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A PROVA DE FOGO

A luta contra o coronavírus entra num momento crítico, com o sistema público de saúde saturado e vivenciando cenas de terror. Mudar tal quadro exige medidas urgentes

A cena, de uma dramaticidade cortante, quase passa desapercebida em meio à confusão de médicos e doentes no apinhado hospital municipal Salgado Filho, na Zona Norte do Rio de Janeiro: em um local destinado ao lixo do necrotério e à roupa suja, conforme sinalizado, via-se, na manhã de 1º de maio, um corpo embrulhado em plástico pousado sobre uma maca abandonada. Alguns passos adiante, mais dois mortos. No dia 6, o hospital Platão Araújo, em Manaus, também dava mostras do esgarçado sistema público de saúde em uma de suas unidades semi-intensivas, onde pessoas mantidas no oxigênio dividiam o ambiente de paredes e piso sujos com um cadáver à espera de remoção. Situações como essas – flagradas nas duas grandes capitais com maior letalidade pela Covid-19 – se banalizam à medida que o avanço da pandemia exibe sai face destruidora no Brasil, onde os mortos estão batendo na casa dos 15.000 e os vivos precisam brigar com o vírus e com as evidentes fragilidades do Sistema Único de Saúde (SUS).

O momento é delicado, e as más notícias dos últimos dias, com a aceleração do número de contaminados (o Brasil é o sexto país do mundo na triste lista, com quase 200.000, tendo ultrapassado a França), tendem a se expandir. O ex­ ministro Luiz Henrique Mandetta foi claro: “o surto no Brasil está apenas no começo”. Ele prevê, para o futuro imediato, algo em torno de 1.000 mortes diárias, até que a curva se estabilize – e ela só baixará se houver rigor nas iniciativas de isolamento social. Chegou a hora da verdade, a prova de fogo que exige apoio da sociedade e sensatez das autoridades – expressão que o presidente Bolsonaro parece não entender, nesse delírio negacionista e avesso à ciência.

Um estudo da Imperial College de Londres localiza no Brasil a maior taxa de contágio da Covid-19 do mundo – cada pessoa passa para outra três. Com a curva de infectado e vítimas em trajetória ascendente (as projeções oscilam, mas há algum consenso de que o pico da epidemia será alcançado no fim de maio e o de mortos, em junho), a doença chegou à funesta posição de maior causa mortis por uma calamidade na história brasileira. A gripe espanhola, de 1918 matou no Brasil uma média de 970 pessoas por mês (em comparação às atuais 5.000), ceifando um total de 35.000 vidas no início do século XX. Nesse ritmo, o coronavírus vai se tornar uma tragédia que será lembrada daqui a várias gerações. Evidentemente, o problema atinge todos os países do mundo, mas aqui o descaso de pessoas e autoridades tem contribuído para aumentar o desastre. A elevada letalidade local do Sars-CoV-2 – em Manaus e no Rio, em torno de 9%, e no país, 7% – tem relação com dois fatores essenciais: a claudicante adesão ao isolamento social – ruas cheias em pleno lockdown de São Luís e Belém são uma mostra disso – e o gargalo do sistema público hospitalar.

Inspirado no modelo britânico e conquista inequívoca da Constituição de 1988, que conferiu ao Estado o dever de garantir a saúde da população, o SUS vem sendo sistematicamente desmantelado por um misto de inépcia na gestão, falta de investimento, burocracia em altas doses e farra de desvios. Inclusive agora: nem a escalada no número de mortos freou a roubalheira de autoridades da saúde no Rio e em Santa Catarina, sob suspeita de fraudar contratos de compra de máscaras e respiradores. Ao desmandar o máximo do sistema, do qual depende um de cada quatro brasileiros, o novo coronavírus expõe suas mazelas – falta médicos, falta máscara, falta luz e falta leito de UTI. Um levantamento feito na quinta­ feira 14 mostrava que pessoas estão amargando espera na fila das unidades de terapia intensiva em sete estados: além de Rio e Amazonas, Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pará e São Paulo. Para existir vaga, alguém precisa se curar ou morrer.

