OUTROS OLHARES

MINHA JANELA, MINHA VIDA

Presas em apartamentos por causa da pandemia, as pessoas ocupam varandas e balcões, onde cantam, batem palmas, exercitam-se e, assim, reinventam o convívio social

Para a enorme parcela da população planetária que está trancada dentro de apartamentos, no esforço coletivo para conter o avanço do novo coronavírus, o contato olho no olho com o mundo lá fora ficou restrito a um espaço doméstico do qual os moradores raramente chegavam perto: as janelas da casa. E nelas, e também em varandas e balcões, que vizinhos que mal se cumprimentavam trocam agora acenos, formam corais, exercitam-se em mutirão e até celebram aniversários. A moda começou na Itália, fechada há mais de um mês, onde a cantoria improvisada nos balcões foi parar nas redes e, de lá, ganhou o mundo, inclusive o Brasil, impulsionada pelo pendor local para o bom e velho bate-papo. Descobriu-se então que se debruçar no parapeito é uma maneira de aplacar a angústia da separação e reinventar o convívio social, ainda que só com quem mora por perto. “Em uma sociedade em que o individualismo dominava, o vírus trouxe de volta a vontade de ficar junto, e a ideia de que estamos todos no mesmo buraco amplifica isso”, explica o antropólogo Roberto Da Matta.

A música tem sido a forma mais usada para romper o silêncio das ruas e unir a vizinhança. No bairro do Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a soprano Fernanda Schleder, de 41 anos, e o barítono Frederico de Assis, de 51, ambos do coro do Theatro Municipal (fechado, é claro), apresentam há quatro domingos, da varanda de seu apartamento, uma seleção de músicas que vão do lírico ao popular. “Cantamos para não enlouquecer e ainda levamos um pouco de alento e carinho aos que estão à nossa volta”, diz Fernanda. Com a caixa de som ligada, a voz da dupla ecoa pelo bairro, às vezes acompanhada dado filho Pietro, de 6 anos, entoando árias, canções infantis e, para finalizar, Cidade Maravilhosa. “Mais de 100 pessoas saem à janela todas as vezes e cantam com a gente”, comemora Assis. “Mal via meus vizinhos antes. Agora a gente se comunica por aplicativo tanto sobre as medidas tomadas pelo prédio quanto sobre o canto de Fernanda e Fred. Sinto que nos tornamos amigos”, relata a aposentada Vera Maria Gusmão, que mora no edifício e não sai de casa há mais de um mês.

A falta de contato humano tem sido uma preocupação da comunidade médica durante a pandemia, já que o stress do isolamento prolongado aumenta a predisposição para transtornos de ansiedade e comportamentos depressivos. “Todos podem ser atingidos. Crianças, adolescentes, idosos e pessoas com doença psiquiátrica preexistente apresentam mais riscos”, alerta o psiquiatra Alexandre Karam J. Mousfi, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie do Paraná. Vem daí o efeito salutar do bolo de aniversário na sacada, enquanto o prédio todo canta Parabéns, do companheirismo da turma que toma sol na varanda e até da união de quem, batendo panela, protesta na janela contra Bolsonaro – hábito que a quarentena ajudou a propagar. A ginástica na varanda, contagiante, ocorre em prédios de Nantes, no oeste da França, a Brasília, onde o projeto Movimente-se em Casa leva atividades físicas a 35 condomínios: todo dia, professores voluntários, no térreo, executam exercícios e passos de dança acompanhados por moradores de todos os andares.

Os momentos de camaradagem nos edifícios são uma reedição, em tempos de coronavírus, do antigo costume nas cidades pequenas de, depois do jantar, sem televisão, as pessoas se postarem na janela para bater papo com quem passava na calçada. As possibilidades são inesgotáveis. Em Paris, toda noite, às 19 horas, a população abre a vidraça para bater palmas para os trabalhadores do setor de saúde, outro gesto cada vez mais internacional. Na Itália, a Alicenella Città, mostra paralela do Festival de Cinema de Roma, incentiva quem tem o equipamento necessário a, de sua janela, projetar trechos de filmes famosos nas fachadas. Na Espanha, Polônia, Venezuela, Estados Unidos, em toda parte, cantores, instrumentistas e até DJs aderiram ao velho novo costume e passaram a fazer de seus balcões um palco para sua arte.

