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AS LIÇÕES DE WUHAN

A experiência da primeira cidade afetada pelo novo coronavírus sinaliza ao mundo as lições para combatê-lo e o difícil caminho para a retomada da vida normal

Wuhan, a cidade chinesa de 11 milhões de habitantes onde surgiram os primeiros casos do novo coronavírus, tem muito a ensinar, não só para o Brasil mas para todas as nações. Dois terços dos 80 mil casos reportados no país aconteceram na cidade. Uma importante lição de Wuhan ao mundo ser refere à importância da transparência. O maior símbolo é um herói: o médico Li Wenliang, oftalmologista que trabalhava no Hospital Central da cidade. Em dezembro, ele fez um alerta aos colegas sobre o surgimento de um novo coronavírus na cidade, semelhante ao causador da Síndrome Respiratório Aguda Grave (SARS). Foi reprimido pela polícia e, contaminado, faleceu em janeiro. Protestos da população contra o abafamento da notícia foram rapidamente apagados pelo governo das redes sociais. Caso o episódio tivesse sido tratado com rapidez, a história teria sido outra. Providências teriam sido tomadas mais cedo para isolar os infectados. Wuhan é um importante ponto de conexão entre cidades da China e também do mundo. Ou seja, ali começou a propagação do vírus para o mundo. Outra lição a ser aprendida por Wuhan é o amplo uso de máscaras pela população, assim como o isolamento da cidade.

Apesar de tardiamente, no dia 23 de janeiro, a China adotou a quarentena de cidades inteiras, o fechamento de comércio e de serviços não essenciais, além de restrição de viagens aéreas. “Para conter qualquer epidemia, ao menos um de três fatores precisam ser controlados: a fonte de infecção, a via de transmissão ou a população suscetível”, diz a médica Tânia Vergara, presidente da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio de Janeiro. O isolamento é, portanto, uma forma comprovada de reduzir a transmissão.

Um aprendizado valioso se refere ao uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) e à necessidade de ter um sistema hospitalar preparado para o grande número de pacientes. Na cidade, a demanda era tão grande que muitos profissionais pulavam refeições para não terem de retirar os EPIs, e até usavam fraldas por não dar tempo de ir ao banheiro. Além disso, foi importante treinar exaustivamente a equipe médica sobre a correta forma de manuseio dos EPIs, principalmente ao retirá-los, para evitar infecções. Antes de aplicar essas medidas, houve grande índice de contaminação. Em fevereiro, quase 2 mil trabalhadores da linha de frente tinham contraído a Covid-19. O governo rapidamente reagiu para atender o número crescente de pacientes e inspirou o mundo a fazer o mesmo: ginásios, escolas e centros de exposição foram utilizados para receber as vítimas e, em 12 dias, a China construiu 11 hospitais temporários. Por último e de maior importância está o erro de comercializar animais vivos. No país, mercados de animais silvestres são comuns. Ambientes como esse facilitam a transmissão, e foi assim que se deu a ponte de animais para humanos de vírus como HIV e Ebola, uma vez que seus hospedeiros selvagens foram colocados em ambientes urbanos. A mais importante mensagem que o novo coronavírus dá ao mundo é a necessidade de uma campanha massiva que proíba a realização dessas vendas em todo o mundo.

QUARENTENA FOI ENCERRADA

Após 76 dias de confinamento, no dia 8 de abril Wuhan começou a retomar a rotina. Mas nada é como antes e ainda levará tempo para a cidade se restabelecer. Mais de 90% das companhias voltaram à atividade, mas o consumo de eletricidade ainda é 20% inferior ao mesmo período do ano passado. As pequenas empresas são as mais afetadas, e não devem recontratar os funcionários demitidos com facilidade. As pessoas ainda são aconselhadas a permanecer em casa o máximo possível. Aos poucos o tráfego de carros volta às ruas, mas as escolas estão com os portões fechados, sem previsão para a volta das aulas presenciais. O mesmo acontece com teatros, cinemas, ginásios esportivos e restaurantes, cujo serviço se limita a refeições para viagem — este é um dos segmentados mais afetados. Lojas agora vendem mercadorias preferencialmente em balcões voltados para rua. Os táxis voltaram a levar passageiros, assim como linhas de trem e balsas que trafegam pelo grande rio Yangtzé. O controle, porém, é rigoroso: para entrar em escritórios comerciais e estações de trem, é preciso medir a temperatura e mostrar o aplicativo oficial de celular que sinaliza se o cidadão tem sintomas da Covid-19 ou esteve perto de algum caso confirmado. Para viajar de Wuhan a Pequim é preciso superar uma grande burocracia. Além de se submeter a testes do vírus em ambas as localidades, é preciso aguardar autorizações do governo e ainda conseguir uma vaga no limite diário de mil viagens por dia. Os comércios já estão abertos, mas com controle do número de pessoas dentro dos estabelecimentos e recorrente inspeção de policiais sobre a disposição das mercadorias. As pessoas ainda têm medo, principalmente que a epidemia volte a explodir. Ninguém no mundo conhece melhor os efeitos da doença do que os habitantes da cidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE ABRIL

