EU ACHO…

AS CERTEZAS NOS ESCAPAM

Como é difícil ter respostas cristalinas diante de tanta incerteza

Imaginem um balão de aniversário. Agora, imaginem a proporção desse balão em relação ao nosso planeta Terra. Um vírus tem mais ou menos a mesma relação de tamanho com a bola de gás. Essa comparação, romanticamente aterradora, foi feita por um patologista e professor aposentado que escreve na revista inglesa Spectator, John Lee. Talvez mais do que todas as cenas que acompanhamos com o coração na mão, a comparação expõe a vulnerabilidade humana diante desse infinitamente pequeno e perigoso agente infiltrado. Querendo certezas para nos segurar, deparamos com incertezas. A ciência não é uma entidade todo-poderosa com respostas para tudo, especialistas têm opiniões contraditórias, a experiência da Suécia pode ser uma exceção brilhante ou uma desgraça que empilha mortes evitáveis, as crianças ora são pequenas granadas virais, ora são inofensivas, depois voltam a ser perigosas. E a vacina vai demorar. Ou talvez nem venha a existir.

John Lee faz parte de uma valente minoria de cientistas que contestam as visões predominantes, especialmente sobre os benefícios do isolamento (atenção: estamos falando de debates altamente qualificados e não contaminados por paixões políticas). Parodiando Hemingway, ele escreveu: “A certeza na ciência é uma festa de ambulante, dependendo do que você está olhando. Nas ciências físicas, frequentemente dá para ter certeza sobre os números. Mas nas ciências biológicas as coisas são mais complicadas. Organismos vivos têm infinitas camadas de complexidades estonteantes e isso dificulta ter respostas cristalinas”.

Para nós, leigos, a questão da transmissibilidade do vírus pelas crianças, levantada na semana passada, talvez tenha sido a de maior carga emocional. Em questão de horas, desabaram informações tão contraditórias quanto bem argumentadas por especialistas. Primeiro, um dos principais epidemiologistas da Suíça anunciou que crianças abaixo de 10 anos “raramente são infectadas e não transmitem o vírus”. Poderia haver notícia melhor para avós separados dos netos? Quase imediatamente, o virologista alemão Christian Drosten alertou sobre os níveis de vírus no trato respiratório serem iguais entre crianças e adultos. A OMS disse que não havia uma quantidade suficiente de pesquisas para sustentar coisa nenhuma.

Essa é a resposta padrão quando é complicado – ou perigoso – se comprometer com alguma posição definitiva. Mas os governantes precisam decidir enquanto o avião está em pane a 11.000 metros de altitude e nós precisamos acreditar que estão tomando as decisões certas. Talvez nunca tenha sido tão realista a definição de John Kenneth Galbraith: “A política não é a arte do possível. Ela consiste em escolher entre o desagradável e o desastroso”. O elegante herdeiro do pensamento keynesiano em economia entrou para a cultura popular com o livro, depois série de TV, A Era da Incerteza, sobre o mundo pós-Guerra. Qual seria a reação de Galbraith diante do pandemônio de hoje? Como todas as mentes brilhantes, inclusive ou principalmente aquelas das quais discordamos, ele deixou muitas pistas plantadas. Uma delas, entre tantas: “A opinião convencional serve para nos proteger do doloroso trabalho de pensar”.

*VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

PARCEIRO ONIPRESENTE E FIEL

O aparelho torna-se a principal companhia dos dias de isolamento, aprofundando hábitos de dependência que podem não ter volta depois da pandemia

“As imagens passam a ser nossos interlocutores, os parceiros na solidão à qual nos condenaram.” O pensamento parece contemporâneo, extraído do atual cenário de pandemia e isolamento social, em que o contato com o mundo exterior tem se estabelecido cada vez mais por meio de telas de aparelhos tecnológicos. Mas a frase data de 1985, escrita pelo filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser na obra O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. O autor, vítima de um acidente de trânsito em 1991, é tido como um visionário ao ter antecipado o aumento da relevância do que ele nomeia de “imagens técnicas” — as geradas pelos aparelhos, como os computadores — na rotina de todos nós.

