OUTROS OLHARES

ELAS VIERAM PARA FICAR

O uso de máscaras é um caminho sem volta. E não se trata apenas de um uso de emergência para proteção individual, mas de uma estratégia de segurança coletiva, que fará com que as pessoas, daqui para frente, se protejam mutuamente. Seus efeitos imediatos, impedir o lançamento de aerossóis respiratórios e gotículas de saliva em quem está por perto e filtrar parcialmente o ar que se respira, contribuem para conter o avanço da doença e diminuem sua velocidade de contágio. No Japão, uma das razões para a pandemia de coronavírus estar sob relativo controle é o uso generalizado do equipamento. No Brasil e em outros países verifica-se uma mudança cultural e a recomendação das autoridades de saúde é que sejam usadas em espaços públicos e em situações de convívio social que envolvam filas e aglomerações.

Pesquisas recentes confirmam que a máscara reduz a quantidade de microorganismos infecciosos, seja o coronavírus ou o vírus Influenza, no ar que uma pessoa contaminada lança no ambiente. “Em termos de evidência científica, não há justificativa para o uso irrestrito de máscara, mas, se todo mundo pensar em proteger o outro, no final haverá um risco menor para todos”, diz o médico Luís Fernando Waib, epidemiologista do Hospital Beneficência Portuguesa de Campinas e membro da Sociedade Brasileira de Epidemiologia (SBI). “Seu uso generalizado é um bom hábito, principalmente em grandes cidades onde o contágio é acelerado”. No município de São Paulo, por exemplo, onde há alta concentração de pessoas e um grande número de casos, com muitos assintomáticos, faz todo sentido um uso disseminado de máscaras de pano. “Não faz sentido, por exemplo, usar máscaras cirúrgicas para praticar corrida de rua, até porque há falta desse tipo de material de proteção nos hospitais”, completa Waib.

Nas últimas duas semanas, as autoridades sanitárias de praticamente todos os países, orientadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), mudaram suas recomendações sobre o uso de máscaras para combater a propagação do coronavírus. Se antes elas vinham sendo indicadas apenas para agentes de saúde e pessoas com sintomas da doença, agora, diante da evidência de que indivíduos assintomáticos transmitem o micróbio, a recomendação é de que sejam usadas por toda a população. Na quarta-feira 8, o Centro Europeu para a Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, da sigla em inglês) divulgou um informe nesse sentido para todos os países da região. Nos Estados Unidos, dois dias antes, o presidente Donald Trump reforçou a recomendação da autoridade sanitária para que todos os americanos usem panos e lenços para cobrir o rosto em público e conter a disseminação da doença. No Brasil, foi lançada uma campanha para estimular a população a produzir suas próprias máscaras e usá-las sempre que sair de casa. O uso do equipamento, porém, não substitui medidas preventivas fundamentais, em especial o distanciamento social e a higienização das mãos com água e sabonete ou com álcool a 70%.

TIPOS DE MÁSCARAS

As máscaras que passaram a ser promovidas mundo afora são as de cotton, de tecido 100% algodão, de tecido antimicrobiano e de TNT (tecido-não-tecido), todas matérias-primas de baixo custo que podem ser facilmente obtidas e permitem, inclusive, que sejam fabricadas em casa. Roupas em bom estado de conservação podem ser utilizadas para produzi-las. Além da caseira, há outros dois tipos de máscaras: as cirúrgicas e as N-95, que, no Brasil, recebem a sigla PFF-2 e contam com um respirador acoplado. Essas continuam destinadas a uso profissional por causa da escassez atual do produto no mercado global. Um dos objetivos é evitar que haja concorrência entre as pessoas saudáveis ou assintomáticas com os profissionais de saúde e os doentes pelos equipamentos de proteção. As cirúrgicas devem ser usadas prioritariamente nos hospitais por doentes, médicos e enfermeiros e as N-95, exclusivamente por profissionais. “A máscara caseira é muito melhor do que nada e, com ela, você coloca muito menos a mão na boca e no nariz, evitando o contagio”, afirma a médica Raquel Stucchi, infectologista do Hospital da PUC, em Campinas.

As máscaras caseiras são recicláveis e podem ser lavadas depois do uso. Segundo Raquel, elas são capazes de reter até 70% das gotículas, mas não devem ser utilizadas por mais de duas horas ou até ficarem úmidas. As cirúrgicas e não cirúrgicas descartáveis funcionam como uma barreira para a entrada de gotículas de pacientes infectados e admitem uma única utilização. As N-95 duram até 30 dias e se estiverem bem vedadas garantem uma proteção de até 99%. É preciso que o equipamento esteja selando a pele e a pessoa que vá utilizá-lo não pode ter barba porque os pelos faciais facilitam a entrada de microorganismos.

