EU ACHO …

POR QUE É TÃO DIFÍCIL RESPONDER AOS PORQUES.

Súbito a ciência entrou na vida de todos. Virologistas, infectologistas e epidemiologistas brotaram no mercado financeiro, nas startups digitais e corporações assustadas com o poder do novo coronavírus. O crescimento exponencial deixou de ser uma metáfora. Curvas epidêmicas e escalas logarítmicas entraram no vocabulário qual participantes do BBB. Modelos estatísticos se tornaram foco de um debate interminável, contaminado por interesses e ideologias. Enquanto isso, médicos e cientistas – os únicos, entre todos nós, que são páreo para o vírus – trabalham num silêncio frenético e desesperador para derrotá-lo. Mas a ciência é difícil, vagarosa, titubeante. Mesmo sujeita a reviravoltas e descobertas surpreendentes, não faz milagre. Não há garantia nenhuma de êxito. Ela não existe para salvar, mas para explicar – e só isso já é dificílimo.

A mais trivial e infantil das questões – “por quê?” – desafia todo cientista. Por que o sucesso no combate ao vírus na Coreia do Sul, em Taiwan ou Hong Kong? Cultura asiática? Ou reflexo da epidemia de sars em 2003? Por que o avanço dos números por vezes parece mais lento? Erro de quem fez previsões? Incompetência para compilar estatísticas confiáveis? Canalhice de governantes? Ou proteção conferida por vacinas? Por que italianos e espanhóis decretaram quarentenas draconianas e nem assim escaparam de uma tragédia, enquanto suecos ou coreanos se saíram melhor com medidas menos radicais? É possível formular critérios objetivos para relaxar o isolamento social sem pôr vidas em risco? Nem todas as perguntas têm resposta, nem sempre a resposta será fácil ou confortável. Os próprios cientistas resistem a vincular causas e efeitos na hora das explicações. Associações ou relações estatísticas entre diferentes fatos, afirmam, são traiçoeiras.

Nos últimos anos, contudo, vários deles decidiram enfrentar a própria timidez e se libertar das amarras estatísticas que aprisionam a discussão sobre causas e efeitos. Um dos líderes desse movimento é o israelo-americano Judea Pearl, vencedor do Prêmio Turing (o mais importante da área) e coautor, com o matemático Dana Mackenzie, de The book of why (O livro do porquê). Nenhuma obra é tão essencial para entender como a ciência funciona, o que é possível responder a respeito dos porquês – e o que ainda falta descobrir. Não se trata de um livro fácil. Exige tempo e reflexão, mas o resultado é recompensador. A linguagem de diagramas descrita por Pearl desmascara a fragilidade dos argumentos oportunistas e valoriza a boa ciência. Ele explica por que probabilidades não bastam para estabelecer relações de causa e efeito e discute a fundo os três tipos de pensamento necessários para isso. “O aprendiz causal precisa dominar três níveis distintos de habilidade cognitiva: ver, fazer e imaginar”, escreve. “A conexão entre a imaginação e as relações causais é evidente. É inútil perguntar as causas das coisas, a não ser que se possam imaginar suas consequências”.

Pearl explora os principais paradoxos estatísticos e as armadilhas em que os melhores cientistas caíram ao longo da história. Desmistifica o culto contemporâneo aos dados. Vê os sistemas modernos de inteligência artificial como máquinas “com a sabedoria de uma coruja”. Ao mesmo tempo, crê que será um dia possível imbuir computadores da capacidade de responder a questões hipotéticas como “e se fizéssemos. . .”? (ação) ou “o que teria acontecido se não …?” (contrafactuais), até de um sentido moral. “Os algoritmos para responder a tais questões já existem”, afirma. “Não há motivo para evitar construir máquinas mais capazes de distinguir o bem do mal do que nós, de resistir à tentação, de atribuir culpa e mérito.” Num mundo com 7 bilhões de seres humanos, porém, o mais difícil é entender a razão de não aproveitar a inteligência já disponível no planeta. Soubéssemos fazer isso, certamente estaríamos mais preparados para enfrentar a pandemia. Eis um porquê que Pearl nem tenta explicar.

* HELIO GUROVITZ

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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