A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAFIO NO AMOR

A modalidade de ciúme retrospectivo tem crescido muito, especialmente com o advento das redes sociais, que, frequentemente, abalam a suposta estabilidade das relações amorosas

Relacionar-se na sociedade contemporânea tornou-se ainda mais desafiador quando a internet e as redes sociais impuseram a necessidade de entendermos os comportamentos on-line de nossos crushes e parceiros(as). Com a mudança de paradigmas do que é público e privado e mais acesso à vida de nossos(as) parceiros(as), uma simples interpretação equivocada de uma foto ou comentário pode criar uma insegurança devastadora no ser humano. O ciúme torna-se uma tentativa de controle para manter a sensação de segurança, ainda que ilusória, e pode ser também retrospectivo.

É consenso que a tecnologia digital inaugurou uma nova era para os relacionamentos amorosos de forma revolucionária. Inicialmente foram os sites de relacionamento. Posteriormente, as redes sociais ganharam destaque: originalmente criadas para conectar amigos e familiares, ou mesmo criar novas amizades a partir de interesses em comum, possibilitavam buscar relações amorosas também, com uma abordagem diferente daqueles sites.

Essa nova possibilidade de se relacionar abalou a suposta estabilidade das relações amorosas, visto que permite ampliar o número de possíveis pares amorosos. Assim, o ciúme passou a ser ingrediente presente mesmo em casais que, na era analógica, não teriam insegurança. Afinal, você está atento à qualidade do seu relacionamento hoje e o que este lhe proporciona de satisfação e alegria? Tem medo do passado amoroso ou sexual do(a) parceiro(a)?

PARA QUE SERVE?

O ciúme é uma emoção polêmica e divide tanto os pesquisadores como também os leigos. Alguns estudiosos apontam uma função importante do ciúme na sobrevivência da espécie. Já os leigos podem achar legítimo, como um “ingrediente” para o amor, devido ao contexto cultural. É sabido que o ciúme combina em si outras emoções – como raiva, medo e tristeza -, podendo ser particularmente prejudicial ao relacionamento amoroso, dependendo de sua intensidade. Essas emoções relacionadas ao ciúme (muitas vezes, infundado) eventualmente causam separações ou divórcios e predispõem a comportamentos agressivos e violentos.

Obras famosas como Otelo, de Shakespeare (talvez o exemplo mais citado nos estudos sobre o tema, de um ciúme infundado, totalmente criado na mente do personagem título), bem como músicas populares tratam dessa emoção e podem contribuir para a romantização do ciúme. Porém, cada vez mais, por causa dos riscos que traz, o ciúme é criticado, e serve como sinal de alerta sobre a toxicidade do relacionamento, já que está presente em muitos relacionamentos abusivos. Nas redes sociais, circulam mais campanhas de conscientização sobre relações abusivas, para que as pessoas se afastem de parceiros(as) que ponham sua vida em risco.

Em Psicologia podemos definir ciúme amoroso, resumidamente, como um conjunto de pensamentos, emoções e comportamentos que se seguem a uma ameaça (imaginária ou real) ou perda concreta de um relacionamento importante.

Para a pessoa ciumenta, vigiar seu par assegura a manutenção do relacionamento amoroso. Ela procura evitar a traição a qualquer custo, pois, em nível mais profundo, o maior medo, o mais apavorante, é o abandono. Muitas vezes, esse temor vem de experiências pessoais prévias, traumáticas; outras vezes tem origem em padrões familiares. Além disso, a simples observação da instabilidade das relações amorosas na contemporaneidade acaba sendo um importante reforçador de insegurança.

O PASSADO CONDENA?

Roland Barthes, em seu Fragmentos de um Discurso Amoroso, descreve os sentimentos ambivalentes acerca de seu próprio ciúme: “Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de se- lo, porque temo que meu… ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum”. Pessoas enciumadas não apenas sofrem: também se envergonham dessa emoção.

O ciúme retrospectivo também é conhecido como síndrome de Rebeca, termo que faz referência ao filme Rebeca (1940), de Alfred Hitchcock que, por sua vez, é inspirado no romance Rebeca, a Mulher Inesquecível, de Daphne du Maurier (1938). A obra conta a história de uma mulher atormentada pelas lembranças da primeira esposa do seu marido, já falecida, que inspirou uma telenovela exibida pela rede Globo, entre 1978 e 1979: A Sucessora.