Um estudo feito pelo Centro de Inovação da USP (InovaUSP), em São Paulo, chamado de “Projeto Respire!”, está analisando todas as matérias-primas usadas em máscaras de proteção individual e evidenciam os benefícios do uso do equipamento. O vírus da Covid-19 mede, em média, 120 nanômetros (um nanômetro é um bilhão de vezes menor que um metro), e é fundamental que o material da máscara seja capaz de filtrá-lo tanto na saída como na entrada do ar. Quando lançado pela respiração, o vírus fica em suspensão no ambiente e o objetivo da proteção é evitar que penetre no nariz ou na boca do usuário. A eficiência de cada material varia de 45%, no caso das máscaras de algodão de camiseta, e vai até 97%, para as N-95, se estiverem totalmente vedadas. Máscaras cirúrgicas de TNT e de outros materiais tem uma eficiência de filtragem que pode variar de 60% a 95%. Com base nesses estudos, o “Projeto Respire!” prevê a produção de 1 milhão de máscaras que serão confeccionadas por grupos e cooperativas de costureiras e distribuídas para 8 mil profissionais de saúde em hospitais e centros médicos.

Além do estímulo para a produção caseira e artesanal, a corrida para obtenção do equipamento está fazendo com que as empresas especializadas e não especializadas ampliem a fabricação do produto. Há inúmeros tutoriais na internet ensinando como ele deve ser feito, com três camadas e o elástico. Oficinas de costura trabalham a todo vapor na sua produção. E alguns hospitais estão instalando suas próprias oficinas para garantir a disponibilidade de material de proteção. No Beneficência Portuguesa, em Campinas, há um grupo de 14 costureiras dedicadas à tarefa. Segundo Waib, a produção interna já cobre 50% das necessidades do hospital. “Já soube de um colega que levou um rolo de tecido-não-tecido para uma escola de samba produzir máscaras”, diz o epidemiologista. Ele afirma que, encontrando o material, é bem fácil de fabricar o equipamento. “A gente está esperando que a grande indústria aumente sua produção, mas, enquanto isso não acontece, várias providências podem ser tomadas”, afirma.

Uma resolução (356/2020) do Ministério da Saúde publicada no final de março, que dispõe sobre a fabricação e importação de máscaras cirúrgicas, respiradores particulados N-95 e PFF-2 ou equivalentes, óculos de proteção e escudos faciais, liberou as normas técnicas e dispensou excepcional e temporariamente os potenciais fabricantes de autorizações sanitárias para produzir o equipamento. Confecções como Malwee e a Hering planejam iniciar a produção de máscaras. A Hering estuda o assunto, mas ainda não definiu como esta operação vai funcionar. A Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo adquiriu insumos, tecido e elásticos, para que presidiários do estado produzam 320 mil máscaras descartáveis destinadas para procedimentos simples (não-cirúrgicos). A fabricação começou na semana passada e a previsão é que sejam confeccionadas 26 mil máscaras por dia. Cerca de 200 presos, homens e mulheres, participam do projeto. O custo de cada máscara é de R$ 0,80. No Amazonas, o governo local tomou uma iniciativa semelhante.

MUDANÇA CULTURAL

A maior fabricante de máscaras N-95 no Brasil, a multinacional 3M, anunciou que está se mobilizando em várias partes do mundo “para ampliar sua produção do equipamento ao máximo e atender ao crescimento da demanda”. Por aqui, a empresa contratou 40 novos funcionários e tem operado 24 horas por dia e 7 dias por semana. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, informou na terça-feira 7 que o governo federal comprará toda produção local da 3M. “A gente vai adquirir a capacidade de produção total dessa fábrica no Brasil”, disse Mandetta. “A gente imagina que vai conseguir ter de 1,5 milhão a 1,8 milhão de máscaras para o nosso mercado confirmadas no mês de abril. Depois, nos meses de maio e junho. Quer dizer, a gente vai ter um abastecimento razoável”. Mandetta também pediu que pessoas que tenham máscaras N-95 em casa as doem para os hospitais e utilizem, no lugar, equipamento de proteção caseiro ou descartável.

