A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POLÍTICA E TANATOS

A maioria esmagadora se julga dona da verdade. A única diferença é que uns assumem isso para si e outros não. Os que não assumem são pessoas que não estão muito preocupadas em serem éticas consigo mesmas

O texto a seguir trata da articulação das ideias apreendidas e debatidas em sala de aula pelo autor, quando de seu período como aluno graduando em Psicologia, na Faculdade de Psicologia da Universidade Federal Fluminense, entre os anos de 2004 e 2013. Essas ideias foram concebidas e articuladas em sala nas aulas das disciplinas do professor Valmir Sbano, do curso de graduação em Psicologia da UFF, nas disciplinas Psicanálise (no segundo semestre do ano letivo de 2004) e Teorias e Sistemas Psicológicos – disciplina também de conteúdo psicanalítico (no segundo semestre do ano letivo de 2012).

O artigo é o resultado de um trabalho de campo, construído em um processo de cognição social – isto é, de sua percepção do que seria essa suposta cognição coletiva em sala – feita nesta mesma sala de aula pelo autor, que se posicionava em sala não só como aluno mas também e principalmente como sujeito que se encontra em posição transferencial para o seu mestre (no caso, o professor), tendo como fundamentação teórica o pensamento político que o filósofo Michel Foucault usa em seu texto “Nietzsche, a genealogia e a História”, aplicado aos conceitos psicanalíticos de Política, Outro (a alteridade), Conflito e Tanatos (pulsão de morte).

A metodologia usada foi a utilizada pelo filósofo Gilles Deleuze em seu artigo “Rizoma”, de seu livro Mil Platas Capitalismo e Esquizofrenia, no qual usa o conceito de rizoma – a característica capilar e transconectiva da dimensão imanente da realidade – para pensar os fenómenos sociais. A característica simbiótica dos diferentes atores do plano dos acontecimentos (a sala de aula como campo de reflexão sobre os fenómenos sociais) não impede a emergência de conflitos, dada a utilização de uma fundamentação teórica foucaultiana para pensar os fenómenos sociais, na qual a questão do poder sempre está presente nas relações de intercâmbio entre saberes, linguagens, crenças, opiniões, verdades etc., considerando o caráter sempre histórico e político dos saberes compartilhados coletivamente.

Considerando ainda a postura de pesquisador de campo do autor, que utiliza uma forma de cognição social que, para a Psicanálise, também é inconsciente, e considerando também o caráter transferencial da atenção desse mesmo autor, na qualidade de um aluno que coloca o professor no lugar do Suposto Saber, toda forma de mapeamento do plano dos acontecimentos se passa de forma inconsciente, o que, pela leveza da técnica da associação livre das ideias, leva a uma sequência de palavras e frases que não se dá ao acaso, aparecendo aí e, justamente por isso, um discurso também atravessado pela metáfora e pela metonímia, antes de ser traduzido em linguagem escrita. Considerando seu método, o autor vai para campo com a metodologia de Deleuze – isto é, tentando dissolver seu ponto de vista enquanto observador -, mas enquanto sujeito encontra-se em sala de aula atravessado por relações de poder (como considera Foucault), amor (desejo) e ódio (como considera a Psicanálise): ele na verdade descobre que se encontra submetido à castração da linguagem e a uma entropia interna que lhe é estrutural.

ESSÊNCIA

O que caracteriza o homem é justamente ele não ter uma essência, é ele ser capaz de subverter, trapacear o instituído que forja, trama normatividades, que diz o que é e como devemos ser para sermos “livres”. É o instituído que naturaliza a liberdade, a coloca em uma origem mítica, um passado remoto, que supostamente falaria de nossa natureza, do que é desejar e até do que é recusar. Ser humano é subverter, e subverter dá trabalho… por isso o intolerante quer a morte do conflito, a morte do desejo.

A intolerância é algo inerente à estrutura da cultura. Toda cultura, todo campo de valores, é constituído por inclusões e exclusões não só de valores, mas de hábitos, costumes, crenças, perfis de visão de mundo… como diz Freud, toda cultura é baseada no amor entre “iguais”, e todo amor é baseado no ódio: “Nós sim… os outros não!”. Isto é, “estamos unidos porque lutamos contra os outros!”. Ou seja, contra o Outro, aquele que nos lembra algo inconveniente: que temos limitações, quais são essas limitações e que só “sou” o que sou devido a essas singulares limitações.

Dois cidadãos querem mudar o mundo. Um tem um projeto de um Deus que prega a heterossexualidade, a defesa da família hetero-normativa, a obediência cega às autoridades, não participar de sindicatos etc., um outro cidadão é filho de um Deus que prega a liberdade na sexualidade, contestação da legitimidade das autoridades, participa de sindicatos, se rebela contra o arrocho salarial do patrão… é possível haver respeito entre esses cidadãos! Em uma sociedade de líderes brutamontes, se um respeitar o ponto de vista do outro, ele automaticamente muda de ponto de vista.

Não nos deixemos iludir. A maioria esmagadora de nós se julga dona da verdade. A única diferença é que uns assumem isso para si e outros não. Os que não assumem são pessoas que não estão muito preocupadas em serem éticas consigo mesmas, não levam a vida tão a “sério”, e assim o fazem porque no fundo não são comprometidas com nada, dão à própria vida um tom prazeroso de irresponsabilidade. É mais fácil viver assim, além do que se é tido como alguém maduro, adulto, vivido. Adoramos uma pitada de cinismo para que esse cinismo nos dê um tom sisudo de alguém bem resolvido.

Ser o dono da verdade é, justamente, isso, é ser alguém que tem a coragem de dizer: “A natureza humana é assim” ou “A natureza humana não é assim” ou “A natureza humana não existe” ou “A natureza humana é uma construção”, e dizer isso, ainda assim, é falar de uma natureza, ainda que fajuta. Isso é algo megalômano, mas a mente humana, s6 por ser constituída pela linguagem, é por concepção megalómana. Precisamos dar um estatuto de coisa ao que dizemos e pensamos para poder fazer referência ao que não compreendemos, que vem a ser tanto o Outro, a diferença, quanto isso que insistimos em chamar de natureza, que queremos impor ao outro como aquilo que nos torna iguais, irmãos.

Falar sobre a natureza humana ou ausência de natureza humana é o mesmo que assumir uma postura política, ainda que essa postura política esteja para além de partidos, sindicatos, ideologias e filosofias sociais, religiosas, pedagógicas, