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DEPOIS DA PANDEMIA

Uma nanopartícula, o novo coronavírus, provocou mudanças abissais e tectônicas na sociedade, no trabalho, no amor e até no poder dos governos. Elas vieram para ficar

Imagine se você pudesse encolher até ficar com 1 milésimo do próprio tamanho. Difícil? Para facilitar, pense que teria altura mais ou menos equivalente ao dobro da espessura de um fio de cabelo. Agora imagine que, nesse universo microscópico, fosse possível pegar uma partícula de poeira de tamanho inferior a 1 milésimo da própria altura. Seria mais ou menos como pôr na ponta do dedo uma poeirinha um pouquinho menor que a espessura dos próprios cabelos – isso para alguém que já tem apenas dois cabelinhos de altura. Dá para imaginar? Pois é disso que todos estamos falando.

Que um vírus dessas dimensões, o novo coronavírus denominado sars-CoV-2, tenha se transformado no maior inimigo de nossa espécie e afetado tudo que fazemos, temos e somos, já seria o bastante para pôr no devido lugar qualquer delírio de grandeza ou onipotência a turvar o pensamento humano. Que tenha contribuído para exacerbar divisões, insuflar medos e ressuscitar fantasmas, não surpreende. É assim que tentamos nos defender do risco representado pelo desconhecido – e nosso conhecimento real sobre a ameaça ainda é hoje quase tão diminuto quanto seu próprio tamanho. Diante do incerto, cada um corre para sua própria zona de conforto mental.

O cientista elabora teorias sobre a melhor forma de derrotar o inimigo, escondidas sob o léxico acadêmico, impenetrável ao comum dos mortais. O mercador de ilusões se põe a trombetear soluções milagrosas, alardeia remédios em fase experimental. O mercado financeiro especula com o dinheiro alheio. O economista, imbuído de seu idioma também peculiar, se arroga a tarefa de reduzir a destruição de riqueza, proclama elaborar um modo “justo” de distribuir as perdas. O empresário de sucesso, tão rico quanto ignorante, procura negar ou evitar os fatos, enquanto os cadáveres se amontoam nos cemitérios. O banqueiro liberal se esconde na barra da saia da mãe – e corre para pedir ajuda ao Estado. O governo abandona toda a fantasia de austeridade, mas não tem ideia de onde nem de como gastar. O político demagogo desdenha a ciência e aponta o dedo a seus bandidos de estimação. O candidato a autocrata aproveita para tentar expandir seu poder. O religioso roga aos céus por uma saída. O ateu se desespera com a perspectiva do fim. O artista entra em parafuso. O filósofo não sabe o que pensar. Todos perdidos, inconformados, perplexos, como a ecoar o refrão de canções que já se tornaram lugares­ comuns. Nada será como antes amanhã. Será o fim do mundo que conhecemos – mas, não, não dá para se sentir nada bem.

A primeira constatação sobre o que vem por aí depois da pandemia é simples, acaciana até: não dá para saber. São tantas as variáveis em jogo que qualquer previsão será frustrada. A única certeza é a mudança. Não apenas nos hábitos – e nada tão certo quanto mudanças de hábitos. Assim como nos acostumamos ao cinto de segurança ou a gastar menos energia depois do apagão, é possível imaginar um mundo em que persistam o sabão, o álcool em gel e o “distanciamento social”. Menos apertos de mão e beijinhos no rosto. Menos eventos irrelevantes, menos viagens de avião desnecessárias ou reuniões inúteis – fala-se em economias anuais na casa do trilhão de dólares só com isso. Escritórios com pelo menos metade do tamanho atual. Mais gente trabalhando em casa, para alegria de Slack, Zoom, Teams, Webex, Hangouts, Classroom ou outros badulaques digitais de nome em inglês. Se os novos hábitos persistirem no mundo corporativo, deverá haver um salto enorme na produtividade (sei bem disso, trabalho em casa há cinco anos). As mudanças poderão se estender a outros aspectos da sociedade. Talvez haja mais espírito cívico, mais voluntários a ajudar idosos ou grupos ameaçados pelas novas ondas do vírus. Maior respeito por quem trabalha no serviço público ou pelos profissionais de saúde, heróis indiscutíveis no combate à pandemia. Poderemos, numa visão otimista, rumar para um mundo em que a ameaça comum do vírus acabe por gerar mais união em vez de divisão.

