido. Células na camada externa da placenta humana precisam desse código genético para produzir uma proteína essencial à transmissão de nutrientes do sangue materno aos fetos. “Em nosso momento mais íntimo, quando uma nova vida humana emerge de uma antiga, vírus são essenciais à sobrevivência”, diz Zimmer. Cientistas franceses já conseguiram até fazer renascer, a partir do código genético humano, um retrovírus batizado “Fênix”. ”Não há nós e eles”, afirma. “Nós, humanos, somos uma mistura indissociável de vírus e mamífero. Tire nossos genes de vírus e morremos no útero. É provável também que dependamos de nosso DNA viral para nos defender de infecções.” Vírus também podem, segundo Zimmer, explicar a origem da vida. Um virólogo francês propôs que o RNA viral tenha evoluído para a molécula de DNA, de modo a proteger seus genes de ataques. “Os hospedeiros acabaram se apropriando desse DNA, e então conquistaram o mundo. A vida que conhecemos, noutras palavras, precisou dos vírus para começar.”

* HÉLIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

MUITO ALÉM DO PULMÃO

Passados cinco meses do início da pandemia, os médicos já sabem que a Covid afeta não só o sistema respiratório, mas pode danificar vários órgãos nobres como coração, rins e até o cérebro

Há pouco mais de cinco meses os profissionais de saúde de todo o mundo correm contra o tempo para descobrir como age o novo coronavirus no corpo humano, tanto para elaborar tratamentos e vacinas, como para lidar com eventuais consequências do contágio. E, passado esse período atribulado, algumas coisas começam a ficar mais claras e já se sabe que a Covid-19 é extremamente contagiosa — 4,37 milhões de infectados no mundo —, e é mais grave do que parecia, por ser uma doença infecciosa e sistêmica, que se alastra.

Ao entrar no organismo, o vírus vai prejudicando vários órgãos pelo caminho. Inicialmente, ele invade as vias aéreas, tomando de assalto nariz, garganta e até os olhos, reduzindo paladar e olfato e, em alguns casos, provocando conjuntivite. Ao chegar ao pulmão, responsável pela oxigenação do corpo, ele inicia uma série de reações e, como num efeito dominó, todos os sistemas vão sendo afetados por uma inflamação generalizada. Nessa etapa, a partir do sétimo dia, ele começa a ir além do sistema respiratório, podendo inflamar as veias do sistema circulatório, provocar desarranjo no sistema digestivo, e chegar ao sistema nervoso central, comprometendo órgãos vitais como coração, rins, intestino, pele e até o cérebro.

“É uma doença nova e ainda estamos avaliando todos os efeitos. Mas o certo é que 30% das pessoas internadas têm o rim afetado”, diz o infectologista Marcos Boulos, membro do Comitê de Contingenciamento do coronavírus de São Paulo. Ainda se avalia se a disfunção do coração e a insuficiência renal podem ser causadas pela ação do vírus diretamente ou se seria uma reação do próprio organismo, já que a Covid-19 aciona o sistema imunológico de maneira tão intensa que provoca uma chuva de reações, o que inclui a vasculite, inflamação de vasos, incluindo os do cérebro. “Há informações de problemas de coagulação, cianose (azulado) nos dedos por falta de circulação e até AVCs (acidente vascular cerebral)”, explica o oncologista, Dráuzio Varella.

SEQUELAS EVENTUAIS

A soma das reações pode ser tão devastadora, que culmina com a falência múltipla de órgãos e a morte. Segundo o infectologista Moacyr Silva Jr, do Hospital Albert Einstein, outro agravante é que a evolução difere de pessoa para pessoa, sem um padrão definido. “Na maioria dos casos, passa como uma gripe, mas em outros a resposta imunológica é mais intensa e leva tempo para saber o que desencadeia isso”. Incertas também são as sequelas dessa inflamação, especialmente para quem foi entubado por muito tempo. Mas é certo que, assim como um corte na pele, o pulmão fica com uma espécie de cicatriz. “Essa fibrose pode levar a problemas futuros de respiração ou exigir hemodiálise a quem teve o rim afetado”, diz o infectologista Ralcyon Teixeira, do Hospital Emílio Ribas. O fato é que ainda há muito a se descobrir sobre a Covid-19

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE MAIO

A CURA PRODUZIDA PELA CONFISSÃO

Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, para serdes curados (Tiago 5.16a).