Se em alguns países asiáticos, as máscaras podem ser consideradas um símbolo de boa educação e respeito ao próximo, no Ocidente cobrir o rosto tem sido, até agora, uma prática pouco usual e cercada de preconceitos étnicos-religioso. A prática no Japão, por exemplo, disseminou-se a partir de 2002, quando eclodiu a epidemia de Síndrome Respiratória Grave (SARS) e se intensificou, em seguida, com a gripe aviária e a gripe suína. O medo fez com a população aderisse em massa ao equipamento. E, como acontece agora, houve escassez de máscaras, que passaram a ser importadas da China. Preocupadas com novos surtos, as pessoas passaram a estocá-las e seu uso se tornou um hábito.

A partir de agora a prevenção contra doenças respiratórias se tornará obsessiva também no Ocidente e o mesmo que aconteceu no Brasil se repetirá em vários países. Haverá uma mudança cultural e as máscaras, um recurso altruísta, deverão ser incluídas como mais um item básico de vestuário e, inclusive, como um produto da moda. Mesmo com o fim da pandemia de coronavírus, esse quadro tende a permanecer, principalmente durante as mudanças de estação, quando aumenta a incidência de doenças respiratórias. No começo do outono, exatamente o momento atual, muita gente acaba tendo alguma tosse e, nessa época, sazonalmente, apresentam sintomas de gripe. Antes associadas apenas a países da Ásia, como China e Japão, agora as máscaras passarão a dominar as paisagens urbanas dos Estados Unidos, do Brasil e dos países da Europa. O sentimento de autopreservação vai causar uma mudança nos costumes. Evidentemente, o equipamento não substitui as recomendações fundamentais de lavar as mãos frequentemente e manter o distanciamento social. Mas, desde que sejam bem usadas, não há mais dúvidas de que elas são um eficiente obstáculo contra a infecção pelo coronavírus.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE ABRIL

AS TUAS MÃOS DIRIGEM MEU DESTINO

Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem (Genesis 50.20a).

A vida de José é uma prova incontestável de que a mão de Deus dirige o nosso destino. Mesmo quando enfrentamos revezes e somos golpeados pelas maiores injustiças, ainda assim somos o alvo da generosa providência divina. José, mesmo sendo amado pelo pai, foi odiado pelos irmãos, vendido como escravo para uma terra estranha, traído pela patroa e esquecido pelo amigo de prisão. Passou treze anos de sua vida navegando por mares revoltos, caminhando por desertos tórridos, cruzando vales escuros. Parecia que os melhores anos de sua vida estavam sendo desperdiçados num amontoado de problemas sem solução. Contudo, no meio desse denso nevoeiro estava a mão providente de Deus. A vida de José não estava à deriva, como uma lasca de lenha jogada de um lado para o outro ao sabor das ondas no mar da vida. As rédeas de seu destino estavam sob o controle daquele que se assenta na sala de comando do universo. O sofrimento não veio a José para destruir-lhe a vida, mas para fortalecer a musculatura de sua alma. Deus tirou José do calabouço e o Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem (Genesis 50.20a).

A vida de José é uma prova incontestável de que a mão de Deus dirige o nosso destino. Mesmo quando enfrentamos revezes e somos golpeados pelas maiores injustiças, ainda assim somos o alvo da generosa providência divina. José, mesmo sendo amado pelo pai, foi odiado pelos irmãos, vendido como escravo para uma terra estranha, traído pela patroa e esquecido pelo amigo de prisão. Passou treze anos de sua vida navegando por mares revoltos, caminhando por desertos tórridos, cruzando vales escuros. Parecia que os melhores anos de sua vida estavam sendo desperdiçados num amontoado de problemas sem solução. Contudo, no meio desse denso nevoeiro estava a mão providente de Deus. A vida de José não estava à deriva, como uma lasca de lenha jogada de um lado para o outro ao sabor das ondas no mar da vida. As rédeas de seu destino estavam sob o controle daquele que se assenta na sala de comando do universo. O sofrimento não veio a José para destruir-lhe a vida, mas para fortalecer a musculatura de sua alma. Deus tirou José do calabouço e o colocou no trono. Deus levantou José como salvador de seus irmãos e provedor do mundo. Enquanto tudo parecia perdido aos olhos humanos, Deus estava escrevendo uma linda história. Não se desespere, não perca a esperança. O último capítulo da sua vida ainda não foi escrito. Confie em Deus. Ele está no controle. As onipotentes mãos do Senhor dirigem o seu destino!

