OUTROS OLHARES

EM QUE MUNDO VIVEM?

Em busca de likes e de afagos no ego, influenciadores causam repulsa ao mostrar profundo descompasso com a realidade de medo e recessão causada pelo coronavírus.

Com curvas e lábios estonteantes, a influenciadora de moda e beleza Flavia Pavanelli vem enfrentando a quarentena em ritmo de expediente atribulado. Em sua casa, na cidade de São Paulo, faz fotos e vídeos da rotina para 17 milhões de seguidores, como se o mundo estivesse em curso natural: tem troca de roupa ao lado de seu stylist particular, presença em confraternizações para assistir a lives de cantores pelo YouTube e tutorial de maquiagem para realçar seu rosto esculpido pelo DNA e aprimorado por preenchimentos. E dá-lhe os famigerados looks do dia com roupas de grifes caras, como Balenciaga. Considerando-se o drama do planeta por causa da Covid-19, não é de espantar que o negócio tenha lhe rendido inúmeras críticas, a ponto de a moça precisar se explicar. As confraternizações regadas a lives rolaram apenas na companhia de familiares e do personal stylist, que se mudou para a mansão de Flavia (ah, o mundo dos ricos…).

Embora não tenha mudado ainda o vício das estrelas das redes sociais nos likes e a necessidade permanente de afagos no ego, a pandemia acertou em cheio o lucrativo mercado das influenciadoras, que, ao fazer de sua vida um produto, passaram a faturar muito dinheiro com publicidade. Na era pré-crise, um post pago de blogueiras de moda com mais de 3 milhões de seguidores girava em torno de 50.000 reais. Em 2019, a propaganda veiculada por essa turma movimentou 8 bilhões de dólares só nos Estados Unidos, segundo um estudo da Business Insider Intelligence. Mas o isolamento social veio e cortou a raiz que faz com que uma celebridade digital seja interessante aos olhos dos internautas ávidos por acompanhar tudo pela tela do celular: a rotina. Não há mais viagens ao exterior, tampouco primeiras filas de desfiles em Paris, noitadas em festas de amigos famosos e mesas fartas em restaurantes da moda. Resta criar conteúdo na quarentena, dentro de casa. Não bastasse o nonsense desse tipo de produção em tempos de coronavírus, o negócio tem efeito prático nulo. Quem vai se inspirar afinal em um look do dia sem poder sair?

Parece óbvio, mas não custa lembrar: isolamento social e ostentação não combinam. A nova etiqueta das redes não tem perdoado escorregões como o da pouco sorridente Thássia Naves, com 3,6 milhões de seguidores no Instagram. Ela aproveita parte do tempo para fazer vídeos no aplicativo TikTok tendo as prateleiras de seu estupendo closet como pano de fundo. Ao som de Funkytown, da banda Lipps Inc, troca de roupa e sapatos com dezenas de exemplares de bolsas Hermes, Dior e Prada como cenário. Nem o fato de Thássia ser promotora de um grande bazar beneficente anual aliviou o tropeço. Outra que causa espanto é a bilionária Sarah Mattar. Com 327.000 seguidores, a filha de Salim Mattar, dono da Localiza e secretário de Desestatização, Desenvolvimento e Mercados do governo de Jair Bolsonaro, posta cenas do cotidiano em que aparece cuidando de seu filho ambientadas na fazenda da família, ornada de uma piscina com cachoeira particular e verde a perder de vista. Em um passado recente, esses posts tinham muito apelo e, com isso, ajudavam a alavancar a popularidade na internet e a gerar faturamento. Mas o jogo mudou e tentar criar uma bolha da fantasia em meio à ameaça da Covid é mau negócio. “Quem não tiver um pé na realidade ficará fora do mercado”, diz Pedro Tourinho, publicitário e autor do livro Eu, Eu Mesmo e Minha Selfie.