Há doenças físicas e doenças emocionais. Há doenças do corpo e doenças da alma. Guardar mágoas e esconder pecados adoece. Chamamos essa situação deplorável de doenças hamartiagênicas, ou seja, doenças geradas pelo pecado. Tiago fala desse assunto, quando diz: Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, para serdes curados.

O rei Davi adulterou com Bate-Seba e mandou matar seu marido. Depois casou-se com a viúva e continuou sua vida como se nada tivesse acontecido. A mão de Deus, porém, pesou sobre ele, e o rei adoeceu. Seu vigor tornou-se como sequidão de estio. Seus ossos ardiam, suas lágrimas inundavam seu leito e sua alma estava de luto. Até o dia em que o rei foi confrontado pelo profeta Natã e, caindo em si, confessou seu pecado. A confissão trouxe-lhe cura e libertação, perdão e restauração. Pecado escondido é como uma algema invisível. A pior prisão é o cárcere da consciência culpada. A Palavra de Deus nos aponta o caminho da cura, quando afirma: O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia (Provérbios 28.13). A confissão é o fruto do arrependimento, e o arrependimento é a porta de entrada do perdão e da cura. Há muitas pessoas doentes que precisam ser tratadas não com remédios e cirurgias, nas clínicas e hospitais, mas com a terapia da confissão. O pecado gera doença, mas a confissão traz cura. O pecado escraviza e atormenta, mas a confissão liberta e restaura.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRA PRIVATIZADA

O desafio dos funcionários públicos de estatais que estão sendo vendidas para a iniciativa privada

Depois dos governos de Fernando Henrique Cardoso (de 1995 a 2003), esta deverá ser a gestão com o maior número de desestatizações na história do país. Até dezembro do ano passado, a administração de Jair Bolsonaro contabilizava 35 ativos vendidos, concedidos, licenciados ou arrendados à iniciativa privada – o objetivo é chegar a 109. Nos anos em que FHC esteve à frente do país, o número superou 120, com vendas como a da Light e a da Vale. Para os milhares de funcionários que prestam serviços públicos no Brasil, o momento é de turbulência. Dados do 11º Boletim de Empresas Estatais Federais, produzido pelo Ministério da Economia, apontam uma redução de 22.000 pessoas nos quadros das estatais entre dezembro de 2017 e junho de 2019.

Jaime Luiz Lemos de Albuquerque, de 56 anos, é um dos que perderam o posto no período. Por 35 anos, o administrador trabalhou na BR Distribuidora, subsidiária de postos de combustíveis da Petrobras. Em julho, o governo abriu mão do controle da companhia: vendeu 30% das ações a investidores da iniciativa privada e reduziu sua participação de 71% para 41%.

Coordenador de segurança empresarial, Jaime deixou a BR Distribuidora um pouco antes do ocorrido, por meio de um programa de demissão voluntária (PDV). “Queria trabalhar pelo menos até os 60 anos, mas, diante dos fatos, optei por sair e evitar o risco de uma demissão sem as mesmas vantagens”, afirma. O profissional diz que tornou a decisão “no escuro”. Isso porque a empresa não divulgou quantas vagas seriam cortadas nem em quais áreas. “Desde o governo de Michel Temer, eu já lidava com a possibilidade de privatização e fui me preparando para esse momento. De qualquer forma, a experiência foi muito ruim, pois sou de uma geração que sempre vestiu a camisa da empresa”, diz Jaime, que hoje ocupa parte do dia ajudando voluntariamente uma escola de Botafogo, no Rio de Janeiro. Quando Jaime aderiu ao PDV, circulavam boatos de que os cortes atingiriam 30% das pessoas. Informação que o atual presidente, Rafael Grisolia, confirmou. Segundo o executivo, o quadro deve passar de 5.000 para 3.500 trabalhadores, entre diretos e indiretos.

