OUTROS OLHARES

QUANDO OS MÉDICOS ADOECEM

Histórias tocantes de profissionais da saúde que se viram, de uma hora para outra, no papel de pacientes infectados pelo novo coronavírus

“O mal-estar começou com uma febrinha e um pouco de tosse. Nada de muito diferente do que estou acostumado a sentir. Tenho sinusite há quarenta anos. Mas no terceiro dia a coisa mudou, acordei prostrado e com dificuldade para respirar. Deu positivo para a Covid-19. Daí em diante tudo se agravou de forma bastante rápida. Eu já estava naquele momento com comprometimento pulmonar. Não me deixaram sair do hospital. Fui internado na unidade semi-intensiva do Sírio­ Libanês. Cogitaram me entubar, mas graças a Deus não foi preciso. Fui medicado com cloroquina, antibióticos e analgésicos. Comecei a melhorar no quarto dia da internação. Aos 60 anos, nunca me senti tão mal. Eu já fiquei doente, tenho stents, mas nada se compara a isso. O mal-estar é tão violento que a sensação no auge da gravidade era que estavam tirando um pedaço do meu corpo. Tratei de dezenas de pacientes infectados, no entanto jamais imaginei que pegaria esse vírus.

Trabalho em UTI há 35 anos. Não faço ideia como isso foi acontecer. Mas garanto que voltarei com mais energia para trabalhar do que antes.”

O depoimento do cardiologista Roberto Kalil foi dado no fim da tarde do domingo 5 de abril, no quarto 842 do Hospital Sírio-Libanês. Ele permaneceu a maior parte do tempo sentado e interrompeu a conversa diversas vezes com tosse forte e fôlego comprometido. Três dias depois foi para casa, onde deverá se manter isolado até pelo menos o domingo 12. O relato de Kalil, um dos mais renomados profissionais de saúde do Brasil, exemplifica à perfeição a dramática realidade de homens e mulheres na linha de frente do combate à epidemia do novo coronavírus, os médicos infectados. No Brasil, estima-se que pelo menos um em cada dez profissionais de jaleco, incluindo enfermeiras e enfermeiros, esteja contaminado. O país está perto de entrar para o topo de uma dramática lista. Na Espanha, há 20% de contaminação entre profissionais de branco. Na Itália, 15%.

Evidentemente, o vírus não escolhe vítimas – pode-se dizer que seja democrático nesse aspecto -, mas assusta e emociona quando atinge nomes de relevância, de longa carreira, e já idosos. Com mais de 80 anos, Angelita Gama, cirurgiã do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, foi internada em 18 de março com febre e dores musculares. Em 48 horas precisou ser transferida para a UTI. Aos 70 anos, Raul Cutait, cirurgião do Hospital Sírio-Libanês, está entubado há cerca de duas semanas. No sábado 4, os médicos chegaram a tirá-lo da oxigenação artificial, mas no dia seguinte tiveram de religar os aparelhos. Até a última quinta-feira, 9, ambos encontravam-se no setor de emergência, em estado estável.

“Minha primeira sensação quando o teste para a Covid-19 deu positivo foi de culpa. Será que pulei algum passo? Fui inconsequente?”, indaga o cardiologista Fabio Pitta, de 36 anos, do Hospital Albert Einstein e do Instituto do Coração (Incor). “Sinceramente, não sei como peguei. Atendi casos de doentes internados, mas sempre paramentado. Talvez tenha me infectado com pacientes assintomáticos. É muito difícil ser obrigado a me isolar de pessoas que precisam de mim. Se tem uma coisa que me conforta é saber que voltarei forte para a batalha no pico máximo da doença”. Pitta está em isolamento em casa há uma semana.

O mau uso de equipamentos de proteção individual (EPis) da parte de muitos profissionais é um ponto crucial. Ressalve-se que em vários casos a vestimenta não é adequada por escassez de material, atalho para taxas brutais de infecção. A epidemia nem atingiu o auge no Brasil e as denúncias de desabastecimento já pululam.

A Associação Médica-Brasileira recebeu mais de 2.800 queixas de todo o país, 1.000 delas somente no Estado de São Paulo. Amaioria (87%) relata a falta das máscaras de proteção do tipo N95, as mais eficazes; 46%, de gorros; 35%, de álcool em gel 70%; e 26%, de luvas. Estudos mostram que a vulnerabilidade dos médicos é provocada também por outro motivo: a enorme quantidade de vírus aos quais eles são expostos. Cargas virais altas estão associadas a maior capacidade de transmissão e severidade no desenvolvimento da doença respiratória.

Muitos médicos, por estarem na vanguarda, colados às UTls, acabam erguendo couraças fisiológicas e psíquicas – condição que não garante imunidade, mas amplia ainda mais, como contraponto, o sofrimento de quem caiu doente, e não pode ajudar o outro, a essência da atividade. Estudo conduzido pelo Hospital da Universidade Médica de Nanjing, na China, revelou que profissionais na lida cotidiana com enfermos graves são mais resistentes a distúrbios psicológicos, e, portanto, mais protegidos. É como se tivessem se fortalecido diante do sofrimento alheio – os mais distantes, um tantinho apartados, apresentaram quadros de alteração do sono e princípio de anorexia.

“Não tive contato direto com pacientes de Covid-19. Na hora do diagnóstico tive taquicardia. E agora? Vai evoluir?”, diz Evelyn Lucien Brasil, de 41 anos, fisioterapeuta do Hospital Albert Einstein. “Demorei para perceber que podia ser a doença. Fiquei uma semana com cansaço, calafrio, tosse. Perdi o paladar e o olfato e ainda assim achei que pudesse ser um problema neurológico. Há poucos dias voltei a sentir um cheirinho, o do borrifador de lavanda que sempre coloquei na cama.” Evelyn deve sair do isolamento em casa no dia 13.

Um dos depoimentos mais impactantes de um médico que de uma hora para outra se viu no papel do doente infectado pela nova doença é o do infectologista David Uip, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus, do governo de São Paulo. Em 6 de abril, o primeiro dia do fim do isolamento em casa, ele declarou publicamente: “Este sentimento de você se ver, como médico, infectologista, com uma pneumonia, sabendo que muito provavelmente entre o sétimo e o décimo dia vai complicar, foi um sentimento muito angustiante. Você dormir não sabendo como vai acordar. Felizmente, Deus me ajudou e eu venci a quarentena. Eu tive de me reinventar, tive de criar um David novo. Seguramente mais humilde e sabendo os limites da vida. Quero dizer para vocês que não é fácil ficar isolado. É de extremo sofrimento, mas absolutamente fundamental”. Sim, o isolamento nas próximas semanas é fundamental – para médicos e não médicos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE ABRIL

SENTIMENTOS PERIGOSOS

Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? (Genesis 4.6).