REVESTIMENTO DE PODER

Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo… (Atos 1.8a).

Depois da Ressurreição e antes da Ascensão, Jesus deu uma ordem aos discípulos: … permanecei na cidade até que do alto sejais revestidos de poder (Lucas 24.49a). A capacitação precede a ação. Antes de sairmos a campo para realizarmos a obra, precisamos ser revestidos com o poder do Espírito Santo. Essa capacitação não vem de técnicas engendradas pelo homem. Não encontramos esse poder nos reservatórios humanos. Ele não vem do homem, vem de Deus; não vem da terra, vem do céu. Há três verdades que precisam ser aqui destacadas:

1) O LUGAR DO FRACASSO PRECISA SER O PALCO DA RESTAURAÇÃO. Os discípulos se acovardaram em Jerusalém. Fugiram quando Jesus foi preso. Dispersaram quando o Pastor foi ferido. Seria mais cômodo reiniciar o ministério noutras plagas, mas Jesus os ordena a recomeçar exatamente ali, onde haviam fracassado.

2) A BUSCA PELO PODER PRECISARIA SER FEITA COM SENSO DE PERSEVERANÇA. Os discípulos deveriam permanecer na cidade até que. Não tinham autorização para interromperem essa busca até que fossem capacitados de forma sobrenatural. Eles não aguardaram inativos esse revestimento, mas em unânime e perseverante oração.

3) ELES DEVERIAM TER EXPECTATIVA DE ALGO GRANDIOSO, A CAPACITAÇÃO DE PODER, CAPAZ DE SUPERAR SEUS FRACASSOS. Ainda hoje, precisamos desse revestimento. Nossas fraquezas não podem ser superadas por nossos próprios recursos. Precisamos do poder que vem do alto!

GESTÃO E CARREIRA

UMA HISTÓRIA SEM FINAL FELIZ

As redes de livrarias Cultura e Saraiva, ambas em recuperação judicial, podem fechar de vez caso não consigam novos acordos com credores

Desde a semana passada, a seção de livros mais vendidos ilustra um fenômeno sem precedentes na história do mercado editorial brasileiro: pela primeira vez, a venda de títulos em livrarias físicas praticamente desapareceu do levantamento; somente o comércio on-line está representado naquela que tem sido uma bússola dos humores desse setor. E a tendência é que o movimento não só continue como se aprofunde por semanas (ou meses) a fio. A culpa, claro, é do coronavírus. Assim como ocorre com a indústria do cinema ou o negócio bilionário dos shows e festivais, a pandemia teve um efeito avassalador sobre a vida de livrarias, editoras e autores. Nesse caso, porém, o estrago das inevitáveis medidas de restrição social se soma a uma crise crônica que se arrasta no mundo editorial há coisa de cinco anos e ameaça levar de roldão as principais redes do país. O coronavírus surge como um catalisador capaz de acelerar as profundas mudanças no segmento.

Com a quarentena decorrente da Covid-19, as livrarias fecharam suas portas e viram a margem de lucros no setor em geral, que era de aproximadamente 4%, transformar-se em imenso prejuízo. As primeiras consequências surgiram por volta de 11 de março, quando a OMS declarou que o mundo vivia uma pandemia. Atendendo a pedidos, a Yandeh/Bookinfo, empresa de tecnologia que monitora os números desse mercado com base na movimentação na boca do caixa de 250 pontos de venda de livros no país, mediu os efeitos devastadores. O faturamento desse conjunto de livrarias, que ficava na casa de 13,6 milhões de reais na semana anterior à decretação da pandemia, registrou uma queda dramática de quase 92% na semana de 23 a 29 de março. Como esperado, o volume de mercadorias vendidas também acompanhou a queda, registrando um tombo de 80% se comparado aos números da semana que precedeu o confinamento.

