OUTROS OLHARES

O TRABALHO PELA ESPERANÇA

O abnegado esforço de uma série de brasileiros, voluntários e profissionais, que estão ajudando na travessia da tormenta

opção própria ou dever profissional, há um enorme e forte cordão de brasileiros que atuam solidariamente no corpo a corpo, dando parte de seu tempo e de sua alma no combate ao coronavírus. Eles salvam vidas ao dar de comer aos pobres, ao abrir um sorriso aos fregueses no fim das compras em um supermercado ou, como médicos e profissionais da saúde de outros setores, ao socorrerem os doentes. Todos os dias, dão o seu melhor para que, no fim, o turbilhão de emoções possa, em algum momento, ser acalentado e tenha o seu vazio preenchido. Nunca foi tão atual o revolucionário verso do saudoso João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um apanhe que apanhe esse grito que ele e o lance a outro (…)”.

São onze horas da manhã de uma quarta-feira ensolarada. Assim que os quatro carros entram na Praça Ramos e estacionam na lateral do Theatro Municipal, no centro velho de São Paulo, forma-se uma fila que chega a virar a esquina. “Maluco manda bem na cozinha, aquele careca ali”, solta Emerson. O “careca ali” é Henrique Fogaça, chefe de cozinha e um dos proprietários do sofisticado restaurante Jamile. Há 20 dias, quando a pandemia ganhou força no Brasil, uma ideia veio à cabeça dos donos. “Os caras na rua vão morrer de fome”, diz Anuar Tacach Filho, um dos sócios. Quando as 200 marmitas começam a ser distribuídas, os que aguardam pela comida estão descalços, com as mãos sujas e com os cobertores nos pescoços. Mas há um sorriso nos lábios. “Vamos bater uma xepa?”, grita Fogaça, anunciando o início da distribuição do almoço. Ao redor, o centro está vazio. E o silêncio ensurdecedor chega a pulsar: quem sempre esteve à margem, agora está em um vazio completo.

Aos poucos, as embalagens são abertas e a fome acalmada. O prato tem macarrão, legumes, carne com molho pesto e de tomate e até uma generosa fatia de queijo burrata. Ivanildo Santos opina: “Essa comida está ótima”. Antes da refeição chegar ali, uma equipe de dez pessoas trabalha cotidianamente. Bruno Plisson Petri, chef de cozinha do Jamile, comanda a produção: “Às vezes a gente chega em casa preocupado, mas a satisfação alivia”. O projeto ganhou forma e nome, “Marmitas do Bem”, depois da divulgação em redes sociais.

São necessários poucos minutos de caminhada da Praça Ramos até uma outra conhecida praça de São Paulo, dessa vez, a do Patriarca. Ali, sete pessoas em situação de rua dormiam no chão e o estômago parecia roncar mais forte quando perceberam a pouca movimentação ao redor. Para completar, a barraca onde eles dormiam queimou e foi aí que Erica Matusita entrou em cena. Já habituada com o trabalho voluntário desde 2016, quando fundou a ONG Fogão na Rua. Assim que a pandemia chegou, ela entendeu que não poderia abandonar os mais necessitados. Praticamente adotou esse grupo de pessoas — formado por seis homens e uma mulher. “O que eu faço é uma gota no oceano”, diz ela, que, em cada ação mensal, distribui 400 kits com uma refeição completa, garrafas de água, bolachas, produtos de higiene pessoal, álcool em gel e máscara. Sem a ajuda o grupo tinha maior medo: dormir de estômago vazio e acordar sem a possibilidade de poder pedir um café e um pão para ninguém, devido à quarentena.