As atitudes são geradas no ventre dos sentimentos. O que sentimos determina o que fazemos, pois como o homem pensa no coração, assim ele é. Uma prova incontestável dessa realidade é a vida de Caim. O primeiro filho de Adão e Eva dedicou-se ao trabalho do campo como lavrador. Seu irmão Abel era pastor de ovelhas. Ambos receberam as mesmas instruções e ambos levaram uma oferta ao altar de Deus. Caim levou do fruto da terra, e Abel ofertou as primícias de seu rebanho. Deus se agradou de Abel e de sua oferta, mas rejeitou Caim e sua oferta. Por que Deus rejeitou Caim e sua oferta? Primeiro, porque Caim era um falso adorador. Era do maligno. Tentava encobrir seu pecado trazendo ofertas a Deus. A religião era apenas uma fachada para esconder sua vida mundana. Segundo, porque Caim era um falso irmão. Em vez de imitar as virtudes do irmão Abel, passou a odiá-lo. Mesmo repreendido por Deus por causa de seu destempero emocional, recusou-se a emendar seus caminhos. Terceiro, porque Caim era um falso amigo. Mesmo nutrindo sentimentos de morte no coração, dissimulou e armou uma emboscada para atrair seu irmão até o campo, onde o matou com requintes de crueldade. Quarto, porque Caim era um falso confessor. Depois de seu crime fratricida, negou diante do próprio Deus a autoria do delito. Sua consciência estava calcificada antes e depois do crime. Mesmo apanhado em seu erro, não deu provas de arrependimento. Cuidado com seus sentimentos, pois eles podem levar você também às ações perigosas!

GESTÃO E CARREIRA

O MAIS ÁRDUO DOS DESAFIOS

O aquecimento global expõe o esgotamento do modelo econômico atual e deixa evidente que o futuro da terra depende das empresas

“Cada geração é, sem dúvida, chamada a reformar o mundo. A minha sabe que não vai reformá-lo, mas sua tarefa talvez seja ainda maior. Consiste em evitar que o mundo se destrua.”

A fala do escritor francês Albert Camus (1913-1960), ao receber o Nobel de literatura de 1957, é lembrada por François Villeroy de Galhau, presidente do Banco da França, no prefácio do recém-lançado The Green Swan: Central Banking and Financial Stability in the Age of the Climate Change. Editado pelo BIS, sigla em inglês para Bank for International Settlements, o banco central dos bancos centrais, o livro avalia o impacto da crise climática na estabilidade financeira global. Apesar de contextos diferentes, lembra François, as palavras de Camus soam inspiradoras no momento em que a humanidade enfrenta a ameaça do clima. “Apesar da conscientização crescente, a dura realidade é que estamos perdendo a luta contra as mudanças climáticas”, escreve o executivo.

Os autores Patrick Bolton, Morgan Després, Luiz Pereira da Silva, Frédéric Samama e Romain Svartzman recorrem à imagem do “cisne verde” em referência à teoria do cisne negro, elaborada pelo matemático e estatístico líbano -americano Nassim Nicholas Taleb, em 2007. Eventos cisne negro são inesperados e raros; têm consequências negativas e até catastróficas e só podem ser explicados depois que ocorrem. Tais acontecimentos podem ser dos mais variados – de um ataque terrorista a uma disrupção tecnológica. O termo cisne negro começou a ser usado mais amplamente na economia com a crise de 2008. Agora, o cisne verde surge no relatório do BIS como o cisne negro do clima. Ou seja, um evento climático com risco financeiro altíssimo; devastador. Algumas particularidades, porém, diferem os cisnes verdes dos negros, explicam os pesquisadores. As catástrofes climáticas são mais graves do que a maioria das crises financeiras sistêmicas, já que tendem a representar uma ameaça existencial para a humanidade. Alémdisso, a complexidade relacionada às mudanças climáticas é muito superior à dos cisnes negros. “As reações em cadeia e os efeitos cascata associados aos riscos físicos podem deflagrar dinâmicas ambientais, geopolíticas, sociais e econômicas imprevisíveis”, lê­ se em The Green Swan.

Como se vê, o clima entrou definitivamente para o círculo das altas finanças e negócios globais. Nesse sentido, Davos foi contundente.

Desde 1971, o Fórum Econômico Mundial (WFE, na sigla em inglês) se reúne todos os anos nos Alpes suíços para cinco dias de debates em torno de questões que afligem a humanidade. Um encontro para refletir sobre o futuro. Essas conversas costumam girar em torno de crises econômicas e financeiras. Este ano, no entanto, foi diferente. O clima esteve no centro das discussões. Pela primeira vez, escreve Borge Brende, presidente do Fórum Econômico Mundial, no prefácio de The Global Risks Report 2020, uma única categoria ocupa os cinco primeiros lugares no ranking das grandes ameaças globais – eventos climáticos extremos; falhas no combate às mudanças climáticas; desastres naturais; perda de biodiversidade e desastres ambientais causados pelo homem.

“Nos últimos cinco anos, a mudança climática está ocorrendo mais rapidamente do que muitos esperavam”, lê-se no relatório. Os desastres naturais estão não só mais frequentes como mais violentos, segundo os especialistas do WEF: ” No ano passado, testemunhamos clima extremo em todo o mundo. As temperaturas globais estão em alta e devem aumentar pelo menos 3 ºC até o final do século – o dobro do que estava previsto”. Em 2018, US$ 165 bilhões foram perdidos em desastres naturais. Entre 2008 e 2016, a cada ano 20 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas por causa de incêndios florestais, inundações e tempestades. Metade do PIB global, o equivalente a associados à degradação ambiental. Essas são apenas algumas das tragédias relacionadas às alterações ambientais citadas em The Global Risks Report 2020. A emergência, definem os estudiosos, é planetária.

A crise é grave. Gravíssima. E exige intervenção imediata. Mas ela é reveladora de uma ferida ainda mais profunda. A do capitalismo, tal qual escola de Chicago, do economista Milton Friedman (1912-2006), do lucro a qualquer custo, do lema “the business of business is the business” – esse dá sinais claros de falência. Em carta aberta, divulgada em Davos, o alemão Klaus Schwab, fundador do fórum, defende um novo capitalismo, o das “partes interessadas”. Escreve ele: “Primeiro veio o efeito ‘Greta Thunberg’. A adesão ao atual sistema econômico representa uma traição para as gerações futuras, devido à sua insustentabilidade ambiental. Em segundo lugar, os millennials e a geração Z já não querem trabalhar para investir em, ou comprar de empresas que não tenham outros propósitos para além da maximização de valor para os acionistas. Por último, cada vez mais os executivos e investidores compreendem que o sucesso deles no longo prazo também depende do êxito de seus clientes, em­ pregados e fornecedores”.

François Villeroy de Galhau e Klaus Schwab não estão sozinhos. Mais e mais líderes e executivos defendem uma nova narrativa para os negócios. Capitalismo consciente, capitalismo inclusivo, investimento de impacto, investimento socialmente responsável…

“O capitalismo que eu pratiquei nos últimos anos – com a obsessão de maximizar os lucros para os acionistas – também levou a uma desigualdade horrorosa. Globalmente, as 26 pessoas mais ricas do mundo possuem a riqueza dos 3,8 bilhões mais pobres (…) É hora de um novo capitalismo. Um capitalismo mais justo, igualitário e sustentável. Um capitalismo que funcione para todo mundo”, defende Marc Benioff, fundador e CEO da Salesforce, em artigo para o jornal The New York Times, intitulado We Need a New Capitalism.

“O objetivo não pode ser a transparência em nome da transparência. Deve ser um meio para alcançar um capitalismo mais sustentável e inclusivo. As empresas devem ser deliberadas e empenhadas em abraçar o propósito e servir todas as partes interessadas – seus acionistas, clientes, funcionários e as comunidades onde operam. Ao fazer isso, sua empresa desfrutará de maior prosperidade a longo prazo, assim como os investidores, trabalhadores e a sociedade como um todo”, diz Larry Fink, CEO da BlackRock, o maior fundo do mundo, com quase US$ 7 trilhões sob sua gestão.

“O sonho americano está vivo, mas está desgastado. Os grandes empregadores estão investindo em seus funcionários e em suas comunidades porque sabem que esse é o único caminho para serem bem-sucedidos no longo prazo”, defendeu Jamie Dimon, CEO do banco JP Morgan Chase e chefe da Business Roundatble, que congrega a nata do capitalismo americano, os presidentes executivos das 181 maiores corporações dos Estados Unidos (Amazon, Apple, Xerox, Ford, Walmart, Exon Mobil, AT&T, JP Morgan Chase…) Juntas, essas companhias somam cerca de 15 milhões de funcionários e US$ 7 trilhões de faturamento anual.

Uma das alternativas mais modernas ao crescimento ilimitado a qualquer custo é a Economia Donut. Desenvolvida pela economista inglesa Kate Raworth, professora e pesquisadora da Universidade de Oxford, ela propõe um sistema em que as necessidades dos cidadãos serão satisfeitas sem esgotar os recursos naturais. “A essência do Donut: um alicerce social de bem-estar abaixo do qual ninguém deve cair, e um teto ecológico de pressão planetária que não devemos transpor. Entre os dois encontra-se o espaço seguro e justo para todos”, escreve Kate, no premiadíssimo Economia Donut Uma Alternativa ao Crescimento a Qualquer Custo.

Os primeiros alertas sobre a falência do sistema econômico atual soaram em meados da década de 60. Em The Economics of the Coming Spaceship Earth, o economista e pacifista Kenneth Boulding (1910-1993) chamava a atenção para a necessidade de mudança no modelo de desenvolvimento. Defendia a transição de uma visão predatória, individualista e efêmera, que chamou de economia cowboy, para um sistema de produção e consumo circular, duradouro e interdependente, que considerasse os limites do crescimento no cuidado com a nave espacial Terra, a economia astronauta. Boulding alertava para as consequências de se operar uma economia aberta e em expansão dentro de um sistema fechado como nosso planeta. Eram tempos de Guerra Fria, marcados pela euforia que se seguiu ao período de restrições e privações da Segunda Guerra Mundial, e por isso sua teoria passou longe da esfera de decisões dos negócios e do poder.

Agora é preciso correr. “A próxima década vai definir se a humanidade pode alcançar o objetivo de limitar o aquecimento em 1,5 ºC. Sem redução significativa nas emissões nos próximos cinco anos, a capacidade de ação será crescentemente menor, resultando em danos que podem se tornar irreversíveis”, diz o estudo The Net-Zero Challenge: Global Climate Action at a Crossroads, fruto da parceria do Fórum Econômico Mundial com o Boston Consulting Group (BCG). O trabalho avaliou as 6.937 companhias registradas no antigo Carbon Disclosure Project (CDP). Com sede em Londres, o CDP incentiva as empresas e cidades a divulgar seus dados de impacto ambiental de modo a ajudar ações rumo a uma economia sustentável. Das quase 7 mil corporações, apenas um terço divulgou suas emissões de C02 um quarto somente havia definido metas de redução e uma parcela ainda menor (1/ 8) de fato havia diminuído as emissões de gases de efeito estufa nos anos anteriores.

“Nem todos os negócios entenderam o que está por trás da lógica de sustentabilidade, mas perceberam que as consequências das mudanças climáticas virão”, diz Aron Belinky, sócio fundador da ABC Associados, consultoria especializada em metodologias de avaliação de empresas por critérios de sustentabilidade. The Net-Zero Challenge defende que governos e corporações podem e devem avançar com iniciativas unilaterais. Em primeiro lugar, porque é bom para os negócios. Sustentabilidade economiza recursos com a melhoria de eficiência, gerenciamento de riscos, busca de inovação e de oportunidades de longo prazo. “Embora nenhum ator possa deter o aquecimento global sozinho, os esforços das principais nações industriais ou das grandes corporações podem ter efeito multiplicador”, lê-se no trabalho. E sinaliza que um caminho é reduzir a intensidade de emissão de seus negócios e cadeias de suprimentos, por meio de medidas que custam pouco ou nada e podem compensar as emissões dos processos produtivos.

“Todos temos possibilidade de sermos líderes dessa transformação da sociedade. Temas como mudança climática são realidade, podem ser mais ou menos reconhecidos pelos políticos de alguns países, mas a temperatura está mudando, os eventos climáticos estão mais fortes. Cada empresa e cada pessoa tem a responsabilidade e a grande oportunidade de ser um ator ativo nesse processo, ou então esperar que a lei obrigue a fazer a coisa certa”, diz Nicola Cotugno, principal executivo da Enel no Brasil. A escolha estratégica de mudar para um modelo de negócios sustentável e integrado, quase dez anos atrás, posicionou o grupo italiano como um dos líderes da transição energética. A empresa se comprometeu a eliminar usinas térmicas a carvão e gás, e neutralizar as emissões de carbono até 2050, direcionando investimentos para a geração a partir de fontes renováveis. No Brasil, o projeto é quase dobrar a capacidade de geração solar e eólica, que são mais limpas e mais baratas. Uma das metas da empresa italiana é desenvolver infraestrutura para a recarga de carros elétricos nas grandes cidades.

“A transição energética é um ponto de atenção não para uma elite de empresas, mas, cada dia mais, para todo o mundo dos negócios”, resume Nicola. Dos € 28,7 bilhões do investimento planejado pela Enel até 2022, mais de 90% serão destinados a projetos que trabalham para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU). “Estamos demonstrando que criar valor para o meio ambiente, para a sociedade, é colocar a sustentabilidade no centro do negócio, como uma estratégia. Essa é a mais moderna e importante forma de criar valor para a empresa”, explica Nicola.

Para avaliar seu progresso, a empresa de eletricidade usou os mecanismos de monitoramento e avaliação do conjunto de 17 objetivos com 169 metas a serem atingidas até 2030. Como resultado, a Enel ficou em oitavo lugar em uma lista global das cem empresas mais sustentáveis do mundo, elaborado pelo grupo canadense Corporate Knights. O ranking se baseia em dados divulgados publicamente por cerca de 7 mil empresas, e um conjunto de 65 indicadores não só ambientais, mas também sociais e econômicos.

Há um consenso de que a mudança climática está acontecendo mais rápido do que se imaginava, portanto será uma questão de velocidade, diz Nicola. “Temos grande responsabilidade com as gerações futuras – quem tem filhos, quem tem respeito pela sociedade tem de atuar, não é uma opção”, afirma o executivo. Sua inspiração é a filha de 18 anos, que mora no Chile e só consome alimentos orgânicos e sustentáveis, e o filho de 23, que vive na Inglaterra, nunca teve carro e só anda de transporte público.

“Impressionante como as empresas voluntariamente estão entrando nessa vibração verde que vai além do meio ambiente, inclui diversidade e atração de gênero nas empresas”, resume Maurício Bahr, CEO no Brasil da companhia francesa de energia Engie. É um caminho que não tem mais volta, diz. Quatro anos atrás, o grupo francês resolveu se transformar em um negócio de baixa emissão de carbono. Encerrou as atividades de exploração de carvão e gás e concentrou em fontes renováveis, como solar, eólica, biomassa, hidrelétrica, e na construção de linhas de transmissão de gás. “O gás vai ter papel importante na transição energética da próxima década, sobretudo nos períodos quando não há sol ou vento”, explica Maurício.

“Percebemos que o consumidor e as gerações mais jovens exigem isso. Temos uma oportunidade única de fazer o casamento entre os interesses das pessoas e do planeta, e ainda ter lucro”, avalia. No ano passado, a Engie firmou parceria para fornecer energia 100%renovável para todas as unidades da empresa de beleza francesa L’Oréal no país. Com essa opção por uma fonte mais limpa de geração, evitam a emissão de 7 mil toneladas de C02 na atmosfera, o equivalente ao plantio de mais de 43 mil árvores. A energia com certificação de origem vem de um complexo com oito usinas eólicas em Trairi, município no Ceará.

Em fevereiro, como reflexo de um movimento global, a L’Oréal reuniu no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, cem fornecedores para inspirá-los a entrar na vibração dos produtos verdes, reduzir plástico nas embalagens, diminuir a emissão de C02 e reforçar a importância de uma economia circular dentro do negócio. Além de vender energia de fontes menos poluentes, a Engie decidiu criar soluções para seus clientes serem mais eficientes. “Parece ser paradoxal uma empresa que fornece energia ajudar a reduzir o consumo, mas é isso o que fazemos com monitoramento, consultoria e adequação de fontes”, ele conta. Um dos clientes do grupo francês é o Banco Itaú, para quem a Engie faz análise da curva de consumo, ajuda a reduzir a conta de luz e planejar os melhores momentos para o uso de ar condicionado em cada agência bancária.

Pelo segundo ano consecutivo, o Itaú foi além e renovou o contrato para compra de créditos de carbono da usina de biomassa da Engie em Lages, em Santa Catarina. Pela negociação, de forma voluntária, a instituição financeira compensou 35 mil toneladas de C02 emitidas e reportadas pelo banco em 2018. A energia elétrica e térmica gerada na usina de Lages consome como combustível os resíduos de madeira produzidos na região. Assim, evita a emissão de metano provocada pela decomposição da madeira no solo. As cinzas geradas pela usina são ainda reaproveitadas para adubação do solo.

Além de fornecer eletricidade, a Engie viu uma oportunidade também para a comercialização de energia no mercado livre. “Começamos mapeando nossas emissões e reduzindo nossa pegada de carbono, e agora fazemos o mesmo com os clientes”, explica o executivo. Um projeto chama o outro, e a Engie acaba de anunciar uma parceria com a montadora Audi para instalar 200 centrais de recarga de carros elétricos até 2022. Presente em 70 países, o grupo francês possui 75 mil pontos de recarga para veículos elétricos na Europa e nas Américas. Seu objetivo é alcançar 1 milhão de unidades no mundo até 2025, contribuindo para a descarbonização do tráfego das cidades.

“Precisamos criar um mercado de carbono. Não há obrigação por lei para que nenhuma empresa compense suas emissões, não há incentivo”, aponta o executivo da Engie Brasil. “Poucas empresas estão fazendo inventário e compensando suas emissões”, diz Maurício Bahr. A ação voluntária é essencial, afirma o executivo, cuja principal inspiração é Laura, a primeira neta, nascida em 2019. “Vamos começar a ver consumidores escolherem produtos pela qualidade do tratamento que as empresas dão ao planeta”, avalia.

Na transição para uma economia de baixo carbono, o impacto das novas tecnologias será decisivo no desenvolvimento de alternativas para indústrias intensivas em consumo de energia. “As tecnologias ajudam a manter o mundo mais sustentável, com impacto positivo tanto no aumento da eficiência energética, quanto na redução de emissões de carbono. Garantir que os mercados possam aplicar essas tecnologias e se beneficiar de um ambiente com menos carbono, e uso descentralizado e digital de energia é o primeiro passo”, explica Luc Rémont, vice-presidente executivo de operações internacionais da Schneider Electric.