Com a realidade da quarentena imposta a boa parte dos habitantes do planeta, as telas e os aplicativos de comunicação se tornaram, para muitos, a única interface de contato com o melhor amigo, o cônjuge, familiares e colegas de trabalho. Diante da impossibilidade de haver aglomerações, a essas maravilhas da tecnologia também recai o entretenimento disponível. Segundo a consultoria inglesa Kantar, em março o acesso ao WhatsApp registrou crescimento de 40% em todo o mundo. Já a FactSet, empresa americana de levantamento de dados financeiros, apontou que a Netflix já ganhou 15,77 milhões de novos assinantes — o dobro do que se esperava para o período. “Diante da necessidade de ficar em casa, as famílias recorrem ao que já se consolidava no dia a dia: fazer de tudo na internet”, avaliou o chefe de conteúdo da marca PlayKids, Fernando Collaço. Desenvolvido no Brasil e hoje presente em 180 países, o PlayKids é um dos aplicativos mais populares dentre os voltados ao público infantil. Desde o início da pandemia, registrou crescimento de 50% no tempo de uso do programa, que disponibiliza vídeos, jogos e livros digitais.

As plataformas digitais se fortalecem como ferramentas úteis para contatar parentes e amigos distantes, trabalhar e produzir mesmo longe do escritório, manter a rotina de exercícios físicos ou para simplesmente diminuir o tédio. Proliferam-se lives no Instagram que oferecem ioga, cursos de arte, atendimento terapêutico etc. Aplicativos de delivery, todos eles, anunciam crescimentos assombrosos em seus negócios — para atender à demanda, o Rappi aumentou em 300% a quantidade de entregadores disponíveis. A Squid, empresa de marketing especializada nos chamados “influenciadores digitais”, aponta acesso 90% maior a redes como Instagram e YouTube.

Entretanto, acende-se um sinal de alerta: recorrer com exagero às telas que nos cercam em casa pode trazer diversas consequências negativas — algumas, gravíssimas. “Esses aparelhos são úteis, excelentes alternativas na situação de quarentena. Só que é preciso lembrar que eles têm de estar aí para nos servir. O abuso pode levar a tecnologia a ocupar o espaço de outras drogas, como o cigarro, tornando-se um hábito que nos vicia, toma nosso tempo e acaba por prejudicar a vida”, pontuou o psiquiatra Cristiano Nabuco, do Grupo de Dependências Tecnológicas da Universidade de São Paulo (USP). Um típico dono de um smartphone clica no celular mais de 2.600 vezes por dia — quase duas vezes por minuto. Esse patamar já é tido como excessivo.

De acordo com um estudo publicado em 2017 por pesquisadores da Universidade de Seul, na Coreia do Sul, e que se estabeleceu como referência para cientistas, a dependência nessas telas é comparável ao vício em substâncias químicas. O abuso produz alterações no cérebro, com reações e síndromes de abstinência semelhantes aos efeitos de drogas como cocaína. Os sul-coreanos chegaram a essa conclusão ao analisar a atividade cerebral de jovens adictos de smartphones. O resultado: as alterações em neurotransmissores, responsáveis pelo funcionamento regular da mente, são similares às apresentadas por viciados em drogas usuais, daquelas que já existiam no mundo pré-internet.

Além do vício, outros danos à saúde mental de quem abusa das telas também são um risco. “Crianças que desde pequenas usam tablets e smartphones costumam, mais tarde, desenvolver dificuldade para interpretar pensamentos mais profundos e para compreender relações emocionais, que necessitam de empatia para com o outro”, avaliou Nabuco. “Adultos podem desenvolver uma gama de síndromes psicológicas. No momento da pandemia, isso pode ocorrer caso acessem constantemente, mais de duas vezes ao dia, redes sociais, repletas de informações que hoje em dia têm levado a sensações de tristeza.” Naquele estudo da Universidade de Seul, os diagnosticados como viciados em celular apresentaram níveis elevados de depressão, ansiedade, insônia e impulsividade.

É preciso impor (a si mesmo ou a outros, como filhos) cuidados e limites no uso das tecnologias do século XXI. Trata-se não só de evitar doenças ligadas à depressão, mas também abalos no bolso e na segurança das informações privadas armazenadas on-line. O excesso de tempo passado no ambiente virtual e a necessidade de usar esse meio para compras e qualquer outra atividade, em razão das restrições ligadas ao isolamento, podem fazer com que os cuidados com a movimentação de dados sejam preteridos. Uma sugestão já comezinha é não clicar em links suspeitos, nem expor dados privados e realizar transações financeiras via WhatsApp. Segundo a empresa de cibersegurança Kaspersky, líder em seu setor, na quarentena já se identifica alta de 124% na quantidade de golpes de hackers a dispositivos móveis, principalmente smartphones, desde o início da pandemia. Com menos pessoas nas ruas, os criminosos migraram para a internet.

