OUTROS OLHARES

NEM TUDO É DESGRAÇA

As grandes crises quebram resistências e tabus

No turbilhão das redes sociais, citou-se Einstein: “A crise é a maior bênção que pode acontecer com as pessoas e países…”. De fato, pesquisas mostram que as crises quebram resistências. O impossível torna-se possível. Na correria para evitar o caos, quebram-se barreiras e tabus. Ao fim da crise, muito voltará ao que era. Restaurantes voltarão a abrir e muitos trabalharão nos escritórios. Mas nem tudo!

TELECOMPRAS. A senha? O cartão foi recusado? Vencidas essas batalhas, serão entregues as compras? Acabaremos nos acostumando. Mas, quando terminar isso tudo, em vez de carregar as compras pela rua afora, por que não continuar recebendo em casa? Mas, vá lá, gostamos de apalpar o queijinho e tamborilar no melão.

HOME OFFICE. Sempre houve gente trabalhando em casa. Agora não é mais o desfastio de alguns. Aos trancos e barrancos, 60% da força de trabalho já opera de pijama e economiza o tempo para chegar ao escritório. Em muitos casos, nem pensar em voltar ao velho sistema. E as empresas, felizes com menos gente nos escritórios — e menos custos.

TELEMEDICINA. Faz poucos meses, as associações médicas confirmaram a proibição do atendimento a distância. Hoje, qual médico não quer cuidar do seu paciente bem de longe? E assim acontece, aumentando a produtividade do sistema, reduzindo a contaminação e abrindo portas para outras revoluções. A evidência suíça sugere 80% de resolução. Haverá força política para a burrice de voltar atrás? Contudo, será temporária a flexibilização dos protocolos de autorização de novos medicamentos. Há boas razões para voltarem a ser rigorosos e demorados.

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA. O ensino por correspondência apareceu, na Inglaterra, em meados do século XIX. Discretamente, vai crescendo. No início do século XX, foi criado o primeiro curso superior a distância, conhecido pela sigla EAD. Porém, emblemática da suspeição, falhou a tentativa de operar a Open University de Oxford e Cambridge. Ao longo dos anos, sobrevivem ceticismo e rejeição. Mas, para quem acredita na ciência, pesquisas recentes mostraram que, em cursos comparáveis, os resultados são equivalentes. No Brasil, o Enade permite verificar que, bons ou ruins, as diferenças são pequenas entre presencial e EAD. As faculdades mais ágeis estão a pleno vapor, cada uma com sua solução. Os aplicativos de comunicação ganham clientes, aos milhões. Contudo, algumas universidades públicas estão paralisadas. É crível a desculpa de haver alunos que não têm computador? E se emprestassem os que estão parados nos laboratórios?

No ensino básico, o desafio é assustador e a pressa, muita. Secretários estaduais estão ativamente preparando-se para a via digital. Alguns já começaram. Abre-se um gigantesco leque de usos para novas tecnologias. Oxalá não percamos essa janela de possibilidades de sair do artesanato.

É inverossímil imaginar que tudo voltará ao que era antes. Muitas soluções, antes heréticas, se revelarão melhores que as velhas. Algo de bom trará a crise. Nem tudo é desgraceira. A hora é de brigar para a legislação não dar marcha a ré.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE ABRIL

O QUE FAZER QUANDO NÃO SABEMOS O QUE FAZER

… e não sabemos nós o que fazer; porém os nossos olhos estão postos em ti (2 Crônicas 20.12c).