FALTA TRANSPARÊNCIA

Sérgio Lazzarini, professor no Insper e autor de livros como Reinventando o Capitalismo de Estado (Portfolio Penguin, 62,90 reais), ressalta qu1e é fundamental discutir abertamente o porquê de uma privatização, tanto com a sociedade quanto com os servidores diretamente afetados. “O governo atual não esclarece o motivo, apenas diz que precisa vender sob o argumento de que tudo o que é estatal é ruim. Falar isso é ideologia. É preciso analisar o mercado e tornar as decisões caso a caso”, diz.

Do ponto de vista econômico, a defesa do governo é que, uma vez privatizadas, as companhias experimentam um aumento de produtividade e rentabilidade que se reflete na qualidade e no preço dos serviços ofertados. Nesse sentido, o caso da telefonia é emblemático. “Uma linha telefônica custava 2.000 dólares em 1994. Hoje, qualquer pessoa pode ter uma – ou até mais de uma se quiser”, lembra Sérgio. Chegar a esses resultados, contudo, implica uma série de ajustes de processos e custos, incluindo folha de pagamentos. “Acontecem demissões. Mas, como a meta muitas vezes é de expansão, há também contratações de novos profissionais”, diz o pesquisador.

A italiana Enel, que assumiu em fevereiro de 2017 as operações da estatal Celg-D, distribuidora de energia de Goiás, é um exemplo. Com mais de 50.000 funcionários espalhados pelo mundo, quando comprou a empresa pública, ela tinha 8.357 funcionários. De lá para cá, o número saltou para 10.225. Os únicos empregados que saíram da empresa, aliás, foram os que aderiram aos planos de demissão e aposentadoria voluntárias. O alimento do quadro acontece por causa de investimentos em tecnologia e em grandes obras, como subestações. “A expectativa é criar, até 2022, 1.200 postos de trabalho”, diz Alain Rosolino, diretor de pessoas e organização da Enel Brasil.

MUDANÇA COMPULSÓRIA

Um aspecto importante dos processos de privatização é que nem todos os empregados têm estabilidade, mecanismo previsto por lei que garante autonomia ao servidor, evitando que fique exposto a trocas de governo. Só desfrutam desse direito funcionários estatutários ligados à administração direta, ou seja, concursados que prestem serviço em órgãos de Estado – como a Presidência da República, os ministérios e a Câmara dos Deputados – e que estejam ocupando o cargo há três anos ou mais.

Os contratados no regime CLT, não possuem a mesma prerrogativa. E, quando migrados para o regime privado, podem ser demitidos sem justa causa. Como as organizações que podem ser alvo de desestatização pertencem à administração indireta – caso dos Correios, da Eletrobras e da Casa da Moeda -, elas têm liberdade para fazer novos arranjos de equipe.

Ainda assim, existem regras, como pontua a advogada trabalhista Mariana Machado Pedroso) sócia do Chenut Oliveira Santiago. Segundo ela, reduções salariais só são permitidas quando há diminuição da jornada de trabalho; promoções devem vir acompanhadas de contrapartida remuneratória; e bancos de horas e férias precisam ser respeitados.