Quem sofre desse tipo de ciúme tem pensamentos obsessivos sobre ex-parceiros(as) de seu(sua.) parceiro(a) atual. Tais pensamentos podem gerar medo e raiva, fazendo com que a pessoa com ciúme retrospectivo sofra alterações de humor e apresente comportamentos ansiosos ou paranoicos. É comum fazer perguntas recorrentes, averiguando detalhes da relação anterior, tentando, de alguma forma, conhecer a “verdade” sobre o seu par amoroso. Porém, ao querer estabelecer comparações, sofre imaginando um relacionamento mais valorizado do que o que tem hoje. Muitas vezes, insiste em falar do passado sexual do outro e, quando se descobre uma forte ligação sexual, o temor de que haja uma “recaída” ou “reviva” é grande.

Facebook e Instagram tornam­ se ferramentas tentadoras, fáceis e eficientes para checagem de perfis da pessoa amada e de seus contatos. Além dos contatos em comum, têm histórico de posts, comentários e fotos do passado. Em pouco tempo, a vida do casal se converte em um trio, no mínimo, no qual a sombra do(s) relacionamento(s) anterior(es) está sempre presente.

Ao contrário do comportamento de olhar o celular ou o e-mail do(a) parceiro(a) sem sua permissão, monitorar uma pessoa on-line pode ser considerado por algumas pessoas como socialmente mais aceitável, já que as informações que estão nas redes sociais são, de certa forma, públicas. Além disso, investigar o Facebook ou o Instagram de alguém pode ser feito de modo sigiloso e o risco de ser descoberto(a) é praticamente inexistente.

A era digital trouxe o medo de ser traído(a) publicamente, enquanto na era analógica a traição podia ser mantida como um segredo do casal. A pessoa traída era mais livre para optar em manter ou não o relacionamento. Hoje em dia, há praticamente um tribunal on-line, com as pessoas assistindo à vida dos outros, em tempo real, emitindo opiniões e julgamentos.

No caso do ciúme retrospectivo, a vigilância maior será sobre ex-namorados (as), ex-cônjuges ou mesmo sobre casos passageiros. Qualquer atividade pode ser interpretada de forma catastrófica, dependendo do nível de desconfiança da pessoa enciumada. Uma estratégia bastante comum de controle é criar uma conta “fake” para poder monitorar a pessoa amada – tanto no Instagram quanto no Facebook.

GATILHOS

Cada rede social tem uma particularidade. Como dito anteriormente, no Facebook, usar cuidadosamente os recursos de configuração de privacidade pode levantar suspeitas e desconfianças – muitas vezes totalmente infundadas. Postar muitas selfies, no Instagram pode levar a pessoa ciumenta à conclusão de que seu par deseja chamar atenção de outras pessoas, com intuito amoroso.

Quanto maior o uso das redes, mais a pessoa ciumenta acreditará que está sujeita a perder quem ama, intensificando, assim, suas estratégias de controle. Dessa forma, passará mais tempo on-line, monitorando e buscando informações que contradigam seus medos. O comportamento excessivamente vigilante é capaz de provocar justamente o que mais se teme: o rompimento do vínculo amoroso, pelo excesso de desconfiança.

Vale frisar que nem todas as interpretações que se fazem sobre o material encontrado on-line são acuradas. Podem estar atravessadas pelos filtros mentais da pessoa enciumada, sendo, portanto, passíveis de erros cognitivos. Erros de interpretação são bastante comuns, porque o que foi postado pode estar sendo entendido fora do contexto e ser mesmo ambíguo para quem observa externamente.

DIFERENÇAS

Praticamente todas as pesquisas apontam que mulheres jovens tendem a ser mais ciumentas – on­line e off-line – do que homens. Isto se deve ao fato de as redes sociais facilitarem sobremaneira a infidelidade emocional. A infidelidade emocional pode conduzir à infidelidade física, o que leva muitas pessoas a terminar o relacionamento. Afinal, a infidelidade é considerada uma infração gravíssima, de quebra de confiança, rompendo o ideal de relacionamento monogâmico característico da sociedade ocidental contemporânea.