Josafá, rei de Judá, estava encurralado por uma confederação de inimigos. A cidade de Jerusalém estava cercada por numeroso exército pronto para atacá-la. Não havia tempo para esboçar reação. A derrota esmagadora parecia iminente e inevitável. Nesse momento, Josafá teve medo e caiu de joelhos em oração e jejum. Conclamou toda a nação a buscar a Deus. Confessou não ter forças nem estratégias para enfrentar o adversário, mas reafirmou sua confiança em Deus, a despeito das circunstâncias adversas. Sua oração foi ouvida. Deus lhe disse que pelejaria pelo povo e, que em vez de empunhar armas, deveriam formar um coral para exaltá-lo. Tendo eles começado a cantar e a dar louvores em alta voz, Deus emboscou os inimigos e os desbaratou. O louvor é arma de guerra e brado de vitória. Não é o resultado, mas a causa da vitória. Devemos louvar para triunfar sobre o inimigo. Quando louvamos a Deus, ele mesmo desbarata nossos inimigos. Quando louvamos a Deus, ele mesmo luta nossas guerras. Quando louvamos a Deus, ele mesmo transforma nossas arenas de conflito em vales de bênçãos. Na jornada da vida, quando chegarmos aos momentos difíceis sem saber o que fazer, devemos louvar a Deus, e ele nos abrirá uma porta de escape e nos conduzirá pelos caminhos do triunfo. A vitória não vem pela força do nosso braço; a vitória vem de Deus, por intermédio do louvor!

GESTÃO E CARREIRA

O NEGÓCIO DA NOSTALGIA

Para conquistar os adultos com saudade da infância e da adolescência, o mercado resgata itens que fizeram sucesso em décadas passadas. Saiba quais oportunidades podem surgir com esse movimento

“Klift-kloft-still, a porta se abriu!” Foi com a famosa frase que o boneco porteiro do Castelo Rá-Tim­Bum recepcionou os mais de 460.000 visitantes que passaram pela exposição do programa no Museu da Imagem e do Som (MIS), em 2014) em São Paulo. A mostra sobre a série infantil que narrava as aventuras de Pedro (Luciano Amaral), Biba (Cinthya Rachel) e Zequinha (Fredy Allan) junto com o garoto de mais de 300 anos) Nino (Cássio Scapin), foi um fenômeno e fez milhares de pessoas passar horas em filas que dobravam quarteirões. Por causa do alto volume de público, o MIS foi obrigado a ampliar os horários de atendimento e a disponibilizar a compra antecipada de ingressos online. O êxito da exposição foi tanto que, apenas três anos depois, ela foi reexibida no Museu da América Latina, também em São Paulo, recebendo outras 860.000 pessoas. Os números expressivos da mostra sobre o Castelo Rá-Tim-Bum são exemplos de uma tendência que invadiu diversos segmentos: o resgate ou o relançamento de produtos que foram sucesso em décadas passadas. Em 2019, clássicos como MIB: Homens de Preto, O Rei Leão e O Exterminador do Futuro ocuparam as telas dos cinemas e nos levaram de volta para os anos 80 e 90. Artistas como Sandy e Júnior, Backstreet Boys e Spice Girls retornaram aos palcos e arrebataram multidões. E programas como She-Ra e Perdidos no Espaço estrearam, vejam só, nas plataformas de streaming. O movimento de reviver o passado, entretanto, não é uma ferramenta nova do mercado, mas tem relação coma geração que hoje é economicamente ativa – os chamados millennials (nascidos entre 1982 e meados de 1990). “E assim que a indústria de marketing determina o que deve voltar ou não, de acordo com as mudanças de gerações”, afirma Helder Haddad, professor de publicidade e propaganda na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Segundo Juliana Breschigliari, psicoterapeuta e mestre em desenvolvimento humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, ter sensibilidade para entender o que vai tocar (ou não) os adultos de hoje é a chave para os negócios baseados em nostalgia. “É preciso saber explorar os pontos que levam as pessoas a querer retomar as lembranças do que viveram há 20, 30 anos”, afirma.

MEMÓRIA AFETIVA

A produtora Caselúdico, responsável pelas cenografias da exposição Castelo Rá-Tim -Bum, soube aproveitar esse movimento. Criada em 2009 pelos sócios Bruno Ogura, Eduardo Tranquilini, Marcelo Jackow e Claudio Guimarães, durante cinco anos a empresa se especializou em ambientar eventos corporativos, como lançamentos de produtos, estandes de vendas e feiras. Contudo, o foco do negócio mudou em 2014, quando foram contratados pelo MIS para produzir a mostra do cantor David Bowie, morto em 2016, que teve seu auge nos anos 70 e 80. “Já éramos conhecidos pela cenografia de outros projetos grandes, mas todos voltados para a área empresarial, não cultural”, afirma Marcelo.