Responsável pela construção e manutenção de ferrovias) o engenheiro Sérgio Nunes, de 36 anos, trabalha há seis na Valec. Em março de 2019, a empresa pública sub concedeu o trecho da Ferrovia Norte-Sul entre Porto Nacional (TO) e Estrela d’Oeste (SP) à Rumo, companhia ferroviária e de logística brasileira do Grupo Cosan. Essa medida levou ao fechamento de todos os escritórios locais nos estados de Tocantins, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. A unidade da cidade mineira de Iturama, onde Sérgio trabalhava, estava entre elas. Transferido em setembro de 2019 para Brasília (DF), a quase 700 quilômetros de distância, o engenheiro foi comunicado que teria de mudar de endereço um mês antes – e não teve a opção de escolha. “Meus pais dependem de mim e não estou mais perto deles. Também estou longe de minha filha e da casa que construí. Toda a minha vida estava lá”, afirma. De acordo com Sérgio, a Valec ajudou com as despesas da mudança e com a passagem para a capital federal. Mas as viagens para a cidade natal estão pesando no bolso. “Entendo o motivo da transferência e estou me adaptando. Hoje sobrevivo com 1.600 reais, descontadas todas as despesas. A situação está complicada, mas continuo a atuar com projetos e assumi interinamente uma gerência na área de estudos e pesquisas, o que me traz desafios interessantes.”

Apesar de tirar os empregados públicos da zona de conforto, nem todas as mudanças são negativas. Dependendo do grupo que assume a operação, ganham-se novas oportunidades, como participação nos lucros e chance de expatriação, no caso de uma multinacional. “As fronteiras da Celg-D [Companhia de Distribuição do Estado de Goiás], que se limitavam a Goiás, foram expandidas para os cinco continentes em que atuamos”, diz Alain, da Enel. Wagner Alves Vilela, de 43 anos, é funcionário antigo da distribuidora de energia e atravessou o processo de privatização. Com 15 anos de experiência em diversas funções na companhia, ele diz ter ficado apreensivo no início. Mas logo aprovou a novidade. Engenheiro especialista, ele foi enviado com um grupo de 20 funcionários à matriz italiana, em Roma, para fazer um intercâmbio de seis meses. A proposta da multinacional era proporcionar aos trabalhadores uma imersão em suas operações e uma integração mais rápida à cultura da Enel. Desde que se tornou empregado da iniciativa privada, Wagner já mudou duas vezes de departamento, migrando da área de manutenção de obras de baixa e média tensão para a área de contratação de serviços e, novamente, para manutenção de obras. E diz estar satisfeito. “O desafio é grande e o volume de trabalho também. Mas o ritmo agora é mais dinâmico. Antes, as coisas eram definidas pelo governo e havia muita morosidade.”

O profissional também aprovou o estilo de trabalho da Enel, “mais horizontal”, a possibilidade de integrar times formados por pessoas das mais diversas formações e os resultados dos investimentos feitos pela Enel para aprimorar a estrutura e os serviços. “A companhia está aplicando recursos para melhorar a qualidade dos serviços oferecidos aos clientes. Desde que entrei na empresa, eu sonhava com esse tipo de melhoria.”

A comunicação interna também o surpreendeu positivamente, tanto pelo número elevado de e-mails quanto pelo conteúdo. “Eles compartilham desde questões do dia a dia até metas e resultados alcançados. Tenho até dificuldade de acompanhar, tamanho o volume de informações divulgadas”, afirma Wagner.

MAIS ABERTURA

Daniele Salomão, vice-presidente de gente e gestão do grupo brasileiro Energisa, que comprou em 2018 duas distribuidoras da Eletrobras, a Eletroacre e a Ceron, diz que desde o início apostou em uma linha de comunicação direta e contínua com os servidores. “Algumas pessoas ficaram espantadas no começo, pois nunca tinham visto a diretora de RH da Eletrobras pessoalmente. Nós apresentamos a empresa, falamos das etapas de transição e esclarecemos os critérios que estávamos utilizando na avaliação dos trabalhadores”, lembra a executiva. Para entender o perfil das lideranças e os valores preponderantes nas duas unidades, Daniele e uma equipe de consultores desembarcaram em Rio Branco (AC) e em Porto Velho (RO) antes da oficialização da compra. O processo de mapeamento aconteceu em três etapas e envolveu a realização de testes online, exame de personalidade e entrevista de 5 horas de duração com cerca de 70 líderes.

