EU ACHO …

COMO A GUERRA CONTRA AS DROGAS MATA AS CRIANÇAS

A proibição causa mais mortes do que qualquer substância ilícita; impedir o funcionamento deste mercado não é difícil: é absolutamente impossível

E a bala furou a carroceria da Kombi, passou pelo banco traseiro e entrou pelas costas da menina, parando seu coração, encerrando sua vida, aos 8 anos de idade. Uma tragédia. Uma fatalidade. O fim do mundo. E o desespero dos pais e do avô, que estava ao lado da criança dentro da kombi, são quase insuportáveis, quase impossíveis de conceber. Mas, ao mesmo tempo, o que aconteceu com Agatha é rotina, e nada indica que vá deixar de ser. No Brasil, matamos crianças.

Só no Rio de Janeiro, só este ano, outras 15 crianças foram baleados pela polícia, antes de Ágatha. Um menino de 11 anos foi abatido enquanto passeava de bicicleta, uma menina de 6 foi atingida quando dançava no quintal de casa, um bebê de menos de 2 perdeu a vida no colo da mãe. Um feto morreu baleado em abril, dentro da barriga da mãe, aos oito meses de gravidez. Rotina.

É óbvio que temos essa rotina porque temos péssimos políticos, que gostam de incitar a sede de sangue da população, surfando no medo que domina este país violento. Mês passado, o governador do Rio torrou dinheiro público com um voo de helicóptero só para ir comemorar a morte de uma pessoa pela polícia. Mas ele é incapaz de fazer uma só crítica às operações que matam crianças. Passa à polícia o recado implícito de que, havendo dúvida, é mais garantido atirar.

Mas Witzel só pode fazer isso porque o Brasil está se tornando um dos últimos países do mundo a adotar a estratégia da guerra às drogas, que é a tentativa de impedir a circulação de drogas com metralhadoras. Nenhum outro país da América Latina – e quase nenhum do mundo desenvolvido — insiste ainda na violenta e ineficaz criminalização dos usuários de drogas.

Não se trata de defender as drogas. Drogas são perigosas sim, ainda mais quando não têm nenhuma regulação, nenhum esforço de redução de danos por parte do Estado. É importante ter políticas públicas que busquem diminuir o consumo problemático de drogas. E é compreensível a ideia de reprimir esse mercado. Afinal, ninguém quer que drogas causem danos às pessoas – principalmente às crianças. Foi para proteger as crianças que proibimos as drogas.

Mas, na prática, não tem funcionado assim. A proibição mata muito mais crianças do que qualquer droga. Mata porque impedir o funcionamento do mercado de drogas não é difícil: é absolutamente impossível. Nunca nenhum país do mundo conseguiu. Há um mercado bilionário que a droga movimenta, e não importa quantas pessoas vão ser presas e mortas, sempre haverá alguém disposto a correr o risco de ocupar seu lugar.

O mercado ilegal de drogas cria inevitavelmente um incentivo para uma disputa do território. Vender drogas dá tanto lucro que vale a pena ir para a guerra para assumir o controle de uma boca. Essa disputa mata muita gente, o tempo todo — crianças inclusive. E não é só que mata: ela inferniza quem está vivo. Nesse ambiente, crianças têm dificuldade para ir à escola, para brincar, crescem oprimidas e traumatizadas com a violência.

Claro que não é em todo bairro que isso acontece, embora seja sim em todos os bairros (sem exceção) que há gente vendendo e usando drogas. Nas regiões ricas, nada disso tem consequências mais sérias. Mas, nas periferias, não bastasse a falta de serviços públicos de qualidade, há sempre balas voando.

Esse apartheid regional é consequência direta da guerra às drogas. No Brasil, a coisa é mais explícita ainda. Aqui, a polícia usa como critério para diferenciar usuário de traficante o bairro onde ele foi preso. Se for nos bairros centrais, mais ricos, é usuário. Se for na favela é traficante. Isso porque, na falta de critérios objetivos para distinguir uma coisa da outra, a Justiça aceita a argumentação de que traficante é quem é pego com droga numa região “dominada pelo tráfico”. E “região dominada pelo tráfico” é sinônimo de bairro pobre, sem serviços públicos.

