EU ACHO…

A CORRIDA PELA EFICIÊNCIA

O mundo pós-Covid-19 terá transformações inimagináveis, desde a urbanização de comunidades até iniciativas de solidariedade, trazendo a ciência de volta ao centro das decisões

Vamos ver ou não mudanças duradouras no pós­ Covid-19? Possivelmente, teremos mais transformações do que imaginamos, mas não em tudo o que poderíamos abraçar. Já estamos vendo a democratização do uso da telemedicina, enquanto a educação remota se instala de modo mais permanente, com os pais aprendendo, em paralelo, como é difícil manter os jovens de hoje focados nos estudos por algumas horas. Descobrimos o prazer de estar juntos como família. Assistimos ao renascer do cozinhar como uma forma de socialização importante no elo do lar. Nosso olhar muda ao percebermos melhor as cidades que habitamos. O relógio mais lento do tempo faz tudo parecer maior, mais colorido e mais impactante. Nunca se fotografou tanto o pôr do sol como agora. É verdade que temos menos poluição, mas a resposta não está aí. Estamos simplesmente olhando. Antes não o fazíamos. O cansaço digital, provocado por dezenas de vídeos ao longo do dia, fora a avalanche de mensagens, está nos levando a valorizar mais o não digital, ou o não tecnológico. E como se estivéssemos havia dias armazenando emoções, e nos reenergizamos ao estar mais próximos de nós mesmos. É o prazer do silêncio reflexivo versus o ruído permanente da superficialidade da informação.

No campo humano, muita coisa mudará. No campo dos negócios, também. A questão da limpeza será mais relevante na interação com o consumidor. Quem sabe passaremos a ver os banheiros públicos de outra maneira? Do cuidado que temos na cabine do avião à preocupação com os rios, espero maior indignação do consumido. É preciso reconhecer que lidamos com um mundo invisível a olho nu, microscópico, mas que deve ser tratado de forma séria. O retorno do sarampo ao Brasil é uma das novas ameaças que continuarão a aparecer para nos assombrar, fora outros patógenos que vão surgir. A importância dos nossos mananciais de água fresca, o saneamento tornando-se algo que deve ser visto não só como infraestrutura, mas como proteção à vida dos mais de 200 milhões de brasileiros, ou seja, como política de saúde pública. Do mesmo modo devemos encarar a necessidade de acelerar a construção de habitações dignas para todos, possivelmente com um projeto nacional de urbanização de comunidades pelo país.

Talvez tenhamos de estabelecer linhas de financiamento de muito longo prazo para que cada família possa melhorar sua casa, com direito à propriedade e à implementação de saneamento e água por parte do Estado. O indivíduo é a semente de transformação da sociedade neste século.

Outro aprendizado até agora: a importância de um Estado eficaz. O Estado é o gestor dos diversos conflitos da sociedade. Devemos aproveitar este momento, quando estamos investindo dinheiro que não necessariamente temos, para mitigar o efeito regressivo desta crise nas camadas mais pobres. Cabe a nós, no sistema financeiro, fazer com que os recursos cheguem rapidamente aos cidadãos. Hoje, somos capazes de uma reação mais rápida, de levar liquidez a milhões de uma forma que teria sido impensável dez anos atrás. Tudo graças aos investimentos tecnológicos das últimas décadas. É essencial aproveitar esta ocasião para alcançar saltos maiores na digitalização, porque, no fim, a tecnologia liberta o consumidor, dando a ele a capacidade de decidir onde, de que forma e quando. Milhões de contratos de empréstimos estão sendo renegociados agora sem intervenção humana. Isso também era impensável alguns anos atrás. A revolução não para por aí. A discussão fintechs versus bancos desaparece, porque não é relevante. Aliás, nunca o foi. Mais concorrência é fundamental e não deve ser tratada como belicosa, e sim como complementar e necessária. O setor automotivo se beneficiou da criação da Tesla, do mesmo jeito que o sistema financeiro se beneficia dos serviços premium da Amazon.