Aplicativos, sites e smartphones são desenhados para atrair nossa atenção e nos tornar dependentes. No livro No enxame — Perspectivas do digital, publicado em 2018, e que incrementa as reflexões iniciadas por Vilém Flusser na década de 1980, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han define desta forma o perigo à espreita: “A atrofia digital da mão faria com que o próprio pensamento atrofiasse”. Assim o ser humano corre risco, segundo Han, de se transformar em um “fantasma digital” dentro de um enxame que “arruína o mundo”. Como evitar esse destino? A receita é tradicional: use com moderação. Como fazia, por exemplo, Steve Jobs (1955-2011), fundador da Apple, que assim respondeu quando questionado, no ano de 2010, em entrevista ao jornal The New York Times, sobre como era a relação de seus filhos com duas de suas invenções, o iPhone e o iPad: “Eu limito a quantidade de tecnologia a que eles têm acesso”. É certo que quem vende o produto sabe dos perigos do mesmo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE MAIO

CONVICÇÃO INABALÁVEL NA VIDA E NA MORTE

Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro (Filipenses 1.21).

Muitas pessoas andam desesperadas, com medo de viver e sem esperança na hora da morte. Caminham trôpegas pela vida e cambaleiam apavoradas ao chegarem ao vale da sombra da morte. O apóstolo Paulo, preso em Roma, tinha uma atitude diferente. Mesmo algemado, no corredor da morte e na antessala do martírio, com nuvens escuras preanunciando a chegada de uma grande tempestade sobre sua vida, escreveu: Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Duas verdades benditas são proclamadas aqui, por esse valente apóstolo. A primeira é que Cristo é a razão da própria vida. Muitos tentam encontrar sentido para a vida na beleza, na fama, no dinheiro ou no sucesso profissional. Mesmo conquistando todos esses troféus, descobrem que no topo da pirâmide a felicidade permanece ausente. Nada deste mundo pode satisfazer a alma humana. Coisa e experiência nenhuma pode preencher o vazio do coração humano. Somente Cristo pode dar sentido à nossa vida. A segunda verdade proclamada por Paulo é que, quando Cristo é a razão da nossa vida, o morrer para nós é lucro. A morte não é ponto final da vida. Não é a cessação da existência. Morrer é deixar o corpo para habitar com o Senhor. É partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Os que morrem no Senhor são bem-aventurados, pois preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos. Aqueles que creem no Senhor Jesus têm convicção inabalável tanto na vida como na morte.

GESTÃO E CARREIRA

100 SAÍDAS PARA O PÓS-COVID-19

Perguntamos a uma centena de líderes empresariais, artistas e entidades de todos os segmentos e tamanhos: como será o país após a pandemia? Há otimismo, mas a travessia será dura.

O VÍRUS QUE MATOU UMA ERA

Não será fácil. Nem breve. Nem indolor. Na verdade, neste momento o Brasil mergulha no pior estágio da pandemia de coronavírus. O número de casos e mortos cresce (125 mil infectados e 8,5 mil óbitos na manhã de quinta-feira 7) e o sistema de saúde está saturado ou perto de colapsar em diversas grandes cidades. Para piorar, de Brasília nunca partiu gestão centralizada e séria para a crise. O oposto. Houve deliberada desobediência oficial à quarentena. O que, dado o desgoverno escolhido em outubro de 2018, nem mais é surpresa. Ainda assim, ou exatamente por isso, as lideranças do mundo do trabalho precisam olhar para frente. Não se trata de opção. “What matters most is how well you walk through the fire” – resumiria o autor americano Charles Bukowski. “O que mais importa é quão bem você atravessa o fogo.”

Ouvimos uma centena de lideranças – de empresas de todos os segmentos e tamanhos a entidades classistas – sobre o cenário pós-pandemia. Elas construíram três eixos: o econômico, o novo comportamento do consumidor e o de transformação digital. Trata-se do mais abrangente painel sobre o Brasil depois da crise de Covid-19 na avaliação das pessoas que ocupam a linha de frente real – o mundo do trabalho. Um capital intelectual que aponta muita resiliência. “Devemos discutir a criação de um novo normal pós-pandemia”, diz Walter Schalka, presidente da Suzano, companhia de R$ 26 bilhões em receita (2019).

