EU ACHO …

POR QUE PERDEMOS AS BATALHAS PARA OS VÍRUS

Para a humanidade, é recente a descoberta de que, coletivamente, não somos a espécie mais poderosa do planeta.

Vírus nem é ser vivo. Não passa de uma partícula de matéria minúscula que, para gerar energia e se reproduzir, depende das outras formas de vida. É sempre parasita. Ainda assim, é o organismo mais abundante no planeta, aquele que mais convive com – e mais ameaça – seres humanos e demais espécies. Estima-se que haja na Terra pelo menos 50 decilhões de vírus, no mínimo dez vezes a quantidade de bactérias. “Há mais vírus no mundo do que todas as outras formas de vida somadas”, escreve a virologista Dorothy Crawford no opúsculo introdutório Viruses (Vírus). “São também atordoantemente diversos, algo como 100 milhões de tipos diferentes.” Em cada litro d’água do mar, há 10 bilhões de vírus, que matam todo dia entre 20% e 40% das bactérias marinhas, lançando 650 milhões de toneladas de carbono na atmosfera. Perto de 20 % dos cânceres diagnosticados todo ano são comprovadamente provocados por vírus, embora se imagine que a proporção real seja bem maior. Para não falar nas 600 mil crianças mortas por infecções intestinais ou nas 70 mil que ainda sucumbem ao sarampo. Aids, hepatite, herpes, pólio, rubéola, malária, febre amarela, zika, chicungunha, caxumba, gripes e resfriados – a atual pandemia provocada pelo coronavírus sars-CoV-2 é só a última na lista sem fim das moléstias virais, resultantes da capacidade também infinita de mutação desses micróbios.

O britânico Peter Medawar – aquele que teve de renunciar à cidadania brasileira porque o então presidente Eurico Gaspar Dutra se recusou a dispensá-lo do serviço militar e, anos depois, ganhou o Nobel de medicina – definia vírus como “um pedaço de má notícia envolto por uma proteína”.

“O estudo dos vírus tem menos de 100 anos, mas os próprios vírus são parasitas antigos, cuja história e evolução está estreitamente imbricada à nossa”, diz Crawford. “A batalha entre nós e esses micróbios está em curso desde que surgiram os humanos – eles desenvolvendo novos meios de ataque, e nosso sistema imune retaliando numa escalada armamentista. Como o tempo de cada geração viral é bem mais curto, a evolução da resistência humana é dolorosamente lenta. Com frequência, os vírus levam vantagem.”

Apesar dos avanços da ciência, a humanidade só venceu em definitivo a batalha contra o vírus duas vezes. A primeira foi na erradicação da varíola, meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1966, quando a doença ainda causava 2 milhões de mortes anuais, alcançada enfim em 1980. A segunda nem foi contra um vírus que nos ataca. Foi na erradicação da peste bovina em 2010, mais de 20 anos depois de lançada a campanha de vacinação global. O objetivo de erradicar sarampo e poliomielite até 2020 fracassou. Verdade que a incidência global da pólio caiu mais de 99%, mas bolsões da doença resistem. Os casos de sarampo voltaram a crescer, em parte devido aos movimentos antivacinas. No Brasil, mesmo depois de erradicado, voltou a matar. Enquanto tais batalhas prosseguiam, proliferaram novas infecções por vírus importados de animais, como HIV ou sars-CoV-2.

“Embora saibamos que a maioria dos vírus emergentes saltam dos animais para os humanos, estamos longe de prever quando e onde aparecerá a nova ameaça viral”, constatava Crawford em seu livro. “A virosfera é imensamente diversa. Tal reservatório certamente regurgitará novos patógenos humanos de tempos em tempos.” Antes da atual pandemia, ela formulava a questão de modo preciso: “Estamos preparados? Mais especificamente, podemos prever, controlar, tratar e prevenir novas infecções humanas por vírus?”. A resposta está hoje clara: não. Não soubemos – e ainda não sabemos – prestar atenção ao alerta do biólogo húngaro-sueco George Klein: “O vírus mais estúpido é mais esperto que o virologista mais inteligente”·

*HELIO GUROVITZ – é jornalista e blogueiro do portal G1

OUTROS OLHARES

A ESCOLHA DE SOFIA

Com o avanço da pandemia, o sistema de saúde deve entrar em colapso e os médicos terão que escolher quem será internado na UTI: os mais jovens, com maior chance de sobrevida, tomarão o lugar dos idosos na disputa por um respirador?