A dificuldade de adaptação não acontece apenas no Brasil. A apresentadora americana Ellen DeGeneres disse que a quarentena a fez sentir-se em uma prisão – pois não sai de casa e veste a mesma roupa por dias seguidos. Ocorre que a “prisão” dela tem sido sua mansão de Montecito, na Califórnia, avaliada em 27 milhões de dólares e dentro de um terreno de 33.000 metros quadrados com academia, piscina e um jardim de cactos. Kylie Jenner, irmã de Kim Kardashian, postou seus cafoníssimos hashis da Louis Vuitton. David Geffen, fundador da DreamWorks e o homem mais rico de Hollywood, publicou uma imagem de seu iate de 138 metros ao falar de cumprir a quarentena singrando o Mar do Caribe. Geffen e Kylie foram criticados pelo descompasso total com o momento. Não parece que vivem no mesmo país em que mais de 45.000 pessoas já morreram em decorrência do coronavírus.

Enquanto uma parte dos influenciadores sofre para entender o novo mundo, há casos que podem ser classificados como autênticos exemplares de darwinismo das redes sociais. A italiana Chiara Ferragni é a Gisele Bündchen das blogueiras: a número 1.

Com o agravamento da Covid na Itália, ela doou do próprio bolso 100.000 euros e fez uma vaquinha virtual em prol de hospitais públicos do país. Até a semana passada, a iniciativa havia arrecadado 4,4 milhões de euros. Como efeito colateral, Chiara amealhou novos 2 milhões de seguidores em sua conta no Instagram, hoje com 19,6 milhões de fãs. Chiara, note-se, não deixou de postar fotos na frente do espelho usando bolsa Chanel nem de vender sua coleção de roupas, agora de moletom ou de academia. Apenas diversificou o que já fazia, adaptando-se ao momento atual. Deu certo.

A mudança de dinâmica na rede social não afeta apenas famosos. Há muitas pessoas saindo para correr na orla da praia ou nas ruas, mas, no momento, sem postar nada pelo receio de ser criticadas por romper o isolamento social. A hashtag look do dia caiu mais de 90% em popularidade desde o início da crise. Por outro lado, a hashtag TBT, de throwback thursday, dedicada às postagens de fotos antigas, cresceu mais de 1000%. A #TBT virou a única forma de publicar fotos de viagens antigas e de lugares ao ar livre, funcionando como um escapismo em tempos de isolamento social.

Ironicamente, a quarentena aumentou o público disponível para quem vive de aparecer na internet – a questão é acertar o tom. Plugada no celular, a audiência tem ficado um tempo 30% maior vendo os vídeos no Stories do Instagram. Mas o que as pessoas rejeitam é o conteúdo repleto de ostentação, quando a vida se mostra dura e cruel. Estar confinado significa não poder fazer propaganda pelo Instagram? Não, afinal esse é o ganha-pão de influenciadores e de inúmeras empresas. “Anunciar serviços de delivery e de streaming é pertinente ao momento”, afirma o publicitário Pedro Tourinho. “Só não dá para postar look do dia na mansão com a hashtag fique em casa. Parece deboche.” O desafio para muitas influenciadoras será trocar os excessos e a falta de noção característicos de boa parte da classe por uma dose emergencial de bom senso, ainda que isso possa ser a chave para a sobrevivência. No caso da blogueira Flavia Pavanelli, o maior castigo para o descompasso entre seus posts e a realidade veio na forma de um resultado positivo para o teste da Covid-19. Passado o susto, a modelo conta estar recuperada – e pronta para mais um look do dia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE ABRIL

AJUNTE OS SEUS GRAVETOS

Tendo Paulo ajuntado e atirado à fogueira um feixe de gravetos, uma víbora, fugindo do calor, prendeu-se- lhe à mão (Atos 28.3).