Esse novo normal de que trata Schalka é como linha divisória. Uma releitura do a.C e d.C (antes e depois do coronavírus). Pablo Di Si, CEO da Volkswagen, concorda e refere-se ao fim de uma Era. “O mundo pré-Covid-19 não existe mais.” O problema é que não há outro no lugar. Terá de ser construído. Di Si resume também a percepção de todos os entrevistados: a tão aguardada disrupção ocorreu. E não veio da tecnologia. Mas de um vírus. Marc Reichardt, presidente da Bayer no Brasil, é igualmente categórico em relação ao cisma. “Vivemos hoje momentos sem precedentes.” Na prática, as decisões estratégicas e táticas das corporações ruíram. E não há qualquer parâmetro usual de previsibilidade. “Agora trabalhamos cenários de curto prazo, que são mais analisáveis”, afirma Reichardt. O futuro está suspenso.

Além desse momento turning point da humanidade, que tirou do eixo as empresas, outra quase unanimidade de respostas entre os 100 entrevistados é a de que o estrago econômico para 2020 está consolidado. O que muda nas opiniões é o grau de intensidade, a velocidade e a duração. Mesmo entre aqueles que dizem não ter condições de fazer análise mais aprofundada, pela incerteza dos dados disponíveis. Tornou-se uma avaliação transversal. João Pedro Paro Neto, presidente da Mastercard Brasil e Cone Sul, acredita que será difícil ser como antes ainda este ano. “A economia deve voltar devagar, porque nos países em que a retomada começa a acontecer ela é lenta, não existe abertura total, é uma abertura restrita, cheia de condições.” Há, do outro lado, quem vislumbre um estrago mais acentuado. Robson Braga de Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), diz que o mundo enfrenta a mais grave crise da história recente. “Os efeitos são devastadores, tanto na saúde quanto na economia das nações.”

RECUPERAÇÃO

Para as lideranças entrevistadas, as variáveis de recuperação da economia só não coincidem em relação ao modelo da curva de retomada. Se em V (queda rápida, recuperação igualmente rápida), em U (queda rápida e recuperação um pouco mais lenta) ou em L (queda rápida e certa estagnação antes de recuperação no longo prazo). A única constante nessa sopa de letrinhas é a queda abrupta. O que virá depois ainda está no terreno movediço da incerteza. Segundo Miguel Duarte, líder da EY para o mercado de bens de consumo e varejo para Brasil e América Latina, “o desemprego gerado deverá criar dificuldade para a recuperação em V.”

É consenso que acelerar a retomada exigirá políticas públicas de ajuda que precisam ser assertivas e cirúrgicas, sem empurrar o País para um novo pântano fiscal, o que não parece claro até aqui. De toda forma, uma terceira e última quase unanimidade apareceu fortemente nas entrevistas – além da disrupção e da crise econômica. A de que sairemos dessa. Não houve sequer uma resposta que se assemelhasse a jogar a toalha. “O Brasil é resiliente”, diz a esse respeito Glauco Humai, da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). “Um País que mesmo nas adversidades consegue seguir em frente.”

COMO SURFAR A ONDA 2021

Duas certezas conduzem a questão relacionada ao comportamento da economia para o momento pós-pandemia e, em especial, para 2021. Haverá queda e haverá crescimento. O Bradesco trabalha com projeção de redução de 4,0% no PIB deste ano e alta de 3,5% no do ano que vem. O Itaú Unibanco projeta respectivamente -2,5% e elevação de 4,7%. Com ambos ressalvando que são índices que dependem de um amplo leque de variáveis.

Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco, diz que nos próximos 30 a 60 dias vários países iniciarão formatos distintos de relaxamento do período de quarentena. “O aprendizado das experiências que irão funcionar e aquelas que não irão deve ser aplicado no Brasil. Com isso, esperamos que a economia se recupere gradualmente a partir de julho.”
Outro ponto destacado por boa parte dos 100 líderes entrevistados é que haverá forte heterogeneidade no comportamento dos diferentes segmentos empresariais. André Coutinho, líder de mercados da KPMG no Brasil, diz que algumas áreas não estão experimentando tanto os efeitos da pandemia. “É importante setorizar essa crise.”