No famoso romance do escritor americano William Styron, publicado em 1979, a polonesa Sofia Zawistowka, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, é forçada a escolher entre seus dois filhos, Jen e Eva, qual deles seria exterminado pelos nazistas na câmara de gás. “A escolha de Sofia”, que dá nome a obra, se tornou um exemplo clássico que está sendo utilizado na medicina neste momento de caos provocado pela Covid-19, onde os médicos estão tendo que decidir entre a vida e morte. Nesse sentido, o ambiente hospitalar impõe diariamente aos profissionais de saúde complexidades de tratamento e cuidados específicos que podem não ter resposta pronta para esse dilema. Por isso, muitas entidades médicas estão criando protocolos para que os profissionais da saúde resolvam o impasse, sem quebrar a ética que exige que todos os pacientes precisam ser tratados em condições de igualdade, independente de sua situação social ou de seu estado geral de saúde. As normas técnicas estabelecidas nesse tipo de parâmetro existem também para evitar que as escolhas sejam subjetivas ou econômicas e se sobreponham na hora do profissional decidir quem e como será realizado o atendimento.

De acordo com a OMS, 14% das pessoas diagnosticadas com Covid-19 desenvolvem a forma mais grave da doença, exigindo internação hospitalar e oxigenoterapia. Cinco por cento deles, necessitarão de ser atendidos em uma UTI. Entre esses últimos, a maioria vai necessitar de suporte em respiradores mecânicos. Por isso, nesse momento agudo da crise do coronavírus, em que a demanda por atendimento em UTI cresce, é cada vez mais difícil atender todo mundo ao mesmo tempo na UTI. Em Pernambuco, por exemplo, há uma fila de espera por leitos de UTI de dez dias. No último dia 29 de abril, haviam 186 pacientes esperando por esse tipo de leito. E os profissionais já estão adotando critérios técnicos para a escolha de quem vai primeiro para a UTI. Por exemplo, quem é mais jovem e tem mais chances de sobreviver ganha a preferência. No Rio de Janeiro, protocolo semelhante também já está sendo posto em prática.

Prevendo o colapso do sistema de saúde nos próximos dias, associações médicas de terapia intensiva, emergencial, geriátrica e de cuidados paliativos, desenvolveram no dia 1º de maio um protocolo que permite organizar e priorizar quem primeiro terá acesso ao atendimento em UTI. O documento está embasado em critérios técnicos. Estabelece que os pacientes devem ser observados por uma comissão de saúde especializada em coronavírus. No momento da triagem, estabeleceu-se os critérios clínicos que dão uma pontuação ao doente. Quem atingir mais pontos terá menores chances de ir para a UTI. O primeiro item que os profissionais devem observar é a quantidade de órgãos nobres afetados e a gravidade apresentada, pulmão, coração, os rins, cérebro e o fígado, que são os mais afetados pela Covid. Na sequência, se o paciente apresentar doenças crônicas e degenerativas e o nível dessas comorbidades, como insuficiência cardíaca, enfisema pulmonar e câncer, as chances de chegar ao ventilador diminuem muito.

A médica intensivista Lara Kretzer explica que esse procedimento deve ser efetuado apenas em um momento crise: “não é um processo que deva ser aplicado em condições normais.”. Segundo a médica, o princípio que rege o protocolo é salvar o maior número possível de vidas. “Queremos salvar todas as vidas, mas não estamos no controle de tudo”, lamenta.