GESTÃO E CARREIRA

A “LIVEMANIA” FINANCEIRA

As corretoras, as plataformas de investimentos e os bancos fazem uma corrida para ver quem produz mais transmissões on-line

Se para cada nova live de uma plataforma de investimento ou instituição financeira a Bolsa subisse     1 ponto que fosse, a economia já estaria a salvo. Um dos principais efeitos colaterais da pandemia do novo coronavírus nas finanças, essas lives têm produzido incontáveis horas de transmissões    on-line. São entrevistas e depoimentos de empresários, executivos de empresas, integrantes do alto escalão do governo, líderes do congresso, gestores e economistas brasileiros, estrangeiros – e até médicos.

A partir do momento em que ficou claro que o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo estava tomando um tombo de proporções épicas, as instituições correram para acalmar os investidores, muitos em seu primeiro grande crash. O temor só aumentou a cada medida de isolamento social tomada por governadores que por sua vez se refletiram em previsões cada vez mais pessimistas para o tamanho do buraco na economia real.

Nesse contexto, as transmissões são uma chance para as empresas reafirmarem sua marca em um momento de turbulência inédita, saciando a sede crescente de seus públicos por meio de conteúdos que mesclam informação com inspiração, uma espécie de autoajuda classe A.

Se por um lado as lives ajudam de fato o investidor e os colocam frente a frente (ainda que  digitalmente) com figurões com os quais jamais teriam contato, por outro lado existe aí um interesse concreto: o objetivo é que esse cliente sinta-se mais bem informado, mais  seguro – e assim mantenha seu dinheirinho lá, sem sacá-lo numa onda de medo.

Como as conversas acontecem em ambientes “controlados”, em que a plateia é de investidores e o organizador busca transmitir calma, muita gente que passou anos recusando pedidos de entrevista de jornalistas decidiu falar. O gestor Rogério Xavier, da carioca SPX, só em março, apareceu em pelo menos cinco lives. Falou com Safra, Itaú Personnalité, BTG Pactual, Vítreo e Eleven Financial Research.

A coisa tomou fôlego rapidamente. Em uma dessas primeiras lives, em 22 de março, o fundador da XP, Guilherme Benchimol, conversou ao vivo com empresários como os presidentes da Caixa, Eletrobras e CSN. Para os padrões da internet, foi quase uma conversa “privê” com público limitado a 10 mil pessoas. Depois da repercussão, a empresa passou a tornar suas lives 100 % públicas no YouTube, e sua equipe de comunicação começou a divulgar a agenda com antecedência para jornalistas e clientes. De lá para cá, a XP já transmitiu mais de 70 vídeos dedicados ao novo coronavírus, que atraíram 1,4 milhão de visualizações. “Essa crise fez com que a gente desse um salto exponencial em nossa presença digital, acelerando nossa produção de conteúdo. Temos mais de 30 analistas produzindo lives, estamos numa força-tarefa”, explicou Karel Luketic, chefe do marketing da XP.

O Valor Econômico, principal jornal de economia do país, também lançou nesta semana suas lives diárias, sobre os mais variados temas econômicos. A primeira foi programada para a quinta-feira 16, com o médico Ben-Hur Ferraz Neto, integrante de vários grupos sobre a pandemia, para tratar da retomada da atividade econômica sem riscos de aumentar a contaminação.

No esforço de convencer figuras importantes a participar, os próprios executivos abrem a lista de contatos. Marcelo Flora, sócio responsável pelo BTG Pactual Digital, contou que, no BTG Pactual, sócios de áreas ociosas neste momento de crise, como a que coordena a oferta de ações por companhias estreantes na Bolsa, passaram a dedicar parte de seu tempo à convocação de clientes de peso para a grade. O próprio sócio fundador André Esteves tem ajudado com sua rede de relacionamentos. Esteves, aliás, venceu a aversão aos holofotes que alimentou nos últimos anos (em especial após ser preso pela Lava Jato e, depois, inocentado) e concedeu sua primeira entrevista ao vivo ao canal de seu banco.

Na XP, o time institucional, acostumado ao contato diário com grandes empresários, passou a ajudar na “captação” de entrevistados, de acordo com Luketic, que coordena o marketing. Os bancos e corretoras afirmam que os entrevistados não recebem para aparecer e que foi exclusivamente graças a suas redes de contato que conseguiram receber virtualmente figuras como o diretor executivo global da Kraft Heinz, Miguel Patrício; o fundador da Oaktree Capital e guru de Warren Buffett, Howard Marks; e o influente veterano dos mercados Mark Mobius. “Quem é convidado tem o interesse em ter acesso a nossa base de investidores. Temos clientes que investem nos fundos do Mobius, por exemplo. E os políticos também querem falar com esse público”, explicou Flora.

