A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A CRIATIVIDADE É COLETIVA

Mais do que uma expressão individual, a originalidade toma forma em um contexto; grupos não só desempenham papel essencial na criação de ideias e produtos, mas também asseguram sua valorização, disseminação e impacto. Mesmo as pessoas mais geniais talvez não tivessem se destacado se vivessem em outro momento ou lugar

Todos os anos, alguns dos mais destacados atores, diretores e roteiristas ganham o Oscar e os maiores cientistas, o Nobel. Obviamente esses são apenas dois dos inúmeros prêmios que a cada ano são distribuídos para comemorar feitos criativos. Esses eventos, porém, reforçam a concepção popular de que a criatividade é um dom exclusivo de poucos – e favorecem a apoteose da individualidade. Daí, muitos concluem que grupos e cidadãos comuns não podem colaborar com ideias originais.

Talvez possamos desafiar a suposição comum de que o “dono” de uma ideia é o único componente indispensável do processo criativo. De fato, consideramos que grupos não só desempenham papel essencial na criação de novos produtos, mas também asseguram sua valorização e impacto. Embora essa hipótese possa causar espanto, já recebeu significativo apoio científico. No ano passado, publicamos, em parceria com a psicóloga Lise Jans, um artigo com revisão de grande parte dos dados acumulados sobre concepções modernas de grupos e originalidade. Concluímos que é problemático e inútil separar as grandes mentes criativas das comunidades onde surgem.

TEMPO E CULTURA

Apesar da crença romântica de que a inovação está associada a uma vida dura e isolada, pesquisas científicas sobre criações individuais ainda não produziram previsões precisas do comportamento criativo. Muitos pesquisadores vasculharam a biografia de grandes nomes que colaboraram com o mundo com sua originalidade na tentativa de encontrar experiências e traços de caráter relacionados à genialidade.

Embora hoje saibamos bastante a respeito de processos cerebrais que propiciam o surgimento de boas ideias, pesquisas nessa linha falham porque não consideram o importante papel do contexto social. A natureza e a importância de uma inovação dependem da interação entre as ideias de uma pessoa, da época e da cultura em que vive. Se Bruce Springsteen tivesse nascido em 1749 em vez de 1949, seria improvável que ouvíssemos Born to run. Da mesma forma, se o compositor italiano Domenico Cimarosa tivesse nascido em 1949 em vez de 1749, suas 80 óperas, entre elas a obra-prima ll matrimonio segreto, provavelmente não teriam sido criadas.

De maneira geral, esses exemplos tratam da influência que os grupos exercem sobre a criatividade. No final da década de 70, os psicólogos Henri Tajfel e John Turner, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, desenvolveram o conceito de identidade social, levando em conta que o contexto influencia momentos em que nos percebemos como indivíduos ou membros de um grupo. Assim. por exemplo, um pintor cubista (vamos chamá-lo de Pablo) pode, em alguns momentos, pensar em si com base na identidade pessoal, mas em outras ocasiões, da perspectiva do cubista, considerando a forma como se reconhece socialmente. Em outros lugares, somos definidos ainda de acordo com nacionalidade, sexo biológico, religião ou função num grupo.

Tajfel e Turner argumentam que, quando uma identidade social em particular é psicologicamente proeminente, de tal forma que determina o sentido de quem somos, o grupo – base do reconhecimento – exerce profunda influência sobre nosso comportamento. Além disso, a maneira como julgamos uma ação, independentemente de sermos seus autores, reflete ideias coletivas compartilhadas. O mesmo vale para o comportamento criativo ea maneira como o avaliam. Por exemplo, é provável que Pablo, sendo cubista, se interesse em apreciar representações abstratas dos objetos: também há grandes chances de ele produzir pinturas de acordo com as diretrizes e preferências desse movimento artístico.

Identidades sociais favorecem também uma perspectiva comum, bem como a capacidade e motivação para nos envolvermos em influências sociais mútuas. Mas, quando agimos a partir da perspectiva pessoal, tendemos a ser criativos, nos desviando da norma. Em um experimento realizado há alguns anos, pedimos a alguns estudantes universitários que trabalhavam em grupo que produzissem cartazes que falassem sobre “razões para frequentar a universidade” e a outros que abordassem a “moda no ambiente acadêmico”. As instruções levaram os alunos, de maneira implícita, a criar certas normas grupais. Os que deveriam se concentrar em “razões” tendiam a produzir anúncios essencialmente com palavras, enquanto aqueles voltados para a moda optavam por trabalhar com imagens.

Depois de três horas, pedimos que criassem um folheto sobre a universidade, que poderia ser feito com palavras ou imagens. Dessa vez, alguns se reuniram em grupo, enquanto outros decidiram trabalhar por conta própria. Nosso objetivo era saber se a tarefa criativa seria moldada pelas normas coletivas estabelecidas na fase anterior. E foi. Observamos que durante o trabalho em equipe os participantes geralmente criavam de acordo com as regras comuns estabelecidas para o projeto, independentemente de ser com imagens ou palavras. E, mesmo quando puderam agir individualmente, tendiam a tomar as diretrizes do grupo a que pertenceram anteriormente como ponto de partida. Os resultados desse e de outros estudos semelhantes apoiam a hipótese de que a natureza da atividade criativa depende de normas coletivas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.