Na Nova Zelândia, muitas casas agora têm na janela um ursinho de pelúcia em pose divertida –   parte da brincadeira de “caça ao urso”, em que as crianças saem a pé, onde for seguro, ou de carro, com os pais, para procurar o brinquedo. Até a primeira-ministra Jacinda Ardern acomodou um ursinho na janela da residência oficial, em Wellington, onde está isolada com o marido e a filha de 1 ano. Bom será se essa cordialidade sobreviver e se mantiver acesa no mundo pós-pandemia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE ABRIL

NÃO DEIXE DE SONHAR, MESMO NO CATIVEIRO

E a mulher concebeu e deu à luz um filho… (Êxodo 2.2a).

Joquebede nasceu no cativeiro e sua família estava debaixo de opressão. Seu povo amassava barro, debaixo da chibata dos soldados de Faraó. Não bastasse a escassez de pão, o trabalho forçado e os rigores do castigo físico, agora Faraó ordena que todos os meninos hebreus, nascidos no Egito, sejam passados ao fio da espada ou jogados no Nilo para alimentarem os crocodilos. É nesse cenário de opressão que Joquebede fica grávida. Mesmo no cativeiro, Joquebede não deixa de sonhar. Nos nove meses de gravidez, traça um plano para salvar seu filho. Sua convicção é que não havia gerado um filho para a morte. Deus honrou a atitude de Joquebede. O Nilo, que deveria ser a sepultura de seu filho, tornou-se o instrumento do seu livramento. Em vez de ser devorado pelos crocodilos, foi adotado pela filha de Faraó. Em vez de cair sob a espada do adversário, foi parar nos braços de sua mãe. Em vez de ser oprimido pelos seus inimigos, tornou-se o libertador de seu povo. O nascimento de Moisés não estava apenas nos planos de seus pais, mas sobretudo nos propósitos de Deus. Aquele menino cresceu e se fortaleceu. Aprendeu todas as ciências do Egito. Depois vivenciou todas as agruras do deserto. Finalmente, enfrentou com um cajado na mão todo o poder do Egito e dali libertou o povo hebreu da dura escravidão. Deus ainda opera maravilhas na vida daqueles que ousam sonhar, mesmo que o mundo à sua volta lhes mostre a carranca da opressão.

GESTÃO E CARREIRA

AS MELHORES AÇÕES EM TEMPOS DE PANDEMIA

Em um cenário catastrófico de queda de valor por toda a B3, setores com grande potencial exportador, como frigoríficos, de papel e celulose e de mineração, são as melhores apostas para quem deseja reverter os prejuízos acumulados no ano. O Dólar alto e a volta da China às compras são os maiores estímulos.

O novo coronavírus gerou uma crise global inédita e de efeitos ainda incertos. As bolsas de valores do mundo todo foram afetadas a ponto de o período ser chamado de “banho de sangue” por investidores e analistas de mercado. No Brasil, até a terça-feira 14, o índice Ibovespa acumulava desvalorização de 30% no ano, mesmo após uma recuperação de quase 10% só nos últimos sete dias. Empresas de todos os setores listadas na B3 foram impactadas pelos efeitos da pandemia e acumularam perdas (ver tabela). As projeções do Ibovespa para 2020 chegaram a cair até 41%, no comparativo entre dezembro e abril, segundo levantamento do buscador de investimentos Yubb. O Bank of America traçou o pior cenário para o fim deste ano, baixando a previsão de 130 mil para 76 mil pontos. A mais otimista das sete casas analisadas foi a Guide, com queda de 28%, para 96 mil pontos. O que fazer quando as perdas parecem inevitáveis?