PIZZAS PARA OS MÉDICOS E OS POBRES

É aos gritos que Paulo Roberto Faria tenta organizar a multidão formada na frente da Companhia Luz do Faroeste, localizada no bairro paulistano da Luz. Ele, que comanda o teatro há vinte anos, não conseguiu ficar de braços cruzados quando viu os moradores da região implorando pelo mínimo: “Montamos um programa chamado Fome Zero Luz e vamos distribuir produtos de necessidades básicas para mais de mil famílias”. Sentada na calçada em frente ao teatro, Neusa Isabel segura a mão do filho pequeno e conta que, depois da doação, a última refeição do dia está resolvida: será arroz, feijão e ovo. A movimentação do trabalho voluntário no combate à pandemia acontece em território nacional. Só a Central Única de Favelas mobilizou vinte e quatro estados brasileiros. Um impacto que seguirá no presente, e continuará no futuro.

Um dos restaurantes mais tradicionais de São Paulo, o Jardim Di Napoli, localizado no bairro nobre de Higienópolis, também aderiu ao voluntariado, mas voltou o olhar para os profissionais da linha de frente. Juntos, os sócios e familiares, Chico, Ana e Rosana Buonerba organizaram uma distribuição de pizzas, três vezes por semana para médicos e pessoas em situação de rua. “Hoje em dia, estou vendo uma mobilização enorme não só de indivíduos, como de muitas empresas e instituições financeiras que estão ajudando o país”, diz Chico. O Banco Itaú Unibanco, por exemplo, está nessa lista. A Instituição doou R$ 1 bilhão para potencializar o combate à doença. O valor será revertido em equipamentos hospitalares, produção de remédios e materiais de proteção, como máscaras e luvas. “Não basta ter só dinheiro, é importante conseguir alocá-lo”, disse Candido Botelho Bracher, presidente do banco. Além disso, o Bradesco também se uniu à causa, ajudando na importação de testes rápidos e monitores de UTI.

Os garis, em constante movimento para a retirada do lixo das calçadas, não deixam o distanciamento social silenciá-los. Enquanto o caminhão de lixo passa a voz dos trabalhadores se sobressai e um pouco de agrado entra em nossos lares. “Está passando o lixeiro! Bom dia! Bom dia! Bom dia!”, dizem em coro. Vez ou outra, as pessoas deixam o sofá e correm para os portões, a fim de estabelecerem uma relação de cumplicidade: engordam um pouco o salário dos responsáveis pela limpeza da cidade. São coveiros, médicos, enfermeiros, lixeiros, caixas de supermercado, profissionais dos Correios, farmacêuticos, cozinheiros, entre outros, aqueles que por obrigação profissional fazem, diariamente, a cidade girar.

“EU ME VI EM UM FILME DE FICÇÃO”

Na emoção de Nicolle Queiroz, médica cardiologista que há oito anos trabalha na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital São Luiz, em São Paulo, atuar em um desses causa uma explosão de sentimentos. Quando a Covid-19 chegou ao Brasil, nem hesitou em estar no front: “Uma coisa é ver a morte do ponto de vista matemático, mas eu sou uma pessoa que não vive de números. Eu vivo de emoção”. Ela perde algumas horas de sono para maquiar o rosto: uma maneira dos doentes perceberem que alguém se arruma para eles. Um trabalho muito além do que é previsto por qualquer protocolo médico.

Após doze horas de plantão, também na UTI do Hospital São Luiz, Antônio Caetano Junior exibe em sua fisionomia bastante cansaço, que não apaga o constante no sorriso. “De repente eu me vi em um filme de ficção científica, mas no filme o final é sempre legal. Agora, na vida, não temos o controle”, diz o enfermeiro. Quando o assunto é perder aqueles a que mais se ama, o enfermeiro Antônio é sincero e diz que não está preparado. Na verdade, não é só ele. Há hoje no País toda uma população amedrontada — e, pode até ser, que do ponto de vista psicanalítico, ser voluntário ou seguir atuando na indispensável área da saúde alivie tal medo. Isso não importa; importa, sim, o que eles fazem e nutrem de empatia, diminuindo o desconforto e presenteando com esperança aqueles que dela precisam.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE ABRIL

AMANHÃ O SENHOR FARÁ MARAVILHAS NO MEIO DE VÓS

… Santificai-vos, porque amanhã o SENHOR fará maravilhas no meio de vós (Josué 3.5b).