Na mesma quinta-feira, havia 758 pessoas aguardando internação no Rio de Janeiro, 320 delas em estado grave. Trazida para a vida real, a estatística ganha contornos trágicos. A aposentada Ana dos Santos, 79 anos, fazia visível esforço para respirar no instante em que ouviu a negativa do hospital. “Disseram que não havia leito, que era para ela voltar para casa”, desesperava-se a neta Raiane Barcelos, 27 anos, que ajudava a levar a avó ao carro. Em outro ponto da cidade, a caixa de supermercado Adriana Santana, 25 anos, aguardava por atendimento havia quase duas horas quando, ofegante, desmaiou. Só assim foi vista por um médico, que receitou antibióticos e lhe deu alta. “Somos reféns da sorte. No caso dela, graças a Deus, a doença não se agravou”, contou a sogra, uma semana depois. “O que vemos hoje são muitas vidas perdidas não pela gravidade da doença, mas por falta de socorros médicos”, alerta a pesquisadora Margareth Portela, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.

No SUS, atender a multidões de agora é um desafio colossal. Apena 10% das cidades brasileiras têm a quantidade mínima de UTIs recomendada pela Organização Mundial da Saúde – de um a três leitos para cada 10.000 habitantes. Na região metropolitana do Rio, de acordo com a plataforma Bright Cities, a proporção patina em 0,77. Em Manaus, o índice fica em 2.2 leitos, mas o município atende à demanda de todo o estado, por ser o único que tem UTIs. Pacientes ouvidos contam que despencaram da fronteira atrás de socorro na capital. Com a explosão da procura, as salas de espera dos hospitais ficam abarrotadas – e muita gente se contamina ali mesmo. “Virou cena de horror: em espaço, paciente com e sem sintomas de contágio acabam misturados”, relata Ana Batista, 41 anos, que buscou socorro para o pai, o aposentado Francisco de Paiva, 81 anos, no Hospital Souza Aguiar, no Centro do Rio. Cansado e sem conseguir se alimentar, ele passou sete horas instalado em uma cadeira, recebendo soro, cercado de outros doentes. Mandado para casa, retornaria em três dias com os pulmões tomados. Morreu com suspeita de Covid-19.

Com deficiências acumuladas há décadas, evidentemente não é possível agora desatar os apertados nós do SUS de uma tacada. Mas há caminhos de curto prazo que podem contribuir para amenizar o baque da pandemia sobre a população. Um deles é acelerar a entrega dos hospitais de campanha, em boa parte atrasados. Dos dez prometidos no Rio, apenas quatro foram inaugurados com um quinto dos leitos previstos – e só com isso a taxa de ocupação dos leitos de UTI no estado baixou de 97% para 92%. Um outro caminho é reativar leitos que, acreditem, estão ociosos há anos, por falta de material, de médicos e de iniciativa. O caso mais extremo é o do Rio, uma vez que concentra hospitais federais: 2.000 leitos sem uso. O Ministério Público e a Defensoria Pública recorreram à Justiça para tentar resolver e imbróglio surrealista.

Uma providência levantada com frequência é a de acionar vagas da rede privada para abrigar quem está na fila do SUS. O presidente da Confederação Nacional de Saúde, Breno Monteiro, relatou conversas nesse sentido em São Paulo, onde a prefeitura já reservou 800 leitos, no Maranhão e no Rio de Janeiro. “Estamos em fase de negociar valores”, adianta Breno, que representa as instituições particulares de saúde. Em paralelo, tramitam no Congresso projetos de lei que fariam valer uma “fila única” – o paciente seria conduzido ao primeiro leito livre, seja ele público ou privado, gratuitamente. “É inadmissível que pessoas morram, enquanto vemos hospitais particulares com UTIs desocupadas”, diz Fernando Pigatto, presidente do Conselho Nacional de Saúde.