Nas semanas após o início do isolamento social, a tendência ganhou a adesão de praticamente todas as plataformas de investimentos e até de novas gestoras. Muitas já faziam transmissões ao vivo antes, mas a agenda foi turbinada intensamente. E para quebrar a temática monocórdica que o novo coronavírus impõe, as firmas estenderam os convites para além do rol de empresários e gestores.

A plataforma Órama, que concentra suas transmissões no Instagram, já vez lives com um psicólogo financeiro e montou um cronograma com aulas de ioga ao vivo três vezes por semana. A Modalmais organizou uma aula em libras para ensinar surdos a investir em renda fixa. A Maya     capital de Lara Lemann, filha de Jorge Paulo Lemann, criou uma agenda de lives exclusivamente dedicada aos desafios de gerir uma startup na crise.

Embora já passem o dia dando entrevista na televisão, os políticos são o maior sucesso de público nas lives.  Uma conversa om o ministro da economia, Paulo Guedes, teve mais de 600 mil visualizações no canal da XP, ou 40% de todos os internautas atraídos pela corretora nas últimas   semanas. A página da corretora ganhou 32 mil novos assinantes em três dias após a transmissão, e o vídeo já é o de maior número de comentários (quase 1.300) na história do canal, criado há oito anos. Entre os vídeos do BTG Pactual Digital mais vistos estão os com o vice-presidente, Hamilton Mourão, e com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Quando algo sai do roteiro nas lives, as consequências são cômicas, como no “extravio” de José Galló em live da XP. O presidente do Conselho da Renner recebeu o link errado para a sala de conferência no aplicativo Zoom e, em vez de conversar com Pedro Parente e Paulo Hartung, foi parar no meio de uma discussão em família de americanos.

A proliferação de lives virou piada até no próprio mercado financeiro. Esteio do autossarcasmo entre investidores, já em 26 de março o popular perfil Faria Lima Elevator observava no Twitter que “já tem mais lives que casos de coronavírus”, e ironizava prometendo que faria “uma live assistindo outras lives”. Há duas semanas, voltou à carga contra o que chama de “overdose de lives”: quem não assinasse sua newsletter seria “condenado a 15 lives seguidas com o tema ‘mindset da riqueza”.

Para Marcio Leibovitch, gerente no Brasil da agência de produtos digitais Work & Co., a multiplicação de transmissões fez com que as lives deixassem de ser um diferencial de negócio e estabeleceu um novo parâmetro de comparação sob condições anormais. “Fica mais difícil se destacar quando todo mundo faz a mesma coisa. Agora, é uma corrida sob pressão para ver quem faz melhor, enquanto o cliente é bombardeado por lives, sem sequer conseguir acompanhar a agenda.”

No entanto, as lives parecem ter fortalecido o posicionamento digital das marcas. O canal da XP no YouTube ganhou 54 mil novos assinantes em um mês, um avanço de 35%, segundo a ferramenta de análise de audiência StatFire. Hoje, a conta tem 211 mil assinantes, o mesmo número do rival BTG Pactual Digital, que ganhou 24 mil assinantes nos últimos 30 dias.

No BTG, que promoveu 70 lives em março, entre transmissões especiais e sua programação tradicional, também cresceram as interações nas redes sociais, segundo a companhia. No próprio YouTube, elas avançaram 177% em relação a fevereiro; no Instagram a alta foi de 142%. “Nesta crise, todo mundo virou mídia, virou produtor de conteúdo. Quem não sabia vai descobrir que conteúdo é a chave para o potencial de reconhecimento de marca pelos consumidores. É uma tendência sem volta”, explicou Luciano Faustino, diretor de marketing da Genial Investimentos, acrescentando que os índices de audiência e interação dobraram por causa das lives. Segundo o BTG, houve incremento na abertura de contas depois do aumento no número de lives. “Os clientes estão investindo mais, trazendo mais dinheiro”, afirmou Rodrigo Puga, sócio da Modalmais.