O povo de Israel acabara de entrar na terra prometida. O deserto havia ficado para trás, mas ainda havia inimigos à frente. Diante deles estavam cidades fortificadas e gigantes experimentados na guerra. Não lograriam êxito senão por intermédio de uma ação sobrenatural de Deus. Então, o Senhor lhes diz: Santificai-vos, porque amanhã o SENHOR fará maravilhas no meio de vós. Este texto nos ensina três verdades:

1) A SANTIDADE É A CAUSA DA VITÓRIA. O pecado levou a geração que saiu do Egito a perecer no deserto, mas a santificação levaria a nova geração a conquistar a terra prometida. Quando nos consagramos a Deus, ele toma em suas mãos a nossa causa. A vitória vem de Deus!

2) A SANTIDADE precede a vitória. Primeiro o povo se santifica, depois vem a vitória. Primeiro, colocamos nossa vida no altar, depois Deus se manifesta em nosso favor.

3) A SANTIDADE ABRE O CAMINHO PARA AS MARAVILHAS DIVINAS. Se o pecado provoca a ira de Deus, a santidade abre o caminho para sua intervenção sobrenatural. Quando buscamos a Deus e santificamos nossa vida, os céus se manifestam em nosso favor. Deus desalojou os adversários e conduziu seu povo à terra da promessa. Deus lhes deu fartura e os fez prosperar. É assim ainda hoje. Se quisermos ver as maravilhas divinas, precisaremos buscar a Deus e santificar nossa vida. A santidade é o portal das maravilhas divinas!

GESTÃO E CARREIRA

 SEM TRABALHO INFANTIL

É difícil encontrar alguém que não goste de chocolate. Mas há um problema por trás de sua produção que muita gente não imagina. A principal matéria-prima, o cacau é produzida por centenas de milhares de pequenas fazendas familiares e, em certos casos, envolve trabalho infantil ou de adultos com salários extremamente baixos, que em nada contribuem para a dignidade de quem planta, rega e colhe o fruto. Em 2012, a Hershey’s se comprometeu a comprar 100% de cacau certificado até 2020 e agora a companhia anuncia ter atingido sua meta. Os selos de certificação, emitidos pela Rainforest/UTZ, já podem ser vistos nas embalagens de alguns chocolates e em breve estarão em toda a linha de produtos. “É uma certificação que garante a total sustentabilidade, seja ambiental, ao evitar desmatamentos, seja social, ao respeitar aqueles que trabalham na cadeia de produção. Somos a primeira companhia global a atingir a meta de comprar 100% de cacau certificado”, diz Marcel Sacco, diretor geral da Hershey’s no Brasil e América Latina. O executivo afirma que a meta agora é comprar apenas açúcar certificado até o fim do ano.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

É MENINO OU MENINA?

 Diferenciação entre o padrão sexual feminino ou masculino ocorre entre 3° e 4° mês de gestação, quando a testosterona, ao alcançar o cérebro, masculiniza o embrião

Ao se perguntar a uma grávida nos dias atuais: “é menino ou menina”? é comum ouvir uma resposta direta, que não deixa dúvidas, já que hoje os exames de neuroimagem e clínicos superam em muito tudo que foi sonhado 30 ou 40 anos atrás, quando essas mesmas gestantes estavam para nascer e os recursos para se saber com certeza o sexo do bebê eram restritos. A sociedade mudou rapidamente em inúmeros aspectos. As informações se tornaram muito mais acessíveis com a chegada da tecnologia e da internet, enquanto os conhecimentos científicos estão mais próximos de uma boa parcela da população. Isso trouxe a compreensão de fatos que antes eram tabus ou ainda não estavam devidamente esclarecidos. Entre esses assuntos está a reflexão sobre questões ligadas ao sexo.

O gênero é uma área de diferenciação cerebral, biológica e complexa. Vários estudiosos comprovaram as diferenças no cérebro dos homens e das mulheres. Alguns pontos são:

1) há uma variação no tamanho do cérebro feminino e masculino;

2) os esquemas de desenvolvimento variam nos meninos e meninas;

3) há diferenças nas conexões entre os hemisférios dos cérebros;

4) existem diferenças nas áreas linguísticas do cérebro.

