OUTROS OLHARES

 A NOVA ORDEM MUNDIAL

A pandemia de coronavírus marca uma guinada definitiva na história da civilização. Ela pode ser o acontecimento inaugural de um ciclo catastrófico ou o ponto de inflexão para uma mudança profunda. Rendidos pelas forças da natureza, como diante de um dilúvio ou de um terremoto, nunca fomos tão frágeis. Tememos a morte, não sabemos para onde vamos e as previsões de longo prazo que tentávamos traçar ruíram, tanto na vida pessoal, como nos planos estratégicos de governos e empresas.

Alguns estudiosos chegam a dizer que se trata do colapso do capitalismo industrial. Outros falam que o modelo de Estado-Nacional, construído no final do século 18, está sofrendo um golpe fatal. Seja como for, o que se verifica, neste momento, é o fortalecimento do Estado como força protetora dos cidadãos. E em meio ao caos ­— confinados no aconchego do lar — temos a oportunidade de aproveitar o tempo para colocar em prática a máxima do filósofo grego Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”, estampada, há 2,5 mil anos, no oráculo de Delfos, um dos epicentros espirituais da Antiguidade.

A tendência mais imediata, necessária e óbvia relacionada à pandemia de Covid-19 é a redução da mobilidade. De uma hora para outra, o direito de ir e vir tornou-se relativo. A determinação da autoridade de saúde passou a prevalecer sobre qualquer vontade pessoal. O transporte público ficou ameaçador, um lugar de contágio. Há restrições para caminhar pelas ruas. As barreiras sanitárias entre cidades, estados e países aumentaram e continuarão elevadas por meses ou anos. Será difícil cruzar qualquer fronteira no mundo sem um teste negativo de coronavírus.

ISOLAMENTO ATÉ 2022

Ficará dessa crise uma inibição da livre circulação de pessoas, seja no meio urbano, dentro dos países ou entre as Nações. Um estudo da Universidade de Harvard, publicado na revista Science, mostra que o isolamento, ainda que intermitente, deve se perpetuar até 2022 em várias partes do mundo, se não surgir uma vacina. “O vírus nos colocou em casa e nos obrigou a se virtualizar. E quando esse ciclo acabar, a gente vai ter muita vontade de abraçar, beijar e fazer carinho”, diz a filósofa Viviane Mosé. “Mas o importante agora é a boa convivência. Vamos falar em nome do amor, ele que deve reinar”.

As pessoas vão se acostumar com o isolamento, que não significa solidão. Laços familiares podem ser reforçados ou, por outro lado, romper-se a partir da convivência forçada. Amizades verdadeiras podem nascer. Como disse o filósofo chinês Confúcio, para reconhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. “No sucesso, verifica-se a quantidade e na desgraça, a qualidade”, afirmou. Já vivemos o sucesso na fase áurea do capitalismo digital e agora é hora de enfrentar o infortúnio, a crise civilizacional, a fragilidade humana diante de uma ameaça microscópica. É na doença, que se reconhecem os verdadeiros amigos ou pelo menos quem se preocupa por nós. “Somos seres competitivos por natureza, o que tem um alto custo emocional, e agora temos oportunidade de nos tornar mais colaborativos”, afirma o psiquiatra Ricardo Moreno, diretor do grupo de estudos de doenças afetivas do Hospital das Clínicas da USP. “Todos temos a capacidade de criar estratégias e mecanismos para se adaptar a um novo estilo de vida e superar o estresse e a depressão”.

Outra mudança inevitável é que as pessoas passarão a trabalhar, estudar e se relacionar cada vez mais remotamente. O aprendizado do período de isolamento servirá para sustentar uma mudança profunda no sistema de produção de conhecimento e de bens de consumo, com a utilização de impressoras 3D. O amor e a convivência em tempos de peste oferecem a oportunidade das pessoas conversarem mais e se conhecerem melhor. O que sustenta um relacionamento agora é a qualidade da conversa remota. O distanciamento pessoal se reproduz em todas as esferas – nos negócios, na educação, na saúde e nas relações interpessoais. Para o empresário Ricardo Semler, autor de uma experiência pioneira, há 26 anos, que encaminhava as pessoas para o trabalho home office na Semco Partners, grandes tragédias mostram uma solução para antigos desafios. A necessidade de trabalhar em casa durante a Covid-19 reabriu a discussão sobre a questão. Para o empresário Ricardo Semler, o trabalho em casa será a solução para muitas empresas sobreviverem depois do coronavírus. As empresas vão descobrir que, em muitos casos, o resultado do trabalho será até mais eficiente. “Pós-coronavírus, o mundo avançará 5 anos em 1”, afirma.

