EU ACHO…

A DOENÇA É A INIMIGA, NÃO NÓS

Sou enfermeira há dez anos e atualmente trabalho na rede pública do Distrito Federal. Não estou na linha de frente contra a Covid-19, mas, na prática, todos nós da área da saúde fomos impactados pela pandemia – seja pelo risco de atender um paciente assintomático, seja pela simples mudança em nossa rotina (horários, protocolos etc.). Além disso, é claro, qualquer um pode ser convocado a prestar serviço numa unidade voltada para o surto. Depois de ouvir relatos chocantes de colegas que estão no combate direto – gente que está cumprindo turnos de doze horas sem tirar a roupa de proteção, pois não teria outra se saísse do hospital para almoçar, ou que passou a usar fraldas para não precisar ir ao banheiro, entre diversas situações muito impróprias – e, sobretudo, diante da crescente curva de mortes de enfermeiros e médicos em decorrência da doença, aderi à ideia de fazermos, enquanto categoria de trabalho, uma homenagem nas ruas àqueles profissionais que perderam a vida. Afinal, eles não são apenas números. Quando estávamos nos organizando, alguns colegas levantaram a dúvida: “E se nos confrontarem?.” Na hora, argumentei: “Vamos defender a vida; homenagear quem morreu lutando para salvar outras vidas. Quem seria contra uma coisa dessas?”. Infelizmente, os fatos me mostraram que eu estava enganada.

Antes de tudo, é preciso ressaltar que o nosso ato, em Brasília, não foi um protesto. Não estávamos contra nada. Além da homenagem em si e de darmos visibilidade à nossa categoria, queríamos mostrar à população que temos as nossas dificuldades, contudo estamos do lado dela. Pois bem: seguíamos com a nossa manifestação, pacificamente, quando, de uma hora para outra, surgiu um grupo de pessoas que apoiam o governo federal e começou a nos ofender. Primeiro, com palavrões. A certa altura, um homem decidiu atacar uma colega que estava ao meu lado, filmando tudo com o seu celular. Não consegui mais ficar parada. Entrei na frente dela e me coloquei entre os dois. Esse foi o momento em que ele me empurrou. Até então, mesmo com toda a truculência, nenhum de nós havia reagido. A partir do momento em que o tal homem encostou em mim, não tínhamos mais como manter o plano. Outras pessoas se aproximaram para afastar os agressores, enquanto eles continuavam gritando. Quero destacar que aquele foi um movimento de força das mulheres. Eu defendia minha colega e, logo na sequência, quando eu mesma virei o alvo, outras enfermeiras saíram em minha defesa.

É claro que deu vontade de responder a todas as ofensas. No entanto, o resultado seria apenas mais violência. Depois de um tempo, a Polícia Militar chegou para nos defender – e estendemos a manifestação. Se não tivéssemos continuado, ficaríamos com a sensação de que os agressores haviam conseguido o que queriam. Durante o ato, eu sabia que a homenagem era maior que qualquer coisa.

Em casa, de volta, fui dominada por um sentimento de desilusão, de abandono. Como é possível lutar para cuidar das pessoas se parte da população nos agride? Não faz o menor sentido. Recuperei minha força com a quantidade de mensagens de apoio que recebi. Percebi que a violência vem de uma minoria.

Quando vejo, pelo país afora, profissionais de saúde sendo saudados como heróis, entendo e agradeço, pois me sinto homenageada. Essa visão, porém, me preocupa, porque o herói dá conta de tudo. Nós não somos assim. A população precisa ter essa compreensão. Nós a ajudamos, sim, só que precisamos também da ajuda dela. Isso acontece quando a sociedade segue as orientações de segurança para que a pandemia não avance ainda mais. O número de profissionais de saúde não vai aumentar na mesma proporção em que cresce o número de casos de Covid-19. A quantidade de pacientes tem de ficar no limite de que damos conta. Só assim derrotaremos o novo coronavírus. Ele é o verdadeiro inimigo, e não nós, enfermeiros e médicos.

ANA CATARINE CARNEIRO, 31 anos, enfermeira agredida em ato que homenageava colegas mortos pelo coronavírus

OUTROS OLHARES

A QUARENTENA VIROU BAGUNÇA

Falta de consenso entre as autoridades, pressões comerciais e comportamento de risco da população transformam o Brasil no campeão mundial da desordem na política de isolamento – uma situação intermediária que provoca a perda de vidas e prejuízos financeiros.

