EU ACHO …

COMO SAIR DA UTI ECONÔMICA

É preciso ter atitudes mais assertivas para evitar o pior

Ainda lutamos contra as consequências imediatas da pandemia provocada pelo novo coronavírus, mas isso não impede que já nos perguntemos sobre o que fazer ao vencer a crise. Sim, porque não basta sair dela. É preciso saber como nos reinventarmos depois, já que seus efeitos econômicos de longo prazo serão duradouros. A reinvenção da economia deveria ter como baliza o elevado número de desempregados que certamente teremos ao final da crise, o tombo no PIB e o rombo gerado por um novo refinanciamento da dívida tributária, que será, fatalmente, imposto pelo Congresso Nacional.

A qualidade da saída da crise depende tanto do seu enfrentamento diário quanto da antecipação de suas consequências. No setor privado, a reinvenção já está em curso e, como sempre, mais avançada do que no setor público. Não à toa vemos empresas com milhares de funcionário operando em regime de home office. E o uso intensivo de entregas em domicilio paralelamente à dinamização das videoconferências. Mas falta sangue, vale dizer, crédito, para irrigar o corpo econômico.

No setor público, a resposta ainda é inconsistente. Pode até estar sendo ágil para distribuir dinheiro aos mais vulneráveis, mas a questão é mais profunda. O crédito ainda não chega às empresas e os setores que podem quebrar estão em negociações intermináveis com o BNDES. Os bancos privados, como sempre, jogam duro com a concessão de crédito. Setores do governo apostam que o fim do isolamento social trará de volta a retomada. É um enorme engano. A economia levará alguns trimestres andando de lado antes de começar a se recuperar de forma vigorosa. E dificilmente será unta recuperação em V, visto que o consumo será diferente tanto na forma quanto na intensidade.

Sem injeções de adrenalina no coração da economia – que é o setor privado – poderemos ver um festival macabro de quebradeiras e demissões. As atitudes precisam ser mais assertivas porque:

a) historicamente, a retomada em crises econômicas é dolorosa;

b) nossos problemas pré-pandemia atrapalharão a recuperação; e

c) nossas respostas econômicas ainda são parciais e inadequadas.

O ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, sugeriu a formação de um comitê de crise do governo com o setor privado, o que já deveria ter sido adotado há muito tempo. O governo federal sozinho, sem o setor privado e sem os estados e os municípios, não resolverá a situação. A crise também não será solucionada sem expansão do crédito e sem investimentos em urbanização, habitação e infraestrutura.

Em meio à crise, o setor exportador vem conseguindo dar respostas porque já estava mais bem estruturado. Os demais setores vitais de nossa economia ainda andavam de lado por causa da vagarosa recuperação. Assim, a reinvenção da economia passa por atacar questões remanescentes. Tais como simplificar o sistema tributário e desburocratizar o Estado, além de enfrentar os desafios postos pela crise.

Infelizmente, o conjunto da obra até agora demonstra que teremos de piorar para voltar a melhorar. E, muito provavelmente, com receituário mais forte. Como paciente, o Brasil ainda não entrou na UTI. Mas é quase certo que dela não se livrará.

*MURILLO DE ARAGÃO

OUTROS OLHARES

A PROVA DE FOGO

A luta contra o coronavírus entra num momento crítico, com o sistema público de saúde saturado e vivenciando cenas de terror. Mudar tal quadro exige medidas urgentes

A cena, de uma dramaticidade cortante, quase passa desapercebida em meio à confusão de médicos e doentes no apinhado hospital municipal Salgado Filho, na Zona Norte do Rio de Janeiro: em um local destinado ao lixo do necrotério e à roupa suja, conforme sinalizado, via-se, na manhã de 1º de maio, um corpo embrulhado em plástico pousado sobre uma maca abandonada. Alguns passos adiante, mais dois mortos. No dia 6, o hospital Platão Araújo, em Manaus, também dava mostras do esgarçado sistema público de saúde em uma de suas unidades semi-intensivas, onde pessoas mantidas no oxigênio dividiam o ambiente de paredes e piso sujos com um cadáver à espera de remoção. Situações como essas – flagradas nas duas grandes capitais com maior letalidade pela Covid-19 – se banalizam à medida que o avanço da pandemia exibe sai face destruidora no Brasil, onde os mortos estão batendo na casa dos 15.000 e os vivos precisam brigar com o vírus e com as evidentes fragilidades do Sistema Único de Saúde (SUS).

O momento é delicado, e as más notícias dos últimos dias, com a aceleração do número de contaminados (o Brasil é o sexto país do mundo na triste lista, com quase 200.000, tendo ultrapassado a França), tendem a se expandir. O ex­ ministro Luiz Henrique Mandetta foi claro: “o surto no Brasil está apenas no começo”. Ele prevê, para o futuro imediato, algo em torno de 1.000 mortes diárias, até que a curva se estabilize – e ela só baixará se houver rigor nas iniciativas de isolamento social. Chegou a hora da verdade, a prova de fogo que exige apoio da sociedade e sensatez das autoridades – expressão que o presidente Bolsonaro parece não entender, nesse delírio negacionista e avesso à ciência.

Um estudo da Imperial College de Londres localiza no Brasil a maior taxa de contágio da Covid-19 do mundo – cada pessoa passa para outra três. Com a curva de infectado e vítimas em trajetória ascendente (as projeções oscilam, mas há algum consenso de que o pico da epidemia será alcançado no fim de maio e o de mortos, em junho), a doença chegou à funesta posição de maior causa mortis por uma calamidade na história brasileira. A gripe espanhola, de 1918 matou no Brasil uma média de 970 pessoas por mês (em comparação às atuais 5.000), ceifando um total de 35.000 vidas no início do século XX. Nesse ritmo, o coronavírus vai se tornar uma tragédia que será lembrada daqui a várias gerações. Evidentemente, o problema atinge todos os países do mundo, mas aqui o descaso de pessoas e autoridades tem contribuído para aumentar o desastre. A elevada letalidade local do Sars-CoV-2 – em Manaus e no Rio, em torno de 9%, e no país, 7% – tem relação com dois fatores essenciais: a claudicante adesão ao isolamento social – ruas cheias em pleno lockdown de São Luís e Belém são uma mostra disso – e o gargalo do sistema público hospitalar.

Inspirado no modelo britânico e conquista inequívoca da Constituição de 1988, que conferiu ao Estado o dever de garantir a saúde da população, o SUS vem sendo sistematicamente desmantelado por um misto de inépcia na gestão, falta de investimento, burocracia em altas doses e farra de desvios. Inclusive agora: nem a escalada no número de mortos freou a roubalheira de autoridades da saúde no Rio e em Santa Catarina, sob suspeita de fraudar contratos de compra de máscaras e respiradores. Ao desmandar o máximo do sistema, do qual depende um de cada quatro brasileiros, o novo coronavírus expõe suas mazelas – falta médicos, falta máscara, falta luz e falta leito de UTI. Um levantamento feito na quinta­ feira 14 mostrava que pessoas estão amargando espera na fila das unidades de terapia intensiva em sete estados: além de Rio e Amazonas, Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pará e São Paulo. Para existir vaga, alguém precisa se curar ou morrer.

Na mesma quinta-feira, havia 758 pessoas aguardando internação no Rio de Janeiro, 320 delas em estado grave. Trazida para a vida real, a estatística ganha contornos trágicos. A aposentada Ana dos Santos, 79 anos, fazia visível esforço para respirar no instante em que ouviu a negativa do hospital. “Disseram que não havia leito, que era para ela voltar para casa”, desesperava-se a neta Raiane Barcelos, 27 anos, que ajudava a levar a avó ao carro. Em outro ponto da cidade, a caixa de supermercado Adriana Santana, 25 anos, aguardava por atendimento havia quase duas horas quando, ofegante, desmaiou. Só assim foi vista por um médico, que receitou antibióticos e lhe deu alta. “Somos reféns da sorte. No caso dela, graças a Deus, a doença não se agravou”, contou a sogra, uma semana depois. “O que vemos hoje são muitas vidas perdidas não pela gravidade da doença, mas por falta de socorros médicos”, alerta a pesquisadora Margareth Portela, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.