Marcus Granadeiro, CEO do Construtivo, companhia focada em soluções de TI para o setor de engenharia e construção, acredita que o ambiente depois do isolamento será de um pós-terremoto. “A economia, de maneira geral, estará ruim e a retomada será gradual, porém com muitas oportunidades. Quem conseguir enxergar nichos, se transformar, vai pegar carona nessas oportunidades”, afirma. Seu raciocínio tem ecos no de Francisco Sant’Anna, presidente do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon). “As pessoas dizem que vivemos uma guerra. Geralmente, o pós-guerra vem acompanhados de crescimento.”

Nas conversas — virtuais — de André Coutinho, da KPMG, diversos clientes e players revelam otimismo para o ano que vem. Se Brasília deixar, vale ressaltar. “Vou extrair o debate político e a confusão toda, mas para 2021 me parece existir consenso de que será um ano bom. Tem gente falando em crescimento de 5%, 6%.” Para aproveitar a onda, é preciso que empresas de todos os portes observem com minúcia as possíveis oportunidades.

Carlos do Carmo Andrade Melles, presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), diz que na China já se percebe uma retomada, ainda que lenta, à normalidade. “Além disso, existe outro movimento importante, o de grandes economias mundiais, como Estados Unidos e Japão, começando a reduzir sua dependência da China. Isso certamente vai gerar forte impacto na economia.”

Outro padrão nas respostas dos entrevistados é que pegar carona num potencial crescimento para o próximo ano exigirá, acima de tudo, atenção a esse novo mundo. Como diz Henrique Carbonell, CEO da F360, plataforma de gestão financeira, há motivo para se animar com 2021. “Haverá crescimento e retomada do consumo”, diz. E um ponto será decisivo: “Respeitar os novos hábitos do consumidor e as novas formas de se relacionar.”

CONECTADOS NA LINGUAGEM

Quarteto de peso, este. Fernando Meirelles (cineasta), Júlio Andrade (ator), Lázaro Ramos (ator) e Lenine (músico) ajudam a compor o painel de 100 lideranças brasileiras que mergulharam na questão sobre para onde vai o planeta pós-pandemia. E é na semântica que dão o tom e criam a harmonia. Perguntados sobre quais palavras marcam o mundo antes e depois da crise de Covid-19 eles apontam para um universo ainda incerto, mas em reconstrução. Eliminam os vocábulos Histeria, Ganância, Polarização e Míope. No lugar escalam Tensão, Solidariedade, Comunidade e Frágil. Amarram aqui o cenário construído por todos os demais 96 entrevistados: a passagem de um mundo adoecendo para outro a ser moldado. “Sairei transformado desta”, diz Meirelles.

O cineasta, aliás, lembra a metáfora citada pela ativista ambiental sueca Greta Thunberg — “Nossa casa está pegando fogo” — para mudar o estilo de vida. “Este vírus nos mostrou que é possível parar. Talvez seja a última oportunidade de ao menos retardarmos o que já está no mapa: a Covid-19 é uma pulguinha insignificante frente à crise do clima. É a hora”, afirma. Outro impacto relevante, segundo ele, virá do trabalho. Meirelles conta que nos dois últimos meses sua produtora (a O2) tem filmado comerciais com sete ou oito pessoas, “e não mais 90”. A montagem e a pós-produção são feitas nas casas dos profissionais. E as reuniões, por WhatsApp. Todo o protocolo e ritual de encontros intermináveis com clientes e agências caiu. “Isso pode gerar perda de empregos, fato, mas a eficiência do novo modelo é espantosa.”

ECONOMIA SOLIDÁRIA

Para o ator Júlio Andrade, essa mudança significativa se dará não apenas com profissionais liberais, mas também pequenos produtores rurais. As duas categorias vão ganhar mais espaço. “Justamente por precisarem se reinventar durante a pandemia”, diz. “Penso que teremos uma economia mais solidária, com um olhar mais voltado às classes menos favorecidas. O mundo estava vivendo tempo de economia muito agressiva.” O músico e compositor Lenine compartilha da percepção de uma jornada em transição. “Os donos do mundo continuarão os mesmos.” Mas aposta numa virada. “Sou otimista e acredito que, depois desse sofrimento, o melhor futuro para o planeta será o conceito da economia circular.”

A transformação no modelo econômico é o que também mais parece próximo de ser revolucionado após a pandemia de acordo com o ator Lázaro Ramos. “A economia vai ter de repensar seu modelo de distribuição de renda, do tamanho dos lucros das empresas e da relação da sociedade com o consumo”, diz. “Um novo formato econômico, que não é o socialismo, mas me parece que vai ser uma transição forte do capitalismo atual.” Para os quatro, o coronavírus mostrou-se agente de um limiar. Um objeto transformador.

SEU NOVO REI: O CONSUMIDOR

Servir sempre para servir bem. Esse é o novo mantra. Se há algo que a Covid-19 ensinou ao varejo e a empresas de todos os tipos de produtos e serviços é que o atendimento terá de ser full para ser bom. Todos os formatos de pagamento. Todos os formatos de entrega. Todos os formatos de relacionamento. E acima de tudo, endereços físicos e virtuais. De forma cruzada, paralela, sobreposta. Uma jornada sem fim que pode começar no Instagram e terminar com o motoqueiro na porta. Entre os 100 entrevistados para o painel pós-pandemia, seis eixos se destacarão desse novo consumidor.

CONFIANÇA

Reinaldo Varela é fundador e presidente da rede de restaurantes Divino Fogão, com mais de 180 lojas no Brasil. Para ele, a mudança sem volta será o grau de confiança entre pessoas e empresas. “O consumidor vai ficar mais próximo das marcas que se mostraram solidárias durante a crise.” E isso se estenderá no relacionamento pós-pandemia.

STAY HOME

Ficar em casa será o novo padrão. “Haverá priorização para o ambiente doméstico, os espaços para o home office”, diz Leonardo Paz, CEO da ImovelWeb. O que deve impactar não apenas o segmento imobiliário ou de decoração, mas todas as cadeias de produtos e serviços.

CUSTOMIZAÇÃO

Dentro das tendências que o varejo deverá viver de forma mais contundente Nabil Sahyoun, presidente da Associação Brasileira dos Lojistas de Shopping (Alshop), aposta na ultrapersonalização do atendimento. “A customização e a experiência do cliente vão mudar.”

‘DELIVERY’ DE SERVIÇOS

Não apenas o delivery ou e-commerce de produtos irão se sedimentar, segundo André Friedheim, presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF). “Irão aumentar potencialmente as demandas por serviços a distância.”

RELACIONAMENTO

Fabio Fossen, presidente da Bridgestone Latin America South, acredita em novo patamar na relação consumidor-marca. Uma fronteira ainda nem de perto resvalada. “A sociedade observará mudanças na intensidade das formas de consumir e de se relacionar com as empresas”.

SOLIDARIEDADE

Cuidar do outro será o novo ativo para as marcas trabalharem. Para Guilherme Priante, fundador e CEO da Beyoung, do segmento de beleza, o autocuidado vai crescer e impulsionar o cuidado mútuo. “A onda da solidariedade vai se enraizar culturalmente”, diz.

O DIA EM QUE O FUTURO CHEGOU. E MUDOU TUDO

Poucas gerações têm o privilégio, sem dúvida assustador, de assistir ao futuro chegar. A má notícia é que ele não vem pronto. A boa: pode ser construído com menos imperfeições. As lideranças do mundo do trabalho ouvidas neste painel permitem, de forma extraordinária, jogar um pouco de luz sobreo que vivemos. E o que virá. Uma coisa é certa: não há consenso. Todos afirmam que a melhor saída para a crise exige soluções colaborativas.

O santo graal do mundo produtivo, a Transformação Digital, chegou acelerada por um vírus. “Será uma reinvenção digital que nos levará à hipercolaboração”, diz Tonny Martins, presidente da IBM Brasil. “Conveniência e personalização juntas, com tecnologia humanizada através da Inteligência Artificial”. Um cenário de participação e comunidade compartilhado por Liel Miranda, presidente da Mondelez no Brasil. “O período de isolamento despertou nas pessoas, e nas empresas, a importância ainda maior de contarem umas com as outras para realizarem algo.” A mesma percepção de Leyla Nascimento, a vice-presidente de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil). “É impossível sairmos dessa crise sem uma reflexão pessoal – nós e o outro, de como juntos podemos melhorar as relações humanas.”