FILA ÚNICA

Outra hipótese que os médicos discutem seria a adoção da fila única. Ou seja, quem chega primeiro é internado primeiro. Mas, nesse caso, há um problema porque pode se estar dando lugar na UTI ao paciente que tem poucas chances de sobreviver, mesmo com esses cuidados intensivos. “Essa escolha vai levar a um menor número de pessoas salvas”, disse Kretzer. No caso da fila única, o médico sanitarista Gilberto Berguio Martin diz que o cenário ideal seria o intensificar o isolamento social para evitar que muitas pessoas precisem da UTI ao mesmo tempo. “Se isso fosse respeitado, não teríamos que usar protocolo ou essa escolha entre um e outro”, disse. Nesse aspecto, antes que os médicos se coloquem no lugar da polonesa Sofia Zawistowka, as pessoas deveriam se conscientizar que precisam respeitar as regras do isolamento social para se manterem afastadas da contaminação e não superlotarem os hospitais, que cada vez mais não disporão de UTIs para todo mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE MAIO

O SALMO DO BOM PASTOR

Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as [minhas ovelhas] arrebatará da minha mão (João 10.28).

O Salmo 23 é mundialmente conhecido como um dos textos mais amados e consoladores de toda a literatura universal. Davi, o pastor de ovelhas, escreveu-o inspirado pelo Espírito Santo. Esse Salmo fala sobre os privilégios da ovelha do Bom Pastor. Jesus é esse Bom Pastor. Ele deu sua vida pelas ovelhas. Ele vive para as ovelhas e para elas voltará. Que bênçãos especiais as ovelhas do Bom Pastor recebem? Em primeiro lugar, provisão em todas as circunstâncias: O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Em segundo lugar, fartura mesmo em tempos de sequidão: Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Em terceiro lugar, paz e descanso apesar das aflições: Leva-me para junto das águas de descanso. Em quarto lugar, direção apesar de todos os perigos: Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Em quinto lugar, refrigério espiritual a despeito das pressões da vida: Refrigera-me a alma. Em sexto lugar, presença divina nos vales escuros da vida: Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam. Em sétimo lugar, triunfo e alegria apesar do ataque dos inimigos: Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. Em oitavo lugar, boa companhia no presente e bem-aventurada habitação por toda a eternidade: Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre. Você já é ovelha de Jesus, o Bom Pastor?

GESTÃO E CARREIRA

O PARADOXO DO EMPREGO

Com mais jovens diplomados hoje do que em todas as gerações anteriores, o Brasil não consegue oferecer postos de trabalho para empregar quem possui curso técnico ou superior. E a pandemia pode enterrar os sonhos dos que lutaram para estudar.

Os millennials, jovens nascidos entre a segunda metade da década de 1980 até 1995, constituem a geração mais diplomada da história do Brasil. Cerca de 25% completaram o ensino superior — e a cifra sobe para 58% quando são inseridos também os cursos técnicos e profissionalizantes. Essa geração tinha tudo para realizar uma proeza: diminuir a desigualdade social por meio do fortalecimento de renda com capacitações mais específicas para o mercado de trabalho. O que ocorreu foi o contrário: ela se vê mais vulnerável financeiramente que as gerações anteriores. Com a expectativa de que o País encerre 2020 com uma taxa de desemprego na casa dos 18%, os jovens — principalmente os negros e periféricos — podem perder para sempre a chance de trilhar um caminho profissional promissor.

A mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, divulgada na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) escancara esse cenário. Ao final do primeiro trimestre, ainda sem levar em conta muitas das demissões causadas pela pandemia, a taxa de desemprego ficou em 12,2%, quase a mesma de igual período em 2019. Agora, com a ameaça econômica trazida pela Covid-19, estimativas como a do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), ligado à Fundação Getúlio Vargas (FGV), preveem desocupação bem maior até o final deste ano. “O cenário será desafiador, e mais cruel com os jovens que estão entre os 18 e 30 anos”, afirma o professor de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Augusto Torres.

A avaliação é a mesma do pesquisador Daniel Duque, que coordenou o estudo da FGV sobre desemprego. Ele prevê uma acentuação da desocupação a partir de abril. Com isso, haverá também diminuição no rendimento familiar, acentuando a desigualdade social. Segundo a pesquisa, a queda real no rendimento pode ser de 8,58%. “Com isso, a renda efetiva média fechará o ano no nível de R$ 2.206 mensais, frente a R$ 2.413 no ano anterior.”

Caso a previsão se confirme, a Massa de Rendimentos Efetivos do Trabalho (MRT) baterá o ponto mais baixo desde o início da série histórica, em 2012. “Ainda que o governo federal lance mão de grandes programas de transferência de renda, dificilmente seu volume seria capaz de compensar o montante perdido no período. Mais de R$ 30 bilhões mensais de perda de MRT correspondem a cerca de 5% do PIB de 2019”, diz o coordenador do estudo.