“Vamos gradualmente expandir nossa neutralidade de carbono, abraçando não apenas o que a Schneider faz, mas toda a rede produtiva, para neutralizar o carbono na cadeia de valor até 2050. Essa é a nossa ambição”, completa o executivo do grupo francês de energia. Para enfrentar os desafios das mudanças climáticas, a empresa se comprometeu a neutralizar as emissões até 2025. “Isso é amanhã. Fazemos isso porque acreditamos que devemos dar o exemplo, sendo os maiores experts em testar nossas tecnologias e serviços para aprimorá-los e torná-los mais eficientes”, conta o especialista em economia e engenharia, que integrou a delegação francesa nas negociações do Protocolo de Kyoto, em 1997. Luc aponta a importância de se tornar um exemplo do que propõe para salvar o mundo. “A Terra é nossa casa, e ninguém bota fogo na própria casa, não há um planeta B”, diz.

O crescimento do tema sustentabilidade tem acelerado a implantação da tecnologia digital. “Digitalizar a infraestrutura permite conectar todo o uso de energia e seu processo, com um melhor conhecimento do que acontece, por exemplo, em um prédio ou em uma fábrica. Você entende melhor o quanto de energia precisa providenciar em uma estrutura para que ela não gaste a mais”, explica Luc. A maioria dos prédios, ele explica, ainda gasta mais do que o necessário. “O que a tecnologia digital traz é a habilidade de permanentemente adaptar a infraestrutura para seu uso real. Assim, podemos reduzir o consumo de energia em 30%, na média, no gasto para aquecimento e ar condicionado. É muita coisa”, aponta.

Se fizer isso num país inteiro, mudamos a escala da equação energética, ele avalia. “Isso é possível hoje: são tecnologias disponíveis, fáceis de aplicar e não muito caras, com retorno sobre o investimento que se torna positivo em alguns anos. Basta mudar gradativamente o que tem sido feito nos últimos anos”, completa.

Nem todas as organizações estão dispostas a mudar seus processos, e a falta de transparência sobre a divulgação da pegada ambiental é um sintoma disso. Dos milhões de empresas que existem no mundo, apenas 8 mil divulgaram os dados sobre suas emissões de gás carbônico para a organização sem fins lucrativos CDP. Em 2019, aliás, houve um aumento de 20% no número de empresas reportando informações. Do total, 179 organizações foram consideradas líderes, nota A, por conta da exposição clara de seus dados climáticos, seus riscos, sua governança climática e boas práticas. Apenas uma minoria, porém, apresenta planos para redução no médio e longo prazo.

Boa parte das ações em busca de salvar o planeta Terra tem a ver com convicções pessoais e motivações de CEOs comprometidos em deixar um legado. É o caso da engenheira Tania Cosentino, que, em 2017, como principal executiva da Schneider Electric, foi escolhida pelas Nações Unidas uma das dez executivas que trabalharam com seus negócios em prol do meio ambiente e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Hoje, como presidente da Microsoft Brasil, ela lança mão também de tecnologia para gerar impacto e desenvolvimento econômico. “No mundo tem 1 bilhão de pessoas sem acesso à energia elétrica, e quase 1 bilhão praticamente abaixo da linha da pobreza. Ao incluir essas pessoas para que tenham uma vida mais digna, com trabalho e conforto, não tem como não emitir mais carbono do que hoje, quando elas não têm acesso a nada. Por isso é importante criar as condições para incluir esse 1 bilhão de pessoas sem trazer mais impacto para o planeta”, analisa. Tania defende o uso dos ODS para avaliar o progresso e a evolução dessa agenda planetária.

Há hoje um consenso entre a comunidade científica internacional de que a atividade humana liberou mais de 2 trilhões de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera desde o início da Primeira Revolução Industrial, em 1750. Mais de três quartos disso é dióxido de carbono, e a maior parte foi emitida a partir de 1950. É mais carbono do que a natureza pode reabsorver, e todos os anos a concentração desses gases aumenta. Depois que entra na atmosfera, o excesso de carbono pode levar milhares de anos para se dissipar. Diante desse quadro, os especialistas em clima concordam que para enfrentar esses desafios será necessário uma abordagem agressiva e o desenvolvimento de novas tecnologias. O mundo, argumentam, deve tomar medidas urgentes para reduzir as emissões, e remover tanto carbono quanto emite a cada ano.

Para responder a esse chamado, a Microsoft anunciou um ambicioso plano de se tornar negativa em carbono em uma década. Até 2050, a empresa de tecnologia se comprometeu a remover do ambiente sua pegada ecológica, compensando todo o carbono que emitiu diretamente ou por seu consumo elétrico desde que foi fundada, em 1975, por Bill Gates. “Agora vamos incorporar as emissões dos nossos fornecedores também, investindo no desenvolvimento de soluções para clientes e parceiros”, explica Tania. Uma de suas ferramentas digitais para colaboração e trabalho à distância, o Teams, visa reduzir o número de viagens e aproximar os times, que podem trabalhar em um mesmo arquivo digitalmente. “A missão da tecnologia é ajudar pessoas a conquistar mais, preservando nosso planeta. E isso é possível com as novas técnicas de inteligência artificial”, avalia a presidente da Microsoft.

Salvar o mundo não é algo que um indivíduo, empresa ou governo possa fazer sozinho. Realmente precisamos dos governos, da academia, do setor privado, das ONGs e da sociedade civil, tudo isso combinado, diz. “Qualquer empresa pode gerar impacto em pelo menos um dos ODS. Se cada organização tiver essa consciência, teríamos um planeta melhor”, diz a presidente da Microsoft. Em dezembro de 2017, a empresa anunciou investimento de US$ 50 milhões para o programa AI for Earth, para financiar projetos que visam enfrentar os desafios ambientais do planeta com inteligência artificial.

Dono de uma das maiores fortunas do mundo, Jeff Bezos, da Amazon, também anunciou em final de fevereiro um fundo de US$10 bilhões para enfrentar as mudanças climáticas. A gigante de comércio eletrônico tem questões internas para resolver também. A empresa tem sido acusada de criar grande quantidade de resíduos com suas embalagens, além de ser grande emissora de gases de efeito estufa por conta das entregas de seus produtos em domicílio.