Infelizmente, cumpriu-se o prognóstico de que o Brasil se tornaria um dos epicentros globais da pandemia. Na última quinta,7, o país contabilizava cerca de 130.000 contaminados e havia superado a barreira das 9.000 mortes, a sexta maior marca de letalidade do planeta no ranking macabro da Covid-19.Com um governo hesitante e desorganizado no combate à doença, chegamos ao ponto crítico da crise sem conseguir aplicar até agora o único remédio capaz de conter a expansão rápida do coronavírus: o rigoroso isolamento social. Nessa questão, aliás, o Brasil já pode se considerar o campeão mundial da bagunça, tendo na liderança um presidente que nega desde o início o tamanho do problema e, de forma irresponsável, não perde a oportunidade de conclamar a necessidade de as pessoas voltarem às ruas. Depois de um começo promissor em março, a média de respeito à quarentena em território nacional vem caindo ao longo das semanas e, na terça passada, 5, o índice de adesão bateu em 42,4%, segundo dados da Inloco, plataforma de geolocalização que coleta informações de uma base de 60 milhões de celulares. Vale lembrar, o patamar recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para “achatar” a curva da Covid-19 é de 70%. Recorrendo-se a uma metáfora médica, o Brasil é como o paciente que interrompe precocemente o tratamento de antibióticos ao primeiro sinal de melhora, mas depois precisa aumentar a dose para ser curado, o que prolonga o tempo de agonia diante de uma grave enfermidade. Como se não bastasse, o efeito colateral da paralisação estendida nas contas do país é de uma recessão que pode levar a uma queda de quase 4 pontos no PIB em 2020. “Estamos no pior dos mundos: a adesão ao isolamento social é baixa e os negócios estão fechados. Não se têm nem os benefícios de um nem de outro”, afirma o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.

Enquanto a maior parte do Brasil ainda caminha no escuro, sem saber quando poderá voltar à normalidade, alguns estados à beira do colapso no sistema de saúde têm sido obrigados a decretar o chamado lockdown, política que bloqueia e limita drasticamente o trânsito de pessoas e veículos e suspende atividades não essenciais, estipulando punições severas para o descumprimento das regras.

Desde o fim do mês passado a capital e três cidades do Maranhão estão sob esse regime. Pará e Ceará engrossaram recentemente essa lista. Nos últimos dias, o governo do Rio de Janeiro recebeu um pedido do Ministério Público para que estude a possibilidade de decretar a medida. “Consideramos que a situação é muito grave e a única possibilidade de segurar esse processo e uma radicalização do isolamento, isso é para ontem”, diz o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, que integra o comitê científico fluminense de combate à Covid-19. Amazonas e Pernambuco também dificilmente escaparão do mesmo caminho, pois se encontram com a capacidade hospitalar praticamente esgotada. Em São Paulo, epicentro da pandemia no país, o governo de João Doria (PSDB) decretou o uso obrigatório de máscara a quem sair às ruas (as multas variam de 276 reais a 276.000 reais, além de detenção por um ano), mas ainda não discute chegar ao lockdown. Na capital do estado toram feitos testes durante dois dias com bloqueios parciais de trânsito para desestimular as pessoas a sair às ruas e avalia-se limitar a circulação de ônibus. Na próxima segunda, 11, Doria prometeu anunciar a reabertura da economia em algumas regiões, mas condicionou isso à existência de indicadores satisfatórios de contaminação e de disponibilidade de leitos. Municípios do interior vivem a expectativa, e organizadores de grandes eventos, como a tradicional festa de rodeio de Barretos, realizada anualmente em agosto, aguardavam o sinal do governador para decidir se mantêm ou não o calendário (a estátua de 27 metros de altura de um peão que fica na entrada da arena em Barretos ganhou, na terça 5, uma máscara contra a Covid-19). O problema é que qualquer liberação neste momento envolve uma conta complexa e arriscada. “Não há como prever o pico da doença, o que temos são números concretos que dizem que ela está aumentando a cada semana”, afirma Paulo Lotufo, professor de epidemiologia da USP. “Já passamos a Alemanha e caminhamos para chegar ao mesmo patamar de França e Espanha”.

A maioria dos países que atrasaram a implementação de quarentenas duras enfrentou apuros, a exemplo da Inglaterra. Houve exceções, como a Coreia do Sul, que se tornou exemplo mundial de sucesso no combate à Covid-19 sem a necessidade de decretar o fechamento do comércio. Mas a nação asiática dispunha de três grandes trunfos para bancar essa política: uma bem desenvolvida indústria de biomedicina para produzir testes em massa, tecnologia para rastrear os últimos passos dos doentes e identificar potenciais contaminados e a disciplinada cultura oriental, baseada na valorização do coletivo. Lamentavelmente, não temos nada disso por aqui.

