OUTROS OLHARES

O TESTE DE FOGO

A caminho do auge da pandemia, o Brasil segue o exemplo de outros países e começa a promover a testagem da população – o passaporte mais eficiente para a volta à normalidade

Chamando a atenção de quem chega ao Rio de Janeiro pela Avenida Brasil, o castelo em estilo mourisco fincado no alto de um morro sedia a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), um complexo de laboratórios que são referência internacional em pesquisa de saúde pública. Ali, no 5º andar de um prédio moderno com ares de ficção científica, enfileiram-se os tubinhos mais falados do momento: testes para a detecção do novo coronavírus, dos quais a Fiocruz é o maior produtor nacional, responsável por abastecer toda a rede pública de saúde. Acompanhamos uma manhã de trabalho na “fábrica” e testemunhamos o excepcional esforço da equipe que organiza o mais ambicioso salto da história da instituição: nos próximos dias, a produção semanal vai decuplicar, passando de 20.000 para 200.000 kits. A iniciativa, espetacular, ainda está longe de suprir a demanda que o combate à pandemia requer, mas segue corretamente na direção que o Brasil precisa. A experiência em outras nações mostrou que testar, testar e testar, na definição da OMS, é a chave para exercer algum controle na fase de subida para o pico da curva da doença e, no momento seguinte, para ter um mínimo de segurança no processo de volta à vida normal. Hoje, ainda apresentamos números modestos na distribuição do teste que salva. Mas, com produção local e importações feitas por empresas públicas e privadas, esse panorama começa a mudar.

Atualmente, o Brasil figura em 12º lugar entre os quinze países com maior número de casos confirmados, na casa dos 30.000, aparecendo em último no quesito testes aplicados (veja o gráfico no fim da matéria). Nos primeiros quarenta dias de epidemia, foram 3.800 exames por dia, para uma população de 209 milhões. Hoje, segundo o Ministério da Saúde, são 7.500. A título de comparação, a Coreia do Sul, com 51 milhões de habitantes, faz o dobro de testes por dia, e a Alemanha, com 83 milhões, tem 70.000 diagnósticos diários. Com as iniciativas que estão sendo realizadas agora, a ideia é que pelo menos 10% da população brasileira seja testada até julho, algo que ajudaria a tomar medidas mais eficazes para controlar a doença. Se depender do empenho dos cientistas da Fiocruz, tal objetivo será atingido. A todo o vapor, a linha de produção da fundação está instalada em um labirinto de salas com luz fria e piso emborrachado, entremeado de longos corredores. Em ambiente asséptico, sob temperatura e pressão controladas, um time de 32 profissionais paramentados com macacões especiais, luvas, toucas e máscaras trabalha sem parar, sem fim de semana nem feriado. Num sistema de enorme segurança, ali o mantra é um só: “Testes, testes, testes”.

Existem dois tipos básicos de exames aplicados na pandemia de Covid-19: o PCR e o sorológico. Pessoas que já passaram da fase de incubação e são internadas com sintomas relevantes submetem-se ao PCR, o mais preciso, destinado a confirmar ou não se o paciente carrega o vírus por meio da análise de secreção das cavidades nasais e da garganta. Em laboratórios particulares, custa entre 250 e 470 reais, e o resultado normalmente sairia em quatro a seis horas, mas vem demorando alguns dias por causa do acúmulo de demanda. Já o sorológico, ou teste rápido, feito a partir de uma gota de sangue, não identifica a presença do vírus, mas sim os anticorpos produzidos pelo sistema imunológico para combatê-lo – e por isso é mais usado para pessoas que não apresentaram sintomas, mas tiveram contato com alguém cujo caso foi confirmado. Detectar anticorpos significa que o indivíduo contraiu o vírus, o organismo o debelou e o sujeito está imunizado, pelo menos até a próxima mutação do Sars-CoV-2. O preço varia de 280 a 800 reais, com o resultado em poucas horas. Uma versão simplificada, que está sendo fabricada no Brasil, promete diagnóstico em vinte minutos.