No SUS, atender a multidões de agora é um desafio colossal. Apena 10% das cidades brasileiras têm a quantidade mínima de UTIs recomendada pela Organização Mundial da Saúde – de um a três leitos para cada 10.000 habitantes. Na região metropolitana do Rio, de acordo com a plataforma Bright Cities, a proporção patina em 0,77. Em Manaus, o índice fica em 2.2 leitos, mas o município atende à demanda de todo o estado, por ser o único que tem UTIs. Pacientes ouvidos contam que despencaram da fronteira atrás de socorro na capital. Com a explosão da procura, as salas de espera dos hospitais ficam abarrotadas – e muita gente se contamina ali mesmo. “Virou cena de horror: em espaço, paciente com e sem sintomas de contágio acabam misturados”, relata Ana Batista, 41 anos, que buscou socorro para o pai, o aposentado Francisco de Paiva, 81 anos, no Hospital Souza Aguiar, no Centro do Rio. Cansado e sem conseguir se alimentar, ele passou sete horas instalado em uma cadeira, recebendo soro, cercado de outros doentes. Mandado para casa, retornaria em três dias com os pulmões tomados. Morreu com suspeita de Covid-19.

Com deficiências acumuladas há décadas, evidentemente não é possível agora desatar os apertados nós do SUS de uma tacada. Mas há caminhos de curto prazo que podem contribuir para amenizar o baque da pandemia sobre a população. Um deles é acelerar a entrega dos hospitais de campanha, em boa parte atrasados. Dos dez prometidos no Rio, apenas quatro foram inaugurados com um quinto dos leitos previstos – e só com isso a taxa de ocupação dos leitos de UTI no estado baixou de 97% para 92%. Um outro caminho é reativar leitos que, acreditem, estão ociosos há anos, por falta de material, de médicos e de iniciativa. O caso mais extremo é o do Rio, uma vez que concentra hospitais federais: 2.000 leitos sem uso. O Ministério Público e a Defensoria Pública recorreram à Justiça para tentar resolver e imbróglio surrealista.

Uma providência levantada com frequência é a de acionar vagas da rede privada para abrigar quem está na fila do SUS. O presidente da Confederação Nacional de Saúde, Breno Monteiro, relatou conversas nesse sentido em São Paulo, onde a prefeitura já reservou 800 leitos, no Maranhão e no Rio de Janeiro. “Estamos em fase de negociar valores”, adianta Breno, que representa as instituições particulares de saúde. Em paralelo, tramitam no Congresso projetos de lei que fariam valer uma “fila única” – o paciente seria conduzido ao primeiro leito livre, seja ele público ou privado, gratuitamente. “É inadmissível que pessoas morram, enquanto vemos hospitais particulares com UTIs desocupadas”, diz Fernando Pigatto, presidente do Conselho Nacional de Saúde.

A multiplicação de casos confirmados do novo coronavírus exige rapidez de ação. Só em Manaus, onde uma ronda pelos hospitais abarrotados e carentes de itens básicos esclarece por que tantos sucumbem, os sepultamentos subiram 179% em comparação ao ano passado. Com medo de ser internada e piorar, muita gente fica em casa mesmo, onde uma parcela vem a morrer desatendida. Aos 57 anos, Edilson Rodrigues sentiu dores no peito e falta de ar, mas resistiu a procurar um médico porque temia se contaminar no ambiente hospitalar. Ele faleceu dormindo”, conta a sobrinha Kamila Souza.

Como essas histórias se repetem a cada dia, a prefeitura reforçou o serviço SOS Funeral, que recolhe os mortos em seu domicílio e o leva para os cemitérios, onde o rito do enterro lembra uma linha de montagem. No Cemitério Parque Tarumã, um dos maiores da cidade, eles se dão de cinco em cinco.

