EU ACHO…

O RISCO DOS MAUS HÁBITOS

Fiquemos atentos à Pibe, a “propensão individual ao bem-estar”

“As condutas, assim como as doenças, são contagiosas”, assinalou o filósofo britânico Francis Bacon (1561- 1626) no século XVI, o mesmo Bacon que inspirou o presidente americano Donald Trump a dizer que “um trata­ mento não pode gerar efeitos piores que os da própria doença”. Trump se referia à economia, antes de ter certeza de que o isolamento social seria a única maneira de conter o avanço da pandemia nos Estados Unidos. Seu pensamento acabou em descrédito, mas a frase filosófica que abre este artigo permanece atual como nunca.

A vida saudável entrou em lockdown, e com ela a vontade de manter o corpo em movimento. Academias fecharam, parques foram cercados e grupos de corrida, desfeitos. Nas redes sociais, vejo muitos perfis de pessoas saudáveis, e até mesmo de influenciadoras fitness, trocando cenas de treino e corrida por imagens de sofá, cobertor, bolo de cenoura e vinho. Em poucas semanas ganhamos motivos de sobra para ficar mais tristes, ansiosos, deprimidos e indulgentes. A sensação é que o mundo inteiro encontrou a desculpa perfeita para relaxar nos cuidados com o corpo. Mas será que precisava ser assim?

O fato é que os maus exemplos de conduta, disseminados pelas redes sociais, geram um tipo de contágio cuja distância social não previne: a propagação dos maus hábitos. Infelizmente, pouca gente procura alternativas para – ou se questiona sobre – atividades que preservem o bem-estar físico nestes tempos de pandemia.

Para mim, até hoje não está claro qual o risco real de praticarmos caminhada na rua protegidos por máscara, sem tocarmos em nada e mantendo a distância segura de outras pessoas, de acordo com as boas normas. Hoje cada país define suas regras de circulação fora de casa. Muitos deles, como a França e a Inglaterra, permitem a caminhada esportiva individual ou com animais de estimação na vizinhança, desde que a distância social seja respeitada. Outros, como a Espanha, no auge da epidemia, multavam mesmo os corredores solitários em 601euros. Nova York também não permitiu treino externo de modo algum.

Ainda que estejamos diante de uma enorme ameaça à saúde pública, não podemos ignorar o fato de que a falta de atividade física, combinada com maus hábitos alimentares, abre caminho para diversas doenças, inclusive a depressão. E, quando estamos prostrados, ou simplesmente de baixo-astral, a vontade de zelar pelo corpo cai consideravelmente, o que incentiva uma espiral negativa de desânimo, letargia, abatimento, stress e melancolia.

Hoje já se sabe que caminhar a 4 quilômetros por hora não põe em risco ninguém que esteja além de um raio de 5 metros de distância. Pensando que o afastamento social pode durar ainda alguns meses, com eventuais recaídas, não caberia uma discussão aprofundada sobre como regular a prática de atividade física durante a quarentena? Será que os parques públicos não poderiam permitir a entrada limitada de praticantes de caminhada, contanto que as pessoas respeitassem uma distância segura umas das outras, tal como é feito em supermercados e farmácias?

*LUCILIA DINIZ é empresária, escritora, apresentadora, socialite e youtuber brasileira, especializada em temas de saúde e bem-estar.

OUTROS OLHARES

A MAIOR APOSTA

Os primeiros resultados internacionais de estudos com um antiviral, o remdesivir, dão fortes esperanças rumo a um tratamento eficaz da infecção pelo novo coronavírus

Lá no outro mundo em que vivíamos, em fevereiro, quando a Covid-19 começava a se espalhar, ainda silenciosa e sorrateiramente, o consultor sênior da Organização Mundial da Saúde (OMS), o canadense Bruce Aylward, alocado na China, mal foi escutado ao chamar atenção para um composto químico desenvolvido em um laboratório da farmacêutica Gilead, em Poster City, na Califórnia, ao sul de São Francisco. “Há apenas uma droga com real eficácia contra a Covid-19”, disse Aylward. “É o remdesivir.” Criado em laboratório há exatos oito anos – o primeiro estudo foi publicado na revista Bioorganic &Medicinal Chemistry Letters em 15 de abril de 2012 -, o antiviral foi aplicado em dois outros momentos. Inicialmente, nas pesquisas em torno de um possível tratamento do surto de Mers, a síndrome respiratória por coronavírus, identificada na Arábia Saudita, naquele mesmo ano do primeiro registro científico do medicamento. E, depois, como terapia em casos africanos de ebola, na Guiné, Serra Leoa e Libéria, entre 2013 e 2016. Nos episódios da Mers, verificou-se em laboratório uma freada na multiplicação do vírus. Com o ebola, houve testes em humanos, mas os resultados foram decepcionantes.

