OUTROS OLHARES

LAVA ROUPA TODO DIA

O isolamento obriga as famílias a se virar sem empregada. Além de tomar conta das redes sociais, a mudança abre uma reflexão sobre as relações servis no Brasil

Entre as muitas mudanças inimagináveis que o planeta vem enfrentando em consequência da pandemia de Covid-19, uma afeta diretamente o Brasil: pela primeira vez desde o descobrimento, praticamente, boa parte das famílias está tendo de se virar sem “secretárias”, “assistentes”, ”ajudantes” ou o nome que se dê hoje em dia às empregadas que cuidam do trabalho doméstico. Morando longe, convivendo com um grande número de pessoas e tendo de pegar transporte público, as domésticas se tornaram um risco para seus patrões – e eles para elas, é claro – e foram dispensadas, ao menos temporariamente, o que obrigou muita gente a pegar no pesado pela primeira vez na vida. Espelho (um tanto distorcido) do cotidiano, as redes sociais viraram palco de uma espécie de reality show da faxina, em que anônimos e famosos – muitos, muitos famosos – se exibem lavando louça, varrendo a casa e desvendando os mistérios do aspirador de pó. São imagens que refletem o momento, sem dúvida, mas nem por isso deixam de abrir uma fresta para a reflexão sobre as relações servis tão enraizadas na cultura nacional. “A pandemia está jogando luz sobre uma realidade brasileira que remete ao período escravista”, aponta a historiadora Mary Del Priore.

A estranheza que todo mundo sente ficando dentro de sua residência o dia inteiro se amplia quando a família tem de dar conta da casa, comida e roupa lavada, um conjunto de atividades que a população mais favorecida quase sempre terceirizou. Estudos mostram que o Brasil tem o maior contingente de domésticas do mundo: segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), são mais de 6 milhões de pessoas trabalhando em casas de família, 92% delas mulheres, a maioria negra. “Isso ainda é reflexo da transição do trabalho escravo para o ofício doméstico remunerado, uma demonstração de que a dinâmica servil e a prevalência de afrodescendentes se mantiveram”, ressalta a historiadora Lorena Féres Telles, autora de um livro sobre o tema. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos – outro país de passado escravagista – contratar pessoas para cuidar dos afazeres da casa atualmente é exclusividade dos muito ricos, no Brasil o hábito permanece entranhado, alimentado por um sistema de dependência de parte a parte. “Além do legado histórico, a desigualdade social e a falta de qualificação criam um círculo vicioso”, observa o filósofo Luiz Felipe Pondé. Por isso mesmo, ele não tem esperança de que a mudança se sustente para além da pandemia. “Não tenho dúvida de que essa experiência de igualdade é temporária. As domésticas voltarão”, afirma.

Enquanto isso, na falta de viagens glamourosas, festas de arromba e comprinhas que precisam ser compartilhadas, uma infinidade de fotos e vídeos postados nas redes sociais pelos isolados sociais estampa mãe, pai, filha e filho empenhados em alguma atividade do lar que, até pouco tempo atrás, só conheciam de ouvir falar. Com benefícios extras, inclusive. A atriz Juliana Paes publicou nos stories do Instagram µm vídeo em que passa a vassoura na casa e filosofa: “Cheguei à conclusão de que varrer pode ser muito terapêutico. Uma coisa meio de ficar meditando”. Flavia, mulher do cantor Luciano Camargo, mostrou o marido lavando panos (não muito) sujos notam que ele aproveitou para exaltar seu caráter: com ele não tem “mi-mi-mi ou ego”. Moradora de um apartamento de 800 metros quadrados em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, a apresentadora Adriane Galisteu exibiu nas redes sociais bolhas e rachaduras nos dedos após limpar o banheiro. “Não fazia uma faxina havia dez anos”, disse. ”Estou só com um dos meus cinco ajudantes e dedico cada dia a deixar brilhando uma parte da casa: já limpei a academia, a sala de brinquedos. Estou até querendo consertar uns rejuntes”, brinca.