A exposição de Bowie durou 71 dias e recebeu cerca de 80.000 pessoas – o que fez a empresa ganhar destaque no segmento. Meses depois, quando a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura e dona dos direitos autorais do Castelo Rá-Tim -Bum, abriu edital para a concessão da exposição sobre o programa, a Caselúdico conquistou o projeto. Para montar os dez ambientes, reproduzidos em detalhes, a companhia levou cerca de oito meses e Marcelo assistiu a todos os 90 episódios da série. “É na nostalgia que conseguimos acertar em cheio as pessoas, já que elas se lembram dos temas com emoção. Para isso, entretanto, é preciso muito estudo de acervo e do público para reproduzir experiências fiéis”, diz Marcelo. Com o sucesso, a produtora dominou o mercado de mostras sobre temas que mexem com a memória afetiva do público. Além de Castelo Rá-Ti m-Bum, a Caselúdico produziu as exposições Quadrinhos (2019), que recebeu 120.000 pessoas, Mickey 90 Anos (2019), por onde passaram 110.000 visitantes, e O Mundo de Tim Burton, (2016), com público de 260.000 pessoas. Atualmente, está em exibição com Batman 80, no Memorial da América Latina, que até dezembro já havia contado com aproximadamente 90.000 visitantes. Embora a produtora não tenha deixado de lado o ramo corporativo, Marcelo admite que agora o foco são as exposições, que correspondem a mais de 55% do faturamento anual da empresa. “A nostalgia é o que tem feito nosso sucesso. Por isso tratamos cada tema com carinho”, diz Marcelo. Outro profissional que pegou carona no revival do programa da TV Cultura foi o jornalista Bruno Capelas, de 27 anos. Cinco anos depois de realizar seu trabalho de conclusão de curso sobre o Castelo Rá-Tim-Bum, em 2014, Bruno conseguiu publicar um livro sobre o assunto. Batizada de Raios e Trovões: a História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum (Summus, 79,80 reais), a obra chegou às livrarias em dezembro de 2019 com tiragem de 3.000 exemplares. E uma nova tiragem estava prevista para janeiro de 2020. “Senti que precisava compartilhar meu trabalho com todos os fãs que, assim como eu, estavam envolvidos pelas lembranças do programa”, afirma.

SAUDADES DO QUE NÃO VIVI

Mas nem sempre a nostalgia foi encarada com um sorriso nos lábios. Quando surgiu, o termo tinha uma conotação pesada. Quem o criou, em 1688, foi o médico suíço Johannes Hoffer. Ele estudava os sintomas psicológicos dos soldados de guerra e empregou a palavra “nostalgia” para descrever a saudade que os militares sentiam de casa e suas possíveis consequências para a saúde mental. No limite, o vocábulo era usado para designar desordens psíquicas, e desse modo permaneceu através dos séculos. Porém, desde o início dos anos 2000, uma série de estudos do professor de psicologia Constantine Sedikides, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, mostrou que, na verdade, a nostalgia se trata de um sentimento universal, experimentado desde a infância, e que nos ajuda a neutralizar emoções negativas. Na prática, isso quer dizer que, quando rememoramos momentos felizes do passado, nos sentimos mais preparados para lidar com as adversidades do presente e do futuro.

Em tempos de excesso de informações e de transformações aceleradas por causa da tecnologia, o sentimento de segurança que a nostalgia traz nunca foi tão útil – e com potencial para ser explorado por publicitários e empreendedores. Esse movimento, inclusive, foi batizado pelo guru do marketing e inovação Rohit Bhargava como “RetroTrust”. O especialista, que desde 2014 publica, como ele mesmo diz, “tendências não óbvias nos negócios”, incluiu o conceito em sua lista de projeções para 2019. “Quando olhamos para consumidores adotando videogames e brinquedos retrô, relançando programas de entretenimento antigos ou produtos artesanais, fica claro que estamos gravitando em direção a produtos com uma história ou com os quais tivemos um envolvimento. O passado que conhecemos é seguro. A RetroTrust está crescendo porque confiar em produtos que reconhecemos ou com os quais temos experiência anterior nos ajuda a tomar decisões sobre em que prestar atenção ou o que comprar”, escreveu Rohit no livro Non-Obvious 2019 (sem edição em português).