Após a avaliação, a Energisa concluiu que, em vez da meritocracia, reinava uma cultura paternalista, de proteção. “Não havia gestão de consequências e os profissionais se revezavam nos cargos de liderança para conseguir bônus salarial. Quando o bônus era incorporado ao rendimento fixo, uma nova pessoa entrava no lugar”, diz a RH. Para melhorar esse cenário, o foco foi deslocado para o mérito. O plano de remuneração variável passou a ser vinculado a metas. A empresa, que hoje emprega 15.000 pessoas, também mexeu na estrutura de cargos e enxugou a folha salarial, realizando planos de demissão e aposentadoria voluntárias. Sem revelar números de desligamentos e substituições, Daniele explica que os admitidos depois da privatização têm um pacote de benefícios diferente dos que já estavam lá, que não tiveram alteração nos rendimentos e benefícios. Com essas medidas, ela afirma que a companhia solucionou a assimetria dos salários públicos, em geral superiores aos da iniciativa privada. “Com um mix de pessoas antigas e novas, reduzimos o custo por indivíduo”, relata.

Marynelle Leite, advogada da área trabalhista do escritório Oliveira e Belém Advogados, pontua que ofertar benefícios diferentes aos admitidos depois da privatização é legal, desde que haja equivalência em termos de qualidade. “Direitos previstos na CLT, como vale-refeição e vale-transporte, não podem ser alterados. Já os benefícios definidos em acordos coletivos, como cesta básica e plano de saúde, são passíveis de renegociação”, diz Marynelle.

Mesmo previstas em lei, as mudanças nem sempre agradam. Na Energisa, houve quem não quisesse continuar. “Tanto em Rondônia quanto no Acre as pessoas crescem idealizando a carreira no serviço público. Algumas preferem ocupar cargos comissionados na prefeitura a trabalhar na iniciativa privada”, diz Daniele. Os que ficaram, porém, ganharam oportunidades novas. A companhia está investindo em cursos de formação técnica e de liderança. “O período não é fácil, pois há muito trabalho, mas os funcionários estão vendo retorno. Iluminamos uma região do Acre recentemente e foi motivo de orgulho”, afirma.

Joelson Sampaio, coordenador do curso de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), relembra que durante o governo FHC houve muita polêmica com as privatizações, pois era algo novo. Com vários processos concluídos, inclusive nos governos Lula, Dilma e Temer, o professor acredita que o entendimento dos cidadãos tenha mudado, principalmente por causa da melhora de certos serviços. Ainda assim, é indiscutível que as desestatizações trazem desafios. Postos de trabalho redundantes, por exemplo, tendem a ser cortados, gerando demissões. Nesse processo, é fundamental haver diálogo, respeito e transparência com os profissionais que dedicaram a carreira à vida pública.

MAPA DA DESESTATIZAÇÃO

Criado na gestão de Michel Temer, o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) contempla desde a participação em negócios já privatizados, nos quais o governo ainda possui ações, até a venda total de estatais. Há 109 projetos em andamento em diversas áreas

GLOSSÁRIO DA PRIVATIZAÇÃO

Confira os termos mais comuns para definir a participação privada em empresas públicas

CONCESSÃO

Delegação, por prazo determinado, da prestação de um serviço público a uma empresa privada (concessionária).

PARCERIA PÚBLICO ­ PRIVADA (PPP)

Contrato de concessão no qual a concessionária é remunerada (total ou parcialmente) pelo poder público, seja porque presta um serviço ao Governo, seja porque as tarifas cobradas dos usuários são insuficientes para cobrir os custos da operação.

PRIVATIZAÇÃO

Venda de uma companhia estatal (e de seus ativos) à iniciativa privada.