No caso das celebridades, fica sempre a pulga atrás da orelha: é verdade ou só pose? “É o tipo de postagem que humaniza, cria empatia e uma identificação maior da pessoa com o público. Funciona bem como marketing”, diz Igor Fidalgo, da agência Neon Mind, especializada em branding digital. A atriz Maitê Proença, de 62 anos muito bem conservados, também desempenha seu papel no show da limpeza nas redes e concorda que pode parecer forçado. Mas garante que ela, de fato, dispensou os empregados. E admite que sim, está estreando na faxina. Maitê já publicou vídeo em que dança, animada, com um rodo, e outro em que aparece passando o aspirador de pó (“Se você é como eu, está fazendo isso pela primeira vez, recomendações: troque apoio de perna, alongue”). Conta com orgulho que também domou o “bicho de alta complexidade” que é a máquina de lavar roupa e está se arriscando na cozinha. “Essa doença nos nivelou abruptamente”, reflete. Nos lares brasileiros movidos a domésticas, é um avanço – pelo menos enquanto durar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE ABRIL

MORRER SE PRECISO FOR, PECAR NUNCA

Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente… (Daniel 3.17a).

O pecado é o pior de todos os males. O pecado é pior que a própria morte. O pecado é filho da cobiça e mãe da morte. A morte não pode separar-nos do amor de Deus, mas o pecado pode lançar o homem no inferno. O pecado é maligníssimo e enganador. Apresenta-se vestido com roupagens finas, mas seus trajes verdadeiros não passam de um trapo nojento. Sua voz é macia e sedutora, mas ele esconde atrás dessa fala sedosa o anzol da morte. Promete mundos e fundos, mas quem se rende a seus encantos acaba arruinado. Oferece taças transbordantes de prazeres, mas em seu banquete só existe o licor da morte. Felizes são aqueles que preferem a morte ao pecado, pois é melhor morrer em santidade que viver como escravo do pecado. José preferiu ir para a cadeia a deitar-se na cama do adultério. Preferiu a liberdade de consciência na prisão a viver na cama de sua patroa com a consciência prisioneira da culpa. Preferiu deixar sua defesa nas mãos de Deus a tentar arrancar sua túnica das mãos de uma adúltera. Nesse mundo em que os valores morais são tão vilipendiados, o adultério é incentivado e a fidelidade conjugal é ridicularizada, precisamos aprender com o exemplo de José do Egito. Não vale a pena curtir um momento de prazer e ter nosso testemunho manchado pelas gerações pósteras. Não vale a pena ceder à pressão ou à sedução do pecado e depois viver prisioneiro da culpa. Nosso lema deve ser: Morrer se preciso for, pecar nunca!

GESTÃO E CARREIRA

ISOLAMENTO QUE DÁ LUCRO

Por trás da paralisia de parte da economia, há negócios e empresas que aceleram suas vendas e resultados. E as mudanças nos hábitos de consumo impostas pelo distanciamento social criam oportunidades para inovar e crescer.

Há quase dois séculos, desde que o frade austríaco Gregor Johann Mendel (1822-1884) documentou seus estudos sobre a mutação genética de plantas e animais, milhares de cientistas, biólogos e geneticistas se dedicam a pesquisar e compreender a complexidade da intensa metamorfose da vida na Terra. Até agora, o consenso é de que a tão temida capacidade de genes, DNAs e cromossomos de se reinventar e lutar pela sobrevivência é a resposta para a longevidade da própria existência. Essa mesma lógica microscópica da adaptação das espécies rege o mundo da economia e dos negócios — fenômeno que, muitas vezes invisível, fica mais evidente na hostilidade do ambiente de pandemia. Nas últimas semanas, enquanto empresários de todos os portes e setores suam frio diante das incertezas geradas pela Covid-19 e da inevitável recessão global, inúmeras atividades têm observado uma explosão de demanda. Atividades como ensino a distância (EAD), telemedicina, delivery de todo tipo, e-commerce de alimentos e bebidas, além de serviços relacionados à saúde estão remando contra a maré das preocupações — e, evidentemente, adaptando-se às novas necessidades dos clientes em um cenário de isolamento social.

Muitos desses negócios são nutridos pelo instinto de sobrevivência. Tanto é que carioca MAG Seguros (antes chamada de Mongeral), empresa bicentenária com faturamento de R$ 1,4 bilhão em 2019, registrou no primeiro trimestre deste ano um crescimento de 17% nas receitas em relação ao mesmo período do ano passado. Para o CEO da companhia, Helder Molina, a expansão vem sendo puxada pela Covid-19. “As pessoas passaram a se preocupar mais em como deixar a família assistida caso aconteça algo pior nesse momento. Pensar na morte está começando a deixar de ser um tabu”, diz Molina. “Dez em cada dez corretores nossos ouve, todos os dias, a mesma pergunta: ‘o seguro cobre coronavírus?’”, afirma o executivo, que destaca uma visível mudança de visão dos consumidores. Pelos cálculos do Banco Mundial e da seguradora Swiss Re Sigma, o segmento de seguros de vida movimenta o equivalente a apenas 0,2% do PIB brasileiro. Nos EUA, o índice é 1,8%. No Reino Unido, 3,5%.