Em toda guerra que se trava, a obtenção de dados precisos, sem achismos nem intuições, é fundamental para alcançar a vitória. Na batalha contra a Covid-19, não é diferente. Informações acuradas sobre os contaminados – o que possibilita a separação de imunes e não imunes – fazem toda a diferença no esforço para frear a propagação do novo coronavírus. Tais dados permitem monitorar a ascensão da curva daqueles que foram afetados, identificar os temíveis clusters (concentrações de alta contaminação), canalizar recursos com eficiência e, a partir daí, definir medidas de isolamento que impeçam o contágio de todas as pessoas ao mesmo tempo – cenário em que nenhum sistema de saúde teria capacidade de prestar atendimento. Um levantamento da revista Science mostrou que 86% dos infectados são assintomáticos ou têm sintomas muito leves – sem testar, jamais se saberá que podem contaminar outros. A boa notícia é que essa é uma batalha que pode – e vai – ser vencida. Em diversos países, a testagem massiva e continuada tem sido a ponte para a saída gradual do isolamento social e a volta à normalidade.

Evidentemente, não se trata de um caminho sem percalços. Como muitas outras nações seguem na mesma direção, o Brasil está tendo de encarar uma desenfreada corrida mundial não só por exames, mas também por reagentes e enzimas que compõem o kit. Resultado: atrasos na entrega de mais da metade dos 22,9 milhões de testes encomendados na China, Coreia do Sul e Estados Unidos, entre outros. Outra dificuldade é a ausência de velocidade na consolidação das informações. Só em São Paulo há uma fila de 13.000 amostras do tipo PCR que aguardam o processamento nos laboratórios estaduais. Pacientes com sintomas da Covid-19 morrem e são enterrados antes de a confirmação do diagnóstico chegar, o que, além de aprofundar o sofrimento das famílias, abre um rombo nas estatísticas. “Os dados oficiais olham para o passado. O presente se perde na falta de notificações precisas”, diz a pesquisadora Laura de Freitas, doutora em biociências da Universidade de São Paulo. Essa deficiência, porém, será mitigada. Forças-tarefa formadas por institutos, laboratórios e universidades estão capacitando voluntários para um mutirão de processamento de amostras retidas em todo o país.

Diante da urgência da situação, empresas públicas e privadas vêm colaborando com atuação exemplar. Num notável gesto de grandeza, a mineradora Vale encomendou 5 milhões de testes rápidos na China, e 1 milhão já foi entregue ao governo para ser aplicado prioritariamente em profissionais de saúde e forças de segurança e pesquisa. A Petrobras doou ao SUS um lote de 300.000 exames do tipo PCR, metade dos 600.000 comprados nos Estados Unidos. Nesta semana, o Instituto Butantã recebeu 726.000 testes PCR, de uma encomenda de 1,3 milhão feita na Coreia do Sul para reforçar a testagem em São Paulo, o estado com o maior número de casos confirmados e mortes. Apenas com a chegada desse material, o governo paulista estima que os testes passem de 2.000 para 8.000 por dia. A própria Fiocruz tem como meta fornecer 3 milhões de testes PCR ao Ministério da Saúde até julho, mas depende da importação dos insumos necessários. Se não der, um plano B já foi pensado. “Qualificamos mais fornecedores locais e vamos produzir alguns itens aqui”, afirma Marco Krieger, vice-presidente de produção e inovação em saúde da fundação, que negocia ainda a importação de componentes de testes rápidos para montar em seus laboratórios.

Em paralelo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou 33 pedidos de registro de testes sorológicos que ficam prontos em minutos – outros 49 estão sendo analisados. Na Santa Casa de Santos, no litoral de São Paulo, eles já são aplicados a pessoas dentro do carro, ao custo de 250 reais. Até em farmácias são encontrados, embora a venda seja irregular. O principal problema que ronda esse tipo de “teste a jato” é a confiabilidade. Dois lotes produzidos na China foram rejeitados pelo Reino Unido (3,5 milhões) e pela Espanha (58.000), por causa de defeito de fabricação. Nesses casos, o diagnóstico de imunidade fica comprometido. “Esses testes têm sensibilidade inferior e maior risco de resultado falso negativo”, alerta Tania Mouço, presidente do Conselho Regional de Farmácia do Rio de Janeiro. Há relatos de sul-coreanos e chineses que “voltaram a se infectar”, o que pode indicar alguma falha na detecção do vírus.