De acordo com analistas de mercado consultados, o ideal no momento é ter cautela e buscar papéis de empresas ligadas a setores mais resilientes da economia. Nesse contexto, as companhias exportadoras estão entre as mais citadas. Elas se beneficiam do real desvalorizado, o que torna seus produtos mais competitivos no mercado internacional. Entram nesse grupo empresas de papel e celulose como a Suzano, de mineração, como a Vale, frigoríficos como a JBS, e fabricantes de equipamentos, caso da Weg, que até o começo da semana passada era a única do Ibovespa que ainda estava com ações no azul em 2020.

“Além do fator dólar, a China já saiu da quarentena e é uma grande compradora”, afirma o estrategista da Genial Investimentos, Filipe Villegas. Na análise setor por setor, o de papel e celulose tem a seu favor o fato de o Brasil ser muito competitivo no mercado externo. Além disso, como há uma grande demanda por produtos como papel higiênico e insumos médico-hospitalares, essa indústria sofreu impacto menor. Segundo Carolina Ujikawa, analista da Mauá Capital, no começo do ano a celulose era comercializada ao preço de US$ 1 mil a tonelada, mas, desde então, a queda foi vertiginosa. Chegou a cerca de R$ 400, mas voltou a subir com o retorno às atividades da China e está cotada em R$ 464. “Com o dólar no patamar que está, essa indústria tende a ter bom desempenho”, diz a especialista.

Empresas do ramo frigorífico também estão sendo recomendadas. Principalmente, os papeis da JBS, porque a compra de alimentos na China impacta positivamente seus negócios. “Não houve queda na demanda por carne até porque em época de epidemia se alimentar bem é importante”, afirma Carolina Ujikawa. “Além disso, empresas como JBS e BRF se beneficiam do fato de a China ter perdido 60% de seu rebanho suíno no ano passado. Não dá para recuperar isso de uma hora para outra e parte da necessidade está sendo substituída por carne bovina e de frango.”

E DEPOIS?

Se neste primeiro momento as empresas exportadoras são vistas como as melhores opções, no longo prazo outros setores podem render bons ganhos para os investidores. Para Villegas, da Genial, também são promissores papéis de companhias com menor nível de alavancagem, assim como aquelas envolvidas com tecnologia, incluindo o e-commerce. “A digitalização já era uma tendência, mas a pandemia acelerou isso. Toda empresa que já investiu bastante ou tem parte de seu negócio atrelado à tecnologia deve chamar mais a atenção do mercado”, diz. E, pensando no pós-pandemia, o analista da Necton Investimentos, Glauco Legat, inclui até empresas do setor de varejo, que eram as vedetes do mercado antes da crise, mas que sofreram grande impacto nas vendas por conta do fechamento de lojas físicas. “As ações da Via Varejo caíram de cerca de R$ 16 para R$ 4. Se depois que o problema passar a recuperação for rápida, tende a ser um dos papéis que vão ter melhor desempenho”, afirma.

A expectativa geral é de que o pior já tenha passado nas bolsas, mas os analistas ainda avaliam com cautela o cenário, já que existe a possibilidade de uma segunda onda de contágios, o que poderia atrasar a recuperação econômica. Evitada essa possibilidade, a opinião é de que os preços já atingiram o fundo do poço. “Antes da crise havia margens para queda. O patamar médio de desvalorização está em torno de 40%. Na pior das hipóteses, as empresas vão perder um ano de lucro”, afirma Sales, lembrando que o Ibovespa iniciou 2020 com 115 mil pontos e chegou a baixar para 61,7 mil. “Já chegamos ao fundo do poço, mas isso não significa que daqui para frente será um mar de rosas”. Por isso, conhecer os setores mais bem protegidos de impactos inesperados ainda pode ser bastante importante para o investidor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAFIO NO AMOR

A modalidade de ciúme retrospectivo tem crescido muito, especialmente com o advento das redes sociais, que, frequentemente, abalam a suposta estabilidade das relações amorosas

Relacionar-se na sociedade contemporânea tornou-se ainda mais desafiador quando a internet e as redes sociais impuseram a necessidade de entendermos os comportamentos on-line de nossos crushes e parceiros(as). Com a mudança de paradigmas do que é público e privado e mais acesso à vida de nossos(as) parceiros(as), uma simples interpretação equivocada de uma foto ou comentário pode criar uma insegurança devastadora no ser humano. O ciúme torna-se uma tentativa de controle para manter a sensação de segurança, ainda que ilusória, e pode ser também retrospectivo.