A entrada do Brasil nessa situação intermediária em que todos perdem, e na rota do lockdown, foi pavimentada pelos embates entre um presidente que prega a volta à normalidade, uma maioria de governadores que decretam quarentenas e dezenas de prefeitos que pendem para o relaxamento das medidas. Além, é claro, da falta de educação e informação de brasileiros de todas as faixas de renda. “A ausência de consenso sobre o tema é o nosso principal problema”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Em Portugal, por exemplo, o primeiro-ministro, António Costa, do Partido Socialista, e o presidente, Marcelo Sousa, social-democrata, falaram a mesma língua a favor do isolamento desde o início da crise. Com cerca de 1.000 mortes e um esforço concentrado da população, o país europeu saiu do estado de emergência no domingo passado e pôs em ação o plano chamado de “desconfinamento gradual”. Detalhe: mesmo com a liberação, as ruas de Lisboa na tarde da quinta 7 continuavam bastante vazias.

Por aqui, um dos maiores sinais da falta de respeito à quarenta vem de quem, em tese, deveria se preocupar com a família e com o próximo: as igrejas evangélicas. Para agradar a esse eleitorado, que hoje representa 22% do total, o presidente Jair Bolsonaro chegou a incluir as igrejas na lista de serviços essenciais, mas a Justiça vetou a medida. Em estados como São Paulo, há apenas uma recomendação para que esses locais fiquem fechados ou realizem cerimônias com 30% de sua capacidade. Resultado: quem põe os pés na sede da Igreja Mundial do Poder de Deus, no centro da capital paulista, por um instante parece ter entrado em um túnel do tempo, de volta à época em que ninguém ouvira falar de Covid-19. No domingo passado, 3, havia cerca de 3.000 pessoas, entre crianças, adolescentes, adultos e muito idosos assistindo ao culto do autodenominado apóstolo Valdemiro Santiago. Para estar ali, era necessário fazer um cadastro e, na entrada, uma obreira passava álcool em gel nas mãos dos fiéis. O assunto coronavírus permeou as quase duas horas de reunião. Ao escutar o testemunho de uma senhora recuperada da doença, Valdemiro disse que “a cura disso aí não é pelo cientista, mas pelo poder de Jesus Cristo”. Seguiram-se muitos aplausos. Para o líder religioso, o vírus é o “Exu Corona”. No templo, ele anuncia também a venda de sementes de feijão milagrosas, capazes de curar a Covid- 19. O pastor sugere o valor de 1.000 reais, “mas quem puder dar mais” e pede ao público para comprar varias, “para seus filhos, netos, noras…”. A todo momento, ele usa seu carisma e dom de oratória para minimizar a necessidade de isolamento social e justificar a (injustificável) aglomeração. “Sabia que tem gente enterrando caixão vazio? Isso é coisa do maligno: simular que alguém morra para aterrorizar as pessoas”, praguejou. Valdemiro se referia a uma notícia falsa, propagada pela deputada federal Carla Zambelli (PSL- SP), de que caixões vazios estariam sendo enterrados no Ceará.

No mesmo domingo, em outra igreja evangélica importante, a Renascer, de vestido longo de crepe de seda, cabelo penteado com laquê e maquiagem digna de festa, a bispa Sonia Hernandes comandava a cerimônia na sede paulistana da denominação. Segundo a líder religiosa, a pandemia e a crise econômica não podem ser argumentos para interromper a ida ao templo, tampouco para cessar o pagamento do dízimo. “Quem não entregar, o devorador vai pegar”, pregou ela. Caso a pessoa esteja sem dinheiro, a bispa tem uma saída, repetida ao menos cinco vezes no culto: “Pega emprestado porque vai multiplicar”. Dois obreiros da Renascer ficaram responsáveis por lembrar aos fiéis o uso de máscara. Na entrada, é preciso assinar um termo de compromisso segundo o qual a pessoa está ciente da pandemia e da necessidade de manter 2 metros de distância dos outros presentes. Uma bombeira media a temperatura de todos, mas com um dispositivo nitidamente com problemas – ele registrava 28 graus, temperatura de alguém em óbito há algumas horas. No Templo de Salomão, sede da Universal, de Edir Macedo, há um controle sanitário maior na entrada: funcionários lavam as mãos e aplicam álcool em gel nos fiéis. Macedo tem feito mais cultos, e a preocupação com a queda na arrecadação no momento é evidente. “Dar dízimo é cumprir o dever com Deus”, disse ele no último dia 30, pregando que quem não doa corre o risco de ficar desempregado. O Templo de Salomão tem recebido entre 2.000 e 3.000 pessoas por reunião nos fins de semana.