Sem vacina nem medicamento comprovadamente eficaz – a incensada e polêmica cloroquina ainda está em fase de estudos -, o aprendizado para conter a pandemia vem acontecendo na prática. Berço da Covid-19, a China atualmente tenta impedir uma segunda onda de contaminações monitorando a população – assunto em que é especialista. Os chineses trazem no celular um aplicativo com QR code individual. A cor verde libera a circulação por espaços públicos de quem não tem a doença; a vermelha restringe os contaminados; e a amarela aponta quem teve contato com algum deles. A Coreia do Sul, seguidora de primeira hora da testagem em massa, popularizou a coleta de amostras sem sair do carro. A Alemanha, exemplar no rastreamento de casos, isolamento social e testes em escala, apresenta uma taxa de letalidade extremamente reduzida, de 2,7%. “O governo direcionou investimentos com base na ciência e na racionalidade”, diz Dietrich Rothenbacher, diretor da Sociedade Alemã de Epidemiologia. A caminho do pico da pandemia, o Brasil se prepara agora para uma etapa importante: mapear o grau de contágio e a velocidade de propagação do vírus por meio de uma pesquisa por amostragem, aplicando um total de 100.000 testes rápidos em todos os estados. Trata-se de um primeiro, louvável e obrigatório passo para que o país e os brasileiros voltem à normalidade.

ARMA POTENTE

Os países que mais testam seus cidadãos são os que registram a menor mortalidade pelo novo coronavírus, enquanto os outros, incluindo o Brasil, veem a taxa disparar

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE ABRIL

NÓS SOMOS A MORADA DE DEUS

… porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado (1Coríntios 3.17b).

Quando o povo de Israel saiu do Egito, o próprio Deus o conduziu pelo deserto, dando-lhe, durante o dia, uma coluna de nuvem para protegê-lo do calor e, durante a noite, uma coluna de fogo para guiá-lo e aquecê-lo. Mais tarde, porém, Deus disse a Moisés: E me farão um santuário para que eu possa habitar no meio deles (Êxodo 25.8). Moisés deveria construir o santuário de acordo com a prescrição divina. Aquele santuário seria um símbolo da igreja. Dentro do santuário, no santo dos santos, ficava a arca da aliança, símbolo de Cristo. Cristo está na igreja, e a igreja é a morada do Altíssimo. Deus escolheu habitar na igreja. Mesmo frágeis vasos de barro, somos o tabernáculo da morada de Deus. Nosso corpo é o templo do Espírito Santo. Deus habita em nós. Na verdade, devemos ser tomados de toda a plenitude de Deus Pai, devemos ser cheios da plenitude de Deus Filho e devemos ser cheios da plenitude do Espírito Santo. Em nós habita a própria Trindade Excelsa. O Deus transcendente que não habita em casas feitas por mãos e que nem o céu dos céus pode conter, esse Deus escolheu habitar em nós. Na consumação dos séculos, quando todas as coisas forem restauradas e estivermos na presença do Pai, com um corpo glorificado, ouviremos uma voz: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus mesmo habitará com eles (Apocalipse 21.3b). Aqui, Deus habita em nós; lá nós habitaremos com Deus, por toda a eternidade.

GESTÃO E CARREIRA

AIRBNB LUTA PARA NÃO ENCOLHER

Depois de queda de 70% em suas reservas em mercados como Ásia e Europa, plataforma registra crescimento da procura por estadias de longo prazo de quem busca isolamento.