A não ser que seja um lugar dominado pela milícia – principalmente no Rio de Janeiro, mas cada vez mais no Brasil todo. Milícias são máfias infiltradas no Estado, que entram na disputa por territórios contra os traficantes, para lucrar vendendo serviços de proteção e controlando o mercado negro da região. Um a mais em guerra para dominar territórios, fazendo voar balas para todo lado – e matando crianças.

As crianças que morrem assassinadas rotineiramente no Brasil são só a ponta extrema de um imenso iceberg. Se crianças morrem todo mês, adolescentes e jovens morrem aos montes todos os dias. Para cada 100 mil jovens brasileiros, 70 morrem assassinados, um índice holocáustico, entre os piores do mundo, semelhante ao do Haiti, país desestruturado e assolado por guerras civis.

A guerra contra as drogas é uma política extrema, que foi justificada pela necessidade de proteger os jovens das drogas. Mas ela não está fazendo isso, ao contrário – ela está matando-os. Enquanto isso, o mundo todo se move na direção de descriminalizar as drogas ou até legalizar algumas delas. O resultado que se vê dessas políticas mais racionais é bem claro: num ambiente bem regulado, menos jovens usam drogas, porque comerciantes pedem RG, traficantes não.

Mas, para além disso: países que tenham com políticas de drogas racionais não ficam matando crianças. Você não preferia viver num país onde matar crianças não é rotina?

* DENIS RUSSO BURGIERMAN

OUTROS OLHARES

DE ONDE VÊM AS OUTRAS MORTES?

O número de óbitos por razões naturais dispara em março e abril e aumentam as suspeitas de que a falta de testes esteja levando vítimas a terem a causa do falecimento erroneamente desvinculada da Covid-19.

Origem dos primeiros casos do novo coronavírus no mundo, a China foi amplamente criticada por subnotificar suas mortes e não dar a real dimensão da pandemia para que os outros países pudessem tomar providências adequadas antecipadamente. Já o Brasil não pode reclamar de ter sido pego de surpresa. Quando o vírus começou a se espalhar pelo país, já se conhecia seu potencial de disseminação e mortalidade, observado na Europa. Essa vantagem deu tempo para que governadores implementassem antecipadamente políticas de isolamento social, mas não foi suficiente para que se colocasse em marcha um programa mínimo de testagem. Sem testes, o governo não tem um retrato fiel do problema e pesquisadores são obrigados a buscar outras formas de calcular o impacto.

Um levantamento feito com base em registros de óbitos de cartórios de São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Recife, capitais com o maior número de casos no país, mostra uma subida acelerada e atípica no número de mortes naturais – ou seja, mortes não resultantes de violência. Nesses locais, os cartórios registram 3.392 óbitos a mais, entre março e o início de abril, do que em 2019. Desse incremento, 1.618 são casos suspeitos ou confirmados de Covid-19. O restante, são doenças diversas. Ocorre que, ao se comparar fevereiro de 2020 com o mesmo mês do ano anterior, a oscilação é zero. Ou seja, a disparada nas mortes naturais (com ou sem Covid-19) ocorreu justamente nos meses de expansão da pandemia. Quem fornece esse diagnóstico não são as secretarias nem o Ministério da Saúde, e sim a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), que contabiliza os dados dos milhares de cartórios espalhados pelo país.

A maior disparidade de mortes em relação a 2019 ocorre em Manaus, onde houve 730 mortos a mais entre março e abril, em relação ao mesmo período de 2019, e apenas 82 casos positivos para Covid-19. No Rio de Janeiro, foram 639 mortes naturais a mais que em 2019, sendo 437 suspeitas ou confirmadas pelo novo coronavírus.

Naturalmente, nem todos os óbitos têm relação com a pandemia, mas o dado pode dar pistas sobre o tamanho da subnotificação. Além disso, o total de mortos pode ser ainda maior que o informado pelos cartórios. Isso porque o prazo legal para que uma pessoa que perdeu um ente querido faça o registro, e ele seja processado, é de até 15 dias em alguns casos.

A subida dos números de mortalidade para além do novo coronavírus tem sido observada em países e cidades que estão no epicentro da pandemia. Em Nova York, foram 4.200 mortes a mais em março, em relação à média dos últimos anos, além das registradas por Covid-19, de acordo com reportagem do New York Times. Na Espanha, foram 9.100 mortos a mais, sem contar as vítimas da pandemia. Na França e no Equador, ultrapassou 7 mil.

A alta de mortes naturais nas quatro capitais citadas no levantamento também ocorre em um período de crescimento de óbitos por síndrome respiratória aguda grave (SRAG), ainda de acordo com dados divulgados pelos cartórios. As notificações passaram de 21, entre março e 15 de abril de 2019, para 353 neste ano nas quatro cidades. O diretor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) do Distrito Federal (DF), José David Urbaéz defendeu que as notificações de SRAG são um importante indicador para dimensionar o descompasso entre as confirmações da Covid-19 e o cenário real de casos, inclusive para os óbitos. “O vírus vai sempre caminhar mais rápido do que a capacidade de diagnóstico, mesmo nos melhores cenários. Talvez o melhor exemplo seja o da Bélgica, que passou a notificar como Covid-19 os casos de SRAG. Assim você tem uma ideia mais próxima do que está acontecendo. É um problema continuar o que estamos fazendo agora, notificar como caso real apenas os testados, os que estão internados nos hospitais. Não se notifica paciente que tem quadro leve. Isso vale também para os óbitos.”

A Covid-19, causada pelo sars-CoV-2, é caracterizada, na maioria das vezes, por doença respiratória grave, embora a literatura já comece a registrar casos, por exemplo, de mortes por acidente vascular cerebral e síndrome de Guillain-Barré. “Você vai aprendendo e desvendando a epidemia enquanto ela ocorre. Foi assim com o HIV. É sempre difícil fazer a leitura de dados epidemiológicos”, concluiu Urbaéz.

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que a subnotificação de casos é esperada “pelas características da doença e pela falta mundial de disponibilidade de testes”. O ministério disse ainda que não é esperada a subnotificação dos pacientes internados por SRAG, embora os boletins públicos da pasta contabilizem apenas casos de mortes por Covid-19 confirmados por testes. O grupo “Covid-19 Brasil”, que reúne especialistas de várias universidades brasileiras, apontava no último dia 28 que as infecções pelo vírus já superavam a marca de 1,2 milhão, enquanto os dados oficiais apontavam 73.500 casos. Tal projeção é feita justamente a partir dos óbitos divulgados pelas secretarias de saúde. “Isso significa que estamos fazendo uma projeção de um cenário mais leve, a partir dos casos confirmados no boletim oficial. Se estamos prevendo que há 1,2 milhão de casos de Covid-19 a partir desses óbitos oficiais, significa que temos muito mais casos? Significa que ultrapassamos os Estados Unidos? Para que epidemia estamos olhando? Uma epidemia atrasada em média de uma ou duas semanas?”, questionou Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), e membro do grupo.

Não ter uma noção real dos mortos preocupa porque a informação é fundamental para que governos atuem para conter a crise, explicou João Abreu, cofundador da Impulso, que, junto com o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e o Instituto Arapyaú, criou a plataforma Coronacidades, que dá apoio técnico para estados e municípios no combate à pandemia a partir de simulações da demanda por leitos e do diagnóstico do nível de preparo local. “A gente tem recursos limitados. Muitas cidades não sabem como fazer para testar, não há protocolos. A gente deveria usar esse tipo de informação, por exemplo, para direcionar a aplicação de testes, que são limitados. Se você tem uma equipe de saúde, você deveria mandar para regiões com mais casos. Essa distribuição pode estar indo para o lugar errado, enfatizou o economista.