É consenso que a tecnologia digital inaugurou uma nova era para os relacionamentos amorosos de forma revolucionária. Inicialmente foram os sites de relacionamento. Posteriormente, as redes sociais ganharam destaque: originalmente criadas para conectar amigos e familiares, ou mesmo criar novas amizades a partir de interesses em comum, possibilitavam buscar relações amorosas também, com uma abordagem diferente daqueles sites.

Essa nova possibilidade de se relacionar abalou a suposta estabilidade das relações amorosas, visto que permite ampliar o número de possíveis pares amorosos. Assim, o ciúme passou a ser ingrediente presente mesmo em casais que, na era analógica, não teriam insegurança. Afinal, você está atento à qualidade do seu relacionamento hoje e o que este lhe proporciona de satisfação e alegria? Tem medo do passado amoroso ou sexual do(a) parceiro(a)?

PARA QUE SERVE?

O ciúme é uma emoção polêmica e divide tanto os pesquisadores como também os leigos. Alguns estudiosos apontam uma função importante do ciúme na sobrevivência da espécie. Já os leigos podem achar legítimo, como um “ingrediente” para o amor, devido ao contexto cultural. É sabido que o ciúme combina em si outras emoções – como raiva, medo e tristeza -, podendo ser particularmente prejudicial ao relacionamento amoroso, dependendo de sua intensidade. Essas emoções relacionadas ao ciúme (muitas vezes, infundado) eventualmente causam separações ou divórcios e predispõem a comportamentos agressivos e violentos.

Obras famosas como Otelo, de Shakespeare (talvez o exemplo mais citado nos estudos sobre o tema, de um ciúme infundado, totalmente criado na mente do personagem título), bem como músicas populares tratam dessa emoção e podem contribuir para a romantização do ciúme. Porém, cada vez mais, por causa dos riscos que traz, o ciúme é criticado, e serve como sinal de alerta sobre a toxicidade do relacionamento, já que está presente em muitos relacionamentos abusivos. Nas redes sociais, circulam mais campanhas de conscientização sobre relações abusivas, para que as pessoas se afastem de parceiros(as) que ponham sua vida em risco.

Em Psicologia podemos definir ciúme amoroso, resumidamente, como um conjunto de pensamentos, emoções e comportamentos que se seguem a uma ameaça (imaginária ou real) ou perda concreta de um relacionamento importante.

Para a pessoa ciumenta, vigiar seu par assegura a manutenção do relacionamento amoroso. Ela procura evitar a traição a qualquer custo, pois, em nível mais profundo, o maior medo, o mais apavorante, é o abandono. Muitas vezes, esse temor vem de experiências pessoais prévias, traumáticas; outras vezes tem origem em padrões familiares. Além disso, a simples observação da instabilidade das relações amorosas na contemporaneidade acaba sendo um importante reforçador de insegurança.

O PASSADO CONDENA?

Roland Barthes, em seu Fragmentos de um Discurso Amoroso, descreve os sentimentos ambivalentes acerca de seu próprio ciúme: “Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de se- lo, porque temo que meu… ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum”. Pessoas enciumadas não apenas sofrem: também se envergonham dessa emoção.

O ciúme retrospectivo também é conhecido como síndrome de Rebeca, termo que faz referência ao filme Rebeca (1940), de Alfred Hitchcock que, por sua vez, é inspirado no romance Rebeca, a Mulher Inesquecível, de Daphne du Maurier (1938). A obra conta a história de uma mulher atormentada pelas lembranças da primeira esposa do seu marido, já falecida, que inspirou uma telenovela exibida pela rede Globo, entre 1978 e 1979: A Sucessora.