A principal razão para o otimismo é que, embora venha sendo comparada a guerras ou às crises financeiras do passado recente, a pandemia tem um impacto de outra natureza. Mexe diretamente com a saúde e a vida. “Comparado à opaca crise financeira, com seus ‘credit default swaps’ ou ‘collateralized debt obligations’, o coronavírus é relativamente fácil de entender”, afirmou o escritor americano Peter C. Baker. “É uma dúzia de crises emaranhadas numa só, e todas se desenrolam imediatamente, de modo inescapável. Políticos ficam infectados. Celebridades ricas ficam infectadas. Amigos e parentes ficam infectados. Podemos não estar exatamente ‘todos juntos nessa’ – como sempre, os pobres sofrem mais-, mas essa é uma sensação mais real do que jamais foi depois de 2008”. Talvez, disse Baker, possamos ver nossos problemas como comuns, e a sociedade como mais do que “uma massa de indivíduos competindo uns contra os outros por riqueza e status”. Nas palavras da analista Mira Rapp-Hooper, do Council on Foreign Relations (CFR), “a Covid-19 não tem ideologia”. Revela a importância da boa governança em qualquer regime. Não será vencida na base do tacape ou das armas, pelos brucutus que berram ignorância nas redes sociais. Nossas armas contra aquele grãozinho de poeira nanoscópico precisam ser mais sofisticadas: o conhecimento científico, o trabalho paciente e diuturno nos laboratórios de pesquisa, a agilidade e a qualidade do atendimento médico. É na criatividade e no engenho do cérebro humano que os otimistas depositam suas esperanças.

Somos, contudo, seres mais complexos e contraditórios que os nanogrãos de sars­ CoV-2. Sentimos emoções conflitantes diante da ameaça. Percebemos que, além de a vitória não estar garantida de antemão, ela nos custará caríssimo. Há muita, muita razão para o pessimismo, em particular no futuro próximo. Por mais que venha a criar novos hábitos, a maioria deles na direção de maior saúde e produtividade, o impacto imediato do novo coronavírus na economia, na política e no cenário global não será nada positivo. “Em resumo, a Covid-19 criará um mundo menos aberto, menos próspero e menos livre”, escreveu Stephen Walt, professor de relações internacionais na Universidade Harvard. O vírus já atingiu em cheio a produção global e promete inaugurar aquilo que Robert Kaplan, diretor do Eurasia Group, chama de Globalização 2.0. “Até recentemente, globalização queria dizer acordos de livre­ comércio, cadeias globais de suprimentos, extensão das classes médias com alívio à pobreza extrema, expansão da democracia e ampliação das comunicações digitais e mobilidade global”, disse Kaplan. “Globalização 2.0 será a separação do planeta em blocos de poder com exércitos florescentes e cadeias de produção separadas, ascensão de autocracias, divisões sociais e de classe que engendram nativismo e populismo, acopladas à ira das classes médias nas democracias ocidentais”.

O principal argumento em favor dessa visão pessimista é econômico. A queda inevitável no comércio global resultará no desmonte das cadeias de produção que reduzem estoques ao mínimo, garantindo empregos e preços baixos. A tendência é o incentivo a indústrias locais, talvez mais seguras, porém menos eficientes. A troca da eficiência pela segurança levará a produtos mais caros, lucros menores e provavelmente uma onda de falências. Desemprego e a redução nos salários, já presentes na paralisia geral das quarentenas, alimentarão a miséria e a pobreza. Governos do mundo todo já são chamados a garantir programas de assistência social que evitem o pior. “O principal, talvez o único objetivo da política econômica hoje deveria ser evitar a ruptura social”, escreveu o economista sérvio-americano Branko Milanovic, considerado um dos maiores especialistas mundiais em desigualdade. Lidar com a frustração acumulada, com a perda de poder aquisitivo e qualidade de vida não será um desafio trivial num momento em que todas as forças públicas estarão voltadas para o combate à doença.

É um quadro propício àquilo que a revista britânica The Economist classificou como a “mais dramática extensão no poder do Estado desde a Segunda Guerra Mundial”. Não se trata apenas do mecanismo keynesiano de ampliar gastos públicos para fazer o dinheiro circular e recuperar a demanda, já usado com êxito na crise financeira de 2008 e novamente aplicado nas últimas semanas. Só os Estados Unidos aprovaram o maior programa de auxílio a empresas e cidadãos de todos os tempos, em torno de 10% do PIB. O Brasil prevê injetar ao redor de 15% do PIB na economia, por meio de diferentes mecanismos. O fiador de todas essas dívidas, acumuladas para os próximos anos, será o contribuinte. Não só aqui, mas até na Zona do Euro, medidas de emergência foram adotadas para autorizar o desrespeito às regras fiscais, já que a saúde pública vale mais do que as contas públicas. Mas não é só isso. Para lidar com a crise, o papel do Estado transborda as finanças. A necessidade de coordenar o combate ao vírus faz das autoridades da saúde a principal instância de poder. Cabem hoje a elas as decisões mais importantes. O controle de fronteiras não se limita a barrar a entrada nos aeroportos. As garras do protecionismo se estendem à proibição da exportação de máscaras protetoras, à retenção de respiradores artificiais já comprados em portos estrangeiros, à disputa pelos reagentes químicos usados na produção de testes para o vírus. “A Covid-19 foi como um raio X que expôs os instintos básicos de sobrevivência dos países e das organizações nacionais, ocultos sob o disfarce de seus pronunciamentos oficiais”, afirmou Kaplan.

A ação mais preocupante do Estado é também aquela que obteve mais sucesso para debelar o vírus em países da Ásia: a vigilância eletrônica sobre os infectados, capaz de rastrear todos os seus movimentos e todos os seus contatos. Em Taiwan, houve a integração das bases de dados da vigilância de fronteiras aos sistemas de saúde. Qualquer farmacêutico é hoje capaz de levantar o histórico de viagem de quem vem comprar remédios. Há multa de até US$ 10 mil para quem violar a quarentena, monitorada pelo celular. Em Cingapura, todos os registros das operadoras de telefonia são usados no rastreamento das infecções. Na Coreia do Sul, mensagens avisam os lugares por onde infectados passaram a todos os que estão por perto. Em Israel, o serviço secreto garantiu acesso a todos os registros telefônicos. Alemanha, Áustria, Itália e Bélgica também passaram a monitorar os movimentos dos cidadãos. No Reino Unido, uma proposta prevê um passaporte para identificar aqueles que já pegaram a Covid-19 e, imunes, poderiam voltar a circular e trabalhar. Não parece haver retorno na integração dos registros médicos e de localização, armas essenciais para vencer a corrida contra um vírus invisível e insidioso. A privacidade fica em segundo plano. Será que, passada a pandemia, os governos abrirão mão do controle?

O país onde tal questão não se coloca é também aquele cujo espectro paira sobre toda a pandemia: a China. Origem do primeiro surto do sars-CoV-2, vacilou ao deixá-lo proliferar durante quase dois meses. Além do negacionismo, a ditadura chinesa perseguiu quem ousasse denunciar a verdade, como o oftalmologista Li Wenliang, primeira vítima da censura, depois morto pela Covid-19. Só no final de janeiro o governo chinês aceitou os fatos. Adotou então medidas draconianas de isolamento social e vigilância para debelar a epidemia – e teve sucesso. Enquanto o resto do mundo começava a entender que as nanopartículas do vírus teriam o impacto de um meteoro, os chineses posavam de líderes globais no maior desafio da humanidade neste milênio. Quando a Itália precisava de equipamentos e de proteção para seus médicos, nenhum país da União Europeia quis saber de prestar auxílio. A China anunciou então o envio de 1.000 ventiladores mecânicos, 2 milhões de máscaras, 20 mil roupas protetoras e 50 mil kits de testes. Também enviou máscaras e equipes ao Irã. Foi saudada por Aleksandar Vucic, presidente da Sérvia, como “único país que pode nos ajudar”. O Brasil não vê saída para suprir uma deficiência estimada em pelo menos 200 milhões de máscaras e 17 mil respiradores sem recorrer aos chineses. Graças ao esforço industrial contra a Covid-19, a China multiplicou por dez a produção de máscaras. Fabrica hoje metade das conhecidas pela sigla N95, críticas para profissionais de saúde, e metade dos ventiladores mecânicos do planeta. Também é a maior fornecedora mundial de antibióticos e ingredientes farmacêuticos.