Para Abreu, o número de casos de infecção por Covid-19 fornecido pelas secretarias é “inútil” diante da falta de testes. Um estudo feito pelo Coronacidades apontou que, nos municípios brasileiros com mortes registradas até esta semana, 14 têm uma taxa de mortalidade abaixo da média mundial, o que pode indicar que o cenário real de óbitos não está sendo contabilizado. Entre essas cidades estão capitais como Belo Horizonte, Florianópolis e Cuiabá. “Está todo mundo falando que está fazendo gestão da epidemia, mas ninguém está fazendo. Os dados não são adequados para fazer gestão. Como a gente está explicando isso para as famílias das vítimas? O ‘e daí?’ do presidente é generalizado. Ninguém está gerindo a epidemia efetivamente. As pessoas estão enxugando gelo”, avaliou Domingos Alves, da USP.

Outro efeito pernicioso da subnotificação é transmitir a falsa sensação de que a epidemia está se dissipando. “Passa para a população uma ideia de que o problema é menor do que é, e isso tem uma péssima consequência, que é a diminuição progressiva das taxas de isolamento”, concluiu o infectologista Urbaéz, da SBI do DF. Foi o que aconteceu no Brasil nas últimas semanas, com o recuo progressivo do confinamento. Não à toa, e nem por falta de alerta de especialistas, mais de 400 pessoas estão morrendo por dia no país em decorrência da doença. E esse número, já assustador, é aquele oficial, ou seja, o subnotificado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE MAIO

O DRAMA DA PAIXÃO

Angustiou-se Amnom por Tamar, sua irmã, a ponto de adoecer… (2 Samuel 13.2a).

A paixão é um sentimento avassalador. Crepita como o fogo, alastra-se como uma chama e devasta como um incêndio. A paixão não é amor; é egoísmo patológico. O amor busca a felicidade contínua do outro; a paixão busca a satisfação imediata de si mesmo. Todos os dias os jornais estampam manchetes de crimes passionais. Pessoas que matam em nome do amor. Matam porque foram traídas. Matam porque foram violentadas. Matam por ciúme doentio. A família de Davi também enfrentou esse drama. Amnom, filho mais velho de Davi, apaixonou-se perdidamente por sua irmã Tamar, a ponto de descair-lhe o semblante. Davi, como pai, nada percebeu, mas Jonadabe, primo de Amnom, sendo mui sagaz, não apenas arrancou de Amnom o segredo, mas lhe deu conselhos insensatos que o empurraram para a morte. Amnom acabou violentando a própria irmã para sentir náuseas por ela imediatamente. Isso levou Absalão, irmão de Tamar, a arquitetar e executar a morte de Amnom, dois anos depois. Muitas pessoas ainda perecem por causa da paixão doentia. Muitos jovens tiram a própria vida por esse sentimento avassalador. Paixão não é amor. Este é benigno e não arde em ciúmes, mas aquela é um vulcão que cospe lavas de fogo e produz tormento e morte. É uma avalanche que arrasta a vida para o abismo da perdição.

GESTÃO E CARREIRA

NO MODO AVIÃO

Cinco razões pelas quais você precisa tirar férias – todas comprovadas pela ciência

As folhas do calendário deram a volta completa em sua mesa de trabalho e a lembrança mais recente que você tem das férias é aquela semana na qual esteve fora do escritório, mas não conseguiu se desligar. Essa é a realidade de muitos profissionais. Segundo pesquisa encomendada pela companhia de viagens Expedia à Northstar, empresa internacional de pesquisa e consultoria, 30% dos brasileiros checam o e-mail durante a folga e 61% já cancelaram parte das férias por causa do trabalho. Isso sugere que parcela significativa da população mantém uma rotina profissional ininterrupta ao longo do ano, o que compromete a saúde e o rendimento.