Em escala global, no entanto, o impacto da pressão dos investidores ainda não é suficiente. Em entrevistas individuais aos pesquisadores do Boston Consulting Group e do Fórum Mundial de Davos, os CEOs explicam que a pressão para entregar resultados de curto prazo excede em muito as demandas pela descarbonização no longo prazo. “A menos que essa tendência mude, os CEOs terão pouco incentivo para tomar ações decisivas”, apontam os autores do relatório. Sustentabilidade, diversidade e inclusão, lembra a presidente da Microsoft Brasil, não são apenas para empresas ricas. “Sustentabilidade é uso racional de recursos, portanto, é dinheiro”, afirma. Se não souber por onde começar, basta ler as metas de desenvolvimento sustentável, ou os princípios de empoderamento da ONU Mulheres. Ali está o caminho para um mundo melhor, aponta.

Nem sempre a reação do mercado de capitais e investimento é positiva. Em 2007, quando a empresa brasileira de cosméticos Natura iniciou seu projeto para neutralizar as emissões de carbono e investir em ingredientes da biodiversidade amazônica, suas ações despencaram. Para os acionistas, falou mais alto a perspectiva de risco que aquela estratégia representava. “Se 13 anos atrás esse tipo de coisa causava estranhamento, hoje é uma busca nas estratégias das empresas, e nos investidores”, diz João Paulo Ferreira, CEO da Natura & Co Latam. “Gerar impacto positivo ambiental e social faz parte do modelo de negócios da empresa, e pressupõe a prosperidade nas gerações futuras”, diz o executivo. Hoje a empresa tem o maior valor da sua história, comprou a marca Body Shop em 2017 e no ano passado assumiu o controle da Avon.

A Natura tem atuação em três grandes pilares: clima e proteção ambiental, resíduos sólidos e ação social. Pela compra de ingredientes da Amazônia, a empresa calcula que contribui para a conservação de 1,8 milhão de hectares de floresta, gera renda para mais de 4,6 mil famílias da comunidade local, em um volume de negócios que ultrapassa R$1,5 bilhão. Ao manter um terço de seus produtos com opção de refil, a companhia estima que, por ano, deixam de ir para o lixo 31 milhões de garrafas plásticas e 1,7 milhão de embalagens de vidro. “Não tenho dúvidas de que a atuação socioambiental é talvez a maior fonte de diferenciação da Natura, o maior motor de inovação da empresa, transformando desafios socioambientais em oportunidade de negócios, num ciclo virtuoso”, avalia João Paulo.

“Empresas têm por objetivo gerar valor não apenas para acionistas, mas para todos os stakeholders, a saber, consumidores, governo, colaboradores e fornecedores”, diz o presidente da Natura & Co. “Maximização do retorno para o acionista no curto prazo não é o objetivo final da empresa, e sim a maximização de valor para a sociedade”, afirma. No tema dos resíduos sólidos, no entanto, o Brasil anda a passos lentos. Boa parte dos esforços da Natura no momento se deve à formação de parcerias para construir cadeias de logística reversa, com a organização de cooperativa de catadores para reaproveitar resíduos e embalagens pós-consumo. “O grande desafio é tornar essas boas práticas políticas públicas, em padrões de atuação para empresas e sociedade”, diz.

Estimular novos comportamentos é uma das missões mais importantes para uma economia de baixo carbono. “O planeta não precisa do ser humano. Nós é que precisamos dele. Precisamos continuar a fazer o bem para o planeta, e atrair pessoas interessadas em trabalhar conosco”, diz o italiano Andrea Crisanaz, CEO da Generali Brasil. Pela segunda vez, o conglomerado italiano fundado em 1831 foi eleito uma das cem empresas mais sustentáveis do mundo pelo Corporate Knights. “Nosso papel é incentivar mudanças de comportamento”, diz o executivo nascido em Trieste, onde fica a sede da Generali.

Um dos produtos experimentais da companhia foi um seguro personalizado, para os novos desafios urbanos. Nesse produto, o que está assegurada é a mobilidade da pessoa, que pode fazer uma parte do percurso a pé, de skate, metrô ou patinete. “Essa modalidade de seguro vai além do carro, protege a pessoa em sua mobilidade como um todo, e incentiva o uso de transporte mais sustentável. É para a pessoa que usa o carro, outras vezes vai de aplicativo, ônibus, patinete”, diz o executivo.

Em sua nova sede, no Porto Maravilha, no centro do Rio de Janeiro, a seguradora tem bicicletário, estimula vários meios de transporte e ainda substituiu as lixeiras individuais por cestos compartilhados com coleta seletiva.

Outro exemplo de mudança de atitude é o conceito de trabalho inteligente, que permite aos funcionários trabalhar um ou dois dias por semana de casa. “No Brasil, abraçamos esse projeto em 2019, e este ano planejamos que 150 de nossos 400 funcionários participem dele. Trabalhar de casa permite reduzir o tempo de locomoção no próprio veículo ou no transporte público, e reduzir o efeito d a contaminação de combustíveis”, explica Andrea Crisanaz.

A seguradora italiana acaba de criar um seguro para estimular o motorista a não usar o carro. O seguro totalmente digital premia o motorista que dirige bem e pouco, só quando é necessário, explica Crisanaz. Por intermédio de um aplicativo baixado no celular, e a partir do cálculo do GPS, a cada 400 quilômetros é feita uma avaliação da frequência de acelerações, frenagens e distância percorrida. O cliente paga uma assinatura mensal, como se fosse um serviço de TV, e a esse valor é acrescido um adicional por quilômetro percorrido. “Esse adicional é menor se o motorista dirige bem, se acelerar e frear de modo regular, o que tem como efeito reduzir o número de acidentes, consumir menos combustível e contaminar menos a atmosfera”, explica o principal executivo da seguradora no Brasil.

Desde 2018, o grupo italiano, com 61 milhões de clientes no mundo, optou por usar energia elétrica proveniente de fontes renováveis. Hoje, 88% da demanda energética dos 71 mil funcionários em mais de 40 países vem de fontes limpas de energia. “Há outros indicadores estratégicos, como a emissão, em setembro de 2019, do primeiro título verde do setor de seguros do mercado europeu, com valor de € 750 milhões. A meta até 2021 é conseguir € 4,5 bilhões em investimentos verdes”, explica o executivo da Generali no Brasil.

