EU ACHO…

IMPACTOS EMOCIONAIS DE UMA GERAÇÃO VIRTUALIZADA

A vida é feita de fases e ninguém é totalmente feliz 24 horas por dia

A Internet possui um infinito portfólio de celebridades, digital influencers, blogueiros, etc., que mostram uma vida perfeita e carregada de luxo, principalmente na rede social Instagram. Nossa geração está completamente virtualizada, o mundo vive em competição, as pessoas se cobram cada vez mais, chegando ao seu limite, uma vez que passam a comparar suas vidas com a de outras pessoas, principalmente aquelas que expõem exaustivamente festas de luxo, viagens a lugares paradisíacos, etc. Tudo muito perfeito e extremamente feliz. Devemos nos atentar ao fato que a vida é feita de fases e ninguém é totalmente feliz 24 horas por dia, além de não viverem um conto de fadas como mostrado nas redes sociais. Tudo isso são “fábulas” ou mesmo um mero pressuposto utópico. As pessoas precisam de um critério avaliativo para evitar amarguras, sensação de inferioridade, incapacidade, excesso de cobranças, pois tais podem levar o indivíduo à beira da insanidade. Realmente existem fotos que nos enchem os olhos por tamanho luxo, pompa e glamour, nos servem como inspiração para crescermos. Entretanto, não podemos deixar que essas “inspirações” se transformem em frustrações, um pesadelo e, a partir daí, nos cobrarmos demais por não termos uma vida parecida. À medida que a internet evoluiu para ser onipresente da vida moderna, o mundo cobra mais realizações das pessoas, como em uma corrida incessante pelo sucesso, fama e dinheiro. Vivenciamos a era do “eu sou”, “eu tenho”, “eu realizei” e tudo isso, se não dosado, instiga competições, prejudica a psique, gera uma sensação de fracasso e baixa estima se as pessoas se apegarem a postagens ostentadoras demasiadamente, e se colocarem para baixo, comparando suas vidas. Nunca devemos equiparar nossa vida a de absolutamente ninguém, pois cada indivíduo possui particularidades e mensurar a vida do outro a partir de meras fotos, baseando-se em heurísticos, pode conjecturar uma realidade totalmente distorcida, além do fato de que não podemos julgar uma realidade simplesmente baseada em uma vida virtual, haja visto que nas redes sociais ninguém mostra sua dor e, quando acontece, são casos esporádicos. Devemos analisar sob um prisma de que Internet é uma vida de ilusão, de fotos editadas a fim de parecer realmente mais atrativo do que de fato e nada daquilo é tão perfeito e maravilhoso quanto parece ser e entender que todos, sem exceção, não estamos imunes a ter um dia ruim, problemas no trabalho, relações afetivas conflituosas, etc. O excesso de cobrança ao compararmos nossas vidas com a de outras pessoas causa estresse, ansiedade, momentos de depressão e outras desordens psíquicas, as quais prejudicam o bem-estar, saúde mental e até desencadeia problemas cognitivos. A busca pelo corpo perfeito é outro fator desgastante em demasia, o ser humano tem limitações e cada corpo possui um biotipo natural. O mundo precisa de menos comparações e cada um ser feliz de acordo com sua realidade, sem excessos, sem danos e, principalmente, sem autocobranças totalmente fora de órbita. Apenas seja, apenas viva, o mundo real é mais atrativo, garanto. Quem não consegue ser feliz nas pequenas coisas, dificilmente irá encontrar felicidade em bens materiais.

JANAÍNA FALCO – é Bacharel em Economia pela Universidade Estadual de Goiás, Funcionária pública federal, atualmente cursando Gastronomia e Alta Cozinha, cursando inglês e francês e escritora com um livro em produção: “Psicose Maníaco-Depressiva: entre o céu e o inferno”.