JOVENS PERIFÉRICOS

Se os jovens estão na linha de frente do desemprego, os periféricos são ainda mais vulneráveis. Segundo a consultoria alemã Roland Berger, 33% das famílias com renda mensal de até um salário mínimo no Brasil já possuíam, em abril, ao menos uma pessoa sem emprego por causa do novo coronavírus, cifra que cai para 4% entre as famílias com rendimento entre R$ 5 mil e R$ 10 mil. Para Edson Salgado, ex-coordenador núcleo de emprego e renda do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea), os jovens brasileiros enfrentarão um período de subutilização na informalidade que pode durar até três anos.

Segundo os dados do IBGE relativos ao primeiro trimestre deste ano, nada menos que 826 mil trabalhadores trocaram, por vontade ou necessidade, um emprego formal por um informal. A base de comparação é o último trimestre de 2019. Isso engloba um universo do qual fazem parte milhares de motoristas de aplicativo, entregadores e ambulantes que não possuem qualquer projeto profissional de longo prazo, ainda que possuam instrução. “Ter a capacidade de montar um negócio próprio não significa que sua execução será fácil”, diz Salgado. É preciso levar em conta os desafios que aguardam quem decide empreender no Brasil, sem descartar o risco de eventos como a pandemia.

Para tentar amenizar os efeitos recessivos da paralisia nos negócios provocada pela Covid-19, o Congresso aprovou, em abril, uma medida que libera R$ 600 mensais para atender cerca de 38 milhões de trabalhadores informais do País. O valor é insuficiente para sustentar uma das engrenagens que mantêm a economia ativa. Para o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, o que se formará nos próximos meses é um cenário de aumento da pobreza. “Vamos precisar de políticas de emprego mais adequadas. Sendo bem transparente, o desemprego vai dar um salto no Brasil, infelizmente”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SUPERPODER DA AUTOCONFIANÇA

Tudo parece caminhar bem, até que uma avalanche de dúvidas parece cair sobre nossa cabeça, minando nossos melhores propósitos. O que podemos fazer quando isso acontece?

Acreditar em si mesmo nem sempre é fácil. Os planos em geral parecem bons: talvez expor uma ideia interessante durante uma reunião, participar de uma importante competição esportiva ou simplesmente abordar o estranho de aparência agradável no café. Mas às vezes simplesmente não temos a confiança necessária para decidir dar o passo decisivo. Então, repentinamente, as dúvidas nos atormentam: estamos realmente dispostos? Podemos fazer isso? O que acontece se der errado? E, em meio a variações de medo, em vez de aproveitar uma oportunidade, podemos deixá-la passar. Ou precisar das palavras encorajadoras dos outros, que muitas vezes parecem confiar em nós mais do que nos mesmos.

Mas, afinal, o que realmente significa “confiar em si mesmo”? Embora os psicólogos estejam lidando com essa questão há décadas, não é tão fácil separar a autoconfiança de outros termos que são frequentemente relacionados. O conceito de autoconfiança geral se refere principalmente à fé em suas próprias habilidades como um todo. Quando se trata de habilidades individuais, os cientistas tendem a falar de auto eficácia ou autoconfiança específica. “Uma pessoa pode ser eficiente em matemática, mas ter baixo desempenho em comunicação”, explica o psicólogo Qin Zhao, professor da Universidade Western Kentucky, nos Estados Unidos, lembrando que a auto eficácia em uma área pode mudar com o tempo.

O conceito de autoestima também costuma entrar em jogo quando se trata de autoconfiança. “Mesmo na literatura científica, os dois termos às vezes são confusos, embora eles realmente descrevam algo diferente”, diz Qin Zhao. A autoestima não se refere necessariamente a habilidades, é, na verdade o respeito que você tem por si mesmo, sua própria apreciação. Em 1990, Jennifer Campbell, então professora da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver, conseguiu mostrar que a autoestima e a autoconfiança estão frequentemente ligadas. Para isso, ela selecionou para um estudo 92 alunos com alta autoestima e 92 alunos com baixa autoestima. Todos preencheram um questionário no qual foram solicitados a declarar em que medida determinados adjetivos se aplicavam a eles. Posteriormente, a pesquisadora quis saber dos participantes quão confiantes estavam em suas respostas. Os voluntários com baixa autoestima mostraram menos confiança em sua própria capacidade de se avaliar.

Mas nem sempre é assim. “Também existem pessoas que têm baixa autoestima, mas têm muita certeza de como funcionam”, diz o professor de psicologia Richard Petty, da Universidade Estadual de Ohio. Isso pode ser desfavorável, pois muitas vezes a pessoa passa a buscar “provas” de que não é boa o suficiente. Nesse caso, a psicoterapia costuma trazer ótimos resultados.

INFLUÊNCIAS EXTERNAS

O quanto acreditamos em nós mesmos e em nossas próprias habilidades tem um grande impacto em nosso comportamento. Por exemplo, pode afetar o quanto estamos dispostos a tomar decisões: aqueles que são atormentados por dúvidas têm mais probabilidade de procurar informações, muitas vezes em fontes pouco confiáveis, e hesitam em se comprometer. Às vezes, nosso comportamento de consumidor também é determinado por nossa autoconfiança.

Isso foi demonstrado em 2008 por pesquisadores liderados por Leilei Gao, da Universidade Chinesa de Hong Kong. Os cientistas primeiro abalaram a crença dos voluntários em suas próprias habilidades, pedindo que escrevessem um ensaio sobre sua inteligência com a mão não dominante. Os participantes do experimento deveriam decidir o que gostariam de receber como agradecimento pela participação no estudo: uma caneta-tinteiro ou doces. Nesse caso, a maioria escolheu a caneta, em contraste com os participantes do grupo de controle, que tiveram permissão para escrever sobre suas próprias habilidades cognitivas com a mão dominante, como de costume. Aparentemente os voluntários tentaram “arrumar” sua autoimagem com o presente “mais inteligente”!

A falta de autoconfiança também pode bloquear oportunidades. Por exemplo, o Relatório de Educação da OCDE de 2015 sugere que, na escola, as meninas costumam fazer menos matemática do que os meninos porque têm menos confiança em sua capacidade de resolver problemas. Se compararmos apenas os resultados de meninos e meninas que têm um nível de crença igualmente alto em suas habilidades matemáticas, nenhuma diferença pode ser vista nos resultados.

Já pesquisadores da Universidade de Witten/ Herdecke foram capazes de mostrar que pessoas que têm mais confiança em suas próprias habilidades se saem melhor nos exames. Para fazer isso, eles fingiram para os voluntários que as respostas para um próximo teste de conhecimento geral seriam apresentadas a eles em uma tela por uma fração de segundo antes. De fato, apenas palavras completamente insignificantes tremeluziam no monitor. No entanto, na sequência, os participantes se saíram melhor no teste do que integrantes do grupo controle, que tiveram de fazer o teste sem a “preparação especial”.

DÚVIDAS SIM, EM PEQUENAS DOSES

Mas, afinal, o que determina nossas chances de seguir em frente com confiança sem ajuda externa, partir para manipulação sutil ou buscar sempre provar que somos capazes? De verdade, ninguém sabe a resposta exata. Muito provavelmente, como a maioria dos outros comportamentos e características, existe um componente genético que determina nossa capacidade de confiar. Observando crianças pequenas, podemos perceber que algumas simplesmente fazem o que desejam, por conta própria. O ambiente também desempenha um papel importante. O psicólogo Qin Zhao explica que a auto eficácia é determinada, entre outras coisas, pela experiência. Os estudos de Zhao indicam que a dúvida sobre nossas habilidades tende a surgir da comparação com os outros. “Sempre há alguém melhor que nós. Se você comparar suas próprias fraquezas com os pontos fortes de outras pessoas, sempre sentirá dúvida”, observa o especialista. Ele ressalta que pessoas que se comparam, em geral, foram objetos de comparações, feitas por adultos (afetivamente importantes para elas), em relação a outras crianças. As dúvidas, porém, não são ruins por si só – desde que não assumam o controle. “Questionar o próprio desempenho não é um problema, até ajuda a nos aprimorarmos, mas se colocar cronicamente em xeque prejudica a saúde mental e o desempenho.