A segunda vida do remdesivir, celebrada agora nos corredores da OMS, veio à luz de forma quase anedótica, bem ao modo de nosso tempo, o das redes sociais, da internet. No dia 16, o conteúdo de um vídeo sobre um estudo da Universidade de Chicago com 125 doentes (113 deles com infecções graves) foi vazado pela Stat News, uma influente publicação americana do setor de saúde. Nele, Kathleen Mullane, especialista em doenças infecciosas e líder dos ensaios clínicos, informava que, depois de iniciado o tratamento como remdesivir, os pacientes tiveram a febre diminuída rapidamente e alguns saíram dos ventiladores no dia seguinte. “Mas a melhor notícia é que a maioria dos nossos voluntários se recuperou e apenas dois morreram”, ela afirmou. A resposta pôde ser rapidamente medida em dólares. Pouco mais de quinze minutos após a celebração de Kathleen, as ações da Gilead, a fabricante da droga, saltaram até 14% nas bolsas de Chicago e Nova York. O índice financeiro Stoxx 600, que reúne pequenas e médias empresas de países europeus, registrou ganhos de 2,9%. O FTSE, de Londres, subiu 3,2%. Deu-se alguma oscilação natural nos dias seguintes, mas a Gilead cresceu e apareceu – e, tudo indica, definitivamente. As curvas ascendentes dos papéis foram o eco financeiro, medida de interesse global, atrelado a um par de ótimas notícias. Além dos dados vazados, outro trabalho, cujas conclusões foram publicadas na reputada revista científica The New England Journal of Medicine (NEJM), apontou boas respostas com o remdesivir. Um grupo de 53 pacientes afetados pela Covid-19 recebeu por via intravenosa 200 miligramas do antiviral e, na sequência, foi tratado ao longo de nove dias com 100 miligramas da substância. Depois de dezoito dias, 68% dos doentes apresentaram melhora na condição clínica – entre os trinta casos mais graves, controlados por meio de ventilação mecânica, na UTI, dezessete pacientes deixaram o quarto de tratamento intensivo. Do grupo inicial, sete pessoas morreram. Parece muito, mas o medicamento foi ministrado quando a situação já era desesperadora, e, mesmo assim, mais da metade se recuperou.

O renascimento do remdesivir, que anima os mercados e representa uma esperança, muito além de uma quimera, é a tradução de um dos movimentos mais fascinantes da aventura histórica da medicina, em especial da epidemiologia: substâncias originalmente desenvolvidas para determinada enfermidade são aplicadas, com sucesso, em outra. A trajetória mais espetacular foi de outro antiviral, a zidovudina, mais conhecida pela sigla AZT, que se mostraria eficaz no combate ao vírus HIV, da aids. Desenvolvida em 1964 como fármaco contra a leucemia, foi deixada de lado depois do desempenho ruim em testes com ratos. O criador da medicação, o americano Jerome Horwitz (1919-2012), guardou as anotações numa gaveta e disse a seus colegas da Wayne State University, em Detroit, uma frase que se tornaria célebre: “Desenvolvemos um conjunto muito interessante de compostos que aguardam a doença certa”. A partir da eclosão da aids, a inesperada e triste “doença certa”, o AZT voltou a entrar na engrenagem dos laboratórios. Foi patenteado pela farmacêutica Burroughs Wellcome (Horwitz nada recebeu) e, em 1987, quase 25 anos depois dos passos iniciais, acabou aprovado oficialmente pela rigorosa FDA, a agência de controle de saúde dos Estados Unidos. Em São Francisco, com o anúncio, foram organizados bailes de rua pela comunidade de homossexuais, então o grupo de risco mais atingido pela síndrome, para celebrar a boa-nova, o prólogo de um coquetel que salvaria vidas. A bioquímica Janet Rideout, agora com 81 anos, envolvida na descoberta da relação do AZT com o HIV, lembra-se daqueles dias como quem esteve na frente de batalha de uma guerra, e a metáfora ainda hoje é pertinente. “Trabalhávamos em altíssima velocidade”, recorda. “Havia muito nervosismo quando chegava a hora de administrar o medicamento aos pacientes pela primeira vez. Era assustador pensar que poderíamos prejudicar as pessoas que queríamos socorrer.”