OUTROS OLHARES

UM GRITO EM PRETO E BRANCO

Campanha do fotógrafo Sebastião Salgado reúne celebridades mundiais pela proteção de comunidades indígenas na Amazônia contra o coronavírus. Em retaliação, a Funai ameaça leiloar as obras por ele doadas

Os primeiros índios que tiveram contato com o homem branco se recusavam a posar para fotografias porque temiam que o registro das imagens em papel roubaria suas almas. Hoje, fotos das comunidades indígenas podem salvá-las. Conhecido por seu envolvimento em causas sociais, o fotógrafo Sebastião Salgado lançou uma campanha internacional com o objetivo de proteger as comunidades indígenas na Amazônia contra o coronavírus. Publicado em vários jornais em todo o mundo, o manifesto faz um “apelo urgente ao presidente do Brasil e aos líderes do Legislativo e Judiciário” e é assinada por artistas, políticos, arquitetos e cientistas de todo mundo. “Trabalho e convivo há sete anos com os índios na região amazônica. São mais de mil comunidades. Elas nunca foram tão atacadas, mas também nunca estiveram tão organizadas”, afirmou Salgado.

Um novo ataque, desta vez direto a Salgado, veio na quinta-feira 7: em retaliação à sua campanha, a Funai (Fundação Nacional do Índio) retirou das paredes 15 quadros doados pelo fotógrafo e informou que vai leiloar as obras para “arrecadar dinheiro para os índios”. As fotos, que retratam a etnia Korubo do Coari, no Vale do Javari, estão estimadas em R$ 1 milhão. “Acho tudo isto de uma enorme mediocridade e tristeza. Esta é a maior demonstração de como estamos destruindo grandes instituições que levaram dezenas de anos para serem construídas. Amo e respeito a Funai, a sua epopeia e os seus grandes sertanistas são verdadeiros heróis nacionais. Junto ao Ibama e ao Exército Brasileiro, essas importantíssimas instituições ajudaram a preservar a maior riqueza que possuímos, o bioma Amazônico”, afirmou Salgado, após o anúncio da Funai.

O fotógrafo explica que o risco da Covid-19 é maior para os índios porque eles não estão acostumados às doenças do homem branco. “Apelamos aos três poderes brasileiros para que apresentem leis ou medidas que protejam essas comunidades da contaminação. Além dos garimpeiros e madeireiros que invadem suas terras para desmatar de maneira ilegal, há ainda os líderes religiosos entrando livremente que podem levar o vírus para essas comunidades. Uma infecção pode levar a um contágio em massa e, se isso acontecer, será um genocídio.”

Os riscos às comunidades indígenas são ainda maiores porque órgãos do governo como Ibama e Funai têm sido vítimas de desmontes e ingerência política. Na terça-feira 5, a Funai substituiu o chefe de uma frente de proteção a índios isolados no Mato Grosso sem consulta a autoridades indigenistas do órgão. Desde fevereiro, a área de índios isolados está a cargo de Ricardo Lopes Dias, ex-missionário evangélico que trabalhou dez anos para o MNTB (Missão Novas Tribos do Brasil), grupo que atuava justamente para converter indígenas isolados na Amazônia. O Ministério Público Federal (MPF) já pediu seu afastamento, mas ele segue no cargo. O MPF também recomendou a anulação de uma portaria publicada em abril que permite a grilagem na Amazônia, alegando que a norma “contraria a natureza do direito dos indígenas às suas terras”. A medida está no Supremo Tribunal Federal (STF) após ação protocolada pelo partido REDE. No caso do Ibama, o MPF investiga a exoneração pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles – expulso recentemente do partido Novo –, do chefe da Diretoria de Proteção Ambiental do Ibama, Olivaldi Azevedo. Ele deixou o cargo após uma megaoperação que teve como alvo madeireiros e garimpeiros ilegais em uma área indígena no sul do Pará. Na quarta 6, também no Pará, um agente do Ibama foi agredido em uma operação que queimou três caminhões e dois tratores usados para retirada ilegal de madeira – o próprio presidente Jair Bolsonaro já criticou publicamente a destruição de maquinário apreendido.