O déficit de testes acaba deixando muitas pessoas que apresentam sintomas típicos de Covid-19 em diagnóstico. Até o fechamento desta edição, o contaminados no Brasil beiravam 190.000, mas projeções de pesquisadores da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto apontam que o número real possa ser quinze vezes maior. Pelo conjunto de incômodos que sentiu, tudo indica que a comerciante Rosilda Jerônimo, 60 anos, de Manaus, engrossa o grupo dos não diagnosticados. Sua via ­ crúcis pelo sistema público se assemelha à de outros brasileiros. Ela foi levada pelo marido, Francisco de Oliveira, 55 anos, ao pronto-socorro do Hospital Platão Araújo (o mesmo que tinha doentes e um morto no mesmo espaço). Fez exame de sangue, mediram a pressão dela, mas não foi submetida ao teste para Covid-19. “Mandaram minha mulher para casa, para não se contaminar”, narra Francisco, que também teve sintomas da doença. Horas mais tarde, Rosilda morreria em casa, sem entrar na contagem oficial. A certidão de óbito diz: vítima de derrame.

Relato de médicos e enfermeiros expõem lacunas muito básicas do sistema público de saúde brasileiro. Alguns contam que tiraram dinheiro do próprio bolso para comprar equipamentos de proteção. No hospital Ronaldo Gazolla, referência na capital fluminense para o socorro a pacientes com Covid-19, as condições são sofríveis para quem não para nem um minuto, tamanho é o fluxo diário de contaminados. A mãe de Patrícia Viana, 43 anos, era enfermeira de lá e morreu de Covid-19. “Deram uma única máscara para ela trabalhar o mês inteiro”, denuncia a filha. Anita Vianna se foi aos 62 anos e compõe outro infeliz recorde nacional: em nenhum lugar do planeta tantos profissionais de enfermagem perderam a vida – 108 até agora, mais do que o número de Itália e Espanha somados.

O aperto financeiro tem como efeito colateral uma situação absurda dentro dos hospitais. “Já flagramos enfermeiros que, por uma questão de dinheiro, continuam trabalhando mesmo infectados. Se entram em licença, perdem o adicional no salário, vital para compor a renda”, revela um chefe de equipe de um hospital estadual do Rio, que pediu anonimato. Há outros riscos cotidianos, mas pouco visíveis. Na região metropolitana de Manaus, testemunhamos a cena de funcionários paramentados com capotes e luvas descartáveis, recém- usados no atendimento aos pacientes, circulando por ruas e lojas como se aquilo não representasse alto risco de contaminação. Um deles atravessou a rua carregando um saco onde se lia: “material infectante”. Nesse sistema cheio de falhas, apesar de sua reputada capilaridade, à medida que as UTIs lotam, os médicos são obrigados a tomar a mais dolorosa das decisões: ceder leitos vagos aos pacientes com maior chance de sobreviver. Rio de Janeiro e Pernambuco já elaboraram até protocolos baseados em critérios técnicos e uma pontuação especial, para orientar a seleção. Esse quadro pode mudar, mas só um esforço concentrado e urgente fará com que, em vez da terrível decisão sobre quem vive e quem morre, a escolha seja sempre pela vida. Se puder, contribua para que a situação não piore ainda mais. Fique em casa.

LOTAÇÃO

A taxa de ocupação dos leitos de UTI em hospitais públicos está próximo da capacidade máxima em várias capitais do país*.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE MAIO

VITÓRIA SOBRE A MORTE

… Tragada foi a morte pela vitória (1Coríntios 15.54c).

A morte entrou no mundo por causa do pecado e colocará suas mãos gélidas sobre todos: reis e vassalos, servos e chefes, doutores e analfabetos, religiosos e agnósticos, velhos e crianças. A morte é o rei dos terrores. Entra nos palácios e choupanas, nos templos religiosos e nos redutos mais escuros da iniquidade, nos hospitais mais sofisticados e nas praças mais movimentadas. Nascemos com o vírus da morte e caminhamos em direção a ela, inevitavelmente. Até que Jesus volte, a morte continuará a agir implacável. Mas a morte foi vencida. Jesus quebrou a espinha dorsal da morte e arrancou seu aguilhão. Jesus matou a morte ao ressurgir dentre os mortos. Agora, a morte não tem mais a última palavra. Não precisamos mais temê-la. Seu poder foi destruído. Jesus se apresenta como a ressurreição e a vida. Quem nele crê nunca morrerá eternamente, mas passou da morte para a vida. No glorioso dia do retorno triunfante de nosso bendito Deus e Salvador, os que estiverem mortos ressuscitarão com um corpo imortal, incorruptível, poderoso, glorioso e celestial, semelhante ao corpo da glória de Cristo; e os que estiverem vivos serão transformados e arrebatados para estarem com Cristo para sempre. A própria morte, que espalhou tanto terror e provocou tantas lágrimas, será lançada no lago de fogo, e nós habitaremos os novos céus e a nova terra, onde Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima.

GESTÃO E CARREIRA

CAÇADOR DE SOLUÇÕES

O setor de facilities deve movimentar 110 bilhões de reais nos próximos cinco anos e precisa de profissionais que pensem estrategicamente

A internet das coisas (IoT) e a Indústria 4.0 permitiram o progresso de muitas profissões, como a de Gestor de Facilities. Conhecido por cuidar da manutenção de estabelecimentos, hoje esse profissional também é responsável por criar experiências. Pensar de forma estratégica sobre como os espaços refletem a cultura das organizações e sobre o que pode ser feito para que os funcionários se sintam confortáveis e produtivos são exemplos dos novos desafios.

Segundo o relatório de 2018 da Global FM Market, a taxa de crescimento do setor de facilities no Brasil está em 9,7% ao ano – acima do índice global, de 7,4%. Só em 2018, essa atividade mobilizou 71,6 bilhões de reais na economia. A expectativa é que, em cinco anos, a área movimente 110 bilhões de reais. “As grandes empresas sempre contrataram, o que acontece é que agora pequenas e médias também estão admitindo esses profissionais”, diz Ricardo Crepaldi, diretor da Associação Brasileira de Facilities (Abrafac). A carreira de Peter Kawamura, de 41 anos, é um exemplo. Graduado em arquitetura e urbanismo, seu primeiro contato com a área de facilities foi na Johnson & Johnson, fabricante de produtos de higiene e beleza. Enquanto trabalhava num escritório que executava uma reforma para a multinacional, Peter foi convidado a entrar para a corporação como gerente na área de facilities. “Por um ano desenvolvi as plantas e conheci o prédio na função de arquiteto. Quando recebi a oferta, aceitei de prontidão”, diz Peter. Nesse posto, ele cuidava de manutenções, frotas, recebimento de materiais, notas fiscais, segurança do trabalho e insumos de infraestrutura. Em 2015, Peter teve outra guinada na carreira: foi contratado pela Movile como head de facilities. Ali, começou a ter uma atuação mais estratégica: “Não deixo de trabalhar no operacional, mas hoje estou. mais centrado na experiência dos funcionários”, afirma. É sua função fazer com que o ambiente reflita a cultura corporativa. “Existe uma coisa muito bacana nessa profissão que é a adaptação às mudanças. O futuro é tecnologia e, nessa área, isso só tem a contribuir”, afirma Peter.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO

Horas trabalhadas: 8 horas por dia (em média)

DIVISÃO DO TEMPO

50% – ESTRATÉGICO (Pensar sobre projetos de melhorias e prestar consultorias internas em questões voltadas para o ambiente e para a qualidade de vida)

30% – GESTÃO DE PESSOAS

20% – OPERACIONAL (checar a infraestrutura da empresa e travar contato com os fornecedores)

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Empatia para entender as necessidades dos outros é importante. Além disso, é preciso ter pensamento estratégico e senso de liderança. Entre as habilidades técnicas destaca-se quem sabe lidar com números, programação e engenharia.

ATIVIDADES – CHAVE

*** Checar contratos de abastecimento, manutenção e suporte de infraestrutura

*** Manter contato com os fornecedores

*** Participar de reuniões de alinhamento e feedbacks

*** Manter contato com o Diretor Financeiro para atualizar e implantar novos programas para os funcionários

PONTOS POSITIVOS

É uma área multidisciplinar. A rotina é dinâmica e permite o compartilhamento de conhecimento com todos os setores da empresa, com a possibilidade de transição entre as atividades. Sustentabilidade, Workplace, Infraestrutura e TI são áreas em que o Gestor de Facilities pode atuar.