O setor de seguros é um dos que cresce na contramão da maioria das empresas, mas está longe de ser o único. Estudo realizado pela consultoria americana Bain & Company estratificou em quatro faixas como os principais segmentos econômicos enfrentaram as primeiras semanas pós-pandemia em todo o mundo. No topo estão os que tiveram explosão de demanda e que devem manter a alta no longo prazo (além de companhias de seguro, estão planos de saúde, ensino a distância, entretenimento on-line, ferramentas para trabalho remoto, telemedicina e nutrição e saúde); seguido por setores em que a demanda explodiu, mas deve se estabilizar no longo prazo (como alimentação e produtos de limpeza); o que tiveram forte queda na crise, mas podem apresentar pico no pós-quarentena (eletrodomésticos, serviços de beleza e roupas e acessórios), e o que caíram muito e devem ter recuperação lenta (academias, eventos, restaurantes, hotéis e setor de viagens). Em fase final de produção, o recorte brasileiro da pesquisa deve apontar movimento semelhante ao resto do mundo. Na avaliação da sócia da unidade brasileira da Bain & Company, Luciana Batista, o comportamento do brasileiro, no momento, se concentra em consumo de bens essenciais e segmentos na área de tecnologia. “Mesmo com empresas de setores de vestuário, bares e restaurantes terem se adaptado à crise com serviços on-line, vai levar tempo para o digital cobrir as perdas por conta da queda drástica”, diz.

O que já se sabe, diante da necessidade de ficar em casa, é que a tecnologia se tornou uma importante aliada da quarentena. Um levantamento realizado pela Catho Educação mostra que houve, entre 21 de março e 6 de abril, um aumento de 68% em matrículas para cursos de ensino a distância (EAD) ou semipresenciais. Ainda de acordo com o levantamento, as primeiras semanas de isolamento já apontaram crescimento. Entre a semana de 3 e 20 de março, a plataforma já havia registrado acréscimo 44% na procura por cursos a distância. Entre as disciplinas mais buscadas estão Administração, Gestão de RH, Biomedicina, Ciências Contábeis e Logística. “Além do baixo custo, em comparação aos modelos tradicionais de ensino, os cursos EAD têm sua metodologia de enfoque maior na prática profissional, ideal para uma aprendizagem à distância”, garante Fernando Gaiofatto, diretor da Catho Educação. “No atual cenário, o ensino pode ser encarado também como oportunidade, não só de qualificação mas também de adaptação às circunstâncias”, afirma. O mesmo levantamento constata que, assim como os trabalhadores, o mercado de trabalho está mais aberto em relação a candidatos com cursos a distância: 79% dos recrutadores participantes da pesquisa disseram que formação EAD ou presencial deixaram de ser critério determinante de avaliação para recrutar profissionais.

A escola de idiomas Babbel, que atua 100% na plataforma on-line, detectou aumento de 25% entre a segunda quinzena de março e o começo de abril. Para Vivianne Ianagui, gerente de mercados da Babbel para América Latina e países ibéricos, há potencial para mais crescimento a partir dessa situação de isolamento. “Março foi o mês que registrou maior número de assinaturas desde que a empresa foi criada, há 12 anos. Em comparação ao mesmo mês do ano passado, a alta global foi de 50%”, diz. “E acredito que até o fim do mês o Brasil alcance esse patamar”. Seguindo a companhia, o aplicativo de ensino de idiomas é baixado, em todo mundo, cerca de 120 mil vezes ao dia, o que significa que, desde 2008, já participam por algum curso da empresa mais de 500 milhões de usuários. “Quando ficam em casa, as pessoas buscam o que fazer e há oportunidade de aprender algo. A gente observou esse movimento nesse período de pandemia e o que sempre foi muito forte na Europa e nos Estados Unidos começa a ser percebido no Brasil, que ainda tem uma cultura de ensino mais off-line”, diz a executiva, que é brasileira e atua na Alemanha, sede da empresa. Com faturamento global de € 100 milhões por ano, a Babbel estuda ampliar ainda mais sua presença de mercado no período de quarentena. A empresa lançou cursos gratuitos de um mês para estudantes de Ensino Médio e universitários. Desde o dia 8 deste mês, 1,9 mil pessoas aderiram aos cursos. “Entendemos que essa é uma forma de contribuir com a sociedade nesse período de dificuldade enfrentado por pessoas no mundo todo”, afirma.