A liderança do sistema financeiro vinha mudando, e a crise deixou isso mais claro. Nós nos reunimos para enfrentar o tamanho da crise. Concorrentes sim, mas não adversários: essa se tornou a linha de pensamento de atuação.

Das iniciativas de solidariedade à construção de soluções com o setor público, como a linha de financiamento às folhas de pagamento, os bancos demonstram uma vontade inabalável de ser parte da solução e do processo de cura econômica. Como disse o ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, o sistema financeiro une o futuro ao presente. Hoje já trabalhamos para esse futuro. É claro que existirão os detratores, que veem no lucro um pecado capital, esquecendo-se dos impostos e dividendos pagos e dos empregos gerados, acreditando que as instituições financeiras privadas deveriam estar completamente a serviço de políticas públicas. São críticas válidas, mas carecem de maior entendimento do princípio mais importante no sistema financeiro, que é cuidar bem de seu dinheiro, e para isso existem fronteiras que não podemos cruzar. Da mesma maneira, fica provado o valor de termos um banco de desenvolvimento como o BNDES, que, com o setor privado, pode funcionar como um motor para nos tirar da crise. Por último, a pandemia trouxe a ciência de volta ao centro do processo decisório. Como vemos no fenômeno das lives de todas as naturezas, o valor da ciência não ofuscou o valor da prece. Vários grupos rezam por aqueles que estão internados, e nada disso conflita com o valor científico do que hoje sabemos acerca do vírus. Temos de retomar a capacidade de conviver com a ambiguidade, reduzindo a necessidade de verdades absolutas. Elas não existem em diversos campos. Temos de aprender com a polaridade de opiniões e de visões, porque essa é a riqueza de ser humano. Somos contraditórios, sim, mas não podemos esquecer que somos a espécie que pensa e resolve problemas complexos. Estamos completamente interconectados economicamente e também como espécie. A partir dessa constatação, temos de aprender a construir uma sociedade capaz de celebrar não apenas um lindo pôr do sol, mas o fato de podermos nos ajudar uns aos outros sempre. Que este vírus nos contamine de forma permanente com a solidariedade, e com mais humildade para servir.

*SÉRGIO RIAL é presidente do banco Santander Brasil

OUTROS OLHARES

ALÉM DE CONTAMINAÇÕES E ÓBITOS

A pandemia em números pouco conhecidos

DIVÓRCIOS

O número de divórcios na China aumentou com o lockdown. Cidades como Xian e Oazhou tiveram recordes no número de separações. Nos Estados Unidos, ainda é cedo para dizer se o Sars-CoV-2 também teve o mesmo impacto entre os casais. Nas crises econômicas de 1929 e 2008, as taxas de divórcios caíram – separações saem caro.

MACONHA

Segundo estudo do banco de investimento Cowen, o uso recreativo de cannabis chegou a um recorde histórico em março passado nos Estados Unidos.

Naquele mês, a média de pessoas que disse ter experimentado a planta foi de 33%, contra as 12,8 % habituais. Nos últimos meses, a venda legal de maconha no país cresceu 6 4%.

DRIVE-INS

Os cinemas esvaziaram, claro. Mas os drive-ins experimentaram um revival. Na semana de 15 a 22 de março, segundo o Deadline Hollywood, o filme mais visto foi Dois Irmãos, a animação de Dan Scanlon. Ao todo, o filme arrecadou US$ 71 mil – o que, em tempos de pandemia, pode ser considerado uma fortuna.

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Lançado em abril pela ONU Mulheres, braço da ONU em defesa da igualdade de gênero e do empoderamento feminino, o documento Pandemia na Sombra: Violência contra Mulheres e Meninas e Covid-19 alerta para o risco de aumento das agressões durante o período de distanciamento social. Em geral, os casos de violência contra mulheres dobraram.

VIOEOGAMES

A Nintendo está passando por uma grande fase. O lançamento do jogo Animal Crossing: New Horizons, em meados de março, fez a plataforma Nintendo Switch ter a melhor semana de vendas no Japão. Segundo dados da Media Create, entre 20 de março e 5 de abril, Animal Crossing vendeu cerca de 3 milhões de unidades, enquanto o Switch vendeu 830 mil unidades.