Paulo estava de viagem para Roma. Esse era o seu sonho, depois de plantar igrejas nas províncias da Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia Menor. Deus também queria Paulo em Roma. Mas sua viagem à capital do império foi marcada por muitas tensões e um traumático naufrágio. Depois de perder toda a carga da embarcação e ver o próprio navio ser destruído pela fúria das ondas, Paulo e os demais passageiros chegaram à ilha de Malta, onde foram recebidos com urbanidade pelos bárbaros. Molhados e transidos de frio, encontraram uma fogueira acesa e calor para se aquecerem. Além do capitão, do mestre do navio, dos marinheiros e da tripulação, havia naquele navio alexandrino mais duzentos passageiros. Todos chegaram à Malta como náufragos. Mas somente Paulo tomou a iniciativa para manter a fogueira acesa. Apenas Paulo ajuntou gravetos para lançá-los no fogo. Talvez alguém argumente: O que é um punhado de gravetos numa fogueira? O que é uma gota d’água no oceano? O que é um gesto de amor num mundo de tanta indiferença? A lição que Paulo nos ensina é que você precisa fazer a sua parte. Mesmo que ninguém o acompanhe nessa nobre atitude, faça a sua parte. Mesmo que ninguém colabore, faça a sua parte. Mesmo que todos ao seu redor estejam desanimados, faça a sua parte. Mesmo que todos o acusem por ter sido mordido por uma víbora, faça a sua parte. Mesmo que todos à sua volta estejam entrando no esquema do mundo e retrocedendo na fé, faça a sua parte. Ajunte os seus gravetos!

GESTÃO E CARREIRA

ABRACE A VULNERABILIDADE

Aceitar que temos nossos medos e limites é essencial para estimular a coragem. Aprenda a fazer isso no ambiente profissional

Durante anos, a pesquisadora americana Brené Brown se debruçou sobre o tema da vergonha – ela queria entender o que está por trás desse fenômeno e por que é tão difícil para alguns lidar com esse sentimento. Ao longo desses estudos, ela deparou com dois grupos de pessoas: as que têm um forte senso em relação ao próprio valor e as que estão constantemente se questionando. A pergunta, para Brené, passou então a ser: qual o segredo por trás desse grupo mais seguro de si? O que ela encontrou em comum entre essas pessoas é que elas abraçam a vulnerabilidade e a entendem corno algo necessário e parte natural da vida. “Elas falavam da disposição de fazer algo para o qual não há garantias. Viam isso como fundamental”, diz Brené em seu TED Talk O Poder da Vulnerabilidade, de 2010.

A vulnerabilidade é definida como aquilo que experimentamos em momentos de incerteza, risco e exposição. Ela nos deixa ansiosos e com medo. O problema, segundo Brené, é quando evitamos situações e relações porque provocarão esse sentimento. Ter coragem para arriscar, viver experiências novas, dizer coisas importantes, tudo isso implica abraçar a vulnerabilidade.

FALTA DE CONFIANÇA

Os líderes que evitam se sentir vulneráveis também evitam conversas difíceis, inclusive o feedback honesto e produtivo. Eles deixam de reconhecer e de lidar com medos e sentimentos que surgem durante momentos de crise ou mudança.

“Muitas vezes as pessoas tendem a fugir daquilo que seria o assunto mais espinhoso e que é o conflito de fato”, diz Ronaldo Coelho, psicólogo e psicanalista em São Paulo, dono do canal Conversa Psi, no YouTube. Essa tendência, especialmente no mundo corporativo, levaria a um ambiente de pouca confiança. “É como se criasse uma relação na qual não se fala de coisas importantes”, diz. O resultado é urna comunicação falha, propensa a mal-entendidos e com pouco espaço para a sinceridade.

O medo de ser ridicularizado ou de falhar também impede que muitas ideias potenciais sejam implantadas, por receio de se expor e de ser julgado em uma cultura que prioriza os que parecem fortes e infalíveis. Ser um líder arrojado exige saber lidar com a vulnerabilidade, tanto a própria quanto a dos outros. Só assim esse gestor poderá, de fato, abrir espaço para a inovação e para o desenvolvimento das pessoas. ”Nossa capacidade de ser líderes ousados nunca será maior do que nossa capacidade para a vulnerabilidade”, escreve Brené em Coragem para Liderar (Best Seller, 39,90 reais).