A necessidade de resgatar itens que foram lançados mesmo antes de nascermos também tem a ver com a vontade do ser humano em se conectar com a história. “Assim como queremos deixar nossa marca no mundo, também gostaríamos de resgatar o que foi vivido em outra época”, afirma Juliana, da USP.

Isso pode explicar, por exemplo, por que produtos como máquinas de escrever e discos de vinil estão em alta mesmo entre os jovens. No caso dos vinis, esse resgate foi responsável, inclusive, por reaquecer uma indústria praticamente extinta.

Criado há mais de 60 anos, o auge dos discos foi entre os anos 70 e 80 e durou até o surgimento do CD, em 1990, quando as vendas de LPs caíram vertiginosamente. Entretanto, com a onda retrô, a busca pelos bolachões voltou a crescer. De acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, no mundo os vinis têm apresentado crescimento de 6% ao ano desde 2006. Em 2018, esses produtos já correspondiam a 3,6% do mercado fonográfico mundial, representando cerca de 687,6 milhões de dólares vendidos.

O potencial de negócio nesse túnel do tempo foi percebido pelos sócios Márcio Sartorello e Carlos Rodrigues, da Casa Elefante, mistura de café e loja no centro de São Paulo. “Os fãs do vinil sempre foram muito fiéis, com colecionadores que possuíam conhecimento profundo sobre os itens. Entretanto, o que mudou foi o interesse crescente do público mais jovem”, afirma Márcio. Mas, para atrair esse novo público, só os vinis não bastavam. Por isso, em 2015 os sócios investiram 70.000 reais para criar um local que unisse café, discos e brechó. “Nos demos conta de que precisávamos diversificar para alcançar os dois públicos. Agora as pessoas nos buscam pelo ambiente retrô, pelos produtos e pela troca de conhecimento que permite descobrir coisas novas”, diz Márcio. Hoje, a Casa Elefante fatura aproximadamente 120.000 reais por ano por meio do brechó, do aluguel do espaço para saraus, além de vender aproximadamente 180 itens por mês.

O VELHO E O NOVO

Outra empresa que está apostando em tendências do passado para continuar relevante é a fabricante de brinquedos Estrela. A companhia, criada em 1937, tem no portfólio atual mais de 30 itens que foram lançados originalmente antes dos anos 2000 – e que fizeram parte da infância de muitos adultos que estão hoje na casa dos 30 e 40 anos.

E esse pessoal adora um revival. “Recebemos mais de 1.000 ligações por mês em nosso serviço de atendimento ao cliente e cerca de 15% são referentes a sugestões de relançamentos de brinquedos”, afirma Aires José Leal Fernandes, diretor de marketing da marca. Por isso, clássicos como Pogobol (1987), Ferrorama (1979) e os bonecos Topo Gigio (1960) e Falcon (1977) voltaram às prateleiras das lojas, para felicidade dos saudosos.

De acordo com Aires, de cinco anos para cá a procura pelos brinquedos antigos tem aumentado. Para ele, isso se deve ao fato de que a geração que era criança no auge do sucesso dos produtos (e cuja, família nem sempre podia dar os brinquedos de presente) agora tem poder aquisitivo para comprá-los. A teoria é compartilhada por Juliana, da USP. “Quando crianças, não temos controle financeiro do que consumimos, e os pais podem se recusar a comprar o que queremos. Quando crescemos, é o momento de realizar esses sonhos de infância”, afirma a psicoterapeuta.

Atualmente, o relançamento de brinquedos representa de 15% a 20% do faturamento da Estrela, que foi de 174,4 milhões de reais em 2018. E, para que os objetos não fiquem restritos aos adultos e mantenham um apelo com as crianças de hoje, a fabricante tem incrementado as versões originais – principalmente quando se trata dos jogos de tabuleiro.

Por isso, agora o Banco Imobiliário tem cartão de crédito, o Detetive tem um aplicativo que envia pistas ao celular dos jogadores e o Pula Pirata ganhou óculos de realidade aumentada. “As novas edições trabalham na convergência entre o digital e o físico para alcançar a geração atual, que vive no mundo tecnológico. Porém, o sucesso vem do aval dos pais que conheceram o tradicional”, diz Aires. No fim, não se trata de uma disputa para definir se uma época é superior a outra, mas de uma tentativa de entender como as memórias constroem o que somos hoje ou seremos amanhã. E, se essa busca render negócios lucrativos, tanto melhor para as empresas e para quem quer atuar nesse segmento.

DIRETO DO TÚNEL DO TEMPO

Os produtos de décadas passadas que foram relançados nos últimos anos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MAL DISFRAÇADO DE BEM

O mal assusta, afasta e, ao mesmo tempo, atrai como se fosse um feitiço, pois é poderoso, intenso, invasor e parece estar vencendo o bem. Como entender e sobreviver a relacionamentos tóxicos e destrutivos com psicopatas

O assunto do mal é muito difícil de ser abordado na nossa cultura e na nossa sociedade. O mal assusta, o mal afasta e, ao mesmo tempo, atrai como se fosse um feitiço, pois o mal é poderoso, intenso, invasor e dá a impressão de estar vencendo o bem.

A atração do mal parece algo esquisito. É sintomático que durante a Inquisição as mulheres que tivessem conhecimento de ervas e poções eram consideradas bruxas e condenadas à fogueira. Bastava um homem sonhar com uma mulher que desejava, que podia denunciá­la às autoridades dizendo-se vítima de bruxaria.

Aqui, o mal e a atração estão misturados. Ainda hoje encontramos indícios da caça às bruxas, imputando à mulher a culpa por ter sido estuprada, por exemplo, ou por sofrer violência doméstica, uma situação muito mais frequente na nossa sociedade brasileira do que gostaríamos de admitir.

As nossas batalhas diárias para sobreviver, para nos protegermos, conseguir uma subsistência digna, sermos respeitados como indivíduos únicos nos nossos direitos que deveriam ser iguais (mas não são) podem nos levar ao desânimo e à desistência. Mas o ser humano tem também uma capacidade de resiliência, uma força interna de persistir na luta, e insiste sempre em esperar por dias melhores, acre­ ditar que vencerá, que a bondade, a integridade, o respeito, a responsabilidade e o amor finalmente prevalecerão e construirão um mundo bom para todos.

No entanto, existe um tipo de criatura que parece ser humano, mas carece dessas qualidades acima citadas, e está entre nós na porcentagem entre 1% e 3%. Alguns pesquisadores chegam a 5%. Esses indivíduos trabalham pelo objetivo oposto. São a força destrutiva e cruel no meio de nós.

Costumamos cair na armadilha de um psicopata por vários motivos, os quais enumero e explico em meu livro. Entre eles: acreditamos na bondade inata em cada ser humano; não sabemos que seres como os psicopatas existem entre nós; temos a imagem hollywoodiana do serial killer e achamos que só esses são psicopatas, e estes acabam nas prisões; os psicopatas usam charme, sedução, eloquência, como ferramentas predatórias; os psicopatas usam o afeto como gancho para capturar e controlar suas vítimas; o assunto não é conhecido da maioria dos profissionais (na área da saúde, jurídica, social, educacional) que lidam com os psicopatas e suas vítimas; os psicopatas são detentores de uma capacidade extraordinária de manipular, mentir e controlar os outros.

Assumir responsabilidade pelo mal que está dentro de cada um de nós normalmente ninguém quer, ou nem vê. Por isso, projetamos a nossa agressividade, o nosso lado sombrio, destrutivo e mau, nos outros ou nas circunstâncias: “Não fui eu”. No entanto, quando essa atitude se torna constante, deve acender um alerta para quem estiver atento.

Muitos pesquisadores afirmam que psicopata já nasce psicopata. Não é produto do meio em que cresceu, pois muitos vêm de famílias bem estruturadas, amorosas. O psicopata já nasce com um cérebro incapaz de sentir emoções humanas. Num exame de PetScan, que fornece a imagem do cérebro em funcionamento, é visível a disfunção da área orbitofrontal, responsável por processar emoções como empatia, afetividade, responsabilidade, respeito, compaixão.

CRIANÇAS PSICOPATAS

Os pesquisadores costumam encontrar evidências de traços muito expressivos de transtorno de personalidade em idades precoces. Existe a polêmica de diagnóstico precoce, que pode levar a uma rotulação, exclusão social, estigmatização e a implicações jurídicas e sociais significativas.

Prefere-se considerar que o diagnóstico só pode ser feito após a adolescência. No entanto, os comportamentos desviantes nos aspectos afetivos e relacionais, que podem revelar uma psicopatia incipiente, devem ser considerados e precisam de uma abordagem ou educativa ou de contenção. Tais medidas podem reprimir ou diminuir o agravamento da criminalidade no jovem e no adulto, e/ou restringir ou até prevenir o dano social e relacional que essa criança certamente provocará ao longo de sua vida.

Como o psicopata tem medo de ser descoberto e cerceado, medidas disciplinares e de   monitoramento funcionam tanto para crianças e adolescentes como para adultos. Na Inglaterra já existe um monitoramento feito por assistência social dos indivíduos diagnosticados psicopatas, que não cometeram crimes hediondos, mas manifestaram conduta lesiva nos ambientes de trabalho e nos relacionamentos familiares e sociais.

Um programa disciplinar inegociável, com consequências claras que atingem sua gratificação, mantém a criança sob controle, já que o psicopata não aprende com o erro nem com incentivos positivos para se emendar. Tem baixa tolerância à frustração e não consegue retardar a gratificação. “Eu quero, e quero agora.” Maus-tratos e torturas em animais são sinais graves de alerta, pois, segundo estudos do FBI, na sua grande maioria (cerca de 8%), os psicopatas começam a carreira matando animais. Monitorar esses indivíduos representa uma medida preventiva de proteção não só dos animais como de toda a sociedade.

No entanto, a grande maioria não chega a praticar atos criminosos como esses. Aprende desde cedo a sutilizar suas torturas usando táticas psicológicas. Crianças psicopatas costumam ocasionar discórdia e confusão na sua família de origem, com chantagens emocionais com os irmãos, aterrorizando, explorando inclusive sexualmente, colocando o pai contra a mãe, usando máscaras diferentes para um e para o outro, a ponto de parecer que os progenitores não estejam falando da mesma criança. Há relatos de causar o divórcio do casal. Um filme que retratou de forma eficiente essa situação é Precisamos Falar sobre o Kevin. Os pais costumam entrar em desespero, pois nenhuma medida educativa normal tem efeito com essas crianças.

Um psicopata já na infância apresenta falta de noção do perigo. Não sente medo em ocasiões em que outras crianças sentiriam e acaba se metendo em situações perigosas. Essa imagem de indômito e corajoso é falsa. Quando encurrala­ do, o psicopata recua, acovardado. Adora o jogo de gato e rato.

Na escola apresenta os mesmos problemas que em casa, e costuma ser um bully. Mas atenção, nem todo bully é um psicopata, mas todo psicopata acaba fazendo bullying, pois isso lhe dá imenso prazer. Os professores saberem como identificar um possível psicopata entre seus alunos é primordial para evitar sofrimento ou situações perigosas para os outros alunos. Uma vez levantada a suspeita, recomendar aos pais ou cuidadores que busquem ajuda de um profissional que entenda do assunto, que saiba diagnosticar e indicar a conduta adequada.

É muito importante distinguir a conduta psicopática própria do ser da criança e a conduta psicopática adquirida por maus-tratos sofridos, abusos, negligência, espancamentos. Uma criança aprende a tratar os outros como ela foi tratada. Esse foi seu primeiro modelo de ser humano. Com tratamento adequado e muito amor ela poderá se curar. A criança psicopata, no entanto, não tem cura conhecida até hoje.

MULHERES PSICOPATAS

Muitos homens sofrem com mulheres traiçoeiras, dominadoras, manipuladoras, que se divertem em diminuir e humilhar seus parceiros. Aproveitam-se de seu charme e sedução sexual para manter o parceiro sob controle, fazendo-o acreditar que amam para explorar, fazê-lo trabalhar para elas e mantê­-lo no cabresto. Os homens não gostam de admitir essa situação e se escondem por trás da imagem de que amam essa mulher, ou então são tão manipulados por ela que estão cegos para a realidade.

Pois de fato amam. Mas essa mulher, com absoluta certeza, não. Cuidado, esse homem pode estar nas mãos de uma psicopata, precisa abrir os olhos o quanto antes e traçar uma rota de saída enquanto ainda tiver forças para isso. Homem, assuma o comando da sua vida. Saiba distinguir o verdadeiro amor. Junte provas, você com certeza precisará delas para se defender.

PAIS PSICOPATAS

Outra situação é o pai ou a mãe serem psicopatas. No meu livro há um relato de um menino que cresceu num lar em que a mãe perversa controlava toda a família. O pai não via como sair da situação, e acabou morrendo cedo. O menino saiu de casa e construiu sua vida, mas até hoje é assolado por essa família de origem. Pois além da mãe, a avó era psicopata e o irmão também é.

Há muitas histórias assim. Uma mãe psicopata deixa uma marca no filho para a vida inteira. Aquela que deveria proteger e nutrir a criança em formação não tem interesse algum em fazer isso, e usa a criança para explorar o parceiro, extorquir dinheiro, divertir-se com o sofrimento que causa nele maltratando o filho. Isso tudo é possível porque uma mãe psicopata não tem vínculo afetivo com o filho nem com ninguém.

A justiça precisa urgentemente reconhecer esses casos e imediatamente tirar das garras dessa mãe essa criança, que corre perigo inclusive de vida. Considerações normais em processos de disputa pela guarda de um filho não se aplicam de jeito algum a um caso em que um dos progenitores é psicopata. Não vamos esperar essa criança ser gravemente lesada para agir, não é?

Portanto, advogados, quando receberem um caso no mínimo suspeito de um dos pais ser psicopata, investiguem. Prestem atenção naquele pai ou naquela mãe que parece perfeita, bem­ educada, amorosa e dedicada, e o outro confuso e desequilibrado, pois o primeiro pode ser exatamente o pai ou a mãe psicopata fingindo ser o que não é. Uma psicopata interessada em ganhar a causa é capaz de apresentar provas falsificadas, mentir, fazer-se de vítima, convencer pessoas a darem testemunhos manipulados por ela, aterrorizar o filho para falar a favor dela, enganar o advogado e tentar ludibriar até o Juiz.

A justiça pode incorrer no equívoco de afastar a criança justamente do progenitor verdadeiramente amoroso e psiquicamente saudável, capaz de dar-lhe um lar. Na guarda compartilhada a criança estará vivendo numa corda bamba, exposta a manipulações, jogos e distorções de sua saúde psíquica e emocional. No caso de ganhar a guarda, acontece amiúde o progenitor psicopata instigar o filho contra o outro progenitor, chegando a isolá-lo, a ponto de o filho ficar anos e anos sem ter contato com esse progenitor.

Há casos em que após anos de afastamento, agora o jovem obtém a liberdade de decidir e vai procurar o progenitor perdido, para resgatar o relacionamento que lhe foi negado. Essa reconstrução nem sempre é bem-sucedida, pois o estrago pode ter sido bem profundo e irreparável. Essa situação pode ter adoecido o progenitor lesado, injustiçado e profundamente entristecido.

Também há situações em que o filho sofreu muito, pois sabia o tempo todo quem era quem entre os pais, e mal via a hora de chegar à maioridade para escapar do jugo do psicopata. O progenitor normal precisa tomar o seu caso em suas próprias mãos, porque só ele sabe realmente quem o outro é; usar todos os recursos judiciários disponíveis; não aceitar ser desacreditado. Já assisti ao desespero da mãe ou do pai que não consegue mostrar às autoridades a realidade.

Um pai psicopata costuma ser autoritário, cruel e aterrorizante, a começar com a esposa, que mantém refém do casamento. Ela pode depender dele para sobreviver, assim como os filhos, e fica dentro do casamento por não ver saída, aceitando o inaceitável, justificando as atitudes do marido, imaginando que assim não corre perigo. Como o psicopata não tem vínculo afetivo com ninguém, pode manter a situação familiar para oferecer à sociedade uma imagem de respeitabilidade, enquanto na intimidade a situação é outra.