NOMES DE PESO

O descaso do governo com o meio ambiente tem acelerado o desmatamento na Amazônia. Segundo dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE), o desmatamento em terras indígenas na Amazônia brasileira aumentaram 59% nos primeiros quatro meses de 2020 em relação ao mesmo período do ano passado. O manifesto publicado por Salgado já recebeu o apoio de personalidades em todo o mundo. Entre as mais de 200 mil assinaturas, estão nomes como Paul McCartney, Príncipe Albert II de Mônaco, Richard Gere, Jane Goodall, Patti Smith, Sting e Oliver Stone, além de brasileiros como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gisele Bundchen e Fernando Meirelles, entre outros. Para mais informações, acesse https://bit.ly/indigenas_2020.

Segundo Salgado, a campanha se desdobrará em um projeto multiplataforma a partir de abril de 2021. Além de um livro, haverá exposições fotográficas simultâneas em museus de Paris, Roma, São Paulo e Rio de Janeiro – no Sesc e no Museu do Amanhã, respectivamente. A música é outra parte importante do projeto. O compositor francês Jean-Michel Jarre será o responsável pela trilha sonora da exposição e haverá uma série de apresentações de orquestras tocando repertório que o brasileiro Heitor Villa-Lobos compôs em homenagem à Amazônia enquanto as fotos de Sebastião Salgado são projetadas em telões. “Essa campanha é um apelo a todos os brasileiros de bem.
Os índios são brasileiros como nós”, afirma Salgado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 11 DE MAIO

REMORSO OU ARREPENDIMENTO?

Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao SENHOR, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar (Isaias 55.7).

O remorso é um arrependimento incompleto e ineficaz. O arrependimento envolve três tipos de mudança: de mente, de emoção e de vontade. Arrepender-se é mudar de mente, é sentir tristeza pelo pecado, dar meia-volta e retornar para os braços de Deus. O remorso envolve as duas primeiras mudanças, mas não a última. Vamos ilustrar essa verdade fazendo um contraste entre Judas Iscariotes e Pedro. Ambos pecaram. Judas traiu Jesus, e Pedro o negou. Pedro arrependeu-se e foi restaurado; Judas, porém, tomado de remorso, suicidou-se. Judas reconheceu seu erro. Disse ao sumo sacerdote que havia traído sangue inocente. Judas também sentiu tristeza por seu pecado, confessou-o e, ainda, devolveu as trinta moedas de prata que recebera para trair Jesus. Mas não deu o último passo para completar o ciclo do arrependimento. Não deu meia-volta para retornar a Jesus. Por isso, saiu e foi enforcar-se. A diferença entre Pedro e Judas é que o primeiro completou os três elementos do ciclo do arrependimento. Pedro reconheceu seu pecado, sentiu tristeza por ele, a ponto de chorar amargamente e, por fim, retornou ao Senhor, para encontrar nele perdão e restauração. O remorso é um arrependimento incompleto e ineficaz; um falso arrependimento. Leva as pessoas ao desespero e não à esperança, à prisão e não à liberdade, à morte e não à vida. Não é prudente ficarmos presos no cipoal do remorso; podemos encontrar o livramento do perdão!

GESTÃO E CARREIRA

RELACIONAMENTO É UMA ARTE

“Todos nós somos um pouco artistas”

Os clientes são uma das peças mais valiosas das corporações e por isso se relacionar com eles é extremamente importante. Houve um tempo em que esse relacionamento era feito sem nenhum parâmetro, regra ou planejamento, se baseava apenas nas relações humanas. Vendo a importância dessas relações, e como o retorno com os clientes é efetivo vindo delas, criou-se o CRM – Customer Relationship Management – ou gestão de relacionamento com o cliente. O software foi criado para auxiliar as empresas na gestão do relacionamento e planejamento das ações. É importante entender que cada cliente pensa e reage de algum jeito aos gatilhos da comunicação e as empresas têm que saber se relacionar com cada um deles. Por isso, o detalhamento das informações sobre eles é uma peça fundamental do software. Criar esse relacionamento vai além de se estabelecer uma venda direta, é necessário manter o cliente sempre ali, por perto, fazendo com que ele se sinta importante para a organização. Em um ambiente onde todos querem apenas vender, sobressai aquele que consegue fazer o cliente se sentir parte do todo, importante e que suas necessidades sejam atendidas e entendidas. Não é necessário um sistema sofisticado (embora existam alguns muito bons e completos) para se realizar esse trabalho. Uma simples planilha de Excell, organizando toda a jornada de compra do cliente, todos os pontos de contato com a empresa e identificando possíveis gaps nesse contato, facilita o planejamento de ações de relacionamento. Um pós-venda bem feito também auxilia bastante neste processo. Sim, se relacionar é uma arte e nem todo artista pode viver de improviso. Profissionalize a sua gestão.