Foi a partir de uma crise que o Airbnb nasceu. No colapso financeiro global de 2008, os proprietários de imóveis colocaram seus quartos, suas casas ou seus apartamentos para alugar e assim obter uma renda extra. Os viajantes, que queriam pagar menos pelas estadias, gostaram e assim a plataforma que juntou as duas pontas e deu segurança financeira às transações decolou. E se tornou sinônimo de hospedagem e experiências de viagem. São 7 milhões de opções de endereços, em mais de 50 mil cidades de 200 países. Agora, no entanto, outra crise ameaça a operação: o coronavírus, que praticamente estrangulou o trânsito de pessoas na maior parte do planeta. Os primeiros setores afetados foram o de aviação, hotelaria e turismo. A empresa sentiu o golpe. Com a Covid-19, o número de reservas caiu mais de 70% em mercados como Ásia e Europa, segundo a consultoria AirDNA, que coleta dados sobre a plataforma.

Para quem nasceu numa crise, a saída estará obrigatoriamente em outra crise. A companhia observou, no Brasil, principalmente nos centros urbanos, uma mudança no perfil das estadias. Houve aumento de 24% (na comparação entre março de 2019 e o mesmo mês deste ano) na demanda por hospedagens mais longas (acima de 28 dias), nos mesmos municípios em que os interessados moram. A avaliação da empresa é de que o objetivo desses clientes é preservar a saúde das pessoas que fazem parte do grupo de maior risco para a Covid-19.

De acordo com a plataforma, também foram observadas reduções de valor por anfitriões para reservas nesse perfil. No mundo todo, cerca de 80% das pessoas que oferecem espaços para locação na plataforma estão aceitando receber menos pelas reservas. E metade das acomodações do Airbnb agora tem descontos para períodos de permanência de um mês ou mais. Entre os perfis de hóspedes, predominam idosos, famílias em busca de mais espaço para que as crianças possam fazer suas tarefas enquanto os pais trabalham de casa e estudantes universitários que precisam se acomodar enquanto escolas estão fechadas. Se essa tendência for mantida após a quarentena, o Airbnb tende a fazer mais investimentos nesse modelo, que é mais parecido com o de imobiliária virtual.

Com uma diferença. Sem burocracias de comprovantes, fiadores e contratos para as permanências das pessoas nos imóveis dos anfitriões. Uma briga que a plataforma deve encarar com o mercado imobiliário, depois de se desentender com o setor hoteleiro, que a acusa de concorrência desleal e desproporcional. “A ampliação dos segmentos de atuação da empresa é um processo natural, em um mercado que está em clara transformação”, afirma a economista Ana Paula Campello, especialista em mercado imobiliário da Universidade Federal Fluminense.

Mesmo diante de um cenário de incertezas, o Airbnb acaba de captar US$ 1 bilhão em investimento dos fundos Silver Lake e Sixth Street Partners. A rodada é um desafogo importante para a empresa socorrer a comunidade de anfitriões, muitos dependentes da receita gerada pela plataforma. O CEO e cofundador do Airbnb, Brian Chesky, disse em comunicado que o desejo de explorar, conectar, ter novas experiências e um lugar confortável para chamar de lar é universal e duradouro. “E nosso compromisso de criar um senso maior de pertencimento, para todos, em qualquer lugar, nunca vai mudar”, afirmou, em comunicado. O executivo não tem concedido entrevistas, assim como o presidente do Airbnb no Brasil, Leo Tristão. A estratégia de comunicação global da empresa é se pronunciar apenas por notas oficiais.

FUNDOS DE AJUDA

Parte dos recursos investidos pelo Silver Lake e pelo Sixth Street Partners, US$ 5 milhões, será destinada pelo Airbnb como aporte adicional ao fundo de ajuda aos chamados superhosts, anfitriões mais experientes e bem avaliados da plataforma. Esse montante chega agora a US$ 17 milhões. Outra parte, de US$ 250 milhões, vai ser disponibilizada para ajudar os anfitriões a cobrir custos dos cancelamentos relacionados à pandemia contemplados na Política de Causas de Força Maior – a companhia deixou de cobrar as taxas de serviço em cancelamentos. O dinheiro dos dois fundos vem na hora certa, ainda mais se for levado em conta que o check-in do coronavírus nos negócios do Airbnb também contaminou a intenção da companhia de estrear no mercado de ações em 2020. O plano de abrir o capital (IPO) só deve voltar à pauta em 2021, avaliam especialistas. De acordo com estimativas do mercado, a companhia tinha valor de US$ 31 bilhões no ano passado.