Na esteira da utilização de novas tecnologias no cotidiano dos brasileiros poucos tem se beneficiado tanto quanto o e-commerce. Cálculos da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) apontam que nas últimas duas semanas os supermercados on-line registraram aumento de mais de 180% nas transações. “As principais altas foram contabilizadas nas categorias ‘alimentos e bebidas’ e ‘beleza e saúde’”, afirma Mauricio Salvador, presidente da entidade. Um dos maiores sites de vendas de vinhos pela internet no País, a Evino testemunha o milagre da multiplicação das vendas. A empresa, que diz responder por metade do e-commerce da bebida no Brasil, registrou aumento de 38% nas vendas entre os dias 20 e 27 de março, primeira semana da quarentena registrada pela maioria dos Estados brasileiros. Comparando fevereiro e março deste ano com o mesmo período de 2019, a empresa viu a quantidade de pedidos disparar 72% — a despeito da alta do dólar e das dificuldades logísticas geradas pela restrição de circulação em cidades e rodovias, além da suspensão das atividades de companhias aéreas. Em dois meses, com 1,2 milhão de clientes, a empresa importou 1,3 milhão de garrafas. “Em meio à pandemia, estamos apertando as margens para não repassar ao consumidor final e também renegociando com parceiros e fornecedores, ampliando prazos”, diz o cofundador da Evino, Ari Gorestein. “O crescimento de 20% previsto para 2020 será muito maior em razão da pandemia.”

Para quem prefere manter a forma por meio de uma alimentação saudável, o isolamento também trouxe mais opções. Uma das principais redes do segmento no País, a Mr. Fit, com 130 unidades em 17 estados, registrou uma alta de 10% nas vendas em abril, segundo a presidente Camila Miglhorini. Com faturamento de R$ 45 milhões, a empresa notou uma migração de clientes de fast food para cardápios mais fitness. “As pessoas, sem poder manter a rotina de exercícios, começaram a se preocupar mais com a alimentação”, diz Camila. “Além disso, pesquisas recentes mostram a importância de se manter saudável para aumentar a imunidade e consequentemente, se defender do vírus.”

Não há como ignorar o gigantesco mercado de consumo que se criou com a pandemia, em paralelo à agonia de diversos outros setores, como bares, restaurantes, hotelaria e turismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), hoje um terço da população mundial está em quarentena. Isso significa que pelo menos 2,6 bilhões de pessoas no planeta estão dentro de suas casas há pelo menos três semanas (em alguns lugares, já passa de um mês) e precisam, ainda que de forma adaptada, retomar suas rotinas, comprar comida, bebida, remédio, ver televisão e consumir. Do sofá de casa. A comodidade, contudo, gera outro problema: o sedentarismo. A falta de atividades físicas preocupa quem já está assustado com a ameaça do novo coronavírus. E até isso é uma oportunidade de negócio.

SAÚDE

O segmento de planos de saúde está entre os que apontam crescimento no período da pandemia, com possibilidade de manutenção da curva para cima. Diante dessa realidade, muitas empresas estão acelerando os investimentos. Um exemplo disso é operadora Hapvida, companhia com sede em Fortaleza e que tem forte atuação nas regiões Norte e Nordeste. A empresa, que mantém hoje uma carteira de 6 milhões de clientes e faturou R$ 5,6 bilhões no ano passado, aumentou de R$ 30 milhões para R$ 40 milhões seu plano de investimento em modernização e expansão da rede, no ritmo do aumento da procura por planos de saúde. “Temos feito investimentos em call center, chats, telemedicina e compra de respiradores e equipamentos de proteção aos nossos colaboradores”, afirma o diretor-superintendente Bruno Cals de Oliveira. “Temos plano de implementar mais sete hospitais nos próximos três anos”, completa. O presidente da companhia, Jorge Pinheiro, testou positivo para a Covid-19.

A telemedicina é, indiscutivelmente, uma das frentes mais promissoras do mundo pós-pandemia. Na quinta-feira 16, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei que regulamenta a atividade no País. Ela estabelece que por telemedicina deve ser considerado “o exercício da medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, pesquisa, prevenção de doenças e lesões e promoção de saúde”. Segundo o texto, que já está em vigor, os médicos que optarem pelas consultas à distância devem informar os pacientes sobre as limitações da prática.