LICENCIAMENTO AMBIENTAL

Autorização de atividades que utilizam recursos naturais ou que são consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras. É imprescindível em atividades como extração mineral e fabricação de aço e produtos siderúrgicos.

REGIME DE PARTILHA

Criado para a exploração do petróleo, esse modelo de parceria garante à União o posto de proprietária do óleo explorado pela concessionária.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUEM MENTE MAIS?

Para psicólogos, antropólogos e neurobiólogos, faltar com a verdade é um componente fundamental da competência social humana

A mentira está a serviço de interesses pessoais e da obtenção de alguma vantagem sobre os outros.

Mas, afinal, quem mente mais, o homem ou a mulher? Pesquisadores afirmam que mais importante que simplesmente quantificar é constatar que há diferentes objetivos a ser atingidos por cada um dos sexos ao faltar com a verdade. Por meio do arguto falseamento dos fatos, do fingimento refinado e da cordialidade representada com esperteza, os seres humanos buscam, independentemente do gênero, apresentar-se da melhor maneira possível e impor seus próprios interesses. Isso vale especialmente para eles, como descobriu o psicólogo Robert Feldman, da Universidade de Massachusetts.

Segundo o estudo, grande parte do que a maioria dos seres humanos diz, não tem fundamento – ou porque de fato não é verdade ou porque há distorções, das quais às vezes nem o próprio indivíduo se dá conta. Segundo uma projeção realizada a partir do acompanhamento do discurso diário de mulheres e homens, elas faltam com a verdade aproximadamente 180 vezes ao longo do dia e eles, 220 vezes.

Numa pesquisa com 242 estudantes da Universidade de Massachusetts, participantes do sexo feminino mentiam em suas conversas com desconhecidos visando sobretudo proporcionar maior bem-estar a seus interlocutores. Já os homens mostraram-se mais interessados em promover a própria imagem. Na opinião de biólogos da evolução, foi a própria vida social, com suas hierarquias e tramas de relações, que primeiro trouxe ao mundo a mentira deslavada. O falseamento intencional só pôde desenvolver-se em grupos complexos. Até mesmo os chimpanzés, que vivem em bando, são mestres da dissimulação. Valendo-se de truques, engodos e fingimentos, eles lutam por posição hierárquica, comida e parceiros sexuais. E correm algum risco ao fazê-lo.

Quem não deseja ser constantemente enganado precisa ter a capacidade de descobrir com precisão artifícios e enganações alheios. Os antropólogos vêm precisamente na constante corrida entre desmascaramento e aperfeiçoamento da mentira a força motriz que, do ponto de vista filogenético, talvez tenha sido a responsável pelo desenvolvimento da inteligência social. É possível que ela tenha dado origem até mesmo à linguagem verbal. Especialistas mais empedernidos chegam a defender a tese de que o ser humano deve o aumento de seu cérebro à pressão evolucionária por uma capacidade cada vez mais refinada de enganar.

Depõe a favor dessa teoria o fato de, por trás de cada mentira deliberada, haver sempre um feito intelectual brilhante. Sim, pois esconder a verdade – e, em seu lugar, inventar uma história sólida e irrefutável – não apenas demanda muita criatividade como pressupõe a capacidade de se pôr mentalmente na pele dos outros. O poder de imaginar como se é visto pela pessoa enganada está entre os feitos cognitivos mais característicos do ser humano.

Onde se localiza no cérebro o requisitado departamento de propaganda em causa própria é o que tem pesquisado Daniel Langleben, da Faculdade de Medicina da Pensilvânia, Estados Unidos. Ele utiliza ressonância magnética funcional, método que permite identificar a elevação da atividade cerebral com base no aumento da irrigação sanguínea de determinada região. Langleben solicitou a participantes de uma experiência que dissessem inverdades deliberadas. Cada um recebeu uma carta de baralho num envelope fechado; ninguém – nem mesmo o condutor da experiência – sabia qual carta havia sido dada a cada um.