PONTOS NEGATIVOS

Por estar em contato com muitas áreas da empresa, o profissional pode ficar sobrecarregado se não souber impor limites.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Qualquer graduação permite o ingresso na área, porém a especialização pode ser feita por meio de cursos com média de 60 horas de duração. Também existem MBA, mestrados e doutorados específicos para esse ramo.

QUEM CONTRATA

Grandes, médias e pequenas empresas. Startups, varejistas e franquias estão movimentando o mercado.

SALÁRIO***

DE 6.800 a 13.000 reais. A média salarial no Brasil é de 9.500 reais, segundo a plataforma VAGAS.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS DUAS FACES DA ANSIEDADE

Como separar o lado ruim e o lado bom desse mal que afeta cerca de trezentos milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, são quase dezenove milhões de ansiosos graves

Vêm de dois poetas duas das mais amplas e contundentes definições de ansiedade, enfermidade psíquica e emocional que afeta atualmente cerca de trezentos milhões de pessoas em todo o planeta. O francês Charles Baudelaire, no século XIX, escreveu: “parece-me que eu sempre estaria bem, lá aonde não estou”. Cerca de cem anos depois, o italiano Giorgio Caproni foi definitivo: “sossega, aonde você vai? Um fato está dado: você jamais chegará aonde já está”. Como Baudelaire e Caproni, estima-se que, no Brasil, pelo menos dezenove milhões de seus habitantes sintam, deitados no sofá de suas casas num pleno domingão ou em meio a agitação da rua, de uma hora para outra e como vindo do nada, excessiva sudorese nas mãos, taquicardia, falta de ar, medo de não conseguir executar determinada tarefa e, muito mais angustiante, a enlouquecedora sensação de morte. Sintam o desassossego de não se sentirem bem em nenhum local, supondo em vão que estariam bem em outro lugar. Isso é ansiedade.

Há, no entanto, uma boa notícia para os portadores dessa psicopatologia, causada pelo inadequado funcionamento da rede de neurotransmissores que compõem o cérebro (sobretudo o ácido gama aminobutírico) ou por fatores externos. Claro que a morte de um parente, o desemprego ou uma separação conjugal podem desencadear ansiedade. Mas também ela se modernizou: o uso excessivo de redes sociais, internet e celulares são dedos exteriores a apertar os gatilhos endógenos. Diante do alarme dado pela venda anual de um milhão de doses de ansiolíticos em todo o País, médicos, cientistas, universidades e instituições, seguindo o ritmo de pesquisas de países desenvolvidos, passaram a estudar cada vez mais a doença. E, agora, já se sabe que, da mesma forma que existe o bom e o ruim colesterol em nosso organismo, há igualmente uma parte da ansiedade que é saudável. Ou seja: a ansiedade tem, sim, duas faces. O vital para quem dela padece é saber jogar fora a porção negativa e ficar somente com a boa.

EFEITO PARALISANTE

Antes de se entrar na questão de como se faz essa difícil separação, convém explicar que a ansiedade, até um limite, é totalmente necessária para qualquer pessoa se mover, fazer coisas, crescer profissionalmente, namorar, casar, ter filhos e tudo o mais que possa almejar na vida. Tem-se, então, que ansiedade zero não existe, é a própria morte. Ultrapassada, porém, essa fronteira, ela nos paralisa. É como se déssemos a velocidade de duzentos quilômetros por hora a um carro que só aguenta setenta. “A ansiedade nos prepara para enfrentarmos situações como, por exemplo, uma entrevista de emprego”, diz a neurologista Francine Mendonça. “Sentir ansiedade, em princípio, é uma reação fisiológica normal. Mas se torna enfermidade quando é desproporcional ao estímulo”. O especialista Marcio Bernik, coordenador do Programa de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, alerta: “A ansiedade além do limite pode levar a demais transtornos como pânico, fobias e depressão”.