Mas também importantes são as questões relativas à sexualidade, sempre muito delicadas pela complexidade que apresentam não apenas para a pessoa, mas para a maneira como esta convive na sociedade.

Homens e mulheres são indiscutivelmente iguais diante da lei, dos seus direitos e obrigações jurídicas, sociais, éticas. As possibilidades de aquisição de conhecimentos, de formação acadêmica e de sucesso na vida profissional já vêm se confirmando sobejamente na vida prática há décadas, e cada vez se ampliam mais, portanto, indiscutivelmente, homens e mulheres ainda que possuam diferenças quanto a preferências e condutas emocionais, por exemplo, os aspectos referentes a sua capacidade intelectual e cognitiva são iguais.

Mas há diferenças marcantes e complexas quando se fala de sexo genético da criança. Sabe-se, por exemplo, que é na concepção do embrião que isso se decide geneticamente, ou seja, que se vai determinar o desenvolvimento gonodal: se a dotação cromossômica for XX, o embrião desenvolverá ovários. Se for XY desenvolverá testículos. A princípio, simples de se entender.

A diferenciação entre o padrão sexual feminino ou masculino ocorre em relação ao cérebro. Por exemplo, é o hormônio sexual testosterona (aliás, o principal hormônio testicular) que determina a diferenciação do padrão cerebral masculino. Isso ocorre entre 3° e 4° mês de gestação, quando o testículo fabrica e lança no sangue uma quantidade marcante de testosterona, que, ao alcançar o cérebro, masculiniza o embrião.

Assim, resumidamente, é o sexo genético que dirige a formação de ovários ou testículos, e em seguida a testosterona fabricada por estes vai configurar sexualmente o cérebro e influir no comportamento, ou seja, nos desejos e motivações. Por isso, há certa preferência dos meninos por brinquedos que reportem a brincadeiras mais agressivas e as meninas gostam frequentemente de outros tipos de brinquedos e brincadeiras, embora entenda-se que se trata de preferência e não exclusividade. Ou seja, o menino pode gostar de brincar com as bonecas da irmã, mas também de bola, de guerra, de luta. O mesmo pode ocorrer com meninas que preferem às vezes uma brincadeira com carrinhos, mas gostam muito de se enfeitar e brincar de casinha. Hoje essa diferenciação não é tão importante, já que no dia a dia as crianças veem seus pais lavando louça, trocando fraldas dos irmãozinhos e a mãe consertando torneiras, trabalhando fora etc.

Entretanto, as coisas não são assim tão simples quando se trata de sexo: existe sexo       cromossômico, sexo gonadal, sexo hormonal, sexo genital interno e eterno, sexo cerebral, identidade de gênero (psicológico) e sexo fenotípico. E como nem sempre esses aspectos corroboram entre si formando uma identidade, temos na prática uma variedade grande de possibilidades que não apenas influenciam na vida da criança e do jovem, como na sua família e na sua vida em sociedade.

Por exemplo, existe orientação sexual e identidade sexual. A orientação sexual corresponde à atração erótica por um ou outro sexo e pode ser heterossexual, homossexual ou bissexual. Mas identidade sexual é outra coisa, diz respeito à identificação psicológica com um ou o outro sexo, se estabelece antes dos 4 anos de idade e é muito resistente a mudanças.

Há muitos casos difíceis nessa delicada questão. Por exemplo, nos casos de transexualidade, quando a criança ou o jovem se sentem mulher, apesar de terem órgãos sexuais masculinos ou vice-versa. Essas identificações são complexas e podem gerar muito sofrimento, comprometendo o desenvolvimento escolar, familiar, psicológico, profissional etc.

O conhecimento científico, o combate a preconceitos e tabus, por parte dos adultos, podem ser decisivos na vida de muitas crianças.

A presença de adultos capazes de aceitar as diferenças e permitir um desenvolvimento equilibrado é o ideal em todos os casos.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

 irenemaluf@uol.com.br