Diante da morosidade dos governos em avançar em suas agendas em prol do planeta, o setor produtivo parece ter se dado conta do imperativo moral e da responsabilidade que tem para salvar o planeta, literalmente. A reunião de Davos, em janeiro de 2020, sinalizou também para um ponto de inflexão na agenda dos negócios e do poder, explica Mauricio Adade, principal executivo da empresa química holandesa DSM na América Latina. Frequentador das reuniões no resort suíço desde 2015, ele conta que pela primeira vez houve compromisso e colaboração de todos os setores e agendas diferentes para enfrentar as mudanças climáticas, que não serão reversíveis a não ser que todos atuem juntos. “Davos não reúne apenas políticos, CEOs de companhas privadas e ONGs, mas congrega todas as lideranças de todos os setores da sociedade, que se encontram em discussões para buscar soluções de médio e longo prazo para o que acontece no mundo”, ele resume.

“Não temos mais tempo, e a mudança climática mostrou que não estamos no caminho certo”, avalia o executivo. A Terra está mais quente a cada ano, o gelo das calotas polares está derretendo, o nível dos oceanos aumenta, e as águas estão inundadas de plástico e produtos tóxicos. Perdemos espécies animais, e os níveis de gás carbônico que agravam o efeito estufa sobem a cada ano. “Impossível uma companhia de sucesso em um mundo desaparecendo e com muitos problemas”, diz Adade.

Há 12 anos, a DSM adotou a sustentabilidade como seu viés de atuação estratégica, com produtos e soluções na área química e nutrição. Na mais recente revisão de sua estratégia, em vez de buscar megatendências de mercado, as lideranças da empresa decidiram usar como guia os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. “Escolhemos cinco objetivos como pano de fundo para o crescimento com geração de valor – fome zero e agricultura sustentável (ODS 2), saúde e bem-estar (ODS 3), energia limpa e acessível (ODS 7), consumo e produção responsáveis (ODS 12) e combate às alterações climáticas (ODS 13)”, enumera.

A indústria química descobriu um nicho para lucrar e fazer o bem ao planeta com tecnologias para a proteína animal. Desenvolveu um suplemento alimentar, apelidado de vaca limpa, que ao ser agregado à alimentação do gado de corte e de leite, diminui a emissão de gás metano em até 30%. Chamada Bovaer, a tecnologia consumiu 20 anos de pesquisa, e aguarda aprovação da agência de vigilância sanitária europeia para ser lançada comercialmente. Outro exemplo de sua atuação foi a criação da joint venture Veramaris, que, a partir da fermentação de algas, substitui o uso de óleo extraído de peixes capturados na natureza para produzir uma solução com ácidos graxos ômega-3 para alimentar o salmão em cativeiro. Tem ainda uma parceria com o governo de Ruanda, na África, para produzir alimentos fortificados e diminuir os problemas relacionados à desnutrição.

Antiga indústria de carvão, a DSM desenvolveu também o fio branco dos carregadores de celular da Apple, que não libera gases cancerígenos ao ser incinerado no final de seu ciclo de vida. Em 2018, a empresa reuniu os cerca de 500 funcionários na sede em São Paulo, em um dos prédios mais sustentáveis da América Latina, diz Adade. “O prédio tem vidros duplos, o que melhora entre 30% e 40% a eficiência do ar condicionado e permite a passagem da luz solar. Toda a água da chuva é reaproveitada, e o edifício tem opção para carro elétrico e bicicletário”, conta. Um dos novos projetos da empresa é uma embalagem para queijos, desenvolvida por uma membrana plástica permeável. “Considerando que um terço dos alimentos no mundo se perde no processo, desde o transporte até chegar ao prato, esse tipo de embalagem pode reduzir a pegada de carbono do queijo em até 10%”, calcula Adade.

Reduzir perdas a partir do uso de tecnologia, inovação e eficiência é uma saída para diversos setores. No Brasil, em média, dois em cada cinco litros de água tratada se perdem no caminho, na distribuição até o consumidor. “A infraestrutura é antiga, há vazamentos na tubulação, e entre captar água num manancial ou rio e ela chegar até a casa do cliente, perde-se algo em torno de 40%, ou seis reservas do sistema Cantareira por ano”, estima Teresa Vernaglia, CEO da BRK Ambiental, empresa privada que fornece infraestrutura para água e saneamento básico. Em alguns estados brasileiros, ela conta, o desperdício é de 70%. “De balde não se perderia tanto”, completa.

“O setor de saneamento e água no Brasil está certamente no século passado, e 100 milhões de pessoas, ou metade da população, não têm acesso a esgotamento sanitário”, ela afirma. Todos os anos são lançadas dezenas de piscinas de esgoto sem tratamento nos rios e mananciais do país. O quadro de tragédia se completa com 35 milhões de brasileiros sem acesso a água tratada. “Esse número representa a população inteira do Canadá, para se ver a dimensão do atraso em que vivemos”, compara a executiva. Como resultado, 15 mil pessoas morrem por ano por doenças de veiculação hídrica, que poderiam ser evitadas.

“O Brasil evoluiu em muitos setores. Temos uma matriz energética limpa porque grande parte da geração ainda é hidrelétrica, e os carros elétricos começaram a chegar às ruas, mas vivemos uma realidade triste no saneamento”, diz Teresa, nomeada porta-voz do Pacto Global da ONU para o tema de água e esgoto. Faltam investimentos, diz Teresa. No país todo, em 2018, a executiva da BRK Ambiental conta que os investimentos em infraestrutura foram da ordem de R$ 110 bilhões, incluindo rodovias, aeroportos, telecomunicações, energia e saneamento. “Quando se olha para o saneamento, que tem essa lacuna gigantesca a ser preenchida, o investimento foi da ordem de R$ 10 bilhões, menos de 10% do total”, ela calcula.

“O saneamento é um setor intensivo em capital, e hoje 94% da população é atendida por empresas públicas”, explica Teresa. Apenas 6% do esgoto do país é tratado por empresas privadas, como a BRK, que respondem por 30% do investimento. Apesar das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas apontarem para a possibilidade de garantir acesso universal à água e ao esgoto tratado, na prática não é o que ocorre. “O Brasil definiu a data de 2033 para universalizar o acesso ao esgotamento sanitário, e para isso seria preciso haver investimento de R$ 15 bilhões ao ano. Em média, o valor ficou muito aquém, não chegou a R$ 10 bilhões ao ano. Significa que se quisermos manter o ano de 2033 como meta de universalização de esgoto, estamos falando em mais de R$ 20 bilhões de investimento anual”, explica. O mundo mudou, diz Teresa. “As novas gerações são muito conscientes, e a criança de 10 anos de hoje será nosso cliente daqui a dez anos. Preciso estar conectada com essa população. A empresa que não entender isso ficará para trás.”