Os Estados Unidos, em contrapartida, só começaram a implementar testes em massa quando a epidemia já havia saído do controle. “Enquanto Washington vacila, Pequim se move com rapidez e competência para tirar vantagem da abertura criada pelos erros americanos, preenchendo o vácuo para se colocar como o líder global na resposta à pandemia”, escreveram os sinólogos Kurt Campbell e Rush Doshi em artigo na revista Foreign Affairs. Eles comparam a situação atual à crise do Canal de Suez, em 1956, quando ficou claro que o Reino Unido cedera a posição de liderança global aos americanos. “Se a China for percebida como superpotência mais responsável quando a pandemia passar, será em boa parte devido aos Estados Unidos”, afirmou Rapp-Hooper, do CFR. “O presidente americano negou a ameaça, rejeitou o conhecimento científico, disseminou desinformação e deixou governos estaduais e locais à mercê das próprias iniciativas. “Nada demonstra tão bem a tensão entre China e Estados Unidos quanto a guerra de versões sobre a origem do novo coronavírus. Enquanto Donald Trump o apelidava de #ChinaVirus no Twitter, a China expulsava jornalistas americanos, e diplomatas chineses disseminavam uma mirabolante teoria da conspiração, segundo a qual o sars-CoV-2 na verdade se originou de um experimento num laboratório americano.

O mais provável, contudo, é que nem no mundo das fantasias conspiratórias a China tivesse  competência para criar uma arma tão eficaz contra os Estados Unidos, capaz de atingir o rival em  seu ponto mais fraco – um sistema de saúde caro, deficiente, desigual e objeto de uma briga ideológica tão ridícula quanto politicamente intratável.

A batalha entre chineses e americanos se estende pela quinta geração da telefonia celular (5G), pelo domínio das pesquisas científicas, pelas tecnologias de monitoramento e vigilância e também pelo mercado financeiro, onde os chineses estão entre os maiores credores da dívida pública americana. Uma das diferenças entre o colapso provocado pelo novo coronavírus nas Bolsas e a crise de 2008 foi notada pelo historiador econômico Adam Tooze. “Enquanto os mercados desabavam, a dívida soberana dos Estados Unidos também caía em preço”, escreveu ele. “Isso não deveria acontecer. Títulos do Tesouro americano deveriam funcionar como porto seguro. Se o preço deles cai, isso significa que há investidores desesperados o bastante por dinheiro vivo, a ponto de sair até mesmo do maior mercado.” Por enquanto, o dólar ainda funciona como moeda de reserva global. Não se sabe como – nem se – o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, resistiria a uma investida determinada dos chineses para derrubá-lo. De concreto, só é possível dizer que regras de mercado tidas como perenes não parecem mais tão invulneráveis.

“Se a ordem global for virada de ponta­ cabeça, não será apenas produto da pandemia, mas de forças que começaram bem antes da descoberta da Covid-19, incluindo a política externa americana que buscou o confronto com a China enquanto se desvencilhava de esforços de ordenamento internacional mais amplos”, afirmou Rapp-Hooper. Ela inclui entre os erros americanos o desprezo por alianças e instituições internacionais, a saída de acordos multilaterais, a pressão sobre aliados para ampliar gastos com defesa e, obviamente, a desmobilização das burocracias criadas justamente para combater pandemias. Mas conclui que “ainda é cedo para dizer como exatamente a ordem internacional mudará e se a China emergirá mais forte ou não”. A cooperação internacional e o mutilateralismo, tão desprezados pelos americanos, podem se tornar ingredientes cruciais no combate a uma ameaça global. “Por enquanto, é possível distinguir duas narrativas competindo – uma cuja lição é que os países devem se unir para derrotar a Covid-19, a outra cuja lição é que devem ficar separados para se proteger dela”, disse Peter C. Baker. Na leitura otimista dele, há chance de “impulso à cooperação internacional’, e ao “desejo de perseguir o diálogo em vez do confronto militar ou econômico”. Um relatório do Crisis Group, especializado na avaliação de conflitos em zonas de risco, também aponta tal oportunidade. “A escala da epidemia cria espaço para gestos humanitários entre rivais, afirma o documento.