As plataformas dizem estar atentas a possíveis excessos. No BTG Pactual, Marcelo Flora admite enxergar “certo sinal de fadiga nos clientes após terem sido bombardeados por muito conteúdo” e afirmou que o banco discute qual será a frequência ideal no futuro. “Em algum momento vamos ter de ser mais cirúrgicos”, observou Luketic, da XP.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LADO ESCURO DA CASA

Um mês de isolamento depois, como está a saúde mental de quem se viu obrigado a conviver com os outros, consigo mesmo e com uma nova vida

A artista visual Luciana Colvara Bachilli, de 41 anos, conhecida como Luluca, mudou-se em 2017 do Rio de Janeiro para Balneário Camboriú, Santa Catarina, pretendendo dar um novo começo a sua vida, depois de ter sido diagnosticada, dois anos antes, com transtorno de personalidade borderline, marcado por alterações bruscas e extremas de humor, além de sintomas como impulsividade, irritação e dificuldade em controlar as próprias emoções. Em três anos na cidade catarinense, conseguiu atenuar os problemas. Mas toda a melhora alcançada está por um fio desde o início da pandemia. “É a luta constante para não cair nos piores comportamentos: fumar demais, beber demais”, disse a artista, que tem intensificado os hábitos prejudiciais a sua condição de saúde por causa do isolamento social, que completa um mês. “Estou bebendo demais, me alimentando mal, meus pensamentos são destrutivos. Eu estou bebendo o dia todo”, confessou. Em alguns dias, passa à base de café. Em outros, come até vomitar. Alterna o descontrole com períodos de angústia, em que filosofa sobre o privilégio de poder ficar tranquilamente em casa na quarentena e mesmo assim não se sentir bem.

Situações traumáticas mexem com a saúde mental das pessoas. Desde a perda de um ente querido e de um emprego até presenciar ou ser vítima de atos de violência. Viver em meio à maior pandemia dos últimos 100 anos, com todos os seus efeitos colaterais sociais e econômicos, não é diferente de passar por um grande trauma. Há o medo do contágio, a vida em isolamento, as perspectivas econômicas incertas e a mudança brusca na rotina, que resulta na total substituição da vida cotidiana que se tinha por outra, nem sempre melhor. Uma pesquisa publicada pela revista científica Lancet em março deste ano apontava que, entre os efeitos de uma quarentena prolongada, está, nos casos mais severos, o transtorno de estresse pós-traumático, cujos sintomas são a paranoia, os flashbacks e pesadelos que podem durar anos. No Brasil, uma pesquisa da consultoria Ideia Big Data, feita com 1.591 pessoas entre os dias 4 e 15 de abril, propôs ao entrevistado uma pergunta objetiva por telefone, que permitia múltiplas respostas: “Qual palavra melhor define seu sentimento diante do coronavírus? O termo mais citado, com 60%, foi “preocupação”, seguido de “ansiedade”, com 40’%, e logo depois, “medo”, com 34%. São sensações que, quando momentânea, fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa. Mas, se persistentes, podem acarretar o surgimento ou a retomada de transtornos psíquicos, como no caso de Luluca.

Como ainda não se vislumbra o fim da pandemia do novo coronavírus, ao menos por enquanto, a tendência é que os quadros depressivos já existentes sejam agravados ou retomados em razão da mudança de rotina do brasileiro e que algumas pessoas que antes não sofriam da doença passem a lutar contra ela. “O período em que nos encontramos levará a um aumento dos casos de transtorno ansiosos, dentre os quais encontra-se o pânico e também de depressão”, afirma Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da Associação Psiquiátrica da América Latina (Apal). Prevendo esse cenário em todos os países afetados pelo vírus, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu, logo no início do isolamento, um documento com uma série de tópicos voltados à preservação da saúde mental. Entre as recomendações para a quarentena estão tentar, ao máximo, manter a mesma rotina, ou criar uma nova rotina”, se necessário. Ficar sem rotina é um perigo. A OMS recomenda ainda que o contato social se mantenha ativo por meio da internet e que haja uma agenda de exercícios físicos, alimentação saudável e sono. Esses três últimos itens são fundamentais também para manter baixo o nível de cortisol no sangue.

Esse hormônio, produzido pelas glândulas suprarrenais, é liberado de forma excessiva no sistema nervoso quando ativado pela sensação de medo ou irritação. Muito cortisol no sangue implica também a queda da imunidade, o que não convém a ninguém em tempos de pandemia.