SUPERMERCADOS

Estudo da Kantar na América Latina revelou crescimento de 211% na compra de papel higiênico, 98% de produtos para cuidados com a casa, 79% de detergentes e 73% de cereais em março.

No geral, as despesas nos supermercados aumentaram em 25% apenas na cidade de São Paulo, na semana entre 16 e 22 de março em relação à semana anterior.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 06 DE MAIO

TEM CUIDADO DE TI MESMO E DA DOUTRINA

Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres… (1Timóteo 4.16a).

A teologia e a vida andam de mãos dadas. Doutrina e ética não podem ser separadas. É impossível ter uma teologia torta e uma vida reta. A vida decorre da doutrina. A ética procede da teologia. Infelizmente, temos visto muitas pessoas se perderem no cipoal das paixões porque são governadas por falsas doutrinas. Os falsos ensinos desembocam numa vida desregrada. Mas é também extremamente deplorável que alguém professe a sã doutrina e viva uma vida rendida ao pecado. Esses pecam não porque lhes falte o conhecimento, mas pecam contra o conhecimento. São duplamente culpados e enfrentarão juízo ainda mais rigoroso. O conselho do veterano apóstolo Paulo a seu filho Timóteo continua oportuno e atual: Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Os perigos estão à nossa volta. São constantes as vozes sedutoras que nos chamam a abraçarmos novas doutrinas e adotarmos novos padrões morais. Precisamos de cuidado e cautela. Muitas vezes, a sã doutrina nos faz remar contra a maré, como fez o profeta Elias nos dias do ímpio rei Acabe. Muitas vezes, o compromisso com uma vida santa nos torna impopulares no meio de uma geração que se corrompe. Não podemos, porém, ser como Sansão, que, mesmo nazireu, deu um banquete porque esse era o costume dos moços de sua época. Precisamos ter coragem para sermos e agirmos de forma diferente, ainda que isso nos custe a popularidade e a própria vida. Nosso chamado não é para sermos populares, mas para sermos fiéis!

GESTÃO E CARREIRA

DEMANDA REPRIMIDA

Na retomada do comércio na China, o movimento surpreendente nas lojas sofisticadas mostra que o mercado do luxo pode escapar de ser contaminado severamente pela crise

Ao mesmo tempo que ainda contabilizam os enormes prejuízos pela paralisação forçada, comerciantes de países que ensaiam o retorno à normalidade experimentam a sensação de um salto no escuro diante do novo mundo pós-pandemia. As pessoas vão voltar a frequentar restaurantes? Terão disposição e dinheiro no bolso para entrar em uma loja? Depois do trauma de milhares de mortes e da incerteza que ainda paira a respeito da disseminação da doença, ninguém sabe a resposta exata para essas questões. Na fase de primeiras experiências que tateiam a retomada das atividades, ao menos um setor (de forma surpreendente) já tem motivos para se declarar menos propenso à contaminação: o de negócios de luxo. O laboratório que trouxe notícias otimistas é a China, país que é responsável por um terço do consumo global dessa indústria. Ao voltarem recentemente às compras, os ricaços da potência asiática mostraram um grande apetite.

As informações sobre a movimentação chamam atenção. Segundo o WWD, publicação que é referência entre profissionais do mercado de artigos sofisticados, uma única butique da centenária grife francesa Hermes, em Guangzhou, uma das maiores cidades da China, teria faturado 2,7 milhões de dólares apenas em sua reabertura, no último dia 11. O evento reuniu vips e endinheirados da abastada província de Guangdong, atraídos por modelos raros da bolsa Birkin, peça que sintetiza como poucas o conceito de exclusividade. Uma recuperação rápida do consumo de lá seria a tábua de salvação para a indústria do luxo, que ainda enfrentará dias difíceis sob o efeito da pandemia no Ocidente – em especial nos países que são sinônimos do setor, como a Itália e a França. Os dois grupos superpoderosos do segmento, o LVMH (leia-se Louis Vuitton, Dior e Givenchy, entre outras marcas) e o Kering (que tem a Gucci como carro-chefe), anunciaram quedas de 15% no primeiro trimestre do ano. Nas primeiras semanas de abril, porém, o LVMH registrou uma boa reação nas lojas da China, algumas delas com aumento de 50% nas vendas em relação a 2019.”Temos observado taxas de crescimento substanciais, que mostram o apetite dos clientes para voltar às lojas depois dos meses de confinamento”, disse Jean­ Jacques Guiony, chefe da área financeira do conglomerado, em recente apresentação de resultados.