Outra medida tomada pela plataforma para minimizar as consequências da pandemia é a vertente de Experiências On-line, que permite que hóspedes viajem sem sair de casa e, dessa forma, mantenham a renda extra no fim do mês dos anfitriões. É possível, por exemplo, reunir on-line amigos para acompanhar um concerto de Tango com indicados ao Grammy Latino (Buenos Aires, Argentina), fazer meditação guiada com ovelhas sonolentas (Loch Lomond, Reino Unido), ter aulas de café com um juiz certificado pelo Judge Certification (Cidade do México, México) ou aprender culinária com uma família marroquina (Marraquexe, Marrocos), entre outras atrações. As atividades ocorrem por meio do aplicativo de videoconferência Zoom, com acesso oferecido gratuitamente aos anfitriões. Aos clientes, os preços variam entre US$ 1 e US$ 40.

“A conexão humana está na nossa essência”, disse Catherine Powell, chefe global de experiências do Airbnb, em nota. “Com tantas pessoas precisando ficar dentro de casa, queremos oferecer uma oportunidade de anfitriões e hóspedes se conectarem da única maneira possível neste momento: on-line.”

RESILIÊNCIA

Nesta fase, estão disponíveis mais de 50 opções de experiências e, segundo a startup, milhares de outras serão incluídas nos próximos meses. Porém, ainda não há nenhuma atividade do Brasil que faça parte do roteiro virtual. Apesar das tentativas de manter vivo seu ecossistema neste momento delicado, o Airbnb admite que haverá consequências no segmento de viagens e turismo globalmente.

Os dados mais recentes mostram que, só no Brasil, a empresa gerou um impacto econômico de R$ 7,7 bilhões em 2018, considerando toda a cadeia que envolve o turismo, como restaurantes e comércio locais, não apenas hospedagem. No mundo, uma equação similar eleva a conta a superar U$ 100 bilhões. A plataforma aposta em seu segmento. De toda forma, a retomada só acontecerá quando o hóspede indesejado fizer seu checkout. E isso não tem data para ocorrer. Mas o Airbnb segue otimista: “O desejo de viajar e ter novas experiências é permanente. E isso faz dessa indústria uma das maiores e mais resilientes do mundo.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA BOA NOITE

Não é de hoje que pais e educadores se preocupam com o sono das crianças, jovens e dos próprios adultos, pois, além da preocupação com a saúde, há questões como os transtornos na vida familiar

Todos precisam de uma boa noite de sono para poder estudar e trabalhar no dia seguinte. O sono é um dos principais processos fisiológicos para a vida. A sua expressão, alternada com a vigília, é circadiana e sofre influência de fatores endógenos, sociais e ambientais.

Mesmo sem informações científicas detalhadas, esse tema relevante já foi muito tratado em diversos manuais de educação infantil de outras gerações e assunto de inúmeros artigos e discussões, até porque uma criança que não dorme bem sempre sinaliza durante o dia as consequências do descanso entrecortado e incompleto, que chama a atenção da família e professores. É uma questão fisiológica que envolve problemas comportamentais e, portanto, educacionais em boa parte dos casos.

Não é de hoje que se percebem os efeitos negativos (de curto e longo prazo) para a saúde física e mental infantil e que afetam diretamente a aprendizagem em qualquer idade: a atenção fica mais oscilante, a memória, menos operativa, a energia física, depauperada, o humor varia, os acidentes são mais constantes devido à falta do necessário controle de impulsos. Na idade escolar, vemos crianças sonolentas ou muito irritadiças na sala de aula, com péssimo relacionamento social, dificuldade de acompanhar ou produzir adequadamente como seus pares.

Durante o sono, há um processo ativo de consolidação da memória e reelaboração das experiências vivenciadas, assim como a organização cerebral, que elimina o não necessário, consolida aprendizados e prepara o sistema nervoso para as novas aquisições.