VALORIZAÇÃO DA CIÊNCIA

De um modo geral, haverá uma maior valorização da ciência para a solução dos problemas humanos e um abandono crescente de ideias obscurantistas e negacionistas que tentam se impor nesse momento trevoso. “Quem vai tirar a gente dessa crise é a ciência”, diz a especialista em educação Tatiana Filgueiras, vice-presidente do Instituto Ayrton Senna. “Mas para formarmos os cientistas do futuro precisaremos de educação”. Ainda que no Brasil, um país confuso que enfrenta a dupla tragédia da pandemia e do comando delirante do presidente Jair Bolsonaro, isso não esteja tão claro no resto do mundo é o pensamento científico que vai dar as cartas. Espera-se, por exemplo, que bolsas de estudos para pesquisadores nunca mais sejam cortadas de maneira arbitrária. A politização da doença é um desvio de caráter.

O Estado volta a ser a grande força protetora, a única capaz de criar um sistema robusto para dar segurança ao cidadão, garantindo a saúde, a educação e o incentivo à pesquisa científica. A saúde pública ganhará prestígio porque a maioria das pessoas dependerá dela para sobreviver. Já se fala na criação de um novo Estado-Nação que não pode ser comparado com as democracias ocidentais e com os populismos nacionalistas atuais e que se funda na maior eficácia e na capacidade de gestão para enfrentar uma situação de emergência. Novos modelos autoritários também podem se desenvolver e se espalhar para garantir a ordem e o controle social. “Talvez as duas opções mais importantes sejam: enfrentamos esta crise por meio do isolamento nacionalista ou através da cooperação e solidariedade internacionais”, afirmou o historiador israelense Yuval Harari em uma entrevista ao programa Newshour da BBC. “Em segundo lugar, dentro de um país, as opções são tentarmos superar a crise por meio de controle e da vigilância totalitários e centralizados, ou por meio da solidariedade social e do empoderamento dos cidadãos”. Segundo ele, as escolhas que agora fazemos para combater a Covid-19 moldarão nosso mundo nos próximos anos.

Apesar da resistência de Bolsonaro, que acha que é coisa do PT, a pandemia nivela as pessoas e, de alguma forma, a sensação de igualdade que o medo da morte traz pode se transformar em empatia e solidariedade. Se quiser sobreviver, você precisa proteger o outro. A peste convida à solidariedade. Diante do medo ou do desleixo com a peste, o ser humano se revela. Uma ameaça difusa, um inimigo comum tende a unir as pessoas. Mesmo os políticos tendem a ser mais solidários e pensar nos desprotegidos.

RENDA MÍNIMA

“Vamos ter que redesenhar melhor o modelo de renda mínima, mas será algo permanente para os mais vulneráveis”, explica o deputado federal Felipe Rigoni (PSB-ES). Ele afirma que essa é a única forma de evitar a miséria completa, não só durante na pandemia, mas daqui para frente. Segundo Rigoni, o efeito multiplicador na economia de cada Real colocado no mercado é de 1,8 vezes, segundo estudos feitos com os recursos aplicados no Bolsa Família. Isso move uma economia primária que garante alimentação e mantém as pessoas vivas. Algo emergencial precisará ser aplicado também para as pequenas empresas. Programas de renda mínima podem ajudar a neutralizar a tendência futura de aumento da desigualdade, considerado inevitável por muitos analistas, em função do fechamento de empresas e da diminuição dos postos de trabalho.

Para a deputada Tábata Amaral (PDT-SP), a renda básica, estabelecida por três meses, não será suficiente e políticos terão que repensar as estratégias de recuperação do País e de combate à desigualdade além desse prazo. Ela entende que a sociedade levará mais a sério o problema das pessoas que não têm o mínimo para sobreviver. “Agora é importante pensar numa reforma tributária que taxe dividendos e que não incida sobre o consumo. Precisamos ainda mais de uma reforma progressiva”, diz. “O que se impõe no momento é a questão de quem vai pagar a renda mínima e o governo terá que ajudar a pagar salários e lançar empréstimos com juros zero como medida para enfrentar as dificuldades.”

