EU ACHO …

O QUE FAZ MAIS FALTA DURANTE A QUARENTENA

Quando penso no único cenário de que sinto saudade consistente nesta quarentena, ele é feito sobretudo de água… Em minha fantasia, os clubes reabrem, volto a poder mergulhar na piscina para nadar. Os músculos ainda estão retraídos, a capacidade pulmonar não é a mesma, mas deixo corpo e mente fluírem, levados pelo ritmo constante da respiração, das braçadas, das pernadas e do coração. Súbito, redescubro aquilo que a escritora Bonnie Tsui descreve como um “curioso espaço liminar”. “Eis-nos aqui”, escreve ela no recém-lançado Why we swim (Por que nadamos), “suspensos, mas nos movendo; flutuando, mas sob risco de afundar. E, se nadamos com a corrente, em vez de lutar contra ela, encontramos um estado momentâneo de movimento e paradoxal quietude – o fluxo”. Nadar é, para Tsui, para mim e para milhões de outros praticantes do esporte, um “antídoto para a angústia existencial”. A água é, ao mesmo tempo, território estrangeiro e familiar, zona de conforto e desafio, ambiente de esforço físico e paz espiritual, lugar onde estamos sempre alertas, mas onde sempre podemos sonhar. “Qual é exatamente a mágica da água, o que ela nos faz?”, pergunta Tsui. Responde com uma palavra: “É um mistério”.

No livro, ela não se concentra na história da natação, como faz a nadadora Lynn Sherr em Swim. Nem apresenta uma narrativa inspiradora de superação, como a maratonista aquática Diana Nyad em Find a way. Em vez disso, segue o exemplo da ex-competidora e ilustradora Leanne Shapton em Swimming studies: mistura relatos pessoais próprios e de outros nadadores à reflexão filosófica. Des­ dobra a questão do título em cinco aspectos, cada um ancorado num personagem com quem convive. Nadamos para sobreviver, revela o islandês Guôlaugur Friôpórsson, até hoje lembrado como herói em sua terra natal por ter se salvado de um naufrágio dando 6 quilômetros de braçadas n’água gelada. Nadamos porque nos faz bem, tanto ao corpo quanto à alma, descobriu a neozelandesa Kim Chambers depois de sofrer um acidente que quase a fez perder o movimento de uma perna. Nadamos para fazer parte de uma comunidade, ensina o militar americano Jay Taylor à equipe que treina na piscina abandonada de um palácio de Saddam Hussein, em plena Guerra do Iraque. Nadamos para competir, qual os japoneses adestrados nas artes dos samurais aquáticos pela técnica Midori Ishibiki. Nadamos, enfim, para desfrutar a sensação misteriosa de estar n’água, aquela que o pianista Glenn Gould atribuía também à música: a suspensão provisória da “inexorável linealidade do tempo”. “É um presente eterno. Cada momento passado é imediatamente substituído por um novo: um fluxo constante de agora e agora e agora, que não deixa espaço para pensar no que passou ou no que está por vir”, diz Tsui.

“Nadar é testemunhar a metamorfose, em nosso ambiente, em nós mesmos. Nadar é aceitar todas as inúmeras condições da vida. Até de volta ao princípio. Flutuamos no ventre materno. Quando primeiro aprendemos a nadar, aprendemos a flutuar”, escreve Tsui. “Como nadadores humanos, nunca podemos ser exatamente o peixe. Sabemos disso. Mas não temos de lembrar que a água está ao redor de nós. Temos lampejos do que é ser peixe, flashes do que é esquecer a água. Ao esquecer, nos deixamos levar.” Somos tragados pelo paradoxo da água, fonte de vida e também da morte por afogamento. “Nem todos são nadadores, mas todos têm uma história a contar sobre natação.” Nadar é aprender a lidar com a surpresa, com o inesperado, com aquilo que não controlamos nem podemos controlar, mas que temos de enfrentar mesmo assim. É uma lembrança de que a vida e o tempo são fluidos. “É um alerta para reduzir a velocidade e despertar para as conexões reais que temos – enquanto as temos”. Nenhum alerta é tão necessário em meio a uma pandemia única na história humana – e nada me faz tanta falta.

* HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

NASCIDOS NA QUARENTENA

A vida humana é feita de chocantes antagonismos e na pandemia não é diferente. Enquanto alguns morrem solitariamente nos corredores dos hospitais, crianças vêm à luz em meio a esse trágico cenário

Uma mulher que tivesse planejado a gravidez, mas perdeu na corrida do tempo para o coronavírus e não engravidou, está tranquila. A inquietação nesse tempo de pandemia é da mulher que já estava gestando quando todo clima de medo começou. Na verdade, o risco de vida do bebê não está na gestação, embora exista e de forma muita alta em seu primeiro instante no mundo extrauterino. Até agora, no limite que os especialistas puderam observar e pesquisar, não há perigo de transmissão vertical pela placenta. Assim que a criança nasce, no entanto, imediatamente uma grossa máscara tem de ser colocada na parturiente antes mesmo que ela receba, pela primeira vez, seu filho nos braços. O cuidado que precisa-se ter com adultos há de ser mil vezes mais intenso com o recém-nascido, uma vez que o seu sistema imunológico é frágil feito cristal.

Ao contrário do HIV, que no caso da mãe soropositivo é necessária a injeção de coquetel no cordão umbilical no momento do parto para que não ocorra a infecção vertical, o impetuoso e invisível coronavírus poupou aqueles que estão para nascer. Todos os cuidados ficam por conta da família e, sobretudo, da mãe – nunca esteve tão exata a gasta expressão de que “ser mãe é sofrer no paraíso”. “Gente, nunca me senti tão nas nuvens tendo uma segunda filha”, diz Laís Valentim Procídio da Silva. “Mas, ao mesmo tempo, quanto sofrimento tenho carregado com medo de que ela seja infectada”. O medo geralmente é bom porque protege aquele que o carrega. Laís, em nome de sua filha, respeita totalmente a quarentena: “Não coloco o pé na rua”.

CONHECER O CHICO? SÓ POR FOTO

Ainda que os médicos não tenham anotado a transmissão vertical, isso não quer dizer que ela não continue a pendular como uma das grandes dúvidas na rede de transmissibilidade da Covid-19. “Já sabemos aquilo que estamos vendo, mas ainda há muito pela frente o que estudar, praticamente o novo coronavírus ainda nos é desconhecido em seus mais diversos aspectos”, diz o ginecologista e oncologista pélvico Ahmed Mourad. Ainda que desconhecido, os cuidados contra o vírus são pontuais, certeiros e rigorosos. O problema desse inimigo é sempre o depois. Já que as visitas nos hospitais foram brecadas, só pai e mãe acompanham os primeiros dias do bebê, a saída da maternidade é a grande preocupação. “A mãe que já foi contaminada durante a gravidez não pode relaxar e pensar que está livre do vírus passado o período de contaminação”, diz a conceituada obstetra Camilla Pinheiro. “Até o momento não temos nenhum relato de reinfecção”. Quanto à amamentação, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, não existe perigo, desde que a mãe tome todos os cuidados – como por exemplo, o uso de máscaras.

No quarto do Hospital Hospitalis, na cidade paulistana Barueri, Gabriela Pereira segura o pequeno Francisco nos braços e pensa no futuro à curto prazo do filho, que chegou à vida na segunda-feira 27. Antes de ele vir ao mundo, todos os convites de boas-vindas passaram por uma desinfecção. A casa da família está muito mais do que limpa, talvez seja possível até que os vizinhos do casal estejam sentindo o cheiro de álcool em gel e produtos de higiene. “Mesmo em casa, decidimos não receber ninguém, ninguém, ninguém mesmo”, diz Gabriela. “Quem quiser conhecer o Chico vai conhecê-lo por foto”. Nesse tempo de medo e caos na saúde, os bebês se adaptarão ao desenvolvimento humano. Assim como na casa de Gabriela, também não existe contato social nos consultórios médicos. Chico nasce em um mundo novo, um mundo em que as relações ganham um outro contorno. Até o seu sistema imunológico se desenvolver, ele contará com um único carinho: o dos pais, já que não terá contato com ninguém. Uma realidade nova, sim, mas que não abre espaço para o medo ser maior do que a alegria de gerar uma vida em meio à um inimigo invisível que, até o momento, não possui nenhum combate preventivo além da extrema higiene.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE MAIO

UMA LUTA DE SANGRENTO SUOR

E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo por terra (Lucas 22.44).