Essas mesmas pesquisas apontam diferenças qualitativas no uso das redes sociais por homens e mulheres. Estas utilizam as redes sociais mais para manter contato com antigos ou familiares. Homens tendem a usar as redes com o intuito de compartilhar informações – posts de matérias informativas ou notícias – ou para parabenizarem pessoas conhecidas, servindo quase como agenda. E também para buscarem um contato com alguém que julgam atraente (previamente conhecido ou não), podendo, a partir daí, desenvolver novos relacionamentos amorosos em potencial.

Além do gênero, pessoas com baixa autoestima, com necessidade de serem populares, com dificuldade em confiarem nos outros, e, em relacionamentos recentes (com menos de três anos de duração) ou a distância, tendem a ser mais ciumentas. De acordo com outros estudos, o fato do(a) parceiro(a) divulgar informações pessoais para um grande número de pessoas faz com que a pessoa ciumenta se sinta “apenas mais uma” e não alguém “especial”. Esse sentimento fica particularmente evidente no caso do ciúme retrospectivo.

IMPACTOS NA CLÍNICA

Com a tecnologia cada vez mais presente em nossas vidas, alguns casais se adaptaram muito bem, usando-a a seu favor. Estudos consultados relatam que, em casais bem ajustados, a comunicação virtual pode ser usada para aproximar indivíduos, de forma atenta e carinhosa. Assim, casais que precisam se afastar, em viagens a trabalho, por exemplo, podem usar recursos como chamadas de vídeo via Skype, ou outros. Aplicativos de mensagens – como o WhatsApp ou Messenger – também podem tornar a comunicação mais ágil. A dinâmica on-line do casal impacta diretamente na sua satisfação com o relacionamento – assim como o que faz na vida presencial.

Casais com habilidades de comunicação bem desenvolvidas provavelmente se desentenderão menos sobre o uso da tecnologia ou sobre sua linguagem. Porém, casais que se encontram com problemas podem correr mais riscos, com a expansão dos aplicativos e sites de relacionamento amoroso. Queixas de uso excessivo de tecnologia, para a manutenção de relacionamentos paralelos, têm surgido cada vez mais nos consultórios de Psicologia. Profissionais da área precisam entender a linguagem digital e os comportamentos que surgem a partir dela, como, por exemplo, sexting e cybersexo.

Muitas vezes, as queixas relativas ao ciúme colocarão profissionais em situações antes impensáveis. Vários clientes trazem prints de tela ou áudios de conversas, pedindo uma opinião profissional, como um aconselhamento ou uma sentença a partir da constatação de uma possível traição. Questões éticas também se apresentam, em relação à vigilância e quebra de privacidade: não são raros relatos de violação de privacidade, como o já normalizado “fuxicar” do celular do(a) parceiro(a) quando surge a oportunidade.

COMO A TERAPIA AJUDA

É importante saber diferenciar o que é “normal” ou “saudável” do que é “patológico”. Tentaremos descrever algumas situações. Por exemplo, acompanhar as atualizações do(a) parceiro(a) nas redes sociais pode ser bem aceito. Porém, ficar vigiando e monitorando para ver se a pessoa amada está disponível on-line ou não a ponto de perder o foco na própria vida e comprometer sua saúde e trabalho não é saudável. Em situações mais graves, o ciúme on-line pode se correlacionar com baixos níveis de satisfação com o relacionamento, assim como abuso psicológico e físico, incluindo a perseguição persistente (stalking) de ex-namorados(as), tanto no ambiente virtual quanto na vida real.

Cada vez mais parece impossível viver exclusivamente off-line. Talvez só sobrevivam os relacionamentos amorosos onde haja flexibilidade, capacidade de negociação, respeito e empatia. É indicado, sim, partilhar com o(a) parceiro(a) o quanto se fica insegura (o) com seu comportamento on-line. Ou seja, entrar em contato com essa emoção, expressá-la, pode ser a melhor forma de conseguir uma mudança de comportamento – espontaneamente.