COWBOYS E ASTRONAUTAS

No artigo Da empresa cowboy à astronauta, o consultor Aron Belinky recorre ao economista Kenneth Boulding para explicar a importância da transição de um sistema de produção e consumo que opera baseado na possibilidade irreal de expansão ilimitada (a empresa e/ou economia cowboy) para outro, que considera os limites do crescimento e a finitude dos recursos existentes (a empresa e/ou economia astronauta).

AS MAIORES PEGADAS DE CARBONO

100 cidades respondem por 18% das emissões globais de gases de efeito estufa no mundo (em milhões de toneladas de C02

ENTRE O DISCURSO E A PRÁTICA

Relatório do Fórum Econômico Mundial examina o compromisso de corporações, investidores, governos e sociedade civil com o clima

AS MAIS SUSTENTÁVEIS DO MUNDO

O ranking da Corporate Knights classifica as empresas pelo desempenho em sustentabilidade, com base em dados públicos disponibilizados pelas companhias. A lista é feita a partir da avaliação de 65 indicadores não só ambientais, mas também sociais e econômicos. É interessante notar que nem a empresa mais sustentável, localizada em um dos países localizados na região do mundo mais comprometida com a perenidade, alcança 90% da pontuação geral.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EM BUSCA DE UM EQUILÍBRIO

É notória a crescente violência e agressividade no convívio social. Os seres humanos estão sem ponderação em todas as suas relações na atualidade

Não aguentamos mais ligar a televisão e nos deparar com uma reportagem sobre uma pessoa que, diante de uma situação qualquer, perdeu o equilíbrio. Há pouco tempo, na capital paranaense, um sujeito, cansado de tentar trocar urna máquina de lavar que apresentava defeitos, levou o eletrodoméstico para a frente da loja e, numa crise de total descontrole, destruiu a máquina a machadadas.

Cenas como estas se tornam cada vez mais comuns nas cidades. Vemos isso nas filas de supermercados, bancos e nas diversas situações da vida – pessoas, supostamente cansadas de esperar ou de cobrar por algo, perdem a cabeça e partem para agressões verbais, físicas e psicológicas.

Nas redes sociais o problema é ainda maior, pois há quem acredite estar incógnito diante das pessoas e, nesse caso, os critérios de agressão são de selvageria absoluta. Mas, diante de tantas constatações, nos perguntamos: O mundo está louco? As pessoas estão perdendo o equilíbrio?

De fato, presenciamos hoje cenas de agressão como em nenhuma outra época da era moderna. Sabemos das guerras, das barbáries e dos massacres humanos, isso é fato. Mas me refiro aqui à violência e agressividade do convívio social, das relações diárias entre os pares, seres humanos. Nunca houve tantos casos de violência e agressividade contra a mulher – feminicídio – como os que estamos vendo. Crianças e idosos padecem das mesmas condições e isso está claro em todos os números de saúde pública. O pai não dá conta do filho e o agride. A filha não dá conta da mãe e a agride e quem é agredido aprende a agredir. Assim o ciclo vai se ampliando e nós vamos construindo uma sociedade baseada na selvageria. Falta, de fato, coerência, equilíbrio e ponderação nas relações humanas da atualidade.

Poderíamos pensar ainda que o número de doentes mentais tem aumentado, isso também é fato. O uso de drogas potencializa o aumento desse quadro. Novas drogas, como ketamina ou special k, droga sintética de fabricação caseira a partir de um anestésico, geralmente usado por veterinários em cavalos, surgida há pouco tempo, tem ganhado espaço. Pessoas que têm uma dependência de droga são menos capazes de suportar, perceber, argumentar e dialogar. As drogas lícitas também têm aumentado. O uso de Ritalina, por exemplo, explodiu nos últimos 10 anos, no Brasil. Os medicamentos para controle de ansiedade também. E tudo isso funciona apenas como termômetro de que o ser humano está perdendo seu equilíbrio e esses “produtos” todos estão a serviço desta perda.

Alguns ainda creditam esse aumento dos quadros agressivos ao desmonte dos valores familiares e sociais – isso também procede. Se eu não tenho a percepção de que o outro tem seu espaço exatamente como eu tenho ou quero, ficam mesmo legitimadas a violência e a agressividade diante do conflito, e estes valores humanos de partilha, solidariedade, coletividade começam numa família, se ela não existe, onde começariam tais valores?

Por fim não posso deixar de lembrar aqui que há ainda o estresse, fator também preponderante nas cenas de agressão que vemos acontecer. Resumindo, todos esses quadros mostram a conclusão de que é urgente repensar as questões de violência e agressividade que permeiam nossa sociedade neste momento. Segundo a Psicanálise, a histeria é uma manifestação sintomática que faz parte da neurose. É marcada por uma atitude exagerada e escandalosa. A pessoa tem reações emocionais que beiram o teatral, são capazes de converter conflitos psíquicos em problemas físicos. O neurótico se mostra doente. É um convencimento alheio e de si mesmo que legitima, para o neurótico, o impulso de cometer a agressão – “Eu bati porque…”. Porém o mundo não é habitado apenas por neuróticos.

Tirando as questões patológicas da compreensão, porque elas necessitam de apoio médico e de programas governamentais para o combate, as questões que aqui muito me deixam apreensivo giram em torno da nossa postura diante do mundo. Se cada um de nós ao encontrar uma situação conflitante, ou em desacordo com o que pensamos, partir ligeiramente e diretamente para a violência física e também psicológica.

Nós precisamos reaprender as regras básicas para lidar com as boas e velhas frustrações. Uma criança não consegue viver com um não dado pelo pai diante do desejo dela de um novo celular. Assim como adultos não conseguem lidar com a frustração de não poder comprar o sapato, o carro ou a viagem que tanto desejavam e, assim, vamos de grupo em grupo observando o volume dos frustrados e pouco resolvidos cada vez aumentar mais. Par a conseguir reestabelecer o equilíbrio pessoal e social se faz urgente um exercício de resiliência e de busca por processos que nos façam lidar melhor com todas as frustrações normais e necessárias da vida.

Prof. Dr. GERALDO PEÇANHA DE ALMEIDA é psicanalista, educador e escritor. Autor de mais de 70 livros, dentre eles: Em Busca da Paz Interior, No Coração da Mente Livre, Meditações para Começar o Dia e Felicidade Sempre Viva. Fundador e diretor do Projeto Coração de Pólen – Centro de Tratamento, Estudo e Pesquisa na Área de Saúde Mental, em Curitiba.