Josh Davis, autor de Two Awesome Hours (“As duas horas incríveis”, na tradução livre), compara o esforço mental que fazemos no trabalho com os exercícios físicos. Segundo ele, que é diretor do Neuro Leadership Institute, nos Estados Unidos, o cérebro assemelha-se ao músculo, ou seja, se houver sobrecarga de atividades, ele “trava”. Por isso é tão importante descansar de fato no recesso, desconectando-se de qualquer problema da empresa.

“Tirar férias é como dar um restart na máquina”, resume a neuropsicóloga Beatriz Sant’ Anna. Mas, para que a mente volte com toda a potência após o repouso, é essencial curtir o ócio de modo estimulante. Ou seja, não adianta ficar jogado no sofá assistindo a séries da Netflix. É preciso despertar o intelecto com atividades diferentes. ”As pessoas confundem estresse emocional com cansaço físico. Para curar a fadiga mental, o melhor remédio é ter momentos divertidos e que deem prazer”, diz a especialista.

Para que você desfrute o merecido descanso, sem interferências nem preocupações com o trabalho, selecionamos cinco benefícios das férias cientificamente comprovados.

1. EVITA QUE VOCÊ ADOEÇA

O nervosismo ocasionado pelo excesso de trabalho está relacionado a uma série de problemas, como enfermidades do coração, obesidade e transtornos mentais, entre eles depressão e síndrome do pânico. Quando tiramos um período de férias, uma série de eventos biológicos melhoram esse cenário. De um Lado, há o aumento dos hormônios associados à felicidade e ao bem-estar, como a endorfina, a dopamina, a ocitocina e a serotonina; do outro, a redução dos hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina, e o equilíbrio da grelina e da Leptina, substâncias responsáveis pela saciedade e pela fome. Um estudo realizado pelo National Heart, Lung and Blood lnstitute (Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue) e pela Universidade de Boston, ambos nos Estados Unidos, descobriu que homens e mulheres que ficam um período sem tirar férias têm 30% e 50%, respectivamente, mais probabilidade de sofrer um ataque cardíaco do que quem usufrui do descanso anual. Os testes também mostraram que os que tiram férias demonstram melhora no humor e na disposição, além de uma redução nos níveis de glicose no sangue, correndo menos risco de diabetes e sobrepeso.

2. INTERROMPE O CICLO DO ESTRESSE

Longas horas no trabalho, pressão por resultado, mudanças constantes na chefia e competição acirrada são alguns dos gatilhos que desencadeiam transtornos mentais, como depressão, síndrome do pânico e burnout. De acordo com pesquisas feitas pela lnternational Stress Management Association (lsma-BR), 20% dos funcionários ativos estão trabalhando sob forte pressão emocional, o que compromete a saúde física e psíquica. O Centro de Corpo e Mente da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, conduziu um estudo com cerca de 1.400 pessoas e constatou que a busca por lazer (o que inclui sair de férias) contribui para diminuir casos de depressão. Isso acontece porque, quando estão desconectados dos problemas corporativos, os profissionais passam a ter um enfrentamento mais positivo perante a vida. Joe Robinson, famoso coach americano de equilíbrio entre vida profissional e pessoal, diz que só o descanso compulsório cura a exaustão – o último estágio do estresse, que é composto de três etapas, sendo a primeira de alerta e a segunda de resistência. “Ficar Longe do escritório interrompe a fonte do estresse, regenerando corpo e mente.”

3. CONTROLA A PRESSÃO ARTERIAL

Uma das causas da hipertensão é a estafa, que libera na corrente sanguínea hormônios como a adrenalina, que faz subir a pressão arterial. Uma pesquisa da agência britânica de viagens Kuoni, em parceria com o Nuffield Health, organização de saúde do Reino Unido, mostrou que se desligar por alguns dias já é o suficiente para melhorar a qualidade do sono, eliminar a ansiedade e, por tabela, diminuir a pressão arterial. Ao analisar dois grupos – um com pessoas que foram viajar e outro com pessoas que ficaram em sua cidade trabalhando -, os pesquisadores constataram que a pressão sanguínea dos viajantes caiu 6%, enquanto a dos que seguiram na rotina estressante aumentou 2%. Como esse tipo de reação só dura cerca de 15 dias após o passeio, a dica é manter bons hábitos durante o ano todo, segundo Bianca Vilela, consultora de saúde corporativa. “As férias são o telhado; a rotina é o alicerce”, afirma ela, que ainda faz um alerta: “Os dias de folga não são só para beber ou comer muito. Eles devem servir de pontapé inicial para estabelecer uma nova dinâmica”.

