GESTÃO E CARREIRA

ELAS QUEREM SALVAR O MUNDO

De fintechs a startups de mobilidade e energia, empresas atuam para evitar desperdícios e auxiliar na economia do baixo carbono

Uma onda de empresas criadas com novas narrativas, que têm a sustentabilidade como principal pilar de negócio, tem ganhado força. São startups que auxiliam na redução dos impactos socioambientais por meio de serviços ou produtos que evitam desperdícios e auxiliam na economia do baixo carbono. Essas empresas não ajudam apenas o ambiente, ajudam a economia em geral. De acordo com informações da ONU Meio Ambiente, com a implementação de políticas sustentáveis de consumo e produção, o crescimento do uso de recursos pode desacelerar em 25% até 2060, o PIB global crescer 8% (principalmente nos países de renda média e baixa) e as emissões de C02 registrarem queda de 90%. Só a indústria da moda, uma das mais agressivas e poluentes do mundo, por exemplo, pode gerar € 110 bilhões em valor se abordar questões ambientais relacionadas a água, energia, produtos químicos e resíduos, segundo o relatório Green is the new black, do banco britânico Barclays. Do contrário, € 45 bilhões de lucro estarão em risco até 2030.  Conheça a história de cinco startups que atuam nesse sentido.

ENERGIA LIMPA – E ECONOMICAMENTE ATRATIVA

Até 2019, as emissões de C02 relacionadas ao setor energético atingiram 33,3 giga toneladas (GT) de dióxido de carbono, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA). Em um ano, as emissões de países emergentes cresceram 400 milhões de toneladas. Em contrapartida, o biogás, alternativa para geração de energia elétrica em substituição ao gás natural, é mal aproveitado no Brasil: de acordo com a Associação Brasileira de Biogás e Biometano (ABio­gás), 97,72% é desperdiçado. É com o reflexo desse cenário que surge a startup gaúcha Luming Inteligência Energética, que desenvolve soluções de geração de energia a partir de biogás e gás natural. “Acreditamos que pautas econômicas e ambientais podem andar juntas a partir de sistemas inteligentes e de alta performance”, diz Rael Mairesse, sócio e head do negócio. Segundo ele, a Luming tem como propósito gerar energia de forma inteligente e sustentável, por meio da autoprodução no local onde é consumida. “A ideia é cuidar de todo o processo – desde a concepção do projeto, com a definição de tecnologias, até a solução de capital para sua implementação”, explica. Em 2018, a startup iniciou um projeto com a Ambev que tem como objetivo a compra de 100% de energia renovável e a redução de 482 toneladas por ano de C02 – o equivalente ao plantio de mais de 2,8 mil árvores. O projeto, que utiliza tecnologias de fora do Brasil e aproveita o biogás emitido por uma das etapas do processo de produção da cervejaria como fonte de energia, já foi implementado em quatro unidades de São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná. “Isso mostra que é possível ter metas agressivas também na questão ambiental”, diz Rael. Com sete projetos em operação no sul e sudeste, a empresa prepara expansão para o nordeste e conta com parcerias internacionais, como com a Capstone, da Califórnia, para o fornecimento de microturbinas.

CARTÃO DE CRÉDITO VERDE

“Transação negada! Você atingiu o seu limite de carbono”. Esta é a mensagem que o usuário do cartão de crédito DO Black recebe ao atingir seu limite mensal de C02. Criado pela fintech sueca Doconomy, em 2018, em parceria com a Mastercard e a Secretaria de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU), o cartão rastreia a quantidade de carbono emitida em cada transação e avisa quando o usuário excedeu o limite de C02 – não de dinheiro preestabelecido – na atmosfera. “A ideia é definir um preço real ao carbono e, com isso, mostrar o que realmente está por trás do custo do consumo”, diz Nathalie Green, CEO da fintech. Segundo ela, não se trata de interromper o consumo, o que é inviável, mas, sim, de torná-lo mais sustentável e conscientizar as pessoas sobre o impacto de suas compras e seu estilo de vida nas questões climáticas. Por meio de medição e rastreamento contínuos do carbono, os consumidores podem acompanhar como uma mudança de comportamento, ao longo do tempo, tem impacto climático. Os índices são calculados em conjunto com a Aland Index, que possui relatórios sobre as emissões de C02 de mais de 4 mil companhias no mundo todo, e com a World Bank’s Mitigation of Climate Change Working Group, instituição que calcula o custo social do carbono. “A partir do momento em que o consumidor pode, com facilidade, ver realmente o que está por trás do que consome, fica bem mais fácil observar uma mudança de comportamento e estilo de vida”, diz. Os primeiros cartões, que são feitos de bioplástico e impressos com tinta sustentável, foram apresentados ao mercado em dezembro último em um projeto piloto, e a perspectiva, de acordo com Nathalie, é lançá-lo em pelo menos mais dois países europeus ainda neste ano.