Antes mesmo da canetada presidencial, o segmento já havia se tornado uma realidade no Brasil. A empresa catarinense Wishbox Technologies, especializada em impressoras 3D e robôs de telepresença, está trazendo, com exclusividade para o País, robôs fabricados pela americana Double Robot, embalado pela disparada das encomendas de grandes hospitais e clínicas médicas em São Paulo. “O uso desta tecnologia está em forte crescimento. Com o sinal verde da lei, as pessoas sentem mais confiança no uso dos robôs, principalmente agora devido à pandemia”, afirma o diretor Tiago Marin. Ele explica que o Double Robot é um robô que se locomove sobre duas rodas e um iPad como cérebro para realizar videoconferência, sendo possível compartilhar a tela com até cinco pessoas. O rosto de quem o controla é transmitido no display, permitindo que os usuários vejam os demais participantes. A autonomia é de oito horas. A rede Notre Dame, o hospital Moinho de Ventos e o Instituto Paulo Niemeyer estão entre os principais clientes.

Outras empresas de tecnologia voltadas à saúde também estão surfando da onda dos novos tempos. A plataforma Conexa Saúde conseguiu nos 31 dias de março o que era esperado para o ano todo em captação de novos clientes, segundo o CEO Guilherme Weigert. “Como a procura foi impressionante, tivemos até que parar de buscar novos clientes. Estamos somente no receptivo”, diz. No mesmo ritmo, a startup BoaConsulta, voltada a consultas médicas a preços populares, superou a marca de 1,5 milhão de pacientes cadastrados. “Com a telemedicina, vamos fechar 2020 com crescimento de 100% no faturamento”, afirma o CEO da empresa, Adriano Fontana. Nos últimos meses, a empresa levantou R$ 15 milhões em investimentos vindos de fundos como Valor Capital Group, 500 Startups, Koolen Partners e Performa Investimentos. Fenômeno semelhante vem passando a plataforma Dandelin, que nos últimos dois meses teve aumento de 200% entre agendamento de consultas e novos cadastros, com faturamento no período equivalente a 71% de 2019. “Estamos registrando a maior demanda de nossa história com a pandemia”, diz o CEO Felipe Burattini.

ENTRETENIMENTO

Nem só de preocupação vive o brasileiro que está em quarentena. Com o inevitável cancelamento de eventos culturais, shows, peças teatrais e cinemas, os serviços de streaming vêm registrando explosão no número de acessos, que vão desde liberação de canais fechados, a sites de filmes e programas, de infantis a adultos. Portal JustWatch, que é um guia que indica onde usuários podem assistir programação on-line, mostrou aumento de tráfego de dados no Brasil, entre 9 e 17 de março, saltou 37%. Na Itália, foi de 76% e, entre os espanhóis, o aumento na procura foi de 85%.

Contra a monotonia do isolamento, milhões de pessoas têm buscado todo tipo de entretenimento na internet. Diversas operadoras de TV por assinatura e plataformas de conteúdo sob demanda começaram a liberar o sinal de alguns canais, a oferecer assinaturas gratuitas e a promover descontos. Na Itália, até mesmo o site pornô Pornhub liberou seus vídeos premium. Embora não queriam associar o sucesso de audiência a uma crise sanitária global, é evidente que a demanda nunca foi tão alta. Tanto é que os órgãos de regulação das telecomunicações da União Europeia, temendo um colapso do tráfego de dados de internet, pediriam à Netflix que reduza a qualidade de resolução dos seus filmes e séries. A empresa americana acatou o pedido por 30 dias. Uma decisão necessária para se adaptar — e sobreviver — em tempos de pandemia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESQUALIFICAÇÃO E DESEQUILÍBRIO

Os atos de alienação parental se manifestam principalmente após rupturas da conjugalidade e que implicam em influências psicológicas relevantes em todos os envolvidos, não apenas nos filhos

A alienação parental, definida como a rejeição injustificada de uma criança por um dos genitores como resposta ao conflito entre os pais e questões de lealdade, não é um problema novo. Porém, esse fenômeno tornou-se objeto de atenção e estudo à medida que os papéis parentais se tornaram mais equitativos.

Com as mudanças nos contratos sociais de matrimônio e nas questões de gênero quanto aos afazeres domésticos e cuidados dos filhos, cresceu o número de disputas entre os genitores pela guarda dos mesmos.

Na década de 1980, Richard Gardner criou o termo síndrome da alienação parental (SAP) para descrever comportamentos que as crianças exibiam quando eram manipuladas por um pai para rejeitar o outro. Percebe-se com frequência nos casos de disputa de guarda e separação litigiosa, em que os pais entram em um ciclo recorrente de ataque/defesa/contra-ataque, e a forma mais eficaz de atingir o outro é afetando diretamente o seu vínculo com o(s) filho(s).