LARA PAULINNY – é publicitária e relações públicas, especialista em marketing digital, vendas e trade marketing, inovação e empreendedorismo e gestão de projetos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PRINCIPAL BARREIRA

Quando não se consegue enxergar outra possibilidade de solucionar um problema que não seja aquela que se acredita que pode resolver, ocorre o que se chama de paralisia paradigmática

Você acabou de acordar. Levanta da cama, vai até o banheiro, se olha no espelho. Faz sua   rotina de assepsia, vai ao quarto se vestir e toma seu café da manhã. Diariamente, é esse basicamente seu padrão de ação quando vai trabalhar. Mas você já se perguntou o porquê disso? Por que fazemos as coisas praticamente do mesmo jeito, sempre? Uma possível   resposta para isso é que fazemos uma rotina porque isso é mais eficiente, econômico e facilita a vida.

Continuemos, porém, a história dessa jornada matinal. Você vai para o trabalho, usando o mesmo meio de condução que utiliza diariamente. É a forma mais prática e econômica de chegar ao seu trabalho. Vamos supor que você seja um professor e chega à escola numa manhã de quinta-feira. Você entra na sala dos professores, cumprimenta os colegas, fala algo trivial e pega seus instrumentos de trabalho. E se encaminha à sala de aula para ministrar sua aula.

Você vai ministrar aula para uma turma de 8° ano do ensino fundamental, na disciplina de História, e, após cumprimentar a turma, começa sua rotina de aula, da mesma forma como faz sempre há dez anos. Na verdade, tudo é feito relativamente da mesma forma há dez anos, sem modificar muito sua forma de atuar, sua metodologia, somente alguns ajustes aqui e ali. Daí você dará aula para outras turmas pela manhã, depois pela tarde e, ao final do dia, voltará para sua casa. Mais uma jornada de trabalho cumprida.

O rendimento dos alunos não está grande coisa, eles não querem mais saber de estudar. Seus interesses são outros, não tiram os olhos do celular, inclusive em aula, acham as aulas cl1atas (não só as suas, mas em geral), e no “seu tempo”, ah, era muito diferente. Os professores ensinavam do mesmo jeito e todo mundo aprendia. Mas, fazer o quê. Se eles não querem mais estudar, não é problema seu. Você está ali para ministrar a sua aula.

Essa é uma descrição fictícia de um dia comum na vida de vários professores e professoras desse país, em que tais rotinas constituem um lugar-comum frequentemente visto em relatos de professores aqui e ali. Todo esse relato cabe dentro de uma palavra: paradigma.

O termo paradigma foi popularizado por Thomas Kuhn em seu famoso livro sobre a teoria das revoluções científicas. Kuhn postulou que “paradigmas são as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência”. Em outras palavras, paradigma é um modelo ou padrão em que um grupo de pessoas se baseia e em que, acredita-se, se obterá a melhor forma ou a “forma correta” de fazer algo. Essa crença pode tanto garantir um jeito melhor de fazer algo como também pode impedir – exatamente por se acreditar que é a forma melhor – a aplicação de novas ideias sobre como fazer.

Em termos de senso comum, a definição de paradigma é aquela que se refere a modelo, padrão. Uma das histórias que ilustram bem a questão dos paradigmas é a do paradigma do relógio suíço. Conta a história que os relógios suíços foram, por três séculos, o padrão de relógios no mundo para precisão e design. Porém, em determinado momento do século XX iniciaram-se as pesquisas com quartzo, um cristal capaz de emitir pulsos constantes em diversas situações de temperatura e pressão e que proporcionava uma precisão tão boa quanto a dos relógios suíços mecânicos.

Era uma ideia interessante, e proposta por um suíço! Mas como o paradigma reinante era que nada seria capaz de suplantar os relógios mecânicos de precisão, deixaram a ideia de lado. Seu inventor, no entanto, não desistiu e encontrou na indústria japonesa de relógios a guarida para seu projeto. Daí os relógios a quartzo passaram a ser preferidos por sua precisão e preço bem mais baixo que os suíços, que começaram a declinar. Ao final, a indústria de relógios suíços perdeu o posto de principal produtora mundial de relógios para a indústria japonesa, que apostou em um modelo barato, popular, mas confiável.

O nome que se dá a essa postura é paralisia paradigmática. Nesse estado não se consegue enxergar outra possibilidade de solucionar o problema que não seja aquela que se acredita que pode resolver, ou o que já é utilizada. Novas soluções diferentes do paradigma vigente são descartadas ou ignoradas, mesmo que potencialmente possam oferecer melhores resoluções para os problemas existentes. Mas e na educação? Existem paradigmas? Claro que, em sendo uma ciência secular, a educação não estaria fora da questão dos paradigmas e, certamente, é uma das que mais são influenciadas por teóricos, metodologias e formas de ação já estruturadas e, em muitos casos, integradas culturalmente inclusive. Nesse sentido, a educação tradicional, a educação construtivista, a educação montessoriana e assim por diante são formas essencialmente diferentes de conduzir o trabalho educativo, baseadas em modelos diferentes de realizar “o que fazer” pedagógico.

Porém, contrariamente ao que postulou Thomas Kuhn, e conforme as considerações de Edgar Morin, não se trata simplesmente de um paradigma substituindo outro paradigma, mas sim da existência de múltiplos paradigmas, o que Wallace Ribeiro, Wolney Lobato e Rita Liberato chamaram de realidade poliparadigmática, em que se admite a coexistência de múltiplos paradigmas simultaneamente. Essa visão é bem compatível com a realidade educacional brasileira, na qual em um mesmo sistema coexistem diferentes metodologias, fazeres pedagógicos e ideias, muitas vezes dissonantes entre si. Mário Sérgio Cortella fala na emergência de múltiplos paradigmas quando se refere à necessidade de repensarmos a prática dentro da educação.

NECESSIDADE EDUCACIONAL

A neurodidática é um ramo relativamente novo na área da neurociência pedagógica e se refere à aplicabilidade dos conceitos da neurociência na didática, ou seja, na forma de ensinar e aprender. Também se considera que neurodidática é sinônimo da neuroeducação, ou seja, a aplicação da neurociência na educação como um todo. De qualquer forma, trata-se de uma nova forma de encarar “o que fazer” pedagógico, e isso implica em subsidiar os procedimentos de sala de aula com base em fatos neurológicos de como funcionamos, como nosso cérebro processa informações, armazena, cria, ou seja, em como aprende. Tal concepção pode ou não incluir novas tecnologias educacionais, mas constitui mais uma forma de inovar na arte de ensinar e de aprender.

Cortella, já há algum tempo, vem questionando a forma tradicional de ensinar, especialmente em relação aos estudantes mais novos. Ao estabelecer que os alunos atualmente já não são mais os mesmos, faz uma clara referência a um lugar-comum no meio educacional para dizer que o que se está fazendo não está dando certo. E, ao assim dizer, se está dizendo por verossimilhança que o que se está fazendo em sala de aula não serve mais. Não é exatamente esse o pensamento do professor fictício lá no início de nosso relato?

Você se lembra dos ratinhos Sniff e Scurry, e dos duendes Hem e Haw? Se sim, deve se lembrar do livro motivacional Quem Mexeu no meu Queijo, de Spencer Johnson. Também há um vídeo disponível com a historinha na internet. Resumidamente, os quatro personagens diariamente vão atrás do Queijo. O Queijo é tudo aquilo que você deseja ter, e os personagens encontram o que precisam no posto de Queijo C, e avaliam que isso será suficiente para sempre. Um dia, porém, o Queijo acaba e um dos duendes fica atordoado e não consegue ir procurar outro posto de Queijo, sendo que os ratinhos e um dos duendes conseguem.