Indagadas sobre a quantidade de fiéis em suas celebrações, tanto a Mundial quanto a Renascer disseram respeitar a norma de abrir as igrejas com 30% da capacidade. Há, de fato, faixas que impedem que as pessoas se sentem em cadeiras coladas. “Mas não importa, zelar pela vida implica evitar aglomeração”, critica o padre Michelino Roberto, responsável pela Paróquia Nossa Senhora do Brasil, uma das mais importantes de São Paulo. A Igreja Católica baixou uma norma para que não se realizem missas durante a quarentena, gesto seguido por outros líderes religiosos, inclusive protestantes. “A arrecadação de dízimo caiu 90%, mas pouco importa: a prioridade é a saúde e a vida das pessoas”, diz o reverendo Aldo Quintão, da Catedral Anglicana. As igrejas mais agressivas atualmente nos pedidos de arrecadação de dinheiro são as que enfrentam problemas com o caixa. Valdemiro Santiago, por exemplo, descumpriu compromissos com alguns proprietários de imóveis que aluga. Só em abril, mais de dez senhorios entraram com ações contra a Mundial por falta de pagamento de aluguéis.

Não são apenas algumas igrejas que ajudam a deixar o Brasil em uma situação de descompasso com a gravidade que a conjuntura atual exige. No cenário em que a pressão econômica muitas vezes vence a cautela, várias cidades relaxaram a quarentena – e, não por coincidência, tiveram problemas. No primeiro dia de funcionamento depois de o governo de Santa Catarina flexibilizar as medidas de isolamento, um shopping de Blumenau (SC) virou notícia por causa de um vídeo que mostrava consumidores, entre os quais diversos idosos, aglomerando-se para entrar no centro de compras enquanto eram aplaudidos por funcionários ao som de um saxofonista. Quando o comércio foi liberado no estado, em 22 de abril, a cidade tinha 110 casos de Covid-19. Passadas duas semanas, os registros oficiais mais que dobraram. No Rio de Janeiro, o mesmo Wilson Witzel que deve deixar a cargo de prefeitos a decisão sobreo lockdown havia flexibilizado no início de abril a quarentena em trinta municípios até então sem episódios de contaminação. Um mês depois, 22 deles somam 83 casos e cinco mortes pela doença. Em São Paulo, localidades tiveram as medidas de flexibilização revogadas após manifestações do MP ou decisões da Justiça. Foi o que aconteceu em Sorocaba, com cerca de 680.000 habitantes, que havia passado a considerar escritórios de advocacia, salões de beleza e lojas de tecido como atividades essenciais e precisou recuar da resolução após uma decisão dos tribunais. Em Betim (MG), o prefeito também voltou atrás no relaxamento de regras. “No primeiro dia que reabrimos restaurantes, vimos que não se consegue manter o respeito. As pessoas começavam a beber e não queriam sair mais. Os fiscais chegaram a ser hostilizados por cidadãos alterados”, diz o prefeito Vittorio Medioli (Podemos).

Casos de flagrante desrespeito às quarentenas têm ocorrido em todo o país – e em todas classes sociais. No feriado de 1º de maio, houve congestionamento de automóveis na entrada de Búzios (RJ), sofisticado balneário fluminense. O fluxo de carros nas estradas que ligam São Paulo ao litoral também é alto, a ponto de nove prefeitos da Baixada Santista terem enviado um ofício a João Doria para bloquear as rodovias de acesso – o governo negou a medida. Com os casos de fura-quarentena cada vez mais frequentes, policiais ganharam a incumbência de fiscais de festa. No domingo 3, um empresário foi preso após agredir e ofender PMs que pediam a ele que diminuísse o som e interrompesse uma celebração na cobertura de um prédio na Zona Sul de Belo Horizonte. Situação parecida aconteceu em 18 de abril, em Tibau do Sul (RN), onde a polícia chegou, bem na hora do Parabéns, a uma reunião com cerca de setenta pessoas em um clube. O organizador foi detido em flagrante e os convidados fugiram correndo pela rua. “Estamos recebendo quase quarenta denúncias do tipo por dia”, diz o coronel José Pachá, secretário de Segurança Pública de Rondônia, que investiga uma festa de aniversário em Porto Velho em que mais de quarenta pessoas teriam se contaminado.