DIFICULDADE CULTURAL

O problema é que, de forma geral, não lidamos bem com o que parece fraqueza. “Há um pressuposto de que mostrar sua vulnerabilidade é n1ostrar para o outro onde ele pode atacar”, diz o psicólogo Ronaldo. Ele usa uma metáfora para explicar os tipos de relação que podemos ter. Ou jogamos frescobol, no qual o objetivo é não deixar a bola cair, e os joga­ dores se ajudam para cumpri-lo; ou jogamos tênis, no qual o objetivo é fazer com o que o outro não consiga pegar a bolinha. “No primeiro caso, quando identifico fragilidade no outro, tento corrigir minha jogada para que ele consiga pegar a bola”, diz Ronaldo. Já no segundo, a fraqueza do outro é usada para derrubá-lo.

Desse modo, problemas e ideias deixam de ser compartilhados – assim como possíveis soluções e esforços de ajuda. “Temos a ideia de que a emoção não pertence ao trabalho – ela é ligada à instabilidade e à perda de controle”, diz Ana Carolina Souza, neurocientista e sócia da Nêmesis, consultoria de educação e neurociência. “Idealizamos um comportamento absolutamente racional, o que é impossível.” Segundo ela, as emoções estão sempre por trás de nossas decisões, mesmo que não nos damos conta disso.

Para Mônica Barroso, diretora de aprendizagem na The School of Life, falta em muitas organizações um ambiente psicologicamente seguro para as pessoas agirem de maneira mais vulnerável. “Essa questão ainda está muito no discurso”, diz. “Existe um desejo de mudança por parte das empresas, mas a cultura no dia a dia não acolhe de fato isso.” Se é possível que em algumas equipes esse clima de conexão aconteça mais facilmente, é preciso um esforço por parte das companhias para que isso seja a norma, e não a exceção.

PARADOXOS

A situação é complexa. Se por um lado temos cada vez mais popularizada a ideia de uma cultura ágil, na qual devemos “errar mais e mais rápido” e ter feedbacks constantes e sinceros, por outro, não é tão fácil exigir isso quando o ambiente não é exatamente o mais seguro. Punições e reações agressivas quando ocorrem erros, atitudes intolerantes com ideias novas ou fora do comum e competição exagerada são exemplos do que contribui para um ambiente inseguro – fora o medo de ser demitido em momentos de crise.

“É uma cultura bem predatória em algumas empresas que buscam resultado a qualquer custo e em detrimento das pessoas”, diz João Mareio Souza, CEO da Talenses Executive, empresa de recrutamento.

Mas algumas companhias já começam a cuidar dessa situação. Foi por uma iniciativa da empresa que César Augusto Pezzotti, de 41 anos, gerente corporativo de controladoria na Santa Helena, em Ribeirão Preto, conseguiu perceber quanto ele estava tentando vestir uma máscara no trabalho. Em 2018, César foi um dos participantes de um curso de gestão emocional. Eram encontros com um terapeuta, em uma chácara no interior de São Paulo, focados em aprender a lidar com medos e desafios e a desenvolver o autoconhecimento. Para o profissional, esse foi um ponto de virada. “Consegui aceitar que podemos ter problemas e que eles não ficam em casa quando vamos ao trabalho”, diz. ”Antes eu tinha a ideia de que na empresa você deveria esquecer tudo e só produzir, produzir e estar sempre sorrindo”, diz.