4. AUMENTA A PRODUTIVIDADE

Em 2017, a SimpliFlying, empresa global de estratégia na área de aviação, estipulou a regra de que os funcionários deveriam tirar sete dias de folga obrigatórios a cada sete semanas. Quem não cumprisse o combinado, entrando em contato com o escritório durante o período por e-mail, WhatsApp, Slack ou outro meio de comunicação, seria punido e não receberia salário naquela semana. Três meses após o teste, os níveis de criatividade aumentaram 33%, os de felicidade 25% e os de produtividade 13%. Muitas pessoas relataram, por exemplo, ter encontrado tempo para tirar do papel desejos antigos, como a ida a uma exposição de arte ou uma viagem a um Lugar desconhecido – atividades que estimulam o cérebro. Depois de avaliar os resultados, a empresa manteve o projeto e fez um pequeno ajuste: calibrou a frequência das miniférias, que agora acontecem a cada oito semanas.

5. ESTIMULA A SOLUÇÃO DE PROBLEMAS

O cansaço do dia a dia atrapalha a atenção, a consolidação da memória e todo o funcionamento do pré-frontal, parte do cérebro responsável por buscar alternativas e soluções de problemas. “Durante as férias, nós temos tempo e interesse em fazer coisas novas e isso aumenta a criatividade”, diz Joe Robinson. O expert diz ainda que, com base em todos os trabalhos que já realizou, está claro que a possibilidade de descansar despreocupadamente (sabendo que o emprego e o salário estão garantidos no retorno) gera uma vivência cujo valor não se compara a bens materiais, por exemplo. “Isso porque as experiências são eventos únicos e não perdem valor como os objetos”, afirma. Em outras palavras, quando estiver num momento crítico, não é o carro novo ou o relógio caro que farão o profissional enfrentar melhor um problema. Já a boa Lembrança é uma ferramenta mental poderosíssima. Claudia Cavallini, consultora da HSM, plataforma de educação executiva, reforça que as férias proporcionam contemplação, aquele olhar ao redor sem pressa que gera insights e ideias. “Se a pessoa não tem momentos reflexivos, ela também não inova.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A CRIATIVIDADE É COLETIVA

Mais do que uma expressão individual, a originalidade toma forma em um contexto; grupos não só desempenham papel essencial na criação de ideias e produtos, mas também asseguram sua valorização, disseminação e impacto. Mesmo as pessoas mais geniais talvez não tivessem se destacado se vivessem em outro momento ou lugar

Todos os anos, alguns dos mais destacados atores, diretores e roteiristas ganham o Oscar e os maiores cientistas, o Nobel. Obviamente esses são apenas dois dos inúmeros prêmios que a cada ano são distribuídos para comemorar feitos criativos. Esses eventos, porém, reforçam a concepção popular de que a criatividade é um dom exclusivo de poucos – e favorecem a apoteose da individualidade. Daí, muitos concluem que grupos e cidadãos comuns não podem colaborar com ideias originais.

Talvez possamos desafiar a suposição comum de que o “dono” de uma ideia é o único componente indispensável do processo criativo. De fato, consideramos que grupos não só desempenham papel essencial na criação de novos produtos, mas também asseguram sua valorização e impacto. Embora essa hipótese possa causar espanto, já recebeu significativo apoio científico. No ano passado, publicamos, em parceria com a psicóloga Lise Jans, um artigo com revisão de grande parte dos dados acumulados sobre concepções modernas de grupos e originalidade. Concluímos que é problemático e inútil separar as grandes mentes criativas das comunidades onde surgem.