O recrudescimento da crise piorou a situação de duas redes tradicionais que já viviam dias complicados. Com alguns percalços no caminho, a Cultura e a Saraiva haviam conseguido aprovar seus planos de recuperação judicial no ano passado. A Cultura o fez em abril. Já a Saraiva, em agosto, quando acatou uma das exigências dos credores: o afastamento de Jorge Saraiva Neto do comando da operação. Arelação muitas vezes conflituosa entre a maior varejista do mercado livreiro e as editoras esboçava, assim, uma distensão. Mas o frágil equilíbrio foi rompido quando a empresa viu suas 74 operações ser fechadas em todo o país devido à Covid-19. Logo a Saraiva emitiu um comunicado às editoras com teor de calote explícito. “Diante deste cenário de crise sem precedentes e falta de visibilidade das vendas futuras, adotaremos uma medida austera, masnecessária, de suspensão imediata de todos os pagamentos por prazo indefinido”, diz a mensagem, assinada pelo então diretor comercial, Deric Degasperi Guilhen. Dias depois, a empresa entrou com uma petição na Justiça para revisar seu plano de recuperação. As editoras ficaram ressabiadas. “O varejo em geral procurou as editoras para renegociar os pagamentos. A Saraiva, não”, ressalta Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e sócio fundador da editora Sextante. Na sequência do anúncio da suspensão de pagamentos, Luís Mario Bilenky, CEO contratado pela Saraiva em janeiro, pediu demissão – e Guilhen assumiu seu posto.

O coronavírus tornou aguda a necessidade urgente de readequação do setor – na verdade, quase uma imposição darwinista na nova atmosfera dos negócios. Desde meados dos anos 1990,as grandes redes, com Saraiva e Cultura à frente, investiram numa política de expansão desenfreada inaugurando megastores em shopping centers pelo país afora, pagando aluguéis a peso de ouro. Como, ao mesmo tempo, a ascensão do mercado de vendas on-line ia dilapidando as vendas em lojas físicas, tal expansão não demorou a se revelar insustentável.

Apesar da frágil situação das duas empresas, a pandemia cria uma condição de exceção para a maioria das companhias que dependem de vendas em pontos físicos. Assim como bancos ou proprietários de imóveis renegociaram seus contratos com comerciantes dos mais variados matizes, os credores também precisam pensar na manutenção do ecossistema, e não apenas nos valores previstos para os próximos três meses. Até por isso mesmo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou uma portaria que flexibiliza as regras da recuperação judicial, permitindo uma renegociação em caso de impossibilidade do cumprimento das obrigações. As novas orientações valem para todas as empresas brasileiras que se encontram nessa situação, desde a Saraiva até a Odebrecht – dona do maior plano de reestruturação corporativa do Brasil.

Asdificuldades das livrarias são o primeiro e um claro exemplo de como pode ser devastador o efeito dominó que recai sobre todo o setor. “Mesmo como retorno das atividades, muita gente terá perdido o emprego. As pessoas estarão sem dinheiro e com medo de frequentar lugares fechados. Nós não vamos voltar a vender como antes”, prevê o empresário Alexandre Martins Fontes, que gerencia duas livrarias físicas em São Paulo e a editora que leva seu sobrenome. “Nas últimas três semanas, nosso faturamento total caiu 57%, mas as vendas on-line subiram 23%”, informa ele. O gigante do varejo digital Amazon surge como o óbvio beneficiado pelo ocaso das livrarias físicas – no conjunto dos 100 principais títulos da lista de Mais Vendidos, sua participação no volume total passou de quase 30% para 73% desde o início da pandemia. Entretanto, se examinados com Lupa, os números mostram que as vendas da própria Amazon, sob esse mesmo critério, subiram num primeiro momento, mas depois também sofreram queda.