Tendo visto sua carta às escondidas, o participante era posto no tomógrafo, onde um programa de computador exibia- lhe, uma a uma, 36 cartas de baralho, questionando se se tratava da carta certa. Antes disso, porém, Langleben havia solicitado expressamente aos participantes que mentissem: quando a carta certa aparecesse no monitor, exigindo um “sim” como resposta verdadeira, eles deveriam negá-lo. Assim, um dos 36 “nãos” proferidos era com certeza uma mentira – e foi na pista desse “não” específico que os pesquisadores se lançaram. De fato, os cientistas identificaram cada um dos engodos. Em certas regiões do cérebro a atividade se intensificava de modo significativo sempre que os participantes recorriam à mentira. Chamou a atenção a elevação da atividade cerebral em duas regiões específicas: o giro do cíngulo anterior e o córtex pré-frontal.

Ambas as regiões auxiliam na determinação dos conteúdos da memória que chegam à nossa consciência. O giro do cíngulo dirige a atenção e serve ao controle dos impulsos. No córtex pré-frontal, por outro lado, está sediada a instância inibidora do cérebro. Aí é rechaçado tudo que é irrelevante num dado momento e que, por isso, não deve ser enxergado mentalmente. É o caso, aqui, dos fatos verdadeiros, por exemplo. Langleben explica: “Está claro que, para dizer uma mentira, precisamos reprimir alguma coisa. Essa coisa há de ser, então, a verdade”. Aliás, quando os participantes da experiência não foram obrigados a mentir, os pesquisadores não registraram alteração alguma da atividade cerebral. É de supor, portanto, que a honestidade constitua, por assim dizer, o estado cognitivo normal. O cérebro precisa, antes, impedir que se diga a verdade.

Que mentir e enganar exige muito mais das células cinzentas é o que confirma um estudo de psicólogos da Universidade de Michigan, Estados Unidos. Eles perguntaram a participantes de sua experiência se conheciam determinadas pessoas e fatos e então mediram seu tempo de reação. O resultado: quando os participantes admitiam com sinceridade não ter a menor ideia do que ou quem se tratava, pressionavam o botão do “não” em, no máximo, meio segundo. No caso das respostas mentirosas, esse tempo de reação subia para mais de um segundo. Mesmo depois de informados dos pormenores do estudo e dispondo de tempo para “treinar”, ainda assim não conseguiram pressionar o botão com mais rapidez.

FALSAS E DISSIMULADAS

Embora Langleben esteja procurando decifrar sobretudo os processos neurobiológicos associados ao ato de mentir, ele sabe do potencial que o resultado de suas pesquisas representa. “Como a ressonância magnética funcional mede diretamente a atividade do cérebro, ela é superior à técnica habitual do detector de mentiras”. Ekman, por sua vez, ocupa-se há quase duas décadas com a pesquisa de sinais corporais que denunciam o mentiroso. Num de seus experimentos mais conhecidos, esse pesquisador das emoções exibiu a um grupo de futuras enfermeiras um vídeo com imagens de pessoas que haviam sofrido amputação de membros. A tarefa das participantes consistia em convencer um entrevistador que não assistia ao filme de que elas estavam vendo um belo vídeo com paisagens naturais e imagens agradáveis.

Para motivar o grupo de mentirosas por encomenda, Ekman lhes disse que também em seu cotidiano profissional elas com frequência precisariam ocultar emoções negativas, tais como a consternação e o nojo diante dos pacientes, e que, por isso mesmo, o domínio da dissimulação era uma capacidade importante em seu ofício. Um segundo filme, exibindo bela paisagem litorânea e descrito pelas participantes com sinceridade como tal, foi empregado como controle.