Quem sofre desse tipo de ciúme tem pensamentos obsessivos sobre ex-parceiros(as) de seu(sua.) parceiro(a) atual. Tais pensamentos podem gerar medo e raiva, fazendo com que a pessoa com ciúme retrospectivo sofra alterações de humor e apresente comportamentos ansiosos ou paranoicos. É comum fazer perguntas recorrentes, averiguando detalhes da relação anterior, tentando, de alguma forma, conhecer a “verdade” sobre o seu par amoroso. Porém, ao querer estabelecer comparações, sofre imaginando um relacionamento mais valorizado do que o que tem hoje. Muitas vezes, insiste em falar do passado sexual do outro e, quando se descobre uma forte ligação sexual, o temor de que haja uma “recaída” ou “reviva” é grande.

Facebook e Instagram tornam­ se ferramentas tentadoras, fáceis e eficientes para checagem de perfis da pessoa amada e de seus contatos. Além dos contatos em comum, têm histórico de posts, comentários e fotos do passado. Em pouco tempo, a vida do casal se converte em um trio, no mínimo, no qual a sombra do(s) relacionamento(s) anterior(es) está sempre presente.

Ao contrário do comportamento de olhar o celular ou o e-mail do(a) parceiro(a) sem sua permissão, monitorar uma pessoa on-line pode ser considerado por algumas pessoas como socialmente mais aceitável, já que as informações que estão nas redes sociais são, de certa forma, públicas. Além disso, investigar o Facebook ou o Instagram de alguém pode ser feito de modo sigiloso e o risco de ser descoberto(a) é praticamente inexistente.

A era digital trouxe o medo de ser traído(a) publicamente, enquanto na era analógica a traição podia ser mantida como um segredo do casal. A pessoa traída era mais livre para optar em manter ou não o relacionamento. Hoje em dia, há praticamente um tribunal on-line, com as pessoas assistindo à vida dos outros, em tempo real, emitindo opiniões e julgamentos.

No caso do ciúme retrospectivo, a vigilância maior será sobre ex-namorados (as), ex-cônjuges ou mesmo sobre casos passageiros. Qualquer atividade pode ser interpretada de forma catastrófica, dependendo do nível de desconfiança da pessoa enciumada. Uma estratégia bastante comum de controle é criar uma conta “fake” para poder monitorar a pessoa amada – tanto no Instagram quanto no Facebook.

GATILHOS

Cada rede social tem uma particularidade. Como dito anteriormente, no Facebook, usar cuidadosamente os recursos de configuração de privacidade pode levantar suspeitas e desconfianças – muitas vezes totalmente infundadas. Postar muitas selfies, no Instagram pode levar a pessoa ciumenta à conclusão de que seu par deseja chamar atenção de outras pessoas, com intuito amoroso.

Quanto maior o uso das redes, mais a pessoa ciumenta acreditará que está sujeita a perder quem ama, intensificando, assim, suas estratégias de controle. Dessa forma, passará mais tempo on-line, monitorando e buscando informações que contradigam seus medos. O comportamento excessivamente vigilante é capaz de provocar justamente o que mais se teme: o rompimento do vínculo amoroso, pelo excesso de desconfiança.

Vale frisar que nem todas as interpretações que se fazem sobre o material encontrado on-line são acuradas. Podem estar atravessadas pelos filtros mentais da pessoa enciumada, sendo, portanto, passíveis de erros cognitivos. Erros de interpretação são bastante comuns, porque o que foi postado pode estar sendo entendido fora do contexto e ser mesmo ambíguo para quem observa externamente.

DIFERENÇAS

Praticamente todas as pesquisas apontam que mulheres jovens tendem a ser mais ciumentas – on­line e off-line – do que homens. Isto se deve ao fato de as redes sociais facilitarem sobremaneira a infidelidade emocional. A infidelidade emocional pode conduzir à infidelidade física, o que leva muitas pessoas a terminar o relacionamento. Afinal, a infidelidade é considerada uma infração gravíssima, de quebra de confiança, rompendo o ideal de relacionamento monogâmico característico da sociedade ocidental contemporânea.