A velocidade que se impunha é a mesma que se exige atualmente – e, tanto para o AZT quanto para o remdesivir, a corrida autorizou e autoriza a supressão de algumas etapas, como ocorre com a criação de uma vacina. O motivo é simples: não há tempo a perder. A conduta é atrelada a riscos. Os próprios cientistas da fabricante Gilead admitem algumas fragilidades, ainda, embora tenham a anuência das autoridades de saúde para seguir em frente. As investigações divulgadas na semana passada foram ancoradas em uma metodologia conhecida como “teste aberto”, em que médicos e pacientes sabiam que o remdesivir estava sendo ministrado – o padrão acatado hoje é o “duplo-cego”, em que ambas as partes trabalham com desconhecimento sobre o remédio oferecido. Evidências estatísticas realmente válidas virão de levantamentos mais amplos. Nesses ensaios, os doentes são divididos aleatoriamente em dois grupos – um recebe remdesivir e o outro, placebo.

Um estudo mais detalhado, dentro dos rigorosos moldes exigidos pela boa medicina, está sendo conduzido pela universidade americana de Nebraska. Iniciado em meados de fevereiro, terá os primeiros resultados concluídos em três semanas. Trata-se da pesquisa com o mais curto tempo para aprovação das autoridades do governo na história dos Estados Unidos. Financiada pelos Institutos Nacionais da Saúde (NIH) americanos, ela investiga a ação do remdesivir em 500 infectados de setenta instituições de saúde de diversos países, acometidos pela doença, em estado clínico de média e alta gravidade. “Estou esperançoso, mas o ímpeto para a descoberta da bala de prata não pode comprometer a ciência séria”, disse o infectologista e intensivista brasileiro André Kalil, um dos coordenadores do trabalho de Nebraska.

Na terça-feira 21, autoridades dos NIH informaram, claramente, a inexistência de remédios já aprovados para o controle da Covid-19 – mas puseram o remdesivir no grupo de substâncias que aguardam “dados definitivos de ensaios clínicos para identificar tratamentos ideais”. Faz parte do pacote outro antiviral, a famosa cloroquina, a droga da ideologia, desenhada originalmente contra malária, lúpus e artrite reumatoide. Cabe aqui fazer uma pergunta que não quer calar: por que, afinal de contas, apostar no remdesivir e não na cloroquina? “Os primeiros relatos que indicam a eficácia da cloroquina, um antiviral e anti-inflamatório disponível no mercado e barato, contra uma epidemia desconhecida nos entusiasmaram”, afirma a pesquisadora da molécula Ludhmila Hajjar, intensivista do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. “Mas o tempo tem mostrado que os resultados não representaram melhora real para os doentes.” Entre os problemas estão efeitos colaterais drásticos, como arritmia e defeitos visuais. Há relatos de mortes em decorrência das aplicações. São obstáculos que não foram identificados na trajetória do remdesivir com a Mers e o ebola, apesar da insuficiência de certezas. Ressalte-se, ainda, que o remdesivir atua de modo muito mais direto no controle da circulação do coronavírus no organismo.

Não seria exagero dizer, portanto, que estamos hoje, com três décadas de avanços em tecnologia e ciência, em momento semelhante ao da véspera do bater de tambores com o AZT – talvez seja cedo ainda, talvez haja demasiado e humano otimismo, mas dados os investimentos em jogo (só nos Estados Unidos, despendem-se 8 bilhões de dólares, o equivalente a 44 bilhões de reais, em pesquisas com o remdesivir e similares) e o empenho da OMS, além da iniciativa privada, há uma avenida aberta, como a de uma cidade em isolamento. A disputa, paralela e positiva, é outra – o que virá antes, um medicamento poderoso, sem falsas promessas, como pode ser o remdesivir, associado a mecanismos de fortalecimento do sistema imunológico, ou a vacina. É uma luminosa luta pela vida.

QUANDO O CORPO SE DEFENDE

As terapias que estimulam o organismo a se proteger de doenças são vitais em qualquer circunstância. Mas no caso da Covid-19 ganharam relevância. Há uma explicação: sempre que um vírus, bactéria ou fungo entra na circulação sanguínea, o corpo tenta se livrar do ataque criando anticorpos. Os anticorpos, por sua vez, ativam substâncias inflamatórias, denominadas citocinas. Em quantidades razoáveis, as citocinas agridem o invasor. O novo coronavírus, no entanto, espalha-se de forma tão rápida que os níveis do composto no sangue vão às alturas – é o que a ciência chama de “tempestade de citocinas”. O processo inflamatório, portanto, que era para ajudar, fragiliza os pulmões, que ficam cheios de líquido.

O antiviral interferon-beta, originalmente usado na hepatite, é uma das moléculas testadas para aplacar o mecanismo. Ele está justamente envolvido nos processos inflamatórios. O tocilizumabe, atualmente aplicado no tratamento de artrite reumatoide, também age na inflamação.

Entretanto, um dos caminhos mais bem-sucedidos, uma sinfonia de anticorpos, tem sido a transfusão de sangue de pacientes já curados da Covid-19 para pacientes graves. A transfusão é do plasma, a parte incolor e líquida do sangue, composta de água, proteínas e anticorpos criados no contato com o vírus. A terapia já está sendo utilizada em vários países, incluindo EUA, China, Reino Unido e França. No Brasil, os hospitais Albert Einstein, Sírio-Libanês, da USP e da UFRJ estão entre as instituições que foram autorizadas a fazer testes clínicos. “Se funcionar, será útil para evitar que um grande número de pessoas vá para a UTI”, diz Luiz Vicente Rizzo, diretor de pesquisa do Einstein. A estratégia já foi usada durante a pandemia de gripe espanhola, em 1918, e de Sars, em 2003. Dados de uma pesquisa publicada no periódico científico JAMA são animadores, embora incipientes. Das cinco pessoas que estavam ligadas a respiradores e receberam a transfusão, três tiveram alta e duas permaneceram estáveis.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 09 DE MAIO

JESUS LIBERTA À DISTÂNCIA

Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé!

Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã (Mateus 15.28).

Jesus retirou-se para as bandas de Tiro e Sidom, fora dos limites de Israel. Uma mulher estrangeira, profundamente aflita, clamou a Jesus: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada (v. 22). Espíritos malignos atormentavam sua filha, e o sofrimento da filha era o seu próprio sofrimento. A mulher não disse: “Senhor, tem compaixão da minha filha, mas tem compaixão de mim”. A dor de sua filha era a sua dor. O drama de sua filha era o seu drama. Diante do silêncio de Jesus ao clamor da mulher, os discípulos intervieram, rogando a Jesus que a despedisse. Jesus rompeu o silêncio, mostrando que fora enviado às ovelhas perdidas de Israel. A mulher, porém, em vez de desistir, adorou a Jesus, dizendo: Senhor, socorre-me! (v. 25). Mas Jesus respondeu: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-los aos cachorrinhos. Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. Então, Jesus lhe disse: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo, como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã (v. 26-28). Essa mãe não desistiu de ver a filha liberta. Não abriu mão de ver um milagre em sua casa. Buscou Jesus, clamou, adorou e triunfou pela fé. Essa é a sua experiência?

GESTÃO E CARREIRA

NA MIRA DO ELÉTRICO

Aplicativo pioneiro em mobilidade por veículos elétricos, BeepBeep aposta em crescimento mesmo com crise da Covid-19.

Pioneira no compartilhamento de carros elétricos no Brasil, a BeepBeep não se assusta com o período de imprevisibilidade trazido pelo surto global de Covid-19 e asfalta o terreno para manter as projeções de crescimento –o serviço, que tem 30 veículos em duas cidades paulistas (a capital e São José dos Campos), pretende encerrar o ano com 100 em pelo menos mais três municípios (Guarulhos-Aeroporto de Cumbica, Campinas-Aeroporto de Viracopos e Barueri). “A meta é terminarmos a crise mais fortes e atrativos para nossos clientes”, afirma o CEO, Fábio Fagionato.

O executivo diz que monitora a demanda e pode reduzir a operação B2C temporariamente, por causa da quarentena. Enquanto as decisões são estudadas, a empresa orienta os usuários sobre a importância da higienização pessoal e do carro, aumenta a frequência de limpeza dos automóveis e adota home-office para funcionários do setor administrativo.

DENSIDADE DEMOGRÁFICA

A companhia foi lançada em julho do ano passado, em São Paulo, com aporte de R$ 3 milhões. “A população paulistana está acostumada ao uso de tecnologia e tivemos a visão de que o compartilhamento de veículos elétricos era uma tendência”, afirma Fagionato. Outros pontos levados em consideração foram a densidade demográfica e a grande oferta de eventos e de centros comerciais espalhados por diversas regiões. “Se não der certo em uma cidade com essas características, não dará em lugar nenhum”, diz Fagionato.