Durante a primeira década de vida, as chamadas ondas lentas do sono são cerca de 40% mais presentes do que na adolescência e diminuem naturalmente ainda mais nos adultos, provando a importância de as famílias observarem com igual responsabilidade os horários do sono e a alimentação e higiene infantil.

Por outro lado, observam-se entre crianças com comportamentos como déficit atencional (TDA) uma marcante relação com relatos familiares de dificuldades no dormir, na qualidade do sono.

As necessidades de sono são individuais, dependem de fatores diversos, se modificam durante a vida, mas, dentro de um padrão cientificamente aceito como saudável, podemos dizer que:

1) Bebês até os 3 meses devem dormir de 16 a 18 horas ao dia;

2) De 1 a 2 anos devem dormir de 13 a 14 horas por dia;

3) De 3 a 5 anos, 11 a 13 horas diariamente são necessárias;

4) A partir dos 6 anos, de 10 a 11 horas;

5) Entre 12 e 18 anos, uma média de 9h30 ao dia;

6) Adultos: de 7 a 9 horas costumam ser suficientes.

Sabe-se que boa parte do comportamento infantil durante o dia, na escola ou no convívio familiar, está ligada à qualidade do seu sono. Infelizmente, hoje estima-se que 30% das crianças com idade até 12 anos apresentam distúrbios do sono. Inclusive, cerca de 40% dos bebês não dormem bem, comprometendo seu desenvolvimento nessa fase tão importante, quando isso ocorre com complicações mais sérias.

Nos cinco primeiros anos de vida há mudanças na duração, na distribuição e no caráter do sono, e vários fatores podem afetar a criança: medicações, doenças sistêmicas, condições ambientais.

A insônia é a disfunção de sono mais relevante, conforme a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Consiste em uma dificuldade de início ou manutenção do sono, despertar mais cedo que o desejado ou dificuldade em iniciar o adormecer sem intervenção dos pais ou cuidadores.

A rotina de sono pode ajudar muito a evitar problemas do sono e deve estabelecer-se precocemente e basear-se em medidas de higiene do sono e condutas educativas:

1) Estabelecer horário, rotinas e rituais consistentes para o sono;

2) Não barganhar a hora de dormir, nem ser condescendente de modo exagerado em finais de semana ou mesmo férias: o sono é um hábito biológico que precisa de rotina para se manter;

3) Evitar estimulação física, mental ou emocional perto da hora de dormir;

4) Ler uma história curta, falar carinhosamente com a criança;

5) Evitar oferecer alimentação durante a noite;

6) Evitar dormir com alguma fonte luminosa durante toda a noite;

7) Habituar a criança a adormecer sozinha, sem a presença física do cuidador, especialmente nessa época em que câmeras são de fácil instalação e podem tranquilizar os pais;

8) Não permitir que a criança durma na cama dos pais e sim preferencialmente no seu quarto;

9) Eletrônicos, telinhas de modo geral não devem ficar no quarto das crianças.

Interessante lembrar que estudos da década de 1990, da Comissão Nacional de Pesquisas em Distúrbios do Sono, nos Estados Unidos, já detectavam que os transtornos do sono eram pouco   diagnosticados nas consultas pediátricas. E, infelizmente, quando a intervenção ocorre de maneira tardia, o problema pode persistir por anos, tornando-se um problema de difícil solução e múltiplas consequências. Por isso cabe ao pediatra reconhecer os transtornos e buscar o melhor tratamento para curá-los ou, ao menos, minimizá-los, e cabe aos pais a responsabilidade sobre esse aspecto tão importante quanto a alimentação, higiene e educação de seus filhos.

MARIA IRENE MALUF – é Especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem Dr. h.c. em Educação. Membro do conselho vitalício e da diretoria executiva da Associação Brasileira de Psicopedagogia Nacional ABPp, coordenadora dos cursos de Especialização em Neuroaprendizagem, Cognição, Psicomotricidade, Psicopedagogia do Grupo Saber Cultura/FTP/FIP e perita judicial.