Às vezes, nem é preciso investigar tanto assim. Alguns, num evidente arroubo de falta de noção, fazem questão de mostrar a farra nas redes sociais. Em Jurerê Internacional, onde estão os condomínios fechados mais caros de Florianópolis, viralizaram vídeos de festas em mansões e lanchas – com sorrisos, copos nas mãos, vários bumbuns à mostra e nada de máscara. Na Riviera de São Lourenço, reduto de alto padrão no Litoral Norte do estado, houve recentemente um rega-bofe em uma mansão com banda de música ao vivo e Ferraris, Porsches, Lamborghinis e Corvettes estacionados em frente à casa. Na parte de baixo da pirâmide social brasileira tem havido outro tipo de aglomeração. São as imensas filas de pessoas em busca do auxílio de 600 reais, diariamente formadas diante de agências da Caixa. Mas o descaso não se dá apenas por necessidade. Nas favelas, centenas de pessoas saem às ruas e se sentam em botequins como se estivéssemos em um grande e interminável período de férias. Desorganização das autoridades, falta de disciplina e educação da população e desespero econômico – eis o resumo da receita que está transformando o Brasil na nova calamidade mundial da Covid-19. Mudar radicalmente essa equação, quanto antes, é fundamental para preservar vidas e fazer o país voltar o mais rápido possível à normalidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 13 DE MAIO

DESERTO, O GINÁSIO DE DEUS

Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o SENHOR, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar… (Deuteronômio 8.2a).

O deserto é a escola de Deus, onde ele treina seus mais importantes líderes. O deserto não é um acidente de percurso, mas uma agenda divina. O deserto é o ginásio de Deus, a escola superior do Espírito Santo, onde Deus nos treina e nos capacita para os grandes embates da vida. O deserto não nos promove; ao contrário, nos humilha. Na escola do deserto, aprendemos que nada somos, mas Deus é tudo. No deserto Deus trabalha em nós para depois trabalhar através de nós. Isso porque Deus está mais interessado em quem nós somos do que naquilo que fazemos. Vida com Deus precede trabalho para Deus. A maior prioridade da nossa vida não é fazer a obra de Deus, mas conhecer o Deus da obra. O Deus da obra é mais importante que a obra de Deus. Vida com Deus precede trabalho para Deus. Na escola do deserto, aprendemos a depender mais do provedor que da provisão. Depender da provisão é fácil, pois nós a temos e a administramos. O desafio é confiar no provedor, mesmo quando a provisão acaba. Quando nossa provisão escasseia, podemos confiar no provedor. A nossa fonte pode secar, mas os mananciais de Deus continuam jorrando. A nossa despensa pode ficar vazia, mas os celeiros de Deus continuam abarrotados. Quando os nossos recursos acabam, Deus abre para nós o cofre de seus tesouros. Nossa confiança precisa estar no provedor, e não na provisão!

GESTÃO E CARREIRA

A FORÇA DA MENTE

Segmento bilionário – e crescente – inclui aplicativos que ensinam a meditar: no Brasil, o app. Zen registra 3.5 milhões de downloads

Antes vista pelo público ocidental como uma experiência restrita e, em certa medida, exótica, a meditação virou um estilo de vida, sendo cada vez mais indicada para aumentar o bem-estar e a performance dos praticantes, além de tratar problemas graves como depressão e ansiedade. O interesse nessa modalidade de autocuidado fica evidente ao se observar o crescimento das ofertas e das projeções para o setor.

Nos Estados Unidos, maior mercado global para o segmento de meditação em geral – que inclui palestras, retiros, livros e conteúdo online -, o crescimento deve chegar aos 11,4% até 2022, o equivalente a US$2,08 bilhão de receita.

Um business notável dentro desse mercado é o dos aplicativos: o gasto mundial nessas ferramentas, que já são líderes do segmento de autocuidado digital, chegou a US$ 195 milhões em 2019, segundo a empresa de pesquisa especializada em aplicativos Sensor Tower.

Os principais provedores de apps de meditação incluem a Calm, criada pelo empreendedor britânico Michael Acton Smith, que se tornou unicórnio no ano passado. Outro destaque é o Headspace, fundado pelo ex- monge Andy Puddicombe, que captou US$ 93 milhões em uma rodada série C em fevereiro. Ambas as plataformas têm investido em conteúdo – como programas para ajudar usuários a lidarem com a tensão do coronavírus e até histórias de ninar narradas por celebridades.

Principal expoente brasileiro do setor, o Zen registra 3,5 milhões de downloads de seu aplicativo e 250 mil usuários ativos em 150 países, servidos com conteúdo em três idiomas. Segundo a cofundadora da startup de Santos (SP). Juliana Góes, a em presa caminha para se tornar uma “plataforma de transformação de vida”: novos produtos sob o guarda­ chuva do Zen, como o Sonno, app focado em insônia, foram lançados este ano – e uma oferta de educação online também está nos planos. “Conseguimos nos encaixar na rotina dos nossos assinantes o dia todo de forma versátil e em diversos formatos”, aponta.

Andrea Iorio, ex- country manager do Tinder e um dos investidores-anjo do Zen, notou a oportunidade quando analisava o mercado de aplicativos e decidiu apoiar o início do negócio. Segundo ele, o Headspace e o Calm não ameaçam a empresa brasileira: “Usuários latinos tendem a começar com eles e depois buscam experiências locais”, afirma. “[Os aplicativos estrangeiros] são produtos que educaram o mercado que eram resistentes à meditação digital, mas não souberam suprir os usuários com criação de conteúdo local – e é aí que a Zen se diferencia.”

O interesse em práticas de meditação também tem crescido dentro das empresas, segundo Ken O’Donnell, coordenador para a América Latina da organização global de transformação pessoal Brahma Kumaris, com sete livros publicados sobre o tema de inteligência espiritual no mundo corporativo. “Se empresas querem alta performance, precisam que seus líderes sejam tradutores rápidos de pessoas e de situações, e a meditação ajuda a perceber com mais clareza onde atuar”, argumenta. Em seus workshops para empresa (“gigantes de bens de consumo e bancos”). O’Donnell introduz a auto observação como forma de aumentar a capacidade perceptiva dos gestores e de suas equipes: “Executivos têm que gerar um senso de pertencimento, e para isso, precisam perceber que o outro é um ser como eles. A pausa refletiva ajuda nesse processo de identificação.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA LUZ NO CONFINAMENTO

O isolamento social fez crescer os episódios de tristeza e depressão – mas a adequação da rotina e o apoio de profissionais podem ajudar a superar os problemas

Um dia, quando formos levados a definir os primeiros meses de 2020, e pudermos ir para muito além de nossas janelas, haverá uma marca incontornável: o isolamento social e, a partir dele, a sensação de tristeza associada ao fechamento compulsório dentro de casa. Há, evidentemente, momentos de alegria e relaxamento com os filhos, com os pais, nas conversas por meio de aplicativos de videoconferência, há as maratonas de séries na televisão, até o intenso trabalho a distância pode ser agradável – mas paira no ar a percepção, nem sempre palpável, de que algo saiu de linha com a saúde mental. É preocupação que agora, com a quarentena em pleno curso, começa a ser medida. Um recente levantamento realizado pela Associação Americana de Psiquiatria mostrou que 25% dos cidadãos nos Estados Unidos sofreram impactos, na forma de prostração severa e depressão, em decorrência do atual confinamento provocado pelo surto de Covid-19 – quadro só comparável ao dos dias e semanas posteriores aos ataques do 11 de Setembro. No Brasil, o desconforto pode ser aferido pelo aumento das consultas virtuais com psicólogos e psicanalistas. O recurso eletrônico, deflagrado em 2018, ganhou tração com atendimentos feitos por WhatsApp, Skype, Face Time, Zoom etc. Desde o início de março a quantidade de profissionais cadastrados pelos conselhos da categoria e autorizados a atender a distância dobrou – já são quase 90.000. Na plataforma Psicologia Viva, de orientação virtual, com cerca de 4.000 profissionais registrados, o número de atendimentos quadruplicou durante a pandemia. Nos meses de março e abril, o termo “psicólogo on-line” bateu recorde de consultas no Google.