Dessa forma, há um trabalho a ser feito individualmente, como, por exemplo, investigar por que dar tanta importância a algo que está na rede ao invés de aproveitar o que está perto e acontecendo. Que emoções foram acionadas com o comportamento dele ou dela? Medo do abandono, sensação de fracasso, vergonha de ser traído (a)?

Já em terapia de casal, o maior desafio é aprender a expor suas vulnerabilidades. O treino de habilidades de comunicação permitirá que a pessoa solicite ao par a mudança de comportamento. É preciso coragem, e abertura, mas esse é o caminho para melhorar a qualidade do relacionamento.

Para que o relacionamento seja satisfatório, é muito importante que cada uma das pessoas envolvidas olhe para seus traumas emocionais pessoais. Assim, é possível separar o que pertence a si do que é mera imaginação, projetada em outra pessoa – que, muitas vezes, não faz ideia do sofrimento causado. Ou que pode ter um histórico amoroso diferente, ou apenas valores diferentes, prezando mais a sua própria liberdade, mas sem nenhuma intenção de ter outro(s) relacionamento(s) amoroso(s) em paralelo.

É possível perceber, mesmo nas consultas individuais, a partir do histórico do (a) cliente, eventuais distorções cognitivas, descritas pela terapia cognitiva; elas surgem de experiências anteriores, nada tendo a ver com a realidade atual. Um comportamento do(a) parceiro(a) on-line pode ativar memórias de experiências traumáticas de outros relacionamentos, gerando comportamentos desproporcionais. Quem já foi traído (a), ou já viu isso acontecer em relacionamentos próximos, pode generalizar, fazer inferências arbitrárias e ter um raciocínio emocional.

DICAS

A comunicação sempre será o melhor caminho para estabelecer o que é aceitável ou não, o que é permitido ou não. Algumas questões: expor ou não o status do relacionamento no Facebook pode ser um problema a ser discutido. Há casais que fazem questão de que essa informação seja pública, por variadas razões, outros optam por deixar indefinido. Não há certo ou errado, há o que serve para aquele casal específico. Que tipo de fotos pessoais devem ser postadas? Selfies incomodam?

Como a antropóloga Ellen Fisher apontou, as nossas necessidades emocionais são as mesmas da era analógica. Queremos conexão, pertencimento, nos sentirmos valorizados. Ou seja, a tecnologia não mudou as pessoas – porém, há um grande temor de se expor, de mostrar vulnerabilidade. E,assim, muitas pessoas adotam comportamentos que acabam levando a rompimentos. Como dito anteriormente, muitas vezes o(a) parceiro(a) não faz ideia do que um post pode causar de sofrimento.

Alguns casais adotam caminhos mais radicais, por assim dizer, criando perfis conjuntos ou trocando senhas entre si, mas outros acham esse tipo de acordo impensável, como se estabelecesse, de antemão, que a outra pessoa não merece confiança. Vale lembrar que tudo pode ser burlado, e, por esse motivo, independentemente do que o casal decida fazer, o importante é conversar sobre o tema, buscando entender o ponto de vista do(a) parceiro(a), desenvolver flexibilidade psicológica e cognitiva, podendo respeitar os desejos e expectativas de cada um.

COMO LIDAR?

De acordo com nossa experiência clínica, no início de uma terapia cuja queixa central é o ciúme retrospectivo, as seguintes informações precisam ser transmitidas:

1- Qualquer pessoa pode sofrer de ciúme retrospectivo, não importando gênero, idade ou orientação sexual;

2- O passado não pode ser modificado, portanto, sofrer por algo que não podemos controlar é desperdício de tempo e energia;

3- Todas as pessoas possuem passado e nossas experiências de vida foram importantes para nos tornar quem somos hoje;

4- Redes sociais e aplicativos de mensagens são combustíveis para o ciúme e seu uso deve ser limitado;

5- Deve-se trabalhar em prol do relacionamento, construindo junto com seu (sua) parceiro (a) uma nova história, no presente.

Por último, o (a) paciente deve ser lembrado (a) de que relações amorosas saudáveis são baseadas em transparência e em valores como respeito, sinceridade, compreensão e confiança.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Uma consideração sobre “A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS”

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