Inicialmente, foram disponibilizados 10 automóveis, com poucas estações de carregamento. Hoje, são 30 veículos, espalhados por pontos que permitem a realização da carga e em locais de grande fluxo de pessoas – a maioria em shoppings, hotéis, supermercados e centros comerciais. Por isso, é fundamental o acompanhamento em tempo real dos desdobramentos da crise provocada pelo coronavírus.

Os veículos têm autonomia média de 300 quilômetros. “A sensação do carro elétrico é ótima, não faz barulho e quando acelera, responde.” O app já tem 20 mil downloads. Para usar o serviço, paga-se R$ 4,90 para a liberação do carro e R$ 0,40 por minuto (até seis horas). Para reservas acima de 48 horas, o valor cai, chegando a R$ 0,18 o minuto. As recargas são gratuitas e o valor do seguro está no preço. “E não tem burocracia. É um modelo de negócio que reúne sustentabilidade, mobilidade e tecnologia.”

MOBILIDADE AMPLIADA

Com foco na mudança de hábito provocada pela pandemia da Covid-19, a startup Vai ampliou em 1.200 unidades a frota de veículos para compartilhamento – o número total não é divulgado por questões contratuais. O aumento se deve à necessidade de locomoção dos trabalhadores de serviços essenciais e mira ainda na retomada do mercado após a quarentena. Especializada em locação mensal de automóveis, a empresa se diferencia pelo DNA estritamente digital. “Somos uma plataforma de tecnologia que opera sem lojas físicas. É a principal diferença em relação aos concorrentes”, diz João Paulo Galvão, cofundador e CEO.

Criada em Miami, em 2016, por Galvão, Fernando Fiuza e o canadense Apoorv Gupta, a Vai trocou os Estados Unidos pelo Brasil, onde passou a operar em dezembro de 2017, sob o comando de Hélio Netto, após aplicação inicial de US$ 10 milhões. Seus investidores são a Bossanova Investimentos e o Grupo BMG e espera faturar R$ 320 milhões até 2021 – a receita entre janeiro e setembro de 2019 foi de
R$ 60 milhões. Em fevereiro, a startup captou R$ 380 milhões para acelerar a expansão. A meta é chegar a 12 mil veículos ainda este ano. “Temos um plano muito claro a longo prazo e estamos preparados para possíveis diminuições nos negócios por alguns meses durante o período da pandemia.”

A empresa simplifica o aluguel, não exige depósito caução e não faz consulta de crédito – 60% dos usuários são motoristas de aplicativos. Em outubro, a Vai atingiu 100 mil inscritos na plataforma. A contratação do serviço é feita por meio de aplicativo para smartphone ou website. O cliente escolhe o modelo, a data de entrega e o meio de pagamento. As locações são mensais, com pagamentos semanais. Motoristas da empresa entregam e retiram o carro na casa do cliente. Manutenção, seguro e revisões estão incluídos no preço e a quilometragem é livre. Atualmente, Vai opera em São Paulo, em Guarulhos e no ABC Paulista.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PULSEIRINHA DO AMOR

Como o acessório se transformou no novo “anel de compromisso” dos jovens casais

Com olhos de lince, típicos dos fãs mais apaixonados, alguns seguidores de Camila Cabello e Shawn Mendes notaram recentemente um detalhe novo no visual do casal de cantores. Shawmila – como foi apelidada a dupla, pela contração dos nomes – levava no pulso uma pulseira diferente. Millie Bobby Brown, de 15 anos, a Eleven da série Stranger things, da Netflix, publicou no Instagram em 4 de janeiro uma foto em que aparece usando o mesmo acessório. Diante dessa espécie moderna de anel de compromisso, a pergunta se impôs: quem estaria usando o bracelete correspondente ao dela? Poucos dias depois, ela anunciaria o namoro com Joseph Robinson, de 17 anos, filho de um popular jogador de rugbi. Não demorou para que o acessório secreto fosse revelado: uma pulseira eletrônica inventada para ajudar quem vive um relacionamento a distância.