Uma linha de raciocínio que se costura pelos entrevistados. Mas não será um caminho sem chances razoáveis de erros e fracasso. “Ao longo da história as crises nos ensinaram várias coisas, entre elas a de que nem sempre o período posterior é dos melhores”, diz Marcel Cheida, professor de jornalismo e ética na PUC de Campinas. O alerta faz sentido. O admirável mundo novo pode não ser tão admirável. Os entrevistados afirmam que não será pela inércia que a transformação digital e uma nova cultura comportamental surgirão. Fernando Pimentel, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), define a era pré-pandemia como de “conflito, nacionalismo e polarização”. O mundo pós-pandemia ele define como de “conflito, nacionalismo, polarização. E solidariedade”.

Nessas horas entram em cena as pessoas que fazem. Luciano Araújo é um designer paulistano dono da Botões Clássicos, inicialmente uma pequena e artesanal produção de times de futebol de mesa A iniciativa o levou a ser dono de um bar, que sedia campeonatos em torno do botonismo, e culminou num projeto de voluntarismo no Capão Redondo, periferia extrema de São Paulo. No começo da pandemia, ele e parceiros do projeto arrecadaram e distribuíram 23 toneladas de alimentos a 1,5 mil famílias cadastradas. Solidariedade. Mas também posicionamento de marca em alto nível. “Acredito que identidade e responsabilidade social serão fundamentais para os negócios. As pessoas vão se identificar com empresas que tenham em sua essência o envolvimento social.”

DIGITAL AGORA

Um combo “solidariedade + mundo verdadeiramente digital”. Muitas organizações não conseguiam cruzar a fronteira, alcançar a plenitude digital. As que alcançavam tornavam- se sem estofo mundo real. Um limbo. Um espaço em suspenso que parece ter chegado ao seu fim. Ricardo Balkins, sócio­ líder da Indústria de Consumer Business da Deloitte diz que o cenário pré-Covid-19 era definido pela expressão “o consumo digital é o futuro”, substituída por “o consumo digital é agora”. Há, no entanto, uma sutileza que nem todas as marcas parecem ter percebido com a crise. Ser digital não elimina o fator humano. Juntar pitadas generosas de sensibilidade no mundo da transformação digital aparenta ser o caminho.

E aqui nasce, junto da transformação digital, o novo consumidor. Com um pacote de novos hábitos aprendidos e assimilados em tempo recorde – e de forma compulsória, com a quarentena. No setor de serviços, por exemplo, a modelagem de negócios deve mudar rapidamente. Claudia Toledo, general manager da Elsevier Brasil, diz que o setor pensará em receita recorrente. “As empresas de serviços devem adotar um modelo de assinatura”. Só assim sobreviveram a cenários como o da pandemia. E porque assim o novo consumidor passou a ter e exigir.

Renato Mansur, diretor de Canais Digitais no Itaú Unibanco, diz que crises como essa impõem mudanças de rotina “E acabam tendo consequências duradouras sobre certos comportamentos e padrões de consumo.” Uma avaliação com a qual Karel Luketic, head de marketing e conteúdo da XP, concorda. “A pandemia nos trouxe muitos aprendizados, mas os principais são o encontro do equilíbrio nas rotinas e na saúde, além de aprendermos a trabalhar de forma mais digital e flexível”, afirma. Isso deverá impactar, inclusive, instituições públicas. O Estado. Margot Greenman, CEO e cofundadora da Captalys, diz que as administrações públicas serão obrigadas a se digitalizar. “Mudarão completamente a forma que os cidadãos interagem como seus governos”. Mudará tudo, enfim. Do varejo aos serviços, da solidariedade às relações do consumidor cidadão com as marcas e os governos.

Jonah Peretti, fundador do Buzzfeed, sempre disse que nunca mirou na tecnologia, mas sim no comportamento. E o novo padrão ensinado pela pandemia fez finalmente que a transformação digital surgisse para todos. “Tínhamos um mundo mais tribal, muitas tribos. Com a crise, a gente está passando por um processo de maior interesse na coletividade, na comunidade expandida”, diz Van Dyck Silveira, CEO da Trevisan Escola de Negócios. “Uma comunidade de ajuda mútua, de maior harmonia”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RAÍZES DA SEGURANÇA

Flexibilidade e tolerância consigo mesmo parecem ser palavras-chaves quando se trata de suportar as próprias dificuldades e, assim, ironicamente, valorizar competências