A crise e o isolamento, além disso, abrem a possibilidade de desenvolvimento de novas habilidades emocionais, como responsabilidade, disciplina, foco, amabilidade, persistência e auto controle. Alunos responsáveis e disciplinados têm, por exemplo, um aprendizado de matemática três vezes maior do que aqueles que não demonstram essas competências. Como explica Tatiana Filgueiras, há uma grande oportunidade de se evoluir em qualidades sócio emocionais, inclusive com mudanças no modelo de ensino menos orientado para o acúmulo de conhecimento. “Mesmo à distância, podemos desenvolver competências complexas, como trabalhar em grupo, negociar e ter empatia”, afirma. A paralisação da economia e o isolamento das pessoas provocaram uma melhoria da qualidade ambiental nas grandes cidades e no planeta e isso está ficando evidente para todos. A consciência ambiental deve aumentar assim como a preocupação com a sustentabilidade. O pôr do sol em São Paulo, durante a última semana, foi colorido e exuberante, refletindo a diminuição da poluição atmosférica. Embora o benefício não possa ser aproveitado imediatamente, por causa do confinamento, o ar e as águas estão mais limpos.

Há, finalmente, uma percepção crescente de que o consumo desenfreado é desnecessário. A vontade acumulativa sofrerá um baque. A percepção da própria vulnerabilidade tende a trazer sabedoria. Ficar em casa consigo mesmo, seus pensamentos e seus fantasmas, é uma chance de superar o medo recorrente da vida e da morte. O coronavírus faz as pessoas experimentarem uma espécie de prisão domiciliar ainda não vivida nas sociedades contemporâneas. A psicóloga Janete Munhoz diz que é comum as pessoas olharem somente para fora, mas o distanciamento social faz com que olhem para dentro e aí “aparecem os medos, tristezas, angústias, fragilidades”. “Por isso, as pessoas procuram tanto shoppings, viagens, bares”, completa. Líder de uma entidade filantrópica, Janete sente que algo já mudou. “Triplicou o número de doações de cestas básicas”, comemora. Há uma vontade real de ajudar. Ela entende que a sociedade vai mudar muito e que as pessoas vão se voltar mais para a espiritualidade e o autoconhecimento, cada um da sua forma.

PERÍODO PÓS-PANDEMIA

O período pós-pandemia pode causar um movimento de libertação, com todos querendo viver intensamente depois de meses (ou anos) de contenção. Quem acredita nessa ideia mira o exemplo da epidemia de Gripe Espanhola, em 1918. Os anos subsequentes à explosão da doença despertaram uma cultura hedonista nas sociedades. Mas na época da Gripe Espanhola o ambiente social era muito mais repressivo e não existia a internet, que nos ajuda muito nesse momento difícil. É pouco provável que depois dessa crise haja uma explosão de alegria idiotizada e de consumo desenfreado. Mas essa é só uma especulação de médio ou longo prazo. A questão fundamental agora é como ser feliz no isolamento. O mundo pode até evoluir com essa distopia sanitária, mas certamente nunca mais será igual.

DEZ TENDÊNCIAS PARA UM FUTURO PRÓXIMO

1- A tendência mais evidente e imediata é a perda da mobilidade. O direito de ir e vir se tornará relativo. As barreiras sanitárias entre pessoas, cidades e países aumentarão

2 -As pessoas vão se acostumar com o isolamento, que não significa solidão. Laços familiares podem ser reforçados ou até romper-se a partir da convivência forçada

3 -As pessoas passarão a trabalhar, estudar e se relacionar cada vez mais remotamente. O aprendizado do isolamento servirá para sustentar a mudança no sistema de produção

4 -O Estado voltará a ser a grande força protetora, a única capaz de criar um sistema robusto para dar segurança ao cidadão. A saúde pública ganhará prestígio

5 -Haverá uma maior valorização da ciência para a solução dos problemas humanos e um abandono crescente de ideias obscurantistas e negacionistas

6 -A pandemia nivela as pessoas e a sensação de igualdade que o medo da morte traz pode se transformar em empatia e solidariedade. É preciso proteger o outro

7 -A crise abre a possibilidade de desenvolvimento de novas habilidades sócio emocionais, como responsabilidade, disciplina, foco, afeto e persistência

8 -A paralisação da economia e o isolamento das pessoas provocaram uma melhoria da qualidade ambiental do planeta. A consciência ambiental deve aumentar

9 -Há uma percepção de que o consumo desenfreado é desnecessário. A vontade acumulativa também será questionada e sofrerá um baque

10 -O período pós-pandemia pode causar um movimento de libertação, com as pessoas querendo viver intensamente depois de meses (ou anos) de contenção

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 01 DE MAIO

A PROVA DO AMOR DE DEUS

Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores (Romanos 5.8).