O Getsêmani foi o palco da mais renhida batalha do mundo. Ali no sopé do monte das Oliveiras, o Filho de Deus suou sangue e sentiu os horrores do inferno bafejando sua alma. No mesmo lugar onde havia uma prensa de azeite, Jesus foi esmagado sob o peso crudelíssimo dos nossos pecados. Ali naquele palco de horror, Jesus chorou copiosamente e clamou ao Pai por livramento. Cinco verdades devem ser aqui destacadas:

1) o Getsêmani é o lugar da oração agônica: Jesus orou intensamente mesmo quando seus amigos mais próximos estavam dominados pelo sono;

2) o Getsêmani é o lugar da rendição absoluta à soberana vontade do Pai: Jesus dispôs-se a obedecer, mesmo que essa obediência passasse pela cruz;

3) o Getsêmani é o lugar da solidão mais cruel: Jesus ficou só na hora mais agônica da sua vida;

4) o Getsêmani é o lugar do choro e do forte clamor regado de lágrimas: Jesus chorou copiosamente no Getsêmani não para fugir da vontade do Pai, mas para realizá-la;

5) o Getsêmani é o palco do consolo celestial e do triunfo sobre os inimigos: Jesus orou, chorou e sangrou sozinho no Getsêmani; não recebeu nenhuma ajuda da terra nem consolo algum de seus amigos, mas também ali o anjo de Deus desceu para consolá-lo e dali ele saiu vitorioso para triunfar sobre seus inimigos.

Sua morte na cruz não foi uma derrota, mas sua mais retumbante vitória, pois foi na cruz que ele esmagou a cabeça da serpente e adquiriu para nós eterna redenção.

GESTÃO E CARREIRA

ELAS MANDAM CADA VEZ MAIS

Ampliar a presença de mulheres é um desafio no mundo corporativo, e ainda mais no mercado financeiro. Mas um grupo crescente de bancos e gestoras tem mais executivas. A diversidade ajuda a atrair mais clientes

Elas são majoritariamente mulheres. e cuidam da fortuna de… mulheres. Cerca de 70% do quadro da gestora de patrimônio Alocc, com 5,5 bilhões de reais na carteira, é composto de funcionárias. Elas são 35 num grupo de 50. Além disso, entre os clientes as mulheres respondem por 55% do patrimônio sob gestão no Rio de Janeiro, onde fica a sede da Alocc. Até no quadro societário elas são maioria: cinco entre nove. As sócias fundadoras apresentam algo em com um: todas têm alguma história de preconceito no trabalho para contar e resolveram empreender para ter mais flexibilidade, inclusive na vida familiar. A Alocc foi criada em 2011 como uma junção da gestora de patrimônio TNA, de Ricardo Taboaço, ex-sócio da seguradora Icatu, e de sua mulher e sócia, Veronica Nieckle, com a Integra Consultoria, de Sigrid Guimarães, ex-executiva das Organizações Globo. Na visão de Sigrid, o tratamento acolhedor, que escuta o cliente e analisa seus objetivos de vida, pode ter contribuído para atrair clientes do sexo feminino. Já no caso das funcionárias, segundo ela, o ambiente no qual homens e mulheres são tratados de forma igual pode ter influenciado na atração. “Contratamos os funcionários mais adequados aos cargos”, diz Sigrid.

Se a inclusão de mulheres é um desafio em todos os setores, no mercado financeiro chega a ser maior. É um ambiente conhecido, ainda hoje, pelas altas doses de truculência e machismo, cristalizadas em personagens como os do filme O Lobo de Wall Street e em expressões como buli market e bearmarket – o “touro” e o “urso”, respectivamente, representam as tendências de alta e baixa do mercado. Uma pesquisa feita pela consultoria de recursos humanos americana Russell Reynolds com 339 executivos do setor financeiro em mais de 20 países, inclusive o Brasil, mostra que apenas metade deles acredita que seus líderes reconheçam políticas de diversidade. Em segmentos mais avançados no tema, como o setor governamental, o de ONGs e o de cultura, a proporção alcança até 87%. A pior pontuação do setor, no mercado financeiro, é a de reconhecimento e premiação de líderes inclusivos. Uma pesquisa da Betania Tanure Associados mostra que 26% das mulheres em cargos de liderança no setor financeiro veem que suas empresas estão iniciando a divulgação de esforços para inclusão e avanço da equidade de gênero, e 21% delas acreditam que essa já seja uma prática incorporada no dia a dia corporativo. Sobre equilíbrio em cargos de liderança, 15% acreditam que a empresa esteja iniciando essa prática, e 35% dizem que isso já é praticado.