A multiplicação de casos confirmados do novo coronavírus exige rapidez de ação. Só em Manaus, onde uma ronda pelos hospitais abarrotados e carentes de itens básicos esclarece por que tantos sucumbem, os sepultamentos subiram 179% em comparação ao ano passado. Com medo de ser internada e piorar, muita gente fica em casa mesmo, onde uma parcela vem a morrer desatendida. Aos 57 anos, Edilson Rodrigues sentiu dores no peito e falta de ar, mas resistiu a procurar um médico porque temia se contaminar no ambiente hospitalar. Ele faleceu dormindo”, conta a sobrinha Kamila Souza.

Como essas histórias se repetem a cada dia, a prefeitura reforçou o serviço SOS Funeral, que recolhe os mortos em seu domicílio e o leva para os cemitérios, onde o rito do enterro lembra uma linha de montagem. No Cemitério Parque Tarumã, um dos maiores da cidade, eles se dão de cinco em cinco.

O déficit de testes acaba deixando muitas pessoas que apresentam sintomas típicos de Covid-19 em diagnóstico. Até o fechamento desta edição, o contaminados no Brasil beiravam 190.000, mas projeções de pesquisadores da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto apontam que o número real possa ser quinze vezes maior. Pelo conjunto de incômodos que sentiu, tudo indica que a comerciante Rosilda Jerônimo, 60 anos, de Manaus, engrossa o grupo dos não diagnosticados. Sua via ­ crúcis pelo sistema público se assemelha à de outros brasileiros. Ela foi levada pelo marido, Francisco de Oliveira, 55 anos, ao pronto-socorro do Hospital Platão Araújo (o mesmo que tinha doentes e um morto no mesmo espaço). Fez exame de sangue, mediram a pressão dela, mas não foi submetida ao teste para Covid-19. “Mandaram minha mulher para casa, para não se contaminar”, narra Francisco, que também teve sintomas da doença. Horas mais tarde, Rosilda morreria em casa, sem entrar na contagem oficial. A certidão de óbito diz: vítima de derrame.

Relato de médicos e enfermeiros expõem lacunas muito básicas do sistema público de saúde brasileiro. Alguns contam que tiraram dinheiro do próprio bolso para comprar equipamentos de proteção. No hospital Ronaldo Gazolla, referência na capital fluminense para o socorro a pacientes com Covid-19, as condições são sofríveis para quem não para nem um minuto, tamanho é o fluxo diário de contaminados. A mãe de Patrícia Viana, 43 anos, era enfermeira de lá e morreu de Covid-19. “Deram uma única máscara para ela trabalhar o mês inteiro”, denuncia a filha. Anita Vianna se foi aos 62 anos e compõe outro infeliz recorde nacional: em nenhum lugar do planeta tantos profissionais de enfermagem perderam a vida – 108 até agora, mais do que o número de Itália e Espanha somados.

O aperto financeiro tem como efeito colateral uma situação absurda dentro dos hospitais. “Já flagramos enfermeiros que, por uma questão de dinheiro, continuam trabalhando mesmo infectados. Se entram em licença, perdem o adicional no salário, vital para compor a renda”, revela um chefe de equipe de um hospital estadual do Rio, que pediu anonimato. Há outros riscos cotidianos, mas pouco visíveis. Na região metropolitana de Manaus, testemunhamos a cena de funcionários paramentados com capotes e luvas descartáveis, recém- usados no atendimento aos pacientes, circulando por ruas e lojas como se aquilo não representasse alto risco de contaminação. Um deles atravessou a rua carregando um saco onde se lia: “material infectante”. Nesse sistema cheio de falhas, apesar de sua reputada capilaridade, à medida que as UTIs lotam, os médicos são obrigados a tomar a mais dolorosa das decisões: ceder leitos vagos aos pacientes com maior chance de sobreviver. Rio de Janeiro e Pernambuco já elaboraram até protocolos baseados em critérios técnicos e uma pontuação especial, para orientar a seleção. Esse quadro pode mudar, mas só um esforço concentrado e urgente fará com que, em vez da terrível decisão sobre quem vive e quem morre, a escolha seja sempre pela vida. Se puder, contribua para que a situação não piore ainda mais. Fique em casa.

LOTAÇÃO

A taxa de ocupação dos leitos de UTI em hospitais públicos está próximo da capacidade máxima em várias capitais do país*.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.