Seguindo procedimentos rigorosos, como ter a temperatura medida por dispositivos que dispensam o contato físico na entrada de estabelecimentos comerciais, os chineses estão voltando a frequentar shoppings, lojas e restaurantes das grandes cidades. “A reabertura tem sido gradual, um processo de várias semanas. Quando o comércio retomou as operações, o movimento foi baixo. Mas, agora, a maioria dos consumidores está confiante nas perspectivas econômicas. As vendas on-line, por exemplo, já estão ultrapassando os níveis de 2019”, afirmou Daniel Zipser, líder da área de varejo da consultoria McKinsey na potência asiática. Em uma pesquisa feita pela empresa em abril, 52% dos chineses disseram esperar que a economia se recupere em dois ou três meses.

A despeito dessas boas notícias, a nova ordem mundial criou um ponto sensível que terá indiscutível impacto sobre o consumo de luxo nos próximos meses: as viagens. Diversas pesquisas revelam que os chineses fazem apenas um terço das compras desses artigos dentro do próprio país. Deixam o resto para as visitas ao exterior, em especial Europa e outros destinos da Ásia – não só para aproveitar os preços mais baixos, mas pela experiência autêntica de escolher uma peça no lugar que representa as origens da grife. “Devemos olhar agora as vendas globais das marcas de luxo por nacionalidade. Sem as viagens, para haver de fato um crescimento, precisamos ver um aumento de duas ou três vezes nas compras dos chineses em seu país para compensar a queda no movimento turístico”, diz Luca Solca, analista da consultoria Bernstein Research. Para ele, há ainda uma questão mais básica a ser respondida: as pessoas continuarão com uma vida social tão ativa quanto antes da pandemia ou terão receio de se expor? “Se os consumidores não saírem de casa com a mesma frequência, as ocasiões para o uso de roupas e acessórios serão mais restritas”, lembra o especialista. O alerta faz sentido e preocupa os principais players da indústria do luxo no mundo. Mas, na China, o medo ficou para trás e é hora da festa da demanda reprimida.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS FRUTOS DO EROTISMO

A importância dos símbolos para lidarmos com nossos impulsos e desejos

Muitas vezes me pego sentada em frente aos enormes anúncios de calcinhas absorventes para menstruação, da Thinx, pregados por toda parte no metrô de Nova York, com uma grapefruit aberta e uma fonte elegante: simples, vulvar, moderna, antiquada. Nos últimos tempos, propagandas do laboratório especializado em saúde feminina SmartJane povoaram meu feed de notícias do Facebook, solicitando que eu envie uma amostra para descobrir o coquetel do pH particular de minha vagina. Outra grapefruit, partida ao meio — essa menos suculenta. A embalagem de meu anticoncepcional adverte que não devo comer essa fruta: “Grapefruit e suco de grapefruit diminuem a quebra de estrogênio no corpo. Embora o aumento do estrogênio não deva diminuir a eficácia da pílula, pode potencialmente elevar os riscos de efeitos colaterais, como coágulos de sangue e câncer de mama”. De alguma maneira, ao tentar impedir a frutificação de minha própria grapefruit, fui proibida de consumi-la — o que parece significativo, se não irônico. A grapefruit como vulva proliferou tanto médica como sensualmente, de eufemismo para o marketing de higiene a uma nova e estranha prática sexual de “grapefruiting”.