O amor de Deus por você é eterno, imutável e incondicional. Deus não escreveu em letras de fogo, nas nuvens, seu amor por você, mas esculpiu esse amor na cruz de seu Filho. Deus amou você a ponto de dar seu Filho Unigênito para morrer em seu lugar. Deus prova seu próprio amor por você pelo fato de ter Cristo morrido em seu lugar, sendo você ímpio, fraco, pecador e inimigo. O amor não consiste em você amar a Deus, mas em Deus ter amado você e enviado seu Filho como propiciação pelos seus pecados. Deus não poupou seu próprio Filho; antes, por você o entregou. Entregou-o para esvaziar-se. Entregou-o para ser humilhado. Entregou-o para ser cuspido pelos homens e pregado numa rude cruz. Não foi a cruz que gerou o amor de Deus; foi o amor de Deus que providenciou a cruz. Jesus morreu na cruz não para despertar o amor de Deus por você, mas para revelar o amor de Deus por você. A cruz não é a causa do amor de Deus por você; é o resultado desse amor. É a prova mais vívida de que Deus se importa com você e está determinado a salvar sua vida. Você não precisa buscar mais evidências do amor de Deus por você. Ele já provou esse amor, em grau superlativo. O amor de Deus por você é abundante, maiúsculo e eterno.

GESTÃO E CARREIRA

PARA ONDE VAI A PRIVACIDADE?

Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) entrará em vigor este ano. A grande maioria das empresas ainda não está preparada para se adequar às exigências que irão impactar seus negócios.

Chegou a vez de o consumidor colocar as empresas contra a parede. Essa é a promessa da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entra em vigor a partir de 20 de agosto. Além dos clientes, que devem ter suas informações rigorosamente protegidas, a própria legislação esmaga as companhias, ao exigir uma série de responsabilidades para que os dados que elas detêm sejam cuidadosamente armazenados para não serem vazados ou roubados por hackers. Se isso ocorrer, seja por ter sofrido ataque em seu sistema ou por erro no processo de arquivamento, a LGPD prevê multas que variam de 2% do faturamento da empresa a R$ 50 milhões para cada falha constatada. Uma alta punição pecuniária, capaz de quebrar a maioria das empresas do País e que fará, segundo especialistas, com que a lei venha para ficar. As companhias estão assustadas. Mas é lenta a movimentação para se adequar às novas regras, devido à complexidade, às mudanças de processos e cultura e aos custos. Conclusão:
a quase 200 dias de a norma passar a valer, o arcabouço empresarial brasileiro não está preparado para atender às exigências previstas. E isso coloca em dúvida se a privacidade do cidadão será mesmo preservada a partir da LGPD.

A nova lei prevê que as empresas têm de proteger ou descartar os dados pessoais (nome, telefone, e-mail, RG, endereço e outros) de clientes e funcionários, por exemplo. E não só arquivos digitais. Os físicos também. Se houver vazamento, de qualquer tipo, será aplicada multa. Dados sobre consumidores são considerados valiosos no ambiente corporativo para tomadas de decisões mais assertivas, visando alcançar o público-alvo do negócio de forma mais eficiente. Com essas informações em mãos bem trabalhadas e as estratégias definidas, vende-se mais, gastando menos energia e força de trabalho. Por isso, os dados são considerados o petróleo do futuro. E também por isso devem ser bem guardados, pois todo mundo está de olho neles: o cidadão, as empresas, os hackers e as companhias de cibersegurança que trabalham para protegê-los.