O acúmulo de tarefas e a cobrança para manter-se produtiva abalaram a saúde mental da estudante de relações internacionais Maria Elisa Monnerat, de 19 anos, em isolamento desde 16 de março, quando regressou à casa da mãe, em Bom Jardim, Região Serrana do Rio de Janeiro. “Eu me cobro muito. Estou dando um peso excessivo, muito maior, para a faculdade enquanto estou em casa. Passo a maior parte do tempo estudando”, contou. “Comecei a ficar muito cansada, perdi muito peso. Na hora das aulas (on-line) eu chorava porque não queria assistir. Cheguei a trancar três matérias. Quando eu estava na PUC (no Rio de Janeiro), era mais leve. Agora, com essa coisa on-line, eles medem o tempo de tudo”, reclamou. Diagnosticada com depressão e ansiedade há três anos, Maria Elisa é medicada e conta que estava bem até o início do isolamento, quando os sintomas começaram a voltar.

Também tem sofrido recaídas a estudante universitária Julia (nome fictício), de 23 anos, moradora da Tijuca, na Zona Norte do Rio, que tem bulimia. “A possibilidade de escapar de mim mesma e de meus problemas diminuiu. E os sintomas do que eu já sentia pioraram bastante. Sem a quarentena, eu tinha muito mais formas de escapar: fora de casa, na rua ou na casa de um amigo. Agora, não. Estou 24 horas por dia com todos os meus problemas, o tempo todo. Há um lado bom, porque estou sendo obrigada a olhar para dentro de mim. Mas a parte ruim é que estou comigo o tempo todo”, contou.

O psicanalista Christian Dunker aponta para outros problemas decorrentes do isolamento e que podem surgir à medida que a quarentena, que já dura um mês, se prolongue. Trata-se justamente dos que se engajaram de maneira excessiva em qualquer tipo de atividade – até mesmo no próprio trabalho – durante a pandemia e começarão a sentir a estafa mental. “Muita gente largou nessa corrida a 100 por hora. Provavelmente a gente vai ter (dentro de algum tempo) pessoas exaustas, em crise de saturação de engajamento e outras pessoas em crise com o vazio, com a falta”. O maior desafio, ele afirmou, é transformar o vazio em algo produtivo, para que não se torne uma doença e, em última instância, um perigo à vida. Na Itália, pelo menos dois profissionais da saúde que trabalharam ativamente nos cuidados com pacientes infectados pela Covid-19 desde o início da pandemia cometeram suicídio. Na Alemanha, o secretário de Finanças do estado de Hesse, Thomas Schifer também tirou a própria vida em meio ao colapso. Ainda que seu país tenha melhores condições para lidar com o novo coronavírus, pessoas próximas disseram à imprensa local que ele estava muito preocupado com o impacto econômico da pandemia.

Uma preocupação extra para quem já sofre de ansiedade e também para os que nutrem boa saúde mental é a crise que decorrerá da paralisação econômica. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), projeta-se no caminho a maior recessão mundial desde 1929, com queda de    5,6% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil neste ano. A crise mal começou, muitos já sentem os efeitos com a perda da renda e do emprego. O editor Otávio Campos de 28 anos, mora em Juiz de Fora, Minas Gerais, onde fundou a Edições Macondo, editora que publica poesia de autores vivos de língua portuguesa, lançando, em média, 12 livros por ano. Campos começara a se estabilizar financeiramente no novo negócio havia pouco tempo quando veio o isolamento e as livrarias fecharam as portas sem saber quando, e se, voltarão a abrir. O novo cenário – em que livrarias reportam perdas superiores a 90% – o obriga a tentar novas soluções para seu negócio, mas a ansiedade trazida pelo momento o freia. “A principal característica dela (ansiedade) é essa paralisia. Não consigo fazer nada além de ficar fumando na frente do computador. A situação é eu comigo mesmo, sozinho em meu apartamento. Isso tende a aumentar o sentimento de estar perdido. Não só por estar dentro de casa, mas por esse sentimento de impotência. É desesperador sentar em minha cadeira”, relatou. O impacto da crise econômica nas famílias também preocupa a juíza e escritora Andréa Pachá, que prevê reflexos no aprofundamento de conflitos familiares e domésticos, já esgarçados em razão do confinamento. Numa situação-limite para os casais, a questão econômica – somada ao isolamento e ao consumo de bebidas alcoólicas em casa – pode levar à violência. “Os números já mostram que está aumentando. Já está acontecendo”, disse Pachá. Na capital fluminense, a subida de casos reportados foi de 50% logo no início do confinamento. O Ministério Público de São Paulo divulgou no dia 14 de abril que as prisões em flagrante por violência contra a mulher cresceram também 50% em março. Segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, na primeira semana de abril houve alta de 9% na ligações recebidas pela pasta por meio do número 180, responsável por centralizar notificações de agressões – numa crescente já notada desde o final de março, quando as medidas de restrição de circulação entraram em vigor.  Antes da quarentena entre 1º e 16 de março, a média de denúncia foi de 829. Esse patamar subiu para 978 registros entre os dias 17 e 25 do mesmo mês, depois do início do confinamento – alta de 15%. “Os conflitos que têm aparecido são inéditos, como são inéditos os tempos que a gente tem vivido. A gente precisa pensar em outra abordagem. Está todo mundo tendo de aprender”, disse a juíza, que tem se reunido com seus pares da Escola Nacional de Magistratura para buscar novas soluções.