A falta de perspectiva – até quando? – dissemina o incômodo, sobretudo entre os mais propensos a dificuldades, com histórico anterior de desequilíbrio. “A quarentena é composta de fases”, diz o psicólogo Artur Scarpato. “No começo há um otimismo maior, mas com o passar das semanas cresce o sentimento de aprisionamento e de ameaça. “Não é o caso de diluir a indizível agonia de quem sofre com o apartamento, mas pesquisas sobejamente aceitas demonstram que seis em cada dez pessoas desafiam o corte abrupto e experimentam ótimas saídas cerebrais – embora, ressalve-se, diversos trabalhos comportamentais já tenham apontado os danos da falta de relação social (uma experiência publicada em 2015 pelo reputado Departamento de Psicologia da Universidade Brigham Young, de Utah, nos Estados Unidos, mostrou que o risco de morte entre os que vivem muito sós cresce 32% em relação aos mais sociáveis, dado comumente comparado ao da obesidade).

Por sorte, a humanidade aprendeu a conviver coletivamente – e a se defender em caso de afastamentos forçados, atalho para transtornos hormonais, neurológicos e comportamentais. O americano John Cacioppo (1951-2018), do Centro de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago, uma das autoridades mundiais em sua área, desenvolveu uma tese, depois comprovada por antropólogos: os primatas, nossos ancestrais, há mais de 50 milhões de anos, precisavam pertencer a um grupo social, uma família, um bando. Estar sozinho, ou mesmo entre pares com os quais não havia entendimento, provocava como resposta a luta e a fuga. Para Cacioppo, a solidão desencadeava, como ainda desencadeia, a chamada “hiper vigilância”- e, em fascinante processo evolutivo, ela foi incorporada ao sistema nervoso. Por isso o exílio deflagra reações físicas, e luta-se para evitá-lo.

“Esse período de desassossego nos dá a possibilidade de reavaliar o que é realmente prioridade e construir hábitos que façam mais sentido para nosso propósito de vida”, diz Uana Pinsky, psicóloga clínica e pesquisadora visitante na City University de New York (Cuny). “É uma chance única para refletir e construir um novo jeito de viver, seja de forma coletiva, seja de modo individual.” Há atividades simples e pequenas sugestões de posturas chanceladas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). São comezinhas, mas produtivas. Uma das mais poderosas é ignorar as fake news. Tentar executar tarefas desafiadoras estimula a mente. Nunca cozinhou? Cozinhe. Não tem o hábito de ler? Leia.” Sairá melhor da quarentena quem conseguir desenvolver novos gostos e não lamentar o passado perdido”, afirma Alfredo Maluf, psiquiatra do Hospital Albert Einstein. Uma boa rotina é unanimidade entre os especialistas. Trabalhar em períodos semelhantes aos que se cumpria no escritório, fazer pausas para refeições. Para o bom sono, fortemente afetado pelo isolamento, desligar celulares, tablets e laptops ao menos noventa minutos antes de apagar as luzes.

As crianças, os adolescentes e os idosos estão entre os que mais podem sofrer durante o isolamento. Logo que deixou de ir para a escola, Alice, de apenas 3 anos, ligava para os amigos perguntando como estavam as aulas, um tanto perdida. “Ela se recusava a compreender que não podia sair de casa”, conta a mãe, Angélica Ravagnani.Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina de Tongji e pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, na China, mostra que 22,6% dos alunos mais jovens da província de Hubei – o epicentro inaugural da Covid-19 – apresentaram quadros depressivos. Trata-se de uma taxa 5 pontos porcentuais maior que a observada em escolas primárias no resto da China. “Os pequenos têm menor capacidade de organização e planejamento diante da quebra da rotina”, diz Juliana de Oliveira Góis, psicóloga e orientadora pedagógica do Colégio Rio Branco, um dos mais tradicionais de São Paulo. Há menos de um mês, a Associação Americana de Psicologia publicou recomendações acerca do atendimento psicológico específico de jovens em idade escolar. As consultas não podem ser formais e é preciso que se usem recursos on-line interativos, como jogos, por exemplo, para manter a atenção.

Há um atenuante, forte o suficiente para ser posto no rol de consolos: a universalidade do vírus, que não escolhe país nem estrato da sociedade. “Experimentar globalmente os mesmos sentimentos em uma circunstância parecida nos torna mais empáticos com a nossa própria dor e com a dor do outro”, afirma o psicólogo Rossandro Klinjey, fenômeno nas redes sociais. “A temporada de distanciamento experimentada em 2020 fará com que transtornos mentais, até lidados com preconceito por muitos, não soem tão distantes.” E então, em momentos de drama coletivo, quando as perspectivas parecem inexistir, e há imensa dificuldade de encontrar o passo seguinte, convém sempre beber de quem sabe enfrentar essas coisas e, de algum modo, oferecer otimismo: os artistas, a poesia, o cinema.