ENTREGAS DE BIKE A FURGÕES ELÉTRICOS

Até janeiro deste ano, a startup paulista Carbono Zero evitou a emissão de 860 toneladas de C02 em mais de 6 milhões de quilômetros rodados com bicicletas elétricas, convencionais e as chamadas cargueiras, que levam até cem quilos, e motos e furgões elétricos. Fundada em 2010, a empresa tem a singela intenção de mudar o mundo, como explica Leonardo Lorentz, sócio e gestor de entregas sustentáveis da startup. “Minha expectativa é que, daqui a 20 anos, 100% da logística seja feita de forma sustentável”, diz. Segundo ele, cada um deve contribuir como pode, seja auxiliando na limpeza de uma praça, seja no desenvolvimento de uma vacina, por exemplo. “Nós pensamos em auxiliar oferecendo às empresas a possibilidade de fazer as mesmas entregas, sem emissão de poluição”, diz. Para isso, aposta em diversos tipos de transporte, para não restringir as entregas apenas a pequenas quantidades. “O furgão elétrico, por exemplo, é capaz de levar, de uma só vez, 3 ,3 mil litros, cerca de dez vezes mais do que um carro de passeio”, explica. Na primeira rodada de captação de fundos, em 2015, a empresa levantou R$ 320 mil. Desde então, mais duas captações de equity crowd funding aconteceram, uma em 2016, de R$ 346 mil, e outra em novembro, de mais R$ 450 mil. “A Carbono cresce cerca de 43% ao ano. Na última avaliação de mercado, alcançamos os R$ 9 milhões, captação que começou em dezembro”, conta. Sem planos de expansão, por enquanto, para outros estados, o foco é aperfeiçoar o atendimento na Grande São Paulo. Este ano, por exemplo, a empresa fechou uma parceria com a Express Bikers, negócio de entregas sustentáveis do ABC Paulista. Hoje, mais de 500 companhias usam os serviços da Carbono Zero.

CARNE, MAS DE VEGETAL

Um estudo do Instituto de Agricultura e Política Comercial (IATP) e da organização ambientalista Grain mostra que se a indústria da carne continuar crescendo como o previsto, sua participação nas emissões globais de gases de efeito estufa aumentará para 27% em 2030 e para quase 80% em 2050. Tendo como pano de fundo a dimensão do mercado de carne bovina no Brasil – que é um dos maiores exportadores do mundo e o segundo em consumo – e de seu impacto no meio ambiente, a foodtech carioca Fazenda Futuro surgiu para disruptar o setor, como explica Marcos Leta, sócio fundador do negócio, o mesmo que fundou o Suco do Bem. “A ideia da marca é competir com os frigoríficos, não com a indústria de produtos veganos e vegetarianos”, afirma. Segundo ele, o maior público da empresa são as pessoas que gostam de carne e querem reduzir o consumo por questões como saúde, sacrifício animal e meio ambiente. “Já existe um movimento de as pessoas buscarem mais alinhamento ao lugar que vivem, às questões ambientais”, diz. Marcos explica que o que mais chamou a atenção dele e do sócio Alfredo Strechinsky foi a possibilidade de, por meio da tecnologia e do feedback dos clientes, poder chegar a uma fórmula em que as pessoas não conseguem perceber a diferença de uma carne de planta de uma de origem animal. “Isso quer dizer que elas vão comer de forma sustentável, sem abrir mão do que gostam”, diz. O executivo reforça que todo o processo é pensado de maneira sustentável – no impacto ambiental e nos gastos de C02.  “Mais de 80% dos ingredientes usados são do Brasil, com pouco gasto logístico. E a perspectiva é aumentar essa porcentagem no segundo semestre”, conta. Em sua primeira rodada de investimentos a empresa captou US$ 8,5 milhões, elevando seu valor de mercado para US$ 100 milhões, e no começo do ano começou o processo de exportação para a Europa. Até janeiro, a foodtech já vendeu mais de 3 milhões de hambúrgueres, ultrapassou 5 mil pontos de venda no Brasil e está presente em mais de 2 mil restaurantes e hamburguerias. “O objetivo é democratizar o plant based, entregando um produto mais próximo do gosto e da textura da carne”, diz.

MODA TRANSPARENTE

Vista por muitos anos como um mercado de luxo e pouco cuidado com a origem dos tecidos, por exemplo, a moda tem passado por grandes transformações à medida que os consumidores se preocupam, cada vez mais, com a questão do carbono emitido pelos produtos que compram. Segundo dados do fórum Global Fashion Agenda (GFA), no último ano, 52% dos executivos dessa indústria afirmaram que as metas de sustentabilidade foram um princípio básico em quase todas as decisões estratégicas. Como reflexo desse cenário, começam a aparecer empresas pautadas na questão ambiental, como a startup carioca Modaly, que tem como base incentivar o consumo consciente, reduzir o impacto ambiental que a moda gera e aumentar a circulação de produtos sustentáveis e éticos. “A ideia é ser um portal da transparência da moda, com opções de fornecedores éticos e sustentáveis em cadeia”, diz Kaio Freitas, fundador da empresa. Segundo ele, trata-se de um mercado muito fechado, com pouca troca e dicas de mão de obra, o que pode dificultar na concepção de novos negócios. A startup atua em duas frentes. A primeira é por meio do site. Lá é possível buscar fornecedores – de matéria-prima a modelistas e cooperativas, com filtros como apoio a grupos vulneráveis, zero desperdício, orgânicos, feitos no Brasil, reciclados e biodegradáveis. A segunda é uma espécie de consultoria, em que o empreendedor pode solicitar uma busca mais refinada, com nomes e opções de orçamento. “O que mais me motiva é saber que existe um propósito por trás do que estou fazendo. No fim das contas, ajudamos uma marca a fazer uma escolha melhor – para o negócio, para as pessoas e para o planeta.”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.