TEMPO E CULTURA

Apesar da crença romântica de que a inovação está associada a uma vida dura e isolada, pesquisas científicas sobre criações individuais ainda não produziram previsões precisas do comportamento criativo. Muitos pesquisadores vasculharam a biografia de grandes nomes que colaboraram com o mundo com sua originalidade na tentativa de encontrar experiências e traços de caráter relacionados à genialidade.

Embora hoje saibamos bastante a respeito de processos cerebrais que propiciam o surgimento de boas ideias, pesquisas nessa linha falham porque não consideram o importante papel do contexto social. A natureza e a importância de uma inovação dependem da interação entre as ideias de uma pessoa, da época e da cultura em que vive. Se Bruce Springsteen tivesse nascido em 1749 em vez de 1949, seria improvável que ouvíssemos Born to run. Da mesma forma, se o compositor italiano Domenico Cimarosa tivesse nascido em 1949 em vez de 1749, suas 80 óperas, entre elas a obra-prima ll matrimonio segreto, provavelmente não teriam sido criadas.

De maneira geral, esses exemplos tratam da influência que os grupos exercem sobre a criatividade. No final da década de 70, os psicólogos Henri Tajfel e John Turner, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, desenvolveram o conceito de identidade social, levando em conta que o contexto influencia momentos em que nos percebemos como indivíduos ou membros de um grupo. Assim. por exemplo, um pintor cubista (vamos chamá-lo de Pablo) pode, em alguns momentos, pensar em si com base na identidade pessoal, mas em outras ocasiões, da perspectiva do cubista, considerando a forma como se reconhece socialmente. Em outros lugares, somos definidos ainda de acordo com nacionalidade, sexo biológico, religião ou função num grupo.

Tajfel e Turner argumentam que, quando uma identidade social em particular é psicologicamente proeminente, de tal forma que determina o sentido de quem somos, o grupo – base do reconhecimento – exerce profunda influência sobre nosso comportamento. Além disso, a maneira como julgamos uma ação, independentemente de sermos seus autores, reflete ideias coletivas compartilhadas. O mesmo vale para o comportamento criativo ea maneira como o avaliam. Por exemplo, é provável que Pablo, sendo cubista, se interesse em apreciar representações abstratas dos objetos: também há grandes chances de ele produzir pinturas de acordo com as diretrizes e preferências desse movimento artístico.

Identidades sociais favorecem também uma perspectiva comum, bem como a capacidade e motivação para nos envolvermos em influências sociais mútuas. Mas, quando agimos a partir da perspectiva pessoal, tendemos a ser criativos, nos desviando da norma. Em um experimento realizado há alguns anos, pedimos a alguns estudantes universitários que trabalhavam em grupo que produzissem cartazes que falassem sobre “razões para frequentar a universidade” e a outros que abordassem a “moda no ambiente acadêmico”. As instruções levaram os alunos, de maneira implícita, a criar certas normas grupais. Os que deveriam se concentrar em “razões” tendiam a produzir anúncios essencialmente com palavras, enquanto aqueles voltados para a moda optavam por trabalhar com imagens.

Depois de três horas, pedimos que criassem um folheto sobre a universidade, que poderia ser feito com palavras ou imagens. Dessa vez, alguns se reuniram em grupo, enquanto outros decidiram trabalhar por conta própria. Nosso objetivo era saber se a tarefa criativa seria moldada pelas normas coletivas estabelecidas na fase anterior. E foi. Observamos que durante o trabalho em equipe os participantes geralmente criavam de acordo com as regras comuns estabelecidas para o projeto, independentemente de ser com imagens ou palavras. E, mesmo quando puderam agir individualmente, tendiam a tomar as diretrizes do grupo a que pertenceram anteriormente como ponto de partida. Os resultados desse e de outros estudos semelhantes apoiam a hipótese de que a natureza da atividade criativa depende de normas coletivas.