“Pesquisas acadêmicas mostram que grupos em guerra frequentemente respondem a desastres naturais com acordos para reduzir a violência”. Nas Filipinas, o linha-dura Rodrigo Duterte decretou um cessar-fogo no combate a rebeldes comunistas. O governo da Colômbia, apesar de ter fechado a fronteira com a Venezuela, manteve o primeiro contato com representantes do ditador Nicolás Maduro, e houve medidas conjuntas no estado fronteiriço de Táchira. Emirados Árabes Unidos e Kuwait ofereceram ajuda humanitária ao rival Irã Apesar dessas iniciativas esparsas, a pandemia também fornece combustível ao nacionalismo, às barreiras contra estrangeiros, à xenofobia contra chineses ou asiáticos e ao afloramento de instintos autoritários. “A crise também representa um teste gritante das pretensões dos regimes livres e dos autoritários para lidar com uma aflição social extrema”, afirmou Baker. Em Israel e na Hungria, os primeiros-ministros assumiram poderes praticamente ditatoriais. No Reino Unido, portadores do vírus poderão ser presos caso se recusem a ser testados. Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça pretende abrir um precedente para prisões sem acusações formais. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro volta e meia fala em “canetada”.

Bolsonaro, curiosamente, talvez seja o único líder global cuja popularidade tenha caído em virtude da postura negacionista diante da pandemia. Na maioria dos países, os líderes não tiveram muita dificuldade para usar o inimigo comum como pretexto, se não para ampliar poderes, no mínimo para a união nacional. Bolsonaro ainda integra o grupo daqueles que negam a ameaça, ao lado dos ditadores do Turcomenistão – que chegou a proibir o uso da palavra “coronavírus” -, e de Belarus. Até Trump caiu em si diante do poder devastador da epidemia nos Estados Unidos. Não espanta que o novo coronavírus tenha provocado um novo choque entre o populismo e a ciência. Repete-se aí o padrão de desprezo pelo conhecimento, pela investigação acadêmica, pela verdade histórica e pelo jornalismo profissional. O melhor paralelo, disse Baker, é o negacionismo diante das mudanças climáticas, questão que também mistura ciência e política. “Ambos exigirão níveis incomuns de cooperação global. Ambos exigirão mudanças de comportamento hoje em nome de reduzir o sofrimento amanhã. Ambos foram previstos faz tempo por cientistas com grande certeza e foram negligenciados por governos incapazes de enxergar além das estatísticas de crescimento do próximo trimestre fiscal.”

A esperança dele é a crise atual servir de ensaio para o grau de cooperação internacional que já se faz necessário no combate às emissões de gases. O maior argumento em favor dessa esperança é que, em contraste com o negacionismo das mudanças climáticas, os negacionistas do coronavírus têm pagado um preço quase instantâneo por ignorar o alerta dos cientistas. Líderes que no início desprezaram a epidemia têm rapidamente voltado atrás diante da avalanche exponencial de infecções, dos hospitais abarrotados e das pilhas de cadáveres. As mudanças trazidas ao planeta pela Covid-19 mal começaram. Uma nova geração já cresce sob o espectro das pandemias. Mais perto da realidade flagrante de que nosso tempo sobre este planeta é limitado, de que a vida humana tem mais valor que qualquer outro fetiche – financeiro, ideológico ou religioso. É triste que centenas de milhares precisem talvez morrer para que a humanidade volte a entender algo tão simples. Não será a primeira vez na história que despertamos incrédulos para nossa insignificância e pequenez, agora ineptos para deter a mais ínfima e irrisória, porém insopitável, das nanopartículas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 02 DE MAIO

BATISMO COM FOGO

… ele [Jesus] vos batizará com o Espírito Santo e com fogo (Lucas 3.16b).

João Batista, o precursor do Messias, abriu-lhe caminho, dizendo que batizava com água, mas Jesus, que era mais poderoso do que ele, viria batizando com o Espírito Santo e com fogo (Mateus 3.11). Alguns estudiosos entendem o batismo com fogo como um batismo de juízo, em oposição ao batismo com o Espírito Santo. No entanto, essa interpretação não tem amparo no texto. Jesus não está falando sobre duas experiências antagônicas. Jesus não fala sobre batismo com o Espírito ou com fogo, mas sobre batismo com o Espírito e com fogo. O fogo é um símbolo do Espírito. Quando Deus entregou a lei no Sinai, manifestou-se através do fogo. Quando Salomão consagrou o templo em Jerusalém, a casa se encheu de fumaça. Quando Elias clamou no Carmelo pela intervenção divina, Deus desceu através do fogo. No dia de Pentecostes, o Espírito desceu em línguas como de fogo. O batismo com fogo sugere-nos quatro verdades:

1) O FOGO ILUMINA: aqueles que são batizados com fogo andam na luz, sabem aonde vão e não tropeçam;

2) O FOGO PURIFICA: o fogo queima a escória e depura o ouro; limpa o grão e devora a palha;

3) O FOGO AQUECE: precisamos de um batismo de fogo para sairmos da letargia espiritual; precisamos ser aquecidos pelo fogo divino;

4) O FOGO ALASTRA: o fogo apaga ou propaga – em havendo combustível, o fogo se espalha. Uma igreja batizada com fogo, inflamada pelo poder do Espírito Santo, alarga suas fronteiras e espalha sua bendita influência pela pregação fiel e ungida do evangelho.

GESTÃO E CARREIRA

SOBREVIVÊNCIA DOS NEGÓCIOS NA SELVA

Empresários fazem malabarismos não só para equilibrar receitas e gastos, mas também para garantir mais valor às suas marcas e fidelizar seus clientes durante a crise do Covid-19. Ações mais humanas e solidárias, como o movimento #naodemita, que tenta salvar 2 milhões de empregos, servem para trazer mais tranquilidade para os trabalhadores do País e irão fazer muita diferença quando a economia voltar ao normal

Passado o primeiro momento de apreensão e até desespero diante da crise provocada pela pandemia e pela interrupção das atividades, muitas empresas começam a arregaçar as mangas para encontrar alternativas a fim de garantir sua sobrevivência e esperar o momento em que consigam novamente equilibrar receitas e gastos. O grande problema é que ninguém sabe quando isso vai acontecer. Com 917 lojas fechadas em todo o País, deixando de faturar R$ 25 milhões só em março, o fundador e CEO da rede de franquias de óculos Chilli Beans, Caito Maia, chegou a perder o sono pensando em como manter seu negócio. Mesmo com toda sua experiência, ele, que importa 100% dos produtos que vende, entrou em pânico quando o dólar bateu em R$ 5. Ainda por cima precisou adiar os planos para sua convenção de franqueados, que tradicionalmente é feita em um navio a um custo R$ 8 milhões.

“Não vou mentir. Foi difícil dormir com essa situação”, desabafa. Mas, ao mesmo tempo, a alternativa de oferecer descontos na venda online lhe pareceu simplista demais, especialmente num momento em que as pessoas querem garantir a própria sobrevivência. Nesse momento ele resolveu proteger as cerca de 6 mil pessoas ligadas à operação e decidiu abraçar causas voltadas para a área social, como usar seus canais para estimular a doação de sangue, que caiu vertiginosamente. “Decidi não gastar energia com o que não podia mudar e fui atrás do que estava ao meu alcance, de forma positiva”, conta. Com a campanha “Todo mundo é vermelho por dentro, doe sangue”, Maia espera agregar mais valor à marca e fidelizar seus clientes. O empresário aposta que, quando a economia voltar a rodar, atitudes como essas ajudarão as empresas diante dos olhos dos consumidores. Ações mais humanas como as de Maia começam a pipocar entre o empresariado. Nesta semana, mais de 4 mil empresas como Natura, Itaú, Magazine Luiza e C&A assinaram um manifesto em que se comprometem a não cortar funcionários até o final de maio. Apesar do abaixo-assinado não ter valor jurídico, a expectativa dos organizadores do movimento #naodemita é salvar até 2 milhões de empregos, com ações como férias coletivas e home office. O Sebrae e o Banco do Povo também se uniram para ajudar pequenos empresários com dicas de como obter crédito para capital de giro e manutenção de folha de pagamento, além de formas de renegociar dívidas.