Os atos de alienação parental, que difamam e desqualificam um genitor perante os olhos de uma criança, podem acontecer de forma não intencional, decorrentes de mágoas e de sentimentos de raiva pontuais que adultos costumam manifestar, principalmente após rupturas da conjugalidade.

Não deixam de ser danosos e trazer consequências para os indivíduos, porém não necessariamente quebram os vínculos afetivos existentes. Entretanto, quando se tornam repetitivos, intensos e frequentes, podem levar a criança a um conflito de lealdade.

A criança sente que deve lealdade incondicional a um de seus pais, e, por medo da perda do amor daquele genitor a quem é fortemente vinculada e por quem é manipulada, passa a excluir o outro de sua vida e de sua convivência, independentemente da boa relação prévia existente.

Considerável angústia pode ser induzida na criança contra o genitor alienado (possibilidade de dano físico, sexual ou psicológico), fazendo a criança se apegar ao alienador. A criança aprisionada nessa situação fica sujeita a um alto nível de estresse, podendo apresentar ansiedade de separação.

Não apenas permanece alinhada com o genitor guardião, como teme pela sua segurança, passando a apresentar dificuldades em se afastar de sua presença, como, por exemplo, recusando-se a ir à escola ou temendo sair de casa. Algumas desenvolvem hipocondria, sintomas psicossomáticos, transtornos do sono, transtornos alimentares e sintomas depressivos.

Na alienação parental denominada leve, a criança apresenta, na presença do alienador, alguma dificuldade para ir com o outro genitor, a qual desaparece após algum tempo de permanência a sós com este. O vínculo afetivo permanece inalterado.

Na alienação moderada, a programação por parte do alienador costuma ser intensa e este pode se utilizar de várias estratégias de exclusão. Enquanto nos casos leves a transição nos momentos de visita costuma ocorrer de forma imperturbada, nos casos moderados pode haver grandes dificuldades no momento de ir com o outro genitor. Apesar disso, a criança aceita ir com o genitor e após algum tempo se acalma, baixa a guarda, apresenta-se mais colaborativa e se envolve de forma benevolente com o genitor alienado. Comportamentos fóbicos e de ansiedade podem aparecer, mas o comportamento não é tão agressivo como nos casos graves.

Na alienação grave, a programação é extrema e contínua no tempo e no espaço. A criança na categoria grave tem atitudes extremistas. As expressões de agressividade, gritos, estados de pânico e explosões de raiva podem ser tão intensas que impossibilitam a visitação. Se colocada forçosamente junto ao outro genitor pode fugir, paralisar-se ou colocar-se tão provocadora e destrutiva que se requer que retorne ao genitor guardião. Apresenta comportamento agressivo em relação ao alienado para tranquilizar o alienador. Nesses casos a criança se funde com o alienador, a luta dele passa ser a sua luta e não raro passa a fazer uma campanha de difamação e rejeição ainda mais contundente que o próprio alienador.

O genitor rejeitado fica alijado da convivência com seu filho, sentindo-se impotente e preso numa posição de vítima passiva. Ocorre uma “interrupção na biografia” de pai (ou de forma menos frequente) de mãe), uma vez que) apesar de todos seus esforços, acaba perdendo o contato com seus filhos, não mais podendo contribuir para o seu desenvolvimento ou tomar parte na vida deles.

Quando o genitor alienado é a mãe, as mulheres costumam vivenciar muitas vezes, como dor adicional, a rejeição dos próprios familiares e amigos que acreditam que uma mãe, por ter sido separada de seus filhos, algo de errado deve ter cometido. É frequente que reajam com retraimento e depressão, e quadros psicossomáticos.

TRANSGERACIONALIDADE

Dentro dos aspectos importantes na dinâmica da alienação parental é importante ressaltar o papel da transgeracionalidade. Na transmissão psíquica transgeracional, observa-se que os conteúdos psíquicos dos avós e de outros ascendentes marcaram os conteúdos psíquicos dos filhos e de outros descendentes.

Dessa forma, os filhos receberam a herança de tudo aquilo que não está inscrito, visto ou falado, mas que foi vivido por um dos membros do sistema familiar. Mesmo estando resguardado pelo silêncio, esse conteúdo tende a se repetir em gerações subsequentes.

Pode ocorrer que uma mãe ou um pai que induzem o filho a odiar e hostilizar o outro genitor e a se afastar dele e de sua família possa ter vivenciado, quando criança, um processo de alienação parental em que teve que preterir a vinculação com o pai (ou a mãe) e a família deste(a) depois do divórcio conflituoso de seus genitores.