Preocupados com a possibilidade de perda de talentos, os bancos vêm lançando iniciativas para atração e retenção de mulheres. O objetivo é obter melhores resultados financeiros com os melhores profissionais. Esse ganho trazido por um ambiente mais heterogêneo é comprovado por pesquisas como a da consultoria McKinsey, que conclui que empresas que investem mais em diversidade de gênero tendem a ter resultados 15% acima da média dos concorrentes diretos. Uma das razões para que essas empresas se saiam melhor é que o maior equilíbrio de cargos entre homens e mulheres diminui em 20% a rotatividade dos  funcionários, ao mesmo tempo que amplia a produtividade em 12%, segundo um levantamento da Organização das Nações Unidas. A evolução feminina no mercado financeiro do Brasil nos últimos anos é visível em cargos da base da pirâmide. De acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais 2018, divulgada em novembro, o número de mulheres em cargos como analista de crédito, analista financeiro e corretor de valores somava 33.700, ante 24.000 homens. Mas, quando se olham posições gerenciais, há um longo caminho a ser percorrido, segundo mostra a pesquisa Gender 3000, do banco Credit Suisse. No setor, globalmente, elas ocupam apenas 20% dos cargos gerenciais. No Brasil, em todos os segmentos, o número cai para 8%. Ter mulheres na liderança é, portanto, duplamente importante porque o fomento de uma cultura de diversidade tem de vir, necessariamente, de uma liderança mais inclusiva. “É a forma mais efetiva de mudar a cultura”, afirma Fernando Machado, sócio e consultor da Russell Reynolds.

Em pelo menos quatro bancos de investimento estrangeiro no país, as mulheres já estão à frente do negócio ou em posições executivas. Maria Silvia Bastos Marques é presidente do conselho consultivo do Goldman Sachs; Maite Leite é presidente do Deutsche Bank; Sylvia Brasil Coutinho é presidente do UBS; e Sandrine Ferdane é presidente do BNP Paribas. Esses bancos não fazem feio quando se trata da participação feminina em sua estrutura como um todo. No UBS, as mulheres representam metade do comitê executivo, enquanto ocupam 30% dos cargos de diretoria. No BNP Paribas, as mulheres são 30% do comitê executivo e do time de gestores. Mas ainda há muito espaço para aumentar a participação. Para atrair, reter e desenvolver talentos, as quatro executivas se juntaram e criaram neste ano o Dn’AWomen, um curso gratuito de desenvolvimento pessoal e profissional para estudantes universitárias de todas as áreas, com duração de quatro meses. Há aulas de matemática e de autoconhecimento. O objetivo é que as estudantes ganhem confiança já no início da carreira para assumir cargos de liderança no futuro. Ao longo dos anos criou-se a reputação de que o mercado financeiro é mais duro e exigente. Queremos mostrar que o setor tem apelo para elas”, diz Maite. Na visão de Maria Silvia, o tema da diversidade vem ganhando força principalmente por causa de uma demanda da sociedade. “Hoje, fornecedores e consumidores levam isso em consideração.”

Entre os bancos de varejo, o Santander já tem maioria feminina no quadro. Mas o banco reconhece que precisa buscar a equidade de gênero em posições de liderança. Para encorajar as mulheres, criou um grupo de liderança feminina com 30 participantes e capitaneado por quatro executivas de áreas distintas. As integrantes participam de encontros com vice-presidentes para ganhar mais desenvoltura e visibilidade. Para o ano que vem, a meta é ampliar de 26% para 30% a participação de mulheres em posições executivas. Em 2017, a proporção era de 24%. No Banco do Brasil, o compromisso de aumentar a presença feminina em cargos de gerência faz parte da agenda para o triênio 2019-2021.