Essa ruptura da coisa como é representada em relação a sua pureza e seu tabu é um tema comum quando se trata de frutas e sexualidade. Tome como exemplo a cereja: vermelha, suculenta, com uma fenda. É, ao mesmo tempo, a virgindade perfeita da jovem estudante e sua travessura sedutora — seus lábios corados de cereja, o jeito como dá um nó no talo com sua língua. Enquanto a cereja permanece intacta, a grapefruit dificilmente cumpriria seu propósito vulvar sem ser cortada ao meio — afinal, não é o melão, conhecido por representar os seios, fartos e redondos. A iconografia nunca fica sem seus ricos e conturbados códigos.

O fruto do sexo/sexo do fruto é ubíquo. Há os anúncios de saúde sexual do Departamento de Saúde de Nova York: uma captura de tela de um emoji de berinjela enviado como mensagem picante e um imperativo “Faça os testes”. Ou os novos pôsteres da Hims — a empresa de disfunção erétil da geração Y —, com um cacto flácido caído por cima do vaso. Penso no suco de abacaxi, na reivindicação do gozo frutado, na música Gatinha, deixa eu ver você rebolar/E talvez eu ajoelhe/Deixa eu provar essa manga, de G-Eazy. Tive a impressão que todos nós passamos a apertar de maneira um pouco diferente o pêssego na feira orgânica depois da cena em Me chame pelo seu nome na qual o jovem Elio se masturba na fruta que seu amante mais velho, Oliver, tenta comer em seguida. Se um homem pede champanhe para vocês dois, isso indica apenas uma comemoração. Se pede champanhe com morangos, é quase certamente não platônico. Nossa correlação entre frutas e sexo se estende para além da banana das aulas de educação sexual, até nossa concepção do ilícito.

O fruto em si é o ovário aumentado de uma planta que está florescendo. Dissemina as sementes ao mesmo tempo que as contém dentro de si, sendo, portanto, uma metáfora para o inseminador e o inseminado. Nas mitologias grega e romana, Agdistis era uma divindade que possuía órgãos sexuais masculinos e femininos. A natureza de sua intersexualidade transformou-a em uma ameaça aos deuses — temendo-a, Dionísio batizou o vinho de Agdistis e amarrou seu pé a seu pênis. Sem saber, ao se levantar depois de acordar, ela arrancou o órgão de seu corpo. O sangue que jorrou de sua ferida fertilizou o solo, do qual nasceu uma árvore de romã. Quando a filha do deus de um rio descobriu a árvore, ela colocou uma romã entre seus seios para levar para casa e imediatamente ficou grávida do deus Átis. A romã não é o fruto da permissão; aparece em mais de uma história sobre o corpo da mulher como um conflito. Em “O estupro de Perséfone”, o episódio é provocado depois de Perséfone comer sementes de romã, o fruto do Submundo, e ser raptada pelo desejo de Hades. Há frutos que dão tanto quanto tiram.

Na Bíblia, “frutos” significam os produtos — palavras, ações, pensamentos — da alma. O povo de Deus deve “dar muitos frutos” (João 15:5, 8). Há dois tipos que a alma pode produzir: frutos do espírito e frutos da carne. É fácil supor qual dos dois é o virtuoso. Mas qual fruto não é da carne?

A parábola da figueira de Cristo enfatiza que, espiritualmente falando, uma árvore que dá frutos não tem valor sem eles (Lucas 13:6, 9). “Certo homem (…) disse ao agricultor: ‘Olhe! Hoje faz três anos que venho buscar figos nesta figueira, e não encontro nada! Corte-a. Ela só fica aí esgotando a terra’. Mas o agricultor respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e pôr adubo. Quem sabe, no futuro ela dará fruto! Se não der, então a cortarás’.”