Para Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), em Desperdício, poema de 1952, ficar sozinho como um Robinson Crusoé nunca foi necessariamente ruim, porque “Solidão, não te mereço, pois que te consumo em vão/Sabendo-te embora o preço, calco teu ouro no chão”. Nos serviços de streaming tem feito muito sucesso um clássico de 1993, a comédia Feitiço do Tempo, com Bill Murray e Andie MacDowell – o relato de um apresentador de meteorologia de televisão, um homem do tempo, enfim, que acorda sempre no mesmo dia, revivendo o que passara nas 24 horas anteriores. É uma situação que começa com graça e vira um incômodo insuportável, uma dor pungente. Phil, o personagem de Murray, chega a desistir da vida, salvo da morte autoimposta porque ao toque do despertador tudo recomeça – do desespero, contudo, ele extrai esperança, vê saídas, entende que seu aprisionamento tem algo de positivo, há um truque legítimo para contorná-lo. “Deixe-me fazer uma pergunta a vocês”, atalha Phil, com olhar desesperado, dois moradores da cidade de Punxsutawney, na Pensilvânia, que ele encontra em um esfumaçado bar de boliche. “E se não houvesse amanhã?” Eles consideram a questão e respondem: “Não haveria consequências, não haveria ressaca, poderíamos fazer o que quiséssemos”.

Não é exatamente assim agora, com o isolamento imposto pela pandemia. Sempre teremos o amanhã, mas os profissionais de saúde recomendam lidar com a metade do tempo cheia, e não com a metade vazia. O.k., parece haver um tanto de obviedade nas recomendações de manter a cabeça ocupada, mas não. Um bom, histórico e adequado exemplo é o do iluminista francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que, em 1743, indo de Paris a Veneza, foi pego pela peste e teve de parar em Gênova. Ele faz o relato de sua quarentena, totalmente só, nas Confissões (1782). Ocupou então um edifício em ruínas de dois pavimentos, sem conforto algum. Lia e escrevia. “Comecei a me organizar para os meus 21 dias, exatamente como deveria ter feito durante toda a minha vida”, resumiu. Para a filósofa Catherine Malabou, Rousseau “pôs a quarentena em quarentena”, ou seja, criou uma ilha íntima de tranquilidade dentro do arquipélago da solidão. Pode ser um bom caminho – mas é provável que seja preciso o apoio de profissionais da mente. A distância, é claro.

O SONO INTERROMPIDO

Uma em cada cinco pessoas passou a ter dificuldade para dormir com a pandemia de Covid-19. O sono se tornou mais curto e agitado. É o que aponta recente pesquisa conduzida pelo Hospital da Universidade de Shenzhen e pela Universidade de Huazhong, na China, realizada com 7.236 adultos. Entre os profissionais de saúde, a frequência sobe para uma em cada quatro pessoas. Há explicação: a combinação de condições realmente estressantes, como o medo de contrair uma doença ainda desconhecida, com a quebra radical da rotina. Além disso, o confinamento gera outro problema: a redução de tempo de exposição ao sol. A luz solar ajuda a regular o hormônio que inibe o sono, a melatonina. Os sonhos também foram atingidos. Quando dormimos, passamos por diferentes estágios do sono que percorrem a noite toda. Isso inclui sono leve e profundo e um período conhecido como sono de movimento rápido dos olhos (REM), que acontece com mais destaque na segunda metade da noite. Os sonhos podem ocorrer em todos os estágios do sono, mas o REM é considerado o responsável por sonhos visuais e altamente emotivos. Dormir pouco afeta em especial esse momento, tornando os sonhos mais vívidos e emocionais que o habitual.

Uma das formas de ajudar o organismo a reagir é abrir as cortinas durante o dia e se expor à luz natural. Programar os horários para dormir e acordar é fundamental, mesmo que não se tenha nenhuma tarefa obrigatória para realizar. A última refeição do dia deve ser feita pelo menos duas horas antes de ir para a cama. Bebidas com cafeína ou sabor “cola” precisam ser banidas do cardápio pelo menos quatro horas antes de deitar­ se, assim como os alimentos ricos em açúcares. Os smartphones e tablets também são vilões para quem não consegue descansar. O ideal é que sejam desligados pelo menos noventa minutos antes de as luzes serem apagadas. Notificações de aplicativos, e-mails e redes sociais podem estimular a procura pelo celular na hora errada. São conselhos perenes, agora ainda mais vitais.