Segundo pesquisa da Serasa Experian, 85% das empresas brasileiras não estão preparadas para a LGPD. Foram ouvidos executivos de 508 companhias do País, de 18 setores e dos mais variados portes. Na opinião do diretor-geral da Kaspersky no Brasil, Roberto Rebouças, esse número pode ser ainda maior. “É mais do que isso. Hoje, se você entrar em qualquer site ele te pede um monte de informações. Estamos sendo procurados por empresas”, afirma o executivo da maior companhia privada do Brasil no setor de segurança de dados. “Neste momento, ninguém está preparado. Tem muita coisa nebulosa, muita coisa que será definida em cima da hora e muita coisa que vai acontecer e será avaliada quando a lei estiver em vigência”, diz.

COMPLEXIDADE

Na avaliação do professor Maximiliano de Carvalho Jácomo, coordenador do curso de segurança digital do Instituto de Gestão e Tecnologia da Informação (IGTI), em Minas Gerais, além da proteção, as empresas precisam ter controles de como estão fazendo as coisas. “É complexo. Será alterada a cultura das firmas e dos cidadãos”, observa.

Ele concorda com Roberto Rebouças sobre as empresas não estarem preparadas para atender à lei, apesar de ver a LGPD com olhar otimista, o que coloca em dúvida se a regra vai ser uma conquista ou dor de cabeça para a sociedade brasileira. Embora Rebouças, da Kaspersky, precise vender seu peixe, o executivo garante que o brasileiro, em geral, defende muito mal seus dados. Pior: os expõem na internet voluntariamente. “Hoje, temos pouca privacidade. O brasileiro posta muita coisa dele mesmo. É campeão mundial de mídia social em praticamente todas elas. Em 10 ou 15 minutos de pesquisa sobre alguém, posso mandar e-mail com informações sobre ela, fazendo parecer que a conheço há 20 anos”, garante o executivo da Kaspersky, de origem russa e com escritório principal na Suíça. No Brasil, está instalada desde 2012. “Não vemos nessa lei uma oportunidade de negócio. Temos trabalhado permanentemente com os clientes para deixá-los mais preparados e com conhecimento suficiente para entender qual é a problemática. Ninguém vai ter tempo nem dinheiro para fazer tudo, a tempo de a legislação começar a valer”, diz Rebouças.

O executivo acredita que não há solução definitiva para evitar ataques cibernéticos que visam capturar dados. A solução mais eficaz para a proteção cibernética é transformar a eventual vítima num alvo de difícil acesso. “Não existe proteção 100% e nunca vai existir. Qualquer pessoa mal intencionada, se decidir invadir algum local, consegue. Depende de quanto ela está disposta a investir nesse ataque.”

A LGPD avançou depois de ataques e vazamentos se intensificarem no Brasil. O País, que já ostentava as primeiras posições mundiais em phishing e outros ataques, viu alguns casos se tornarem famosos por sua grande escala, como divulgação ilegal de dados de clientes bancários e de consumidores de e-commerces – em âmbito mundial, o caso do Facebook é um dos mais famosos e no Brasil destaca-se o da Netshoes. A legislação tem origem na Medida Provisória 869 de 2018, editada pelo então presidente Michel Temer. O atual comandante do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro, sancionou a lei 13.853 de 2019, que flexibilizou a Lei Geral de Proteção de Dados (13.709 de 2018) e criou a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), responsável pela futura fiscalização.

Com muitas incógnitas e altas multas, a LGPD pode levar a um caminho perigoso, fazendo surgir outros tipos de crime. “É possível que um invasor entre no sistema de uma empresa, pegue os dados e entre em contato com a própria empresa para pedir resgate, como num sequestro cibernético. Numa situação hipotética, com os dados vazados a empresa pagaria multa de R$ 100 mil, por exemplo. O invasor pede R$ 50 mil para não vazar”, diz Roberto Rebouças, da Kaspersky.

Thiago Bordini, diretor de inteligência cibernética e pesquisa do Grupo New Space, que tem em uma de suas vertentes a prevenção a fraudes pela internet, aponta outros problemas. “Ainda existem muitas dúvidas sobre a nova lei. Principalmente, de como serão as investigações de vazamentos”, destaca. “Não se sabe como isso será feito. E são muitas variáveis. Imagine que uma pessoa tenha a mesma senha e e-mail para duas lojas virtuais diferentes e seus dados foram vazados. Pode haver confusão sobre onde, de fato, é a origem do vazamento e uma empresa pagar pela outra”, avalia Bordini, ao sugerir tempo para “maturação” da lei, com orientações iniciais antes da aplicação das sanções.