No começo, César sentia muita insegurança em simplesmente falar sobre o assunto. O processo não foi imediato – e na verdade continua, mesmo depois de cinco meses de acompanhamento. Mas a experiência já mudou a forma como ele encara a liderança. “Minha visão era que minha equipe tinha de ser muito próxima do meu perfil, parecida comigo no jeito de falar e agir – e acabei vendo que não é assim”, afirma. “Quanto mais diferentes as pessoas, quanto mais posturas diversas, mais eu cresço como gestor.” Isso o ajudou até a lidar com os próprios chefes. “Hoje ouço de forma mais genuína. Quando meus superiores vêm falar comigo, pratico a empatia e consigo entender melhor algumas situações.” Com sua equipe, ele busca reproduzir o que aprendeu lá atrás, convidando-a para reflexões e conversas fora do escritório.

ESFORÇO INDIVIDUAL

A mudança pode – e deve – partir do indivíduo. O RH e a liderança têm papel importante, mas é preciso também que cada um trabalhe a própria vulnerabilidade. Esse gesto, inclusive, ajudaria a ter mais clareza sobre as próprias motivações e escolhas profissionais. “As pessoas vão acumulando dor atrás de dor caladas, sofrem continuamente, até que um dia têm burnout”, diz Nélio Bilate, coach e fundador da consultoria NB Heart. Um dos primeiros passos é procurar entender a própria relação com a vulnerabilidade. Aprendemos com nossas experiências desde cedo e nem sempre nos damos conta de como agimos e pensamos. Uma forma de fazer isso é parar para analisar situações nas quais ficamos muito irritados ou frustrados e tentar entender os pontos em comum entre elas. Compreendendo melhor as próprias motivações, fica mais fácil definir o que nos atinge em cada situação e aceitar nossas emoções – e, portanto, ser menos reféns do medo de enfrentá-las.

Isso passa também pela forma como lidamos com as próprias falhas. “Muitas vezes, a pessoa se torna adversária dela mesma e começa a se maltratar. Ela gasta energia se punindo, e a parte que está sendo punida não consegue resolver o problema”, diz Ronaldo, psicólogo. Observar como agimos com os outros em momentos de vulnerabilidade também é útil. Quando alguém ao nosso lado chora ou demonstra alguma emoção, como reagimos? Podemos ficar irritados, constrangidos, chateados. Podemos ter dificuldade de dar apoio e mesmo de ter empatia pela pessoa. Para Wesley Barbosa, de 33 anos, sócio e diretor de comportamento do consumidor na XP Inc, empresa de investimentos, encontrar um ambiente que soubesse acolher sua vulnerabilidade foi fundamental. Nascido em uma favela na periferia de Maceió (AL), as dificuldades surgiram cedo. “Sempre busquei sair daquela situação, com uma mãe solteira e sem um pai que tenha me criado”, diz. Desde o primeiro emprego, em um call center, ele começou a juntar dinheiro para ir para fora do Brasil. Em paralelo, estudava marketing e neurociência. Para ele, aceitar a vulnerabilidade e o risco foi uma necessidade, mas também o que lhe permitiu chegar aonde chegou. Isso o tornava, segundo ele, uma pessoa mais emotiva e transparente. “Eu sempre fui o tipo de cara que chora e não conseguia fazer politicagem”, diz.

Essa postura de demonstrar emoções já trouxe problemas – e Wesley até foi demitido por causa disso. Quando aconteceu, ele decidiu anunciar para colegas e amigos sua situação. A experiência o fez perceber que precisava de um lugar onde pudesse ser quem era. “Se você omite toda a sua vulnerabilidade, como é que as pessoas vão ajudá-lo?” Como líder, ele tenta estimular isso em sua equipe. “Meu trabalho é identificar pessoas que não estão felizes, perguntar como estão se sentindo”, diz. Até porque foi sua relação com a própria vulnerabilidade que o ajudou a suportar os momentos mais difíceis. “Quando vem a insegurança, eu respeito, lembro de quais sãos meus valores e pelo que já passei”, diz.