O maior objetivo dessas ações é ampliar o número de mulheres para atrair um público estratégico para o setor: as próprias mulheres. Uma das conclusões de uma pesquisa da consultoria americana Center for Talent Innovation é que funcionárias podem inovar um modelo de negócios para conectá-lo a mulheres, e investidoras estão mais inclinadas a aplicar dinheiro em empresas com diversidade no time de liderança sênior. Segundo a consultoria, 67% das mulheres com um consultor financeiro não se sentem compreendidas por esse profissional. Estima-se que 44% das mulheres brasileiras já sejam a fonte primária de renda da família. Em 2007, eram 31%. No entanto, elas ainda são 20% dos investidores da bolsa de valores e 31% dos aplicadores em títulos públicos. De olho no potencial de elevar essa participação foi lançado no mês passado o Ella’s, primeiro escritório de agentes autônomos de investimento dedicado a mulheres. “Não dá para falar em empoderamento feminino sem falar de finanças”, diz Rebeca Nevares, uma das sócias. Uma pesquisa da gestora Franklin Templeton mostra que, enquanto 40% das mulheres acham que sabem menos do que um investidor médio, 23% dos homens têm essa opinião. Para driblar a insegurança, corretoras como a Guide começaram a realizar cursos voltados para o público feminino, além de eventos exclusivos para elas em todo o país. A impressão é que sem homens, e em um formato de bate-papo, as mulheres se sentem mais confortáveis para fazer perguntas. Já o Women in Finance Summit, promovido pela Franklin Templeton em outubro, teve como objetivo inspirar mulheres e mostrar casos de carreiras no setor financeiro. O evento foi pensado para 80 pessoas, mas recebeu 800 inscrições. Interesse das mulheres por finanças não falta.

EM SEGUNDO PLANO

Comparadas a empresas consideradas diversas e inclusivas, as gestoras de serviços financeiros ainda não valorizam a diversidade

CRESCENDO JUNTO

O percentual de mulheres que investem na bolsa brasileira se mantém, seguindo o aumento do número total de investidores

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CEGOS PARA EMOÇÕES

Pessoas que não conseguem distinguir com clareza o que sentem têm maior probabilidade de desenvolver transtornos depressivos

Há momentos em que sabemos que há algo de errado: uma tristeza ou aperto no peito, cuja origem não parece óbvia. É como se os sapatos estivessem apertando nossos pés, mas não conseguíssemos identificar exatamente em que ponto está o desconforto. Para algumas pessoas essa sensação de não saber o que incomoda (embora o mal-estar esteja presente) é constante. Sensações de frustração, tristeza. raiva e decepção misturam-se e, às vezes, confundem-se até com cansaço e ansiedade. Essa confusão costuma indicar uma séria desvantagem. É o que mostra um estudo publicado há alguns meses no periódico científico Emotion.

Segundo os autores, uma boa dose de autoconsciência pode, portanto, proteger contra a depressão, mesmo na juventude. Uma equipe liderada pela psicóloga Lisa Starr, da Universidade de Rochester, havia submetido cerca de 200 adolescentes a entrevistas de diagnóstico e pediu que registrassem humor, estresse e eventos relacionados quatro vezes por dia durante uma semana. Um ano e meio depois. os voluntários relataram sua condição novamente. Aqueles que puderam diferenciar vagamente os sentimentos negativos na primeira pesquisa, 18 meses depois, tiveram mais probabilidade de sofrer de sintomas depressivos.

VER PARA TRANSFORMAR

A relação entre a dificuldade de autopercepção e rebaixamento do humor se fortaleceu quando eventos estressantes do cotidiano ocorreram nesse período. “Observamos que os adolescentes que descrevem seus sentimentos negativos com precisão e riqueza de nuances estão significativamente mais protegidos da depressão do que os que não conseguem fazer essa distinção”, escrevem os psicólogos em seu artigo, com base no acompanhamento dos jovens. Esses participantes do experimento se mostraram mais aptos a aprender mais com suas experiências e desenvolver estratégias eficazes para lidar com experiências estressantes e sentimentos de frustração e raiva.

“É fundamental saber como nos sentimos até para, eventualmente, transformar a sensação de desconforto”, explica Lisa Starr. Nesse sentido, a psicoterapia é fundamental não só para o reconhecimento e a nomeação das emoções, mas também para que a pessoa perceba sua influência e desenvolva formas criativas de lidar com elas.

Um experimento realizado com mais de mil pessoas com mais de 60 anos, por psicólogos da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, e publicado em junho de 2019, mostrou que a auto­ consciência também é um sinal de alerta em adultos. Quanto menos a experiência subjetiva do estresse corresponder aos indicadores objetivos, mais comprometido será o bem-estar psicológico e físico a longo prazo. Não se pode deduzir que a experiência indiferenciada de emoções necessariamente motive queixas psicológicas, até porque, quando a pessoa não passa por situações exteriores que a estressam, tende a manter os incômodos emocionais latentes. No entanto. essa característica é um indicativo de que o equilíbrio emocional pode ser mais facilmente abalado.