O conteúdo não expresso, não subjetivado, encontra, na geração subsequente, uma forma de expressão. Sem se dar conta, o alienador repete a história vivenciada, ou seja, não se sensibiliza com a necessidade da criança e com o sofrimento desta. Sem se dar conta, termina por repetir o comportamento alienador que um dos seus pais teve para com ele (ela), submetendo-o (a) à vivência da mesma dor que outrora experimentou.

Os padrões de comportamento presentes na alienação parental representam uma disfunção estrutural no sistema familiar, refletido por uma profunda triangulação e alianças transgeracionais.

No Brasil, no ano de 2010 entrou em vigor a lei n° 12.318, que dispõe sobre a alienação parental. A lei colocou em foco essa prática danosa, tornando o tema da alienação parental amplamente conhecido, embora muitas vezes pouco compreendido.

Por um lado, a lei trouxe esperança e alívio a pais, mães e outros familiares alienados da vida de seus filhos. Propiciou a esses pais subsídios para lutar pelo direito à convivência e pelo amor das crianças e adolescentes. Por outro lado, multiplicaram-se as acusações de atos de alienação parental, muitas vezes realizados por ambos os lados da disputa.

Apreciada e bem-vinda por muitos, a lei está longe de ser uma unanimidade. Muitos questionam o uso do conceito de alienação parental para justificar a rejeição de uma criança para com um pai ou mãe abusador, negligente ou emocionalmente distante.

PERÍCIA

perícia psicológica, em enquadres jurídicos e particularmente em relação à questão da guarda, apresenta grande complexidade. Se a alegação de alienação parental é frequente entre os pais em litígio, sua avaliação demanda dos profissionais uma avaliação abrangente e individualizada.

O art. 145 do Código de Processo Civil brasileiro dispõe que “quando a prova do fato depender de conhecimento técnico ou científico, o juiz será assistido por perito”. A lei de 2010, em seu artigo 5°, diz que havendo indício da prática de ato de alienação parental, em ação autônoma ou incidental, o juiz, se necessário, determinará perícia psicológica ou biopsicossocial.

É através da avaliação psicológica e seu respectivo laudo que se conseguem identificar os aspectos subjetivos que se encontram por trás das alegações de alienação parental. Os profissionais que aceitam essa incumbência devem ter expertise (ou conhecimento) na área e conhecer profundamente as questões envolvendo alienação parental.

A perícia psicológica em casos de suspeita de alienação parental deve compreender um número significativo de entrevistas, de preferência com algum lapso de tempo entre elas, para se observar a consistência do discurso dos entrevistados.

As entrevistas devem incluir, além de ambos os genitores, os membros da família extensa como avós, tios ou outros familiares que possam colaborar para a compreensão dos fatos. Também importante para melhor compreensão do caso são entrevistas com professores ou coordenadores escolares, com profissionais da área de saúde mental infantil que atendem à criança, como psicólogos e psiquiatras, e outras pessoas envolvidas que possam elucidar os quesitos propostos para a perícia.

Negligência, abuso físico e abuso sexual infantil são alegações frequentes nesses contextos e os diagnósticos diferenciais são essenciais para as tomadas de decisão do Juízo. Faz-se necessário entender a dinâmica familiar, os aspectos que levaram à ruptura dessa configuração e as motivações que levaram o casal a disputar judicialmente seus filhos.

É importante compreender o que esses filhos e essa disputa representam para cada um dos genitores, analisar o estado mental de cada genitor e da criança, e avaliar as práticas parentais. A observação da criança com cada um dos genitores, mesmo com o suposto agressor, é fundamental: “É imperativo conduzir observações das interações pai-criança, mãe-criança, incluindo irmãos em várias situações. Atenção especial deve ser dada ao grau e conforto demonstrados com cada genitor, assim como as reações, emoções e espontaneidade, todas as quais são extremamente relevantes para identificar discrepâncias entre as declarações durante as entrevistas e o comportamento real da criança”.

ABUSO

Alienação parental é uma forma de abuso psicológico e, como é frequente em outras formas de abuso, a criança vítima dessa prática não tem consciência de que está sendo maltratada e se agarra, veementemente, ao genitor favorecido, mesmo quando o comportamento desse genitor lhe causa dano.

Por essa razão, profissionais da saúde mental e da lei envolvidos em casos de alienaçã0 parental precisam olhar cuidadosamente para as dinâmicas familiares e determinar as causas da preferência de uma criança por um dos pais e sua rejeição ao outro. Se o genitor favorecido está instigando o alinhamento e o genitor alvo parece ter uma influência positiva e não abusiva sobre a criança, então as preferências da criança devem ser olhadas com cautela.