Em países onde o novo caronavírus chegou antes, também houve escalada na violência doméstica – e as medidas de isolamento mais rígida que no Brasil, dificultaram ainda mais o resgate de mulheres de situações de abuso. Na Espanha, nas primeiras duas semanas de lockdown, a ligações para o número de emergência para casos de violência aumentaram 18%. Na França a polícia reportou subida de 30%. Na China, o caso de uma moradora de Anhui investigado pelo The New York Times mostrava o cenário extremo: espancada pelo companheiro diante da própria filha, criança, a vítima prestou queixa, mas não conseguiu fazer nada além disso. Não obteve ajuda do Estado para alugar um local para ficar até o fim da quarentena e tampouco o sistema judiciário permitiu que entrasse com os papéis do divórcio. Ela teve, portanto, de viver por semanas com o agressor até que o isolamento fosse flexibilizado, em março.

Se a violência doméstica se mostra indissolúvel apenas com diálogo, requerendo esforço policial e acolhimento da vítima, é possível tentar amenizar outros males do confinamento com ajuda profissional. Para quem viu a saúde mental se deteriorar, as consultas com psicólogos, psicanalistas e psiquiatras on-line se tornaram corriqueiras, resultando num aumento de 120% nas buscas por esse tipo de serviço virtual, segundo o Google Trends. E há iniciativas criadas justamente para ajudar quem perdeu renda em razão da pandemia. Em São Paulo, as rodas de conversa do Grupo Escuta Sedes, vinculado ao Instituto Sedes Sapientiae, transferiu seus encontros semanais – gratuitos – para a internet. Inicialmente com 12 vagas, a turma poderá crescer conforme a demanda. “Tem toda uma revolta misturada com a angústia da perda da mobilidade, da perda da vida. As pessoas com menos condições têm mais questionamentos. Como ficar em casa? Como conviver?”, explicou Maria Silvia Borghese, psicanalista do grupo. No Rio de Janeiro, a Praça Terapia também mudou-se da Praça São Salvador para a internet, mantendo a gratuidade dos atendimentos.

Para quem ainda não começou a sentir sintomas de que algo não vai bem e quer se precaver, o ex-astronauta Scott Kelly, que já passou um ano confinado em uma estação espacial, fez algumas recomendações em um artigo de sua autoria publicado no The New York Times. Ter uma rotina e tentar escrever um diário – não necessariamente relatando fatos da quarentena, mas sim o que vem à cabeça nesse período, inclusive sonhos – ajuda a manter a sanidade. Ficar confinado numa pequena cápsula também acaba criando uma certa ânsia por espaço. Portanto, eventualmente sair para dar uma volta ao ar livre pode operar milagres em uma mente aflita.

A psicóloga Marcia Matos, de 41 anos, mãe de duas filhas – de 8 e 6 anos -, conseguiu resolver suas angústias com uma tática mais simples: um cochilo de uma hora durante o dia. Até o início do isolamento, ela trabalhava fora – em consultório e ministrando palestras – e estava prestes a iniciar um trabalho fixo, suspenso em razão da pandemia. Divorciada, viu os eventos ser cancelados, metade dos clientes deixar o consultório e a pensão alimentícia cair em 2/3. “No começo, ia me dando uma irritação enorme, uma vontade de chorar. ‘Nossa, eu estou cansada’, pensava. Quando percebi que com o sono eu conseguia me recompor, vi que era a solução. Eu me fecho no quarto e durmo para conseguir continuar a dar conta”, disse. Como especialistas já começam a apostar em cenários para o futuro em que o confinamento alternado se torne rotina no mundo, criar o hábito do cochilo pode ser um a boa herança destes tempos inóspitos.