A fruta não é apenas boa, mas também compulsória para a continuidade da existência. Dá e cria vida. A mulher deve carregar os frutos de seu ventre e o homem deve apoiar os frutos de seus testículos, e ainda assim algumas frutas não devem ser comidas. Algumas delas perpetuam nossa queda — aquela infame e eterna maçã serpentina. Ou nem sequer uma maçã — muitos estudiosos antigos ou bíblicos acreditam ter se tratado de um figo ou uma romã. Quando Adão e Eva comem o fruto proibido, eles cobrem suas vergonhas com folhas de figo. Essa fruta não só traz fortes conotações sexuais na arte ocidental, representando o santuário interno de uma mulher — a palavra italiana para figo, “fica”, também significa “boceta” —, como sua própria existência está cheia do drama do sexo. A figueira tem dois tipos de figos: figos femininos comestíveis e caprifigos masculinos. Os figos e as vespas-do-figo têm uma relação simbiótica na qual a sobrevivência de um depende do outro — a vespa deve entrar na fruta para pôr seus ovos, como se tivesse nascido ali. Se uma vespa fêmea entra num caprifigo masculino, encontrará as partes interiores perfeitamente propícias para acomodar seus ovos. Ela, então, sai e voa, carregando consigo o pólen que reproduz os frutos. Entretanto, se ela entra no figo feminino comestível, morrerá de exaustão e fome. Nós não comemos os caprifigos masculinos cheios de vespas bebês, e sim os figos femininos, que muitas vezes contêm a proteína decomposta do corpo de uma vespa fêmea. Ao tentar “carregar os frutos” de seu ventre, a vespa é consumida pela fruta errada — e o Senhor Deus ordenou o homem, dizendo: “Você pode comer de todas as árvores do jardim. Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza morrerá”. Entretanto, ela disseminou, sim, o pólen — se não tivesse feito isso, o que aconteceria? (“‘Olhe! Hoje faz três anos que venho buscar figos nesta figueira, e não encontro nada! Corte-a. Ela só fica aí esgotando a terra”) Haverá mais figos para comer, proibidos ou não, e mais folhas de figo para cobrir as vergonhas. Os figos que você come contêm o corpo dos mortos que tentaram entrar naqueles que lhes são semelhantes, em vez daqueles que lhes são diferentes — Levítico afirma que essas coisas são uma “abominação”, e esse fruto é sua advertência tanto quanto seu conhecimento. Se pensarmos no conhecimento como a progênie da fusão procriadora de duas coisas com informações diferentes — biológicas ou outras —, suas metáforas são irmãs do sexo. E, assim como sexo, lida com o poder e o proibido.

Passamos por mitos e sentidos tão rapidamente quanto passamos por tendências e significâncias. O que antes era a mais proibida das frutas sexuais hoje está quase extinta de nosso manual eufemístico; agora dominado por berinjelas e pêssegos. Até tipos de corpos fluem dentro e fora de moda (você tem o corpo de maçã ou de pera?). O que uma vez foi o receoso “Isso deixa minha bunda grande?” do fim dos anos 90 e começo dos anos 2000 agora tornou-se a lista “Esses 5 Agachamentos Vão Deixar Sua Bunda Tão Gostosa Quanto a de Nicki!”. Uma leitura antropológica fascinante é “15 Razões para o Foco Ter Mudado de Seios Grandes para Bundas Grandes”; em outras palavras, dos melões para o pêssego. Um estudo do Emojipedia, com 1.618 tuítes aleatórios em um período de 12 horas, percebeu que 33% das pessoas usavam o emoji de pêssego como “abreviação de bunda” e 27% usavam o emoji sexualmente. Meros 7% usaram-no por sua interpretação literal da fruta. Quando a Apple lançou a atualização do iOS 10.2, houve protestos: o emoji de pêssego havia sido refeito como menos contrastado, menos… erótico. A empresa respondeu aos clamores do povo e devolveu ao emoji de pêssego sua “glória glútea”. Precisamos de nossos símbolos e significados. De que outra forma representaríamos a nós mesmos, nossos desejos e impulsos, o néctar escorrendo em nossos queixos?

A relação entre sexo e fruto sobrevive assim como nossa prole, os frutos que carregamos, sobrevivem: por meio de adaptação, reprodução e consumo. Muda de acordo com nossos desejos, tão antigos quanto contemporâneos. No final, nossa cultura carrega o fruto das sementes com as quais o semeamos.