Pode ter várias famílias e uma não saber da existência da outra. Há casos em que o psicopata é o padrasto, uma situação bem mais perigosa, pois costuma atacar sexualmente a filha da esposa, e ainda a obriga, sob ameaças, a manter segredo do ocorrido. Muitas vezes acontece que essa filha não tem a quem recorrer, nem mesmo à mãe, que prefere não acreditar na história dela. A família tampouco confia devido à fachada de bondade e respeitabilidade que o padrasto apresenta.

Uma mãe ou um pai psicopata podem estabelecer tal terrorismo numa família, fazendo dos filhos seus serviçais, sem direito às suas vidas nem a dedicação ao seu crescimento, que aborta qualquer desenvolvimento normal ao qual um ser humano tem direito. Os direitos da criança e do adolescente estão sendo violados diariamente de forma oculta entre quatro paredes e a justiça raramente vê e não tem como interferir. Se o assunto da psicopatia for de conhecimento público, os vizinhos, os professores podem notar sinais suspeitos e dar o alerta.

Por isso a necessidade urgente de formar redes de divulgação da informação no país inteiro, capacitar profissionais na área da saúde, na área jurídica e na educação, agir de forma a prevenir novas vítimas e a ajudar as vítimas existentes, que são em número espantoso, a reconquistar a integridade psíquica, física e financeira.

RELAÇÃO ENTRE BULLYING E TRAÇOS DE PSICOPATIA EM ADOLESCENTES

Escala Multidimensional Peer Victimization Scale; Inventário de Psicopatia para a Adolescência – YPL. Amostra: 428 adolescentes, entre 12 e 17 anos. Escolas de ensino regular: 342; profissional: 86. Gênero feminino: 230; gênero masculino: 192. Bullying verbal: 36,7%. Vítimas físicas sistemáticas: rapazes = 17,7%. Prevalência de vitimização física = 14 a 16 anos de idade = 15,5% e 16,4%. Menor prevalência: 12 anos de idade = 9,4%. Ensino regular: 14,6%; ensino profissional: 12,8%. Proporção de agressores: superior no sexo masculino (agressão física, social, verbal e ataque à propriedade). Entre o grandioso manipulativo e o frio não emocional: pontuação mais elevada para os indivíduos apenas agressores, com maiores traços de psicopatia. Maior média no total dos apenas agressores, seguido por indivíduos vítimas e agressores simultaneamente.

MAPA DO GRAU DE PSICOPATIA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Já está traduzido para a língua portuguesa do Brasil; o PCL, que é um instrumento de avaliação da psicopatia de crianças e adolescentes. Dados importantes revelados: histórico precoce de delírios mais graves e repetitivos apresenta pontuações mais elevadas; meninos apresentam mais reincidência criminal, violenta ou não do que as meninas. Outros estudos utilizando WISC – Escola de Inteligência Wechsler para Crianças evidenciaram limitações com o significado emocional das palavras, visão de conjunto, flexibilização de estratégias, percepção da conexão entre elementos e proporções. A técnica de Rorschach apresentou vazio de respostas de agressão, ausência de vínculos, alta taxa de egocentrismo, maior grau de grandiosidade e menos taxa de ansiedade, o que leva à desvalorização dos afetos alheios e à exploração emocional. Como traços de psicopatia podem ser confundidos com outros transtornos comuns a essa faixa etária, os autores reafirmam que a essência da psicopatia se manifesta nos aspectos afetivos e interpessoais muito mais do que nos comportamentos transgressores.

NA TELONA

Um dos filmes que retratam bem a questão do psicopata é Precisamos Falar sobre o Kevin. Conta a história de Eva (Tilda Swinton) que mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temerosa. O motivo vem da época em que era casada com Franklin (John C Reilly) com quem teve dois filhos Kevin (Jasper Newell/Ezra Miller) e Lucy (Ursula Parker) Seu relacionamento com o primogênito Kevin, sempre foi complicado. Com o tempo a situação foi se agravando e Eva jamais imaginaria o que ele seria capaz de fazer