Essas mesmas pesquisas apontam diferenças qualitativas no uso das redes sociais por homens e mulheres. Estas utilizam as redes sociais mais para manter contato com antigos ou familiares. Homens tendem a usar as redes com o intuito de compartilhar informações – posts de matérias informativas ou notícias – ou para parabenizarem pessoas conhecidas, servindo quase como agenda. E também para buscarem um contato com alguém que julgam atraente (previamente conhecido ou não), podendo, a partir daí, desenvolver novos relacionamentos amorosos em potencial.

Além do gênero, pessoas com baixa autoestima, com necessidade de serem populares, com dificuldade em confiarem nos outros, e, em relacionamentos recentes (com menos de três anos de duração) ou a distância, tendem a ser mais ciumentas. De acordo com outros estudos, o fato do(a) parceiro(a) divulgar informações pessoais para um grande número de pessoas faz com que a pessoa ciumenta se sinta “apenas mais uma” e não alguém “especial”. Esse sentimento fica particularmente evidente no caso do ciúme retrospectivo.

IMPACTOS NA CLÍNICA

Com a tecnologia cada vez mais presente em nossas vidas, alguns casais se adaptaram muito bem, usando-a a seu favor. Estudos consultados relatam que, em casais bem ajustados, a comunicação virtual pode ser usada para aproximar indivíduos, de forma atenta e carinhosa. Assim, casais que precisam se afastar, em viagens a trabalho, por exemplo, podem usar recursos como chamadas de vídeo via Skype, ou outros. Aplicativos de mensagens – como o WhatsApp ou Messenger – também podem tornar a comunicação mais ágil. A dinâmica on-line do casal impacta diretamente na sua satisfação com o relacionamento – assim como o que faz na vida presencial.

Casais com habilidades de comunicação bem desenvolvidas provavelmente se desentenderão menos sobre o uso da tecnologia ou sobre sua linguagem. Porém, casais que se encontram com problemas podem correr mais riscos, com a expansão dos aplicativos e sites de relacionamento amoroso. Queixas de uso excessivo de tecnologia, para a manutenção de relacionamentos paralelos, têm surgido cada vez mais nos consultórios de Psicologia. Profissionais da área precisam entender a linguagem digital e os comportamentos que surgem a partir dela, como, por exemplo, sexting e cybersexo.

Muitas vezes, as queixas relativas ao ciúme colocarão profissionais em situações antes impensáveis. Vários clientes trazem prints de tela ou áudios de conversas, pedindo uma opinião profissional, como um aconselhamento ou uma sentença a partir da constatação de uma possível traição. Questões éticas também se apresentam, em relação à vigilância e quebra de privacidade: não são raros relatos de violação de privacidade, como o já normalizado “fuxicar” do celular do(a) parceiro(a) quando surge a oportunidade.

COMO A TERAPIA AJUDA

É importante saber diferenciar o que é “normal” ou “saudável” do que é “patológico”. Tentaremos descrever algumas situações. Por exemplo, acompanhar as atualizações do(a) parceiro(a) nas redes sociais pode ser bem aceito. Porém, ficar vigiando e monitorando para ver se a pessoa amada está disponível on-line ou não a ponto de perder o foco na própria vida e comprometer sua saúde e trabalho não é saudável. Em situações mais graves, o ciúme on-line pode se correlacionar com baixos níveis de satisfação com o relacionamento, assim como abuso psicológico e físico, incluindo a perseguição persistente (stalking) de ex-namorados(as), tanto no ambiente virtual quanto na vida real.

Cada vez mais parece impossível viver exclusivamente off-line. Talvez só sobrevivam os relacionamentos amorosos onde haja flexibilidade, capacidade de negociação, respeito e empatia. É indicado, sim, partilhar com o(a) parceiro(a) o quanto se fica insegura (o) com seu comportamento on-line. Ou seja, entrar em contato com essa emoção, expressá-la, pode ser a melhor forma de conseguir uma mudança de comportamento – espontaneamente.