Como é possível a pessoa ansiosa valer-se do lado bom da ansiedade, aproveitar-se dele, enquanto ao mesmo tempo despreza o lado que é psicopatológico? É claro que não adianta, absolutamente nada, ficar brigando consigo mesmo e dando ordens para se acalmar. Isso é pior, até porque, como já se disse, é uma questão neural e de todo o metabolismo, não depende de força de vontade do indivíduo nem de ele saber ou não se controlar. “Ter bom conhecimento de si e do que desencadeia a ansiedade é extremamente importante, porque os problemas vão continuar existindo e é preciso reconhecê-los e trabalhar isso em psicoterapia”, diz a neurologista Francine. No campo psicoterápico, uma das ferramentas que vem trazendo bons resultados, tanto no Brasil como nos EUA e Inglaterra, é a chamada terapia cognitiva. A psicanálise lacaniana funciona e muito bem. Outros recursos dos quais se pode lançar mão são as técnicas de relaxamento, sessões de acupuntura, atividades físicas orientadas por médicos e, imprescindível, saber rir de si próprio. Sim, as pessoas bem humoradas são menos vulneráveis à ansiedade.

Ainda na trilha das dicas para deixar no lixo a parte ruim da ansiedade, vale frisar a importância de nos libertarmos de estímulos estressantes, nos campos visual e psicológico, como o uso compulsivo e abusivo de games, internet, redes sociais e celulares. Eis aí três instrumentos vitais para a moderna civilização, mas que precisam ser dominados pelos usuários – o que se vê amiúde é justamente o contrário, ou seja, é a tecnologia dominando o homem. Tanto é assim que a “Classificação Internacional das Doenças” (CID 11) e o “Diagnostic and statistical manual for mental disorders”, duas bíblias da psiquiatria mundial, já incluíram tal mania no rol das enfermidades mentais. Quando tais fatores exógenos causam a ansiedade, muitas vezes combinados com elementos constitucionais endógenos e orgânicos, trata-se do chamado prazer negativo. Como ilustração citemos o fumante ou o alcoolista: ficam ansiosos para fumar o próximo cigarro ou beber o próximo copo, embora saibam que isso não mais lhes dará prazer — simplesmente lhes aliviará a dor psíquica de ter a nicotina ou o álcool circulando no organismo.

Finalmente, outra razão para que os portadores de temperamento ansioso procurem separar as duas faces desse funcionamento emocional é para evitar cair em depressão. Ansiedade e depressão caminham de mãos dadas, basta a primeira cochilar para a segunda atacar. É o que ocorreu com a atriz paranaense Franciely Freduzeski. Há cinco anos, ela começou a apresentar insônia, perda de cabelos e apetite, problemas dermatológicos e demais sintomas de que sua saúde não ia bem. Mas não associou esses eventos à questão da ansiedade. Ela tinha viajado aos Estados Unidos para estudar e morava com o filho. De repente, começou a sentir uma “sensação ruim, estava em país estranho, sozinha e com uma criança. A responsabilidade crescia, piorei na ansiedade e veio a depressão”. Franciely retornou ao Brasil, hoje se trata com psicoterapia combinada com medicação ansiolítica e exercícios físicos. Junta a isso a prática de mindfullness. “A pessoa deprime até porque somatiza.

Transfere para o corpo aquilo que não consegue resolver”, diz o psiquiatra Wimer Bottura Jr., presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática. “Atualmente as possibilidades de escolha na vida são tantas que se tornam uma fonte inesgotável de ansiedade”. Na verdade, desde que o mundo é mundo cada época teve o seu mal característico, e, a rigor, a ansiedade acompanha o homem desde os tempos em que ele precisava caçar para se alimentar. Talvez tenhamos herdado essa ansiedade de nossos ancestrais e ela seja o medo da morte em nosso inconsciente. Mas, uma coisa é fato: existe uma ansiedade moderna, com suas vantagens e desvantagens, um lado bom e um lado ruim. Não resta dúvida, portanto, que, nos valendo dos diversos métodos que podem atenuá-la, é importante coloca-la a nosso serviço. E jamais ficarmos a sua mercê.