Em decorrência da crise, as editoras tiveram de buscar novos caminhos para se reinventar. Enquanto algumas resolveram apostar em marketplaces, espécie de shoppings virtuais, para mitigar a dependência das grandes livrarias, outras viram os clubes de assinatura como uma oportunidade. Eles ganharam milhares de adeptos e abarcam empresas de diversos tamanhos, como a gaúcha TAG e a Leiturinha, voltada ao público infantil. Mas editoras como Companhia das Letras, Record e Intrínseca também já fazem parte deste coletivo. Além disso, uma aposta promissora no ambiente virtual são os audiolivros e os chamados instant books, muito utilizados por pessoas que querem devorar uma obra rapidamente. Para as livrarias, uma visão menos romântica seria a adoção de outro modelo que tem ganhado força em países da Europa: o da impressão sob demanda. “Talvez o futuro da livraria seja tornar-se uma loja de conveniência, com a impressão no ato. Mas eu ainda a vejo com uma função de extrema importância, de um encontro com a civilização”, afirma Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL). Que o drama circunstancial do coronavírus traga luzes a esse setor tão essencial.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUE AS SELFIES DIZEM SOBRE A PERSONALIDADE?

Recente pesquisa aponta que a postagem de fotos de si mesmo nas redes sociais revela aspectos da personalidade que fazem parte da tríade sombria de traços negativos

A postagem de fotos em redes sociais certamente traz informações sobre aspectos de nossa personalidade, mas só mais recentemente pesquisas têm sido realizadas para investigar cientificamente a questão. Uma das medidas mais em alta sobre os traços de personalidade é a chamada dark triad ou tríade sombria, que envolve três componentes: narcisismo, psicopatia e maquiavelismo.

Estudos recentes têm relacionado a postagem de selfies com as medidas de personalidade, inclusive com a tríade sombria. Homens que postam mais frequentemente selfies em sites de mídia social como Facebook têm maior probabilidade de apresentar traços de personalidade narcisista e antissocial (psicopatia).

Os homens que postam uma série de fotos de si mesmos e gastam mais tempo editando-as são mais narcisistas, segundo o estudo. Aqueles que editam selfies previamente tiveram maior pontuação do que a média em medidas de narcisismo. Narcisistas tipicamente pensam muito favoravelmente sobre si mesmos, que são mais inteligentes ou mais atraentes do que os outros, enquanto que aqueles com tendências psicopáticas tendem a ser mais impulsivos e exibir uma falta de preocupação com os sentimentos dos outros.

Uma das descobertas mais interessantes é a de que esses sujeitos que postam mais selfies têm alta pontuação em outros traços de personalidade antissocial, como tendência à psicopatia e à auto- objetificação. Claro que isso não significa que homens que postam selfies são psicopatas narcisistas, mas esses traços são mais altos do que a média nesses sujeitos da amostra. Para o estudo, 800 homens completaram um questionário com perguntas sobre seus hábitos de postagens de fotos em redes sociais, e depois responderam a inventários sobre traços de personalidade e auto- objetificação. Quanto mais esses homens editavam as fotos antes de postar, maior sua pontuação em narcisismo, mas não havia ligação desse comportamento da edição das fotos com a psicopatia.

Esse resultado faz sentido porque a psicopatia é caracterizada pela impulsividade. Os sujeitos mais impulsivos tiram fotos e as postam imediatamente. Já o gasto de tempo editando as fotos antes de postá-las está ligado à auto- objetificação, que é a tendência de colocar mais valor na sua aparência do que em suas qualidades pessoais. Essa tendência de mais preocupação com sua aparência cresceu muito com o uso de redes sociais, ou seja, temos cada vez mais inclinação à auto- objetificação na sociedade contemporânea. Embora o estudo tenha sido feito com amostra masculina, outros estudos confirmam as mesmas tendências para mulheres, com exceção da presença de psicopatia.

Outro estudo, também com homens, traçou correlações diretas entre maior pontuação em narcisismo e o tempo gasto em redes sociais. Ou seja, homens com inclinações narcisistas ficam mais tempo em redes sociais. Quanto mais pontuação em narcisismo e psicopatia, maior o número de selfies postada em redes sociais. Já os traços de narcisismo e auto- objetificação estavam relacionados a mais tempo editando as fotos antes de postá-las em sites de redes sociais. De fato, nosso comportamento em mídias sociais expressa características de nossa personalidade, tanto positivas como negativas, como revelam as investigações.

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed. 2011).