0 nome do objeto que conseguiu a proeza de tornar insuficientes os milhares de ferramentas de relacionamento contidos em aparelhos celulares e smartwatches é Bond Touch, da empresa Impossible, que tem sede no Vale do Silício e também em Portugal – em português, a tradução mais próxima para o produto e “toque de união”. Apesar de constar no figurino das celebridades, o preço cabe no orçamento de outros públicos: um conjunto de duas pulseiras sai por US$ 98 (cerca de R$ 420). 0 material é simples, emborrachado, o que garante que seja a prova d’agua, e o design faz lembrar aqueles modelos frequentes nas academias para monitoramento de batimentos cardíacos. Mas a função do retângulo disposto em cima da pele se restringe a vibrar e piscar uma luz colorida, o que acontece sob comando da pessoa amada. Quando um dos usuários toca em sua pulseira, o outro recebe instantaneamente o estimulo no pulso, com a intensidade e a cor escolhidas pelo remetente.

A pulseira foi lançada em 2017, mas só agora, já em sua segunda versão, com o empurrão das celebridades, tornou-se moda. Em razão da popularidade, sobretudo nos Estados Unidos, também passou a despertar a curiosidade de estudiosos sobre até onde vai a necessidade dos casais de aderir a novos formatos virtuais de relacionamento. Para a psicanalista Regina Navarro, contudo, o produto significa um retrocesso na evolução das relações amorosas. “Isso é um horror”, sentenciou a autora de Novas formas de amar (Planeta). “Está na contramão de tudo que a gente está começando a perceber nos relacionamentos. O amor romântico está dando sinais de sair de cena.” Por “tudo” a escritora entende tendências como relacionamento aberto e poliamor, que ganharam força nos últimos anos. “Essa pulseira reforça a ideia de controle, de uma coisa monitorada o tempo todo, e um namoro a distância tem chance de funcionar bem desde que você rompa com esse modelo e privilegie os momentos em que estão juntos”, avaliou Navarro.

O psiquiatra Daniel Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, tem uma visão menos fatalista do novo gadget. “Não vejo como ruim uma outra possibilidade de se conectar com alguém de quem você gosta, mas toda tecnologia traz benefícios e problemas. Para alguns, sem dúvida, isso pode escorregar para uma coisa de monitoramento. Só que não é a pulseira que gera isso, é uma questão anterior”, ponderou o médico.

A possibilidade de uma nova forma de vigilância tem feito o produto ser procurado também por famílias, afirmou Joana Caramba, chefe de Comunicação da fabricante. Além dos casais, o interesse vem principalmente de pais de universitários que acabaram de sair de casa para morar no campus, uma tradição nos Estados Unidos – país que é o maior mercado do produto, seguido de Canadá, Austrália, Reino Unido e Alemanha. No Brasil, é possível encomendar as pulseiras pela Amazon, com custo adicional de frete.

Para a mensagem ficar mais completa, é comum que, informalmente, os usuários combinem códigos adicionais. Três batidas, por exemplo, significam “Eu te amo” para John de Los Reyes, morador de Manteca, e sua namorada, Rosie, de Los Angeles – a distância entre as duas cidades da California e de mais de 530 quilômetros, uma viagem de carro de cinco horas. Duas pressionadas querem dizer “Cheguei bem emcasa”, enquanto cinco são para avisar que entraram no trabalho. Já um toque único e mais longo vale por um abraço. As cores também estão acertadas: roxo para ela e verde para ele, seus respectivos tons preferidos. “Como nem todos podem ter acesso ao telefone o tempo todo, como é para mim quando estou no trabalho, poder enviar os toques me deixa com um sorriso no rosto”, contou Reyes. O bem-estar sensorial também é descrito pela dona de casa Carrie McCurdy, de 56 anos, de Edmonton, Canadá. Ela decidiu comprar um kit para dividir com o marido, que viaja muito a trabalho – a iniciativa parte da mulher em 80% das vendas, segundo dados da empresa. Além das questões do trabalho, não precisar da tela do celular para fazer contato também é útil para quem frequenta locais que proíbem o uso, como escolas e universidades – é o público-alvo da fabricante, definido entre 18 e 30 anos, está em boa parte nessa etapa da vida. A pulseira exige conexão ativada de Bluetooth e internet via Wi-Fi ou pacote de dados. É assim que o tremelique amoroso consegue atingir seu destinatário em qualquer parte do mundo. É possível saber a localização do usuário, como está o tempo naquele local e quanto falta para sua bateria acabar.

Mas o que é motivo de satisfação também pode ter seu lado cruel. Para os controladores, se na outra ponta da pulseira houver um silêncio, não há desculpa que possa solucionar o sentimento de frustração. A estudante Lauren Heffner, de 18 anos, de Santa Cruz, California, usa a pulseira com o namorado, que vive a meio país de distância, no Texas, a mais de 3 mil quilômetros. “Se ele for controlador, se tornará um dispositivo de abuso em vez de amor.