Claro, todo mundo gosta de se sentir capaz, poderoso, seguro. E, por vezes, até exagera no empenho em demonstrar essas características para esconder a própria fragilidade. Há casos em que as pessoas se identificam tanto com a “máscara” de força que passam a transmitir autoconfiança excessiva, o que pode ser igualmente prejudicial a longo prazo. “Isso acontece quando as pessoas pensam que sabem mais do que realmente sabem, o que pode levá-las a tomar decisões que não são do seu interesse, porque não têm informações suficientes”, diz Richard Petty, professor de psicologia da Universidade Estadual de Ohio. Ele alerta para a importância de questionar as próprias convicções e considerar se de fato vale confiar nelas. Aliás, a força com que as pessoas tendem a essa forma de auto validação não está diretamente relacionada à crença em si mesmo. Os que mais receiam a entrar em contato com suas fragilidades, no entanto, preferem constar logo que estão certos.

Uma pergunta que as pessoas frequentemente se fazem quando esse assunto surge é: como a autoconfiança pode ser fortalecida em um nível saudável? Flexibilidade e tolerância consigo mesmo parecem ser palavras-chaves quando se trata de suportar as próprias dificuldades e, assim, ironicamente, valorizar competências.

Uma pesquisa conduzida pelo psicólogo Qin Zhao, da Universidade Western Kentucky, em conjunto com dois colegas, em 2019, oferece pistas interessantes nesse sentido. Com a ajuda de um artigo, metade dos voluntários foi inicialmente informada de que havia pouco que pudesse ser alterado em suas habilidades. Os demais leram outra versão do texto, que anunciava as oportunidades de melhorar as habilidades por meio de aprendizado e esforço. Posteriormente, todos preencheram um questionário de autoavaliação e concluíram várias pequenas tarefas.

Os participantes que haviam aprendido que suas próprias habilidades podiam ser alteradas se mostraram menos propensos a serem perturbados pela dúvida e concluíram melhor as tarefas. “Se alguém acredita que a competência não é uma qualidade fixa, as dúvidas não têm efeito tão negativo no bem­ estar”, afirma Zhao. Richard Petty oferece uma sugestão: relembrar ocasiões em que você agiu com confiança, obteve sucesso ou estava convicto a respeito de alguma decisão. Essa recordação pode conectar a pessoa com um estado emocional de segurança.

FILHOS INDEPENDENTES

Quando se trata de crianças, pais e outros adultos próximos são importantes para o desenvolvimento de uma dose saudável de autoconfiança desde o início da vida. “Não devemos sobrecarregar constantemente os pequenos ou prestar atenção ao que fazem de errado”, aconselha a doutora em psicologia Ariadne Sartorius, especializada no atendimento de crianças e adolescentes. E melhor discutir em conjunto como será a solução para um problema do que partir direto para a repreensão. “É importante que a criança perceba que tem apoio e pode resolver problemas e tarefas de forma independente.” ·

POSTURA E ELOGIO NA HORA CERTA

Andar pela vida afora tanto com a cabeça erguida demais quanto com uma postura encurvada pode trazer dificuldades. A conclusão é de um estudo que pesquisadores liderados por Erik Peper, da Universidade Estadual de São Francisco, publicaram na revista especializada Neuro Regulation, em 2018. Os cientistas pediram aos participantes para resolverem problemas simples de matemática, sentados na vertical ou pendurados na cadeira. Foi muito mais difícil para os voluntários com uma postura curvada cumprirem a tarefa. Os pesquisadores acreditam que a posição ereta incorpora autoconfiança: “A postura afeta não apenas como os outros nos veem, mas também como nos percebemos”, afirma Peper.

O nível adequado de reconhecimento também desempenha um papel importante. O psicólogo Eddie Brummelman, da Universidade de Amsterdã, adverte particularmente sobre elogios em excesso e expressões exageradas como “extraordinário” ou “incrível” em relação a crianças. Isso pode até deprimir a autoconfiança e a autoestima porque, com o tempo, elas estabelecem padrões inatingíveis para si mesmas, tornando-se hipersensíveis à frustração. Há ainda o risco de a supervalorização constante criar a ilusão narcísica de superioridade. “O elogio é muito importante para as crianças, mas tem lugar e hora apropriados”, salienta Ariadne Sartorius. Mais importante que valorizar o resultado obtido pela criança é apreciar seu esforço – e comemorá-lo, sem banalizar a situação.