O NASCIMENTO DA CORAGEM

Não é à toa que a vulnerabilidade está ligada à coragem – senão aceitamos as falhas e ficamos só buscando culpados em nós mesmos ou nos outros), fica difícil assumir riscos e se desenvolver. “Aprender é nos fragilizar ao assumir que não dominamos algo”, diz Nélio, da NB Heart. “É preciso coragem para aceitar isso.” Nessas situações perdemos o controle que imaginamos ter sobre as coisas. Por isso mesmo, essa pode ser outra forma de praticar a vulnerabilidade: colocar-se na posição de aprendiz com mais frequência.

“Um bom exercício é fazer perguntas para as quais não se sabe a resposta”, diz Mônica, da The School of Life. Segundo ela, é comum adotarmos em conversas a postura de apenas buscar dos outros a confirmação para algo que já sabemos. “Em vez de se manter na zona de conforto, perguntar algo cuja resposta você não saiba abre um espaço criativo e o obriga a agir de forma mais humilde, aberto para algo novo”, diz. Adotar a vulnerabilidade também envolve escutar mais o que os outros têm a dizer- sem tentar impor nossas ideias e julgamentos enquanto ouvimos.

E é importante saber escolher as pessoas com quem você tentará se abrir mais. “Se a empresa não está num estágio tão maduro, tente eleger pessoas com quem já tenha proximidade e fale de forma particular, numa relação de confiança”, diz João Marcio, da Talenses. “Esse tema deve ser levado a sério e de forma profissional.” Aliás, um dos pontos reforçados por Brené Brown é que a vulnerabilidade não pode ser vista como uma atitude confessional exagerada. Abraçar a vulnerabilidade não quer dizer se abrir para todo mundo independentemente das consequências. Parte importante dela é justamente entender quais são seus limites: até onde você está disposto a ir, o que é importante para você e quais são os momentos em que, ele fato, você precisa se proteger mais.

SEIS MITOS SOBRE A VULNERABILIDADE

No livro Coragem para Liderar, a americana Brené Brown elenca alguns equívocos sobre ser vulnerável. Veja quais são eles

MITO 1: VULNERABILIDADE É FRAQUEZA

Ser vulnerável é um a condição de todos nós, e assumi-la nos torna mais fortes.

MITO 2: EU NÃO SOU VULNERÁVEL

É impossível não ser vulnerável: ou você admite e lida com a vulnerabilidade, ou os medos que estão por trás o dominam.

MITO 3: POSSO LIDAR COM ISSO SOZINHO

“Precisamos de conexão”, escreve Brené. É importante encontrar apoio – seja nas pessoas a nossa volta, seja em acompanhamento profissional, com um terapeuta.

MITO 4: POSSO “GERENCIAR” A INCERTEZA E O DESCONFORTO DA VULNERABILIDADE

Não podemos confundir lidar com a vulnerabilidade com tirar o desconforto e mitigar os riscos de todas as situações. É o contrário: devemos aceitar essas incertezas como parte de nossas relações.

MITO 5: CONFIANÇA VEM ANTES DE VULNERABILIDADE

Às vezes, é necessário se arriscar e confiar para ser vulnerável – essa é a base de relações de confiança.

MITO 6: VULNERABILIDADE É CONFISSÃO

Não é para fazer revelações indiscriminadas ou fingir ter vulnerabilidade. É preciso estabelecer limites e não confundir a postura com arroubos de confissões, manipulação emocional ou desespero.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CIBERCONDRIA E ANSIEDADE

A internet revolucionou os modelos de comunicação, permitindo novas formas de entretenimento, e o acesso à saúde foi reformulado para novos padrões

Atualmente é difícil imaginar a extinção das redes sociais da nossa prática diária de comunicação, modelo praticamente impossível de ser retrocedido. A world wide web remodelou também os antigos padrões de relacionamento, seja através das redes sociais, fóruns ou programas de interação em tempo real. Não apenas essas modificações foram provocadas pelo avanço da cibercultura, o acesso à saúde foi reformulado para novos padrões. Atualmente é possível, por exemplo, verificar resultados de exames de sangue no endereço eletrônico do laboratório, acessar endereços eletrônicos sobre saúde mental e de planos de saúde sem sair de casa. Facilidades estas que são consideradas de uso contínuo para as próximas décadas, ou seja, cada vez mais os recursos tecnológicos serão utilizados para esses e outros fins. A era da cibernética é real.