Toda história de alienação parental é de algum modo diferente. Cada pessoa tem sua voz própria e uma narrativa única. Porém, mesmo entre essas singulares experiências, alguns padrões podem ser detectados.

Baker e Darnal identificaram comportamentos parentais associados à alienação porque induzem uma criança a rejeitar de forma foi justificada o outro pai/ mãe. Eles incluem: difamar o outro genitor, falar para a criança que o outro é perigoso, afirmar para a criança que o outro não a ama, retirar o afeto ou ficar bravo quando a criança é receptiva ao outro, forçar a criança a escolher e expressar lealdade, colocar impeditivos para o contato, como agendar outros compromissos no horário da visita, confidenciar com a criança sobre os relacionamentos adultos, compartilhar os dados do processo litigioso, retirar vestígios da vivência anterior da criança com o genitor alienado, como por exemplo retirar todas as fotos, forçar a criança a rejeitar o outro, cultivar a dependência da criança com o pai/ mãe alienador, pedir para a criança espionar o outro, referir-se ao outro pelo nome (não permitir que a criança o chame de pai/mãe), referir-se a um terceiro como pai/mãe, fazer a criança manter segredos do outro, retirar o sobrenome do outro genitor do nome da criança, entre outros.

Muitas vezes esses comportamentos são explícitos e carregados de justificativas, porém muitas vezes são velados. É comum dizerem que permitem e incentivam a criança a ir com seu pai (ou sua mãe), porém é a criança que não quer e não desejam forçá-la a ir com o outro genitor. É comum o incentivo ser paradoxal, como por exemplo: “Filho vá com sua mamãe. O papai vai ficar chorando de saudade, mas pode ir”.

A criança, quando é trazida para a perícia psicológica, geralmente vem instruída pelo genitor alienador para apresentar as falas e os depoimentos que, aquele acredita, lhe darão credibilidade.

Assim, é comum as crianças apresentarem uma narrativa com reproduções do discurso adulto: “Meu pai só dá coisas materiais, ele não dá afeto” (depoimento de uma criança de 5 anos). “Ela (referindo-se à mãe) passava a mão no meu traseiro; ela se aproveitava de mim”. Também a criança costuma dizer que é ela própria que não quer ir com o alienador, pois sabe o que quer, que irá quando tiver vontade.

CREDIBILIDADE

Alguns autores, na avaliação da credibilidade do relato da criança, propõem que sejam analisadas as características das declarações da criança, suas modalidades gerais, as particularidades do conteúdo e as motivações da declaração, sempre considerando o contexto da relação eventualmente preexistente com o agressor.

A perícia psicológica, em casos de alienação parental, também deve contemplar uma análise da personalidade dos genitores, uma vez que principalmente em alienações parentais graves, em que são feitas falsas acusações de abuso sexual ou a programação de difamação é muito acentuada, foi constatada a presença de transtornos de personalidade, tais como transtorno de personalidade paranoide, transtorno de personalidade histriônica, transtorno de personalidade narcisista, transtorno de personalidade antissocial e síndrome de Munchausen ou transtorno fictício por procuração.

Para corroborar suas hipóteses, o perito pode fazer uso de testes e instrumentos psicológicos que servirão como recursos para fundamentar suas conclusões diagnósticas. Os testes poderão ser aplicados nos genitores, assim como na criança.

Normalmente são utilizados testes projetivos, testes fatoriais de personalidade e instrumentos de avaliação de estilos parentais e de relacionamento pais e filhos. Em casos onde existe alegação de abuso sexual podem-se utiliza instrumentos específicos, (como o NICHD). Também imprescindível utilizar tabelas de estratégias e comportamentos de alienação parental, listar os comportamentos encontrados e determinar o grau de alienação parental.

Pode-se concluir que a perícia psicológica, em casos de alienação parental, é uma tarefa que demanda avaliação cuidadosa, na qual todos os envolvidos devem ser ouvidos, testados e observados. Por fim, a elaboração do laudo pericial deverá conter os dados colhidos nas entrevistas, os resultados da testagem, a análise e as conclusões. O profissional deve ter em mente que, invariavelmente, o Juízo considera este um recurso essencial para suas tomadas de decisão.

Os processos de divórcio envolvendo questões de guarda costumam ser devastadores para as crianças e para os genitores vítimas da alienação parental. São questões que demandam avaliações criteriosas e agilizadas no sentido de preservar a saúde mental da criança e seus vínculos de afeto, e assim minimizar as consequências da disputa litigiosa.