Uma pesquisa feita pela consultoria Kantar mostra que as pessoas esperam justamente que as marcas se mostrem prestativas no combate ao coronavírus. O estudo global “Covid-19 Barometer”, realizado em 30 países, incluindo o Brasil, ouviu 25 mil consumidores e indicou que 77% esperam que as marcas compartilhem o que têm feito de útil neste momento. Para 75%, porém, seria um erro explorar a crise para promover seu nome. Para o consultor da IN especializado em gestão de marcas, Fábio Milnitzky, o único jeito de se atravessar uma crise dessas proporções é seguindo alguns passos importantes. “É preciso ser claro na comunicação, de forma direta e transparente”, diz. “Equilíbrio e serenidade são essenciais nessas horas e o chefe precisa aparecer, nem que seja em videoconferências, porque um rosto fala mais que mil palavras”, explica.

O momento ainda é de intranqüilidade tanto para empresários como empregados. Os shopping centers, por exemplo, começam a agonizar com seus 577 centros fechados por todo país. O setor, que faturou R$ 190 bilhões em 2019, já estima um prejuízo de R$ 15 bilhões com 30 dias de lojas fechadas. “Se isso se prolongar pode piorar ainda mais porque muitos lojistas não vão aguentar”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), Nabil Sahyoun. Muitos empreendimentos, segundo ele, já estão negociando tanto alugueis como as taxas de condomínio, segurança e limpeza. Mas sem movimento será difícil manter até os funcionários. O que a entidade defende é que haja um planejamento para volta das atividades, nem que seja gradual, a partir de maio. “Já temos até protocolos prontos para voltar de forma gradativa, com todo o cuidado aos consumidores, incluindo controle de entrada no número de pessoas nos empreendimentos”, afirma.

BOAS PRÁTICAS NA CRISE

> Não se isole, o líder precisa compartilhar até as decisões duras

>> Fale, repita e fale de novo sobre os problemas. Trabalhe com ciclos curtos de comunicação para ajudar na compreensão, conforme a situação vai mudando

>> Não tenha receio de dizer “não sei”, especialmente numa situação inédita como essa pandemia

>> Ouça seus funcionários e exponha suas convicções, aumentando a empatia de ambas as partes

>> Trabalhe intensamente toda a comunicação, tanto interna como externa, para obter engajamento

>> Invista no desenvolvimento da equipe

>> Cuide da sua saúde e da equipe. Fale sobre os impactos do isolamento na saúde e nas emoções e dê dicas aos seus colaboradores

>> Crie um comitê de oportunidades, para ver o que pode agregar valor à marca. Seja criativo: Uber e AirBnb surgiram após a crise de 2008

>> Seja positivo, não deixe o pessimismo tomar conta de seus pensamentos, ações e decisões

Fonte: IN Consultoria

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CELULAR VICIANTE

Dependência do aparelho causa desbalanceamento químico no cérebro

Estudo sobre o uso de smartphones realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) verificou que 34% dos usuários desse tipo de tecnologia afirmaram ter alto grau de ansiedade sem o telefone por perto. Nos Estados Unidos, pesquisa semelhante constatou que 46% da população daquele país afirma não conseguir viver sem o aparelho. Sendo a dependência do device uma realidade nesses e noutros países, pesquisadores da Coreia do   Sul resolveram, então, estudar os efeitos químicos dessa espécie de vício tecnológico no cérebro humano.

Os achados sul-coreanos foram apresentados recentemente no encontro anual da Sociedade  Radiológica da América do Norte, mostrando que os voluntários adictos em smartphones  submetidos a ressonância magnética apresentavam um desbalanceamento entre  neurotransmissores como o ácido gamaaminobutírico (GABA), que inibe a atividade neuronal e está ligado à visão e a atividades motoras, e o glutamato – glutamina (Glx), que  por sua vez ajuda a aumentar a atividade elétrica no cérebro. Isso comparando-se o grupo de estudos (com 19 jovens adictos) e grupo de controle saudável.

Sabe-se, por exemplo, que o excesso de GABA pode resultar em uma série de efeitos colaterais, incluindo sonolência e ansiedade. Entre os jovens viciados em seus celulares cujos cérebros foram mapeados pelos sul-coreanos, esse excesso se localizou, sobretudo, no giro cingulado anterior. Tais informações permitirão terapêuticas neuroquímicas e comportamentais mais adequadas para tratar sintomas decorrentes da adicção a smartphones e o próprio vício.

Aliás, outro achado importante do estudo foi que a terapia cognitivo-comportamental é uma ferramenta potente para melhorar a proporção entre GABA e Glx, melhorando a qualidade de vida dos usuários desses equipamentos e aumentando, definitivamente sua relação com eles.