Apesar dos diversos benefícios da internet para a saúde humana, outra manifestação psicopatológica (vinculada ao campo eletrônico) vem sendo discutida, além do transtorno do jogo pela internet, a dependência de internet, de sexo virtual e a de celular: a cibercondria. O nome é um neologismo dos termos ciber e hipocondria. A hipocondria refere-se, de forma sucinta, a uma busca constante de reasseguramentos por informações sobre possíveis adoecimentos orgânicos, dúvidas essas que raramente cessam quando o sujeito encontra a possível resposta às suas indagações. E como pensar nesse fenômeno com a proliferação das buscas em relação à sua saúde na internet?

A procura de informações sobre sintomas e doenças na internet é comum e, muitas vezes, serve a propósitos úteis. De acordo com Aiken e Kirwan (2012), a internet é um valioso recurso na busca de informações médicas e continuará sendo por muitos anos. Porém, a web possui, em paralelo, um poder potencial de aumentar a ansiedade dos sujeitos que não tiveram treinamento médico, no momento em que estejam buscando diagnósticos em websites. Dessa forma, contemporaneamente, pessoas que são excessivamente angustiadas ou muito preocupadas com a sua saúde realizam pesquisas constantes na internet, porém             apenas se tornam mais ansiosas ou amedrontadas. Pense por um momento e, em sua reflexão, responda a si se nunca foi feita uma busca na internet após receber seu exame de sangue ou o surgimento de uma mancha em alguma região do seu corpo. Esse tipo de comportamento é bem frequente, porém apenas uma minoria apresenta uma manifestação patológica (cibercondríaca) desse funcionamento.

Fergus (2013) realizou um estudo com 512 participantes nos Estados Unidos; a média de idade foi de 33,4 anos, sendo 55,3% do sexo feminino. O objetivo do seu trabalho foi verificar o efeito da intolerância à incerteza na relação entre a frequência de buscas por informações médicas na web e a ansiedade com a saúde. Para essa pesquisa foram aplicados os seguintes instrumentos: a lntolerance of Uncertainty Scale 12 Item Version (IUS -12), a Short Health Anxiety lnventary (SHAI) e a Positive and Negative Affect Schedule (PANAS). Além disso, foram considerados outros dois pontos: a relação entre a ansiedade com a saúde como um resultado de buscas por informações médicas na internet e a frequência com que esse usuário busca por esse serviço.

De acordo com o autor, é comum que as pessoas encontrem e busquem esse tipo de informação na internet, entretanto são desconhecidos os motivos que levam uma parcela da população a desenvolver a cibercondria. O estudo em questão, então, seria uma forma de preencher essa lacuna na literatura científica. A pesquisa demonstrou que quanto maior o nível de intolerância à incerteza, maior a chance de o indivíduo experienciar a cibercondria. Essa ansiedade pode se tornar ainda maior devido ao fato de a internet oferecer diversas informações para o mesmo problema, confundindo o usuário na identificação do seu problema sintomatológico. Além disso, nem todos os usuários são habilidosos em encontrar endereços eletrônicos confiáveis.

Dessa forma, cogite por um momento se tantas informações disponíveis na internet são fontes de relaxamento após a sua visita ao endereço eletrônico ou se esse ato gera ainda mais ansiedade? É comum, por exemplo, pacientes chegarem no consultório de Psicologia com diagnósticos já estabelecidos por buscas que fizeram na internet. Resultado: muitas vezes a informação é incorreta ou mal interpretada. Nunca deixe o profissional da saúde em segundo plano, priorize-o na busca por informações sobre o seu corpo.

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas.

E-mail: igorlemos87@hotmail.com