Quando conseguimos achar nosso Queijo, muitas vezes se entra na chamada “zona de conforto”. Quando estamos na “zona de conforto”, tendemos a não mais procurar, nossas necessidades estão atendidas. O posto de Queijo C é mais do que suficiente para as necessidades. Heron Beresford, ao falar sobre valor, relata que quando estamos em estado de carência, de privação ou de vacuidade, nos movemos para algo, pois lhe damos valor. Em outras palavras, são as nossas necessidades que nos movem, que ativam nosso interesse e que nos impelem a procurar algo. Se nossas necessidades estão atendidas, por que iremos procurar algo novo?

Mas, prosseguindo na metáfora, e se nosso Queijo relacionado a dar aula acabou? E se os alunos encontraram um Queijo mais atraente, ou simplesmente estão enjoados do nosso? Vamos fazer como um dos duendes, e ficaremos nos lamentando seguidamente, paralisados, ou iremos procurar outro posto de Queijo, que supra nossas novas necessidades? Sair da “zona de conforto” não é algo tão fácil, demanda investimento emocional, esforço e, talvez o mais difícil, a necessidade de entrarmos em terreno desconhecido, deixando para trás a segurança do que já fazemos.

Cortella diz que se o que fazíamos antes estivesse dando certo, não teríamos as situações que existem na área da educação. De fato, verificamos isso com facilidade quando deparamos com a altíssima incidência de bullying, professores com síndrome de burnout e resultados educacionais medíocres, especialmente em nível internacional. No que diz respeito à neurodidática, muita gente ainda está cautelosa ou mesmo acreditando que se trata apenas de um novo modismo, que vai passar. No dizer de Cortella, há uma resistência a mudanças aceleradas, com a consequente recusa à mudança.

NÃO É DISCIPLINA

Acreditamos que a neurodidática não é uma disciplina em si. É o professor quem irá fazer a sua neurodidática, se se permitir mudar para uma nova forma de entender como o nosso cérebro aprende e o que precisamos mudar para nos permitirmos vivenciar essa mudança de paradigma.

A neurodidática não pretende reinventar a roda. Pretende apenas explicá-la de um novo ponto de vista, o do entendimento das funções do sistema nervoso, e propor novas aplicações e formas de ensinar e aprender mais condizentes com a realidade de nossos alunos. Mas isso não é uma tarefa simples, pois ao pretendermos sair da nossa “zona de conforto” poderemos nos deparar com uma realidade que pode provocar em nós a paralisia paradigmática.

Uma das formas mais presentes desse tipo de postura bloqueadora são frases que já vimos ser usadas por alguns professores: “já estou velho demais para mudar” ou ainda “isso não é para mim”. Em nosso entender, normalmente essas são posturas mais emocionais do que propriamente demandadas de uma real impossibilidade e que realmente podem dificultar ou mesmo impedir possibilidades de mudança. Aquilo em que firmemente acreditamos constitui a mola propulsora do nosso comportamento. Se acreditamos ser possível, provavelmente será. O mesmo ocorre com o que acreditamos ser impossível.

Ocorre que o ensino tradicional e sua forma serial de ensinar não são mais condizentes com o cérebro digital e sua forma paralela de processar as informações. A predileção pelos conteúdos digitais manifestada pelos alunos contrasta drasticamente com a forma de ensinar de professores que utilizam somente o quadro branco da escola. Particularmente, não acreditamos que a utilização de mídias digitais e dos recursos tecnológicos em si seja a solução dos problemas educacionais, mas também acreditamos que a não utilização de nenhum recurso tecnológico contribui para a falta de motivação e o baixo rendimento.

Voltemos ao exemplo do início deste artigo, e também à metáfora do Queijo. E se tudo o que é feito por você, nosso professor fictício, se refere a um Queijo que não existe mais, ou que não é mais desejado pelos alunos? E se parte desse baixo rendimento da turma e de seu notório desinteresse não tem relação com a forma como você ensina?