Os especialistas apontam, ainda, uma distinção importante entre a lei brasileira e a europeia: o escalonamento. Enquanto na Europa a legislação prevê exigências diferentes para empresas de grande, médio e pequeno portes, por aqui todas as empresas são tratadas da mesma forma. Uma gigante automobilística terá as mesmas obrigações da pequena venda de verduras da esquina. A LGPD trata os diferentes como iguais. A seis meses do início de sua vigência, há mais dúvidas do que certezas. Afinal: a privacidade estará garantida ou mais perto de ser violada?

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PARA ALÉM DO MAL

Usada por muitas pessoas como estratégia para manter uma vida boa, afastar-se de pessoas más é uma iniciativa sábia mas há algo pior, muito pior, que a maldade

A fim de combater a dualidade reducionista e a visão simplista com que muitas vezes alguns “especialistas” costumam abordar o tema das emoções em Psicologia Positiva, venho falando, nas minhas duas últimas colunas, de emoções que, em princípio vistas como negativas, possuem também um caráter positivo ou mesmo funcional, que não pode ser ignorado. Nesse sentido, e mantendo o mesmo tom daquilo que parece ser, mas não é, gostaria de ampliar essa discussão, falando não apenas de emoções, mas também de características (ou qualidades) mais conhecidas em Psicologia Positiva como “forças pessoais”. De fato, focarei este texto em uma dessas forças, a prudência que juntamente com o sentimento da coragem, acredito, trarão uma maior compreensão para um tema incrivelmente pouco explorado em Psicologia: a covardia.

Mas examinemos sob um outro ângulo. Considerada por Aristóteles como a mais importante das virtudes, já que é necessária até mesmo para que o indivíduo seja capaz de ser ele mesmo, a coragem é vista em Psicologia Positiva também como uma força (bravura). Além disso, trata-se de um sentimento que, como tal, pode ser experimentado (e cultivado) por qualquer pessoa, ainda que esporadicamente, no caso daqueles que não a possuem como característica. E aqui chegamos ao ponto principal da nossa discussão. Enquanto a coragem é vista apenas como força pessoal, é claro que ela não se torna imprescindível, na medida em que nenhuma força pessoal o é e, sobretudo, na medida em que o modelo das forças pessoais sugere que sejamos as melhores versões de nós mesmos a partir do nosso conjunto pessoal de cinco forças, seja ele qual for.

É por isso que não estou me referindo aqui à coragem como força pessoal, nem mesmo como virtude. Falo do sentimento de coragem do qual todos somos capazes e que se constitui no único caminho capaz de combater a covardia, algo que julgo ser mais perigoso do que a própria maldade.

Precisamos falar mais sobre a covardia, pois os covardes são os soldados da maldade. Eles existem em muito maior número do que os maus e, ao contrário desses, conseguem passar despercebidos pela maioria de nós, escondendo-se por detrás de feições tranquilas e inofensivas; muitas vezes protegidos também pelo rótulo da prudência.

É preciso salientar que não estou chamando de covardes aqueles que possuem a prudência como força pessoal. Contudo, chamo a atenção para o caráter nocivo de uma prudência excessiva. Ou ainda para o confortável autoengano que ela pode representar para aquele que, alheio ao seu lado sombra, prefere ignorar sua própria covardia.

Tropeçamos em hordas de covardes todos os dias. No universo corporativo são encontrados aos borbotões: pessoas que não se posicionam por medo de se “queimar” (leia-se “se comprometer”), outras que mudam seus discursos em função do seu interlocutor, que traem os companheiros corajosos (e por vezes ingênuos) que empunham bandeiras coletivas; covardes que, sempre de uma forma quieta, velada e mansa, representam o que há de pior na raça humana.

Meti desprezo a esses seres é tamanho que chego mesmo a preferir os maus, pois ainda consigo ver algo de admirável naquele que escolhe viver na contramão dos valores compartilhados por toda uma sociedade. O perigo sempre é maior dentre os dissimulados.

Prudente, político, maduro… são muitos os rótulos socialmente aceitos passíveis de serem usados pelos covardes a fim de enganarem o outro ou, pior, a si mesmos. Enquanto isso, tais pessoas são usadas no mundo todo como massa de manobra nas mãos dos mal-intencionados. Por isso precisamos falar mais sobre os covardes.

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA lnstitute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br