Ekman filmou as estudantes de enfermagem e analisou sua mímica e linguagem corporal. Fez, então, uma interessante descoberta: nem mesmo as mentirosas mais convincentes foram capazes de ocultar por completo sua verdadeira vida interior – embora só a traíssem por um brevíssimo instante. Essas “microexpressões faciais” duram menos de um quarto de segundo – instantes fugazes nos quais a máscara cai e o semblante revela emoções verdadeiras, tais como repugnância ou embaraço, antes de tornar a ocultá-las com um sorriso. “Nós não pensamos antes de sentir”, explica Ekman. “Antes de termos consciência de um sentimento já estampamos no rosto sua expressão.” Os pesquisadores identificaram ainda “micro gestos,” como um leve balançar da cabeça ou chacoalhar dos ombros. Esses movimentos, porém, eram apenas sugeridos, muitas vezes deixando-se reconhecer apenas em câmera lenta.

Esta é possivelmente a razão pela qual quase todos os seres humanos são péssimos detectores de mentiras. A psicóloga americana Bella DePaolo, da Universidade da Virgínia, examinou cerca de 100 estudos sobre o desmascaramento da mentira. Seu balanço revela: antes de começar a refletir sobre se alguém está ou não nos enganando, melhor recorrer a um cara ou coroa – nossa porcentagem média de acerto, pouco acima dos 50%, não chega a ser muito mais significativa que a probabilidade oferecida por uma moedinha.

Existe, no entanto, um grupo de pessoas capaz de flagrar mentirosos de modo bem mais confiável. Não, não me refiro a agentes secretos da CIA, mas àquelas pessoas que, em decorrência de uma lesão no hemisfério esquerdo do cérebro, são capazes de compreender palavras isoladas, mas não o sentido de frases inteiras: os chamados afásicos. Um grupo de afásicos caiu na risada certa vez ao ouvir um discurso do ex-presidente americano Ronald Reagan porque percebeu suas palavras como um engodo. Mais tarde, verificou-se que o político estava de fato dizendo uma inverdade.

Nancy Etcoff e Paul Ekman submeteram essa observação à comprovação científica, exibindo a dez afásicos os vídeos do experimento com as estudantes de enfermagem. Mesmo sem compreender o que estava sendo dito, eles conseguiram diferenciar corretamente a mentira da verdade em 60% dos casos.

“Os afásicos têm uma experiência de verdadeiro reconhecimento imediato, tão logo ouvem uma mentira”, Etcoff esclarece. Quando o condutor do estudo retirou o som, e os afásicos puderam se concentrar apenas na expressão facial das futuras enfermeiras, sua taxa de acertos como detectores humanos de mentiras subiu para quase 65%.

VISTA GROSSA

“A linguagem foi dada ao homem para que ele ocultasse seus pensamentos”, sentenciou no passado o ministro do Exterior de Napoleão, Charles Maurice de Talleyrand. E mais que isso: ela parece tão dominante que homens saudáveis têm imensa dificuldade para interpretar sinais no rosto do mentiroso. Mesmo sem o som, os não-afásicos não se saíram melhor no estudo de Etcoff. É provável, porém, que, por trás dessa cegueira, oculte-se uma estratégia de sobrevivência. Numa sociedade mentirosa, um rigor particular para com a verdade traz consigo o perigo da marginalização. Ignorar mentiras e fazer vista grossa aos engodos são componentes sólidos da comunicação interpessoal – quer isso nos agrade ou não. Quem não conhece muito bem ou não aceita as regras vigentes torna-se impopular. Foi assim que Bella DePaolo descobriu que jovens com muita sensibilidade para perceber mentiras e engodos e incapazes de mantê-los em segredo foram avaliados tanto pelos colegas como pelos professores como menos hábeis socialmente.

Em oposição a isso, um estudo de Robert Feldman mostrou que adolescentes capazes de mentir de forma bastante convincente, não se deixando apanhar senão raras vezes, desfrutam particular reconhecimento e sucesso em seu grupo. O psicólogo faz, portanto, uma defesa dos mentirosos, “De certo modo, mentir é um talento social.” Tanto para homens quanto para mulheres.