Dessa forma, há um trabalho a ser feito individualmente, como, por exemplo, investigar por que dar tanta importância a algo que está na rede ao invés de aproveitar o que está perto e acontecendo. Que emoções foram acionadas com o comportamento dele ou dela? Medo do abandono, sensação de fracasso, vergonha de ser traído (a)?

Já em terapia de casal, o maior desafio é aprender a expor suas vulnerabilidades. O treino de habilidades de comunicação permitirá que a pessoa solicite ao par a mudança de comportamento. É preciso coragem, e abertura, mas esse é o caminho para melhorar a qualidade do relacionamento.

Para que o relacionamento seja satisfatório, é muito importante que cada uma das pessoas envolvidas olhe para seus traumas emocionais pessoais. Assim, é possível separar o que pertence a si do que é mera imaginação, projetada em outra pessoa – que, muitas vezes, não faz ideia do sofrimento causado. Ou que pode ter um histórico amoroso diferente, ou apenas valores diferentes, prezando mais a sua própria liberdade, mas sem nenhuma intenção de ter outro(s) relacionamento(s) amoroso(s) em paralelo.

É possível perceber, mesmo nas consultas individuais, a partir do histórico do (a) cliente, eventuais distorções cognitivas, descritas pela terapia cognitiva; elas surgem de experiências anteriores, nada tendo a ver com a realidade atual. Um comportamento do(a) parceiro(a) on-line pode ativar memórias de experiências traumáticas de outros relacionamentos, gerando comportamentos desproporcionais. Quem já foi traído (a), ou já viu isso acontecer em relacionamentos próximos, pode generalizar, fazer inferências arbitrárias e ter um raciocínio emocional.

DICAS

A comunicação sempre será o melhor caminho para estabelecer o que é aceitável ou não, o que é permitido ou não. Algumas questões: expor ou não o status do relacionamento no Facebook pode ser um problema a ser discutido. Há casais que fazem questão de que essa informação seja pública, por variadas razões, outros optam por deixar indefinido. Não há certo ou errado, há o que serve para aquele casal específico. Que tipo de fotos pessoais devem ser postadas? Selfies incomodam?

Como a antropóloga Ellen Fisher apontou, as nossas necessidades emocionais são as mesmas da era analógica. Queremos conexão, pertencimento, nos sentirmos valorizados. Ou seja, a tecnologia não mudou as pessoas – porém, há um grande temor de se expor, de mostrar vulnerabilidade. E,assim, muitas pessoas adotam comportamentos que acabam levando a rompimentos. Como dito anteriormente, muitas vezes o(a) parceiro(a) não faz ideia do que um post pode causar de sofrimento.

Alguns casais adotam caminhos mais radicais, por assim dizer, criando perfis conjuntos ou trocando senhas entre si, mas outros acham esse tipo de acordo impensável, como se estabelecesse, de antemão, que a outra pessoa não merece confiança. Vale lembrar que tudo pode ser burlado, e, por esse motivo, independentemente do que o casal decida fazer, o importante é conversar sobre o tema, buscando entender o ponto de vista do(a) parceiro(a), desenvolver flexibilidade psicológica e cognitiva, podendo respeitar os desejos e expectativas de cada um.

COMO LIDAR?

De acordo com nossa experiência clínica, no início de uma terapia cuja queixa central é o ciúme retrospectivo, as seguintes informações precisam ser transmitidas:

1- Qualquer pessoa pode sofrer de ciúme retrospectivo, não importando gênero, idade ou orientação sexual;

2- O passado não pode ser modificado, portanto, sofrer por algo que não podemos controlar é desperdício de tempo e energia;

3- Todas as pessoas possuem passado e nossas experiências de vida foram importantes para nos tornar quem somos hoje;

4- Redes sociais e aplicativos de mensagens são combustíveis para o ciúme e seu uso deve ser limitado;

5- Deve-se trabalhar em prol do relacionamento, construindo junto com seu (sua) parceiro (a) uma nova história, no presente.

Por último, o (a) paciente deve ser lembrado (a) de que relações amorosas saudáveis são baseadas em transparência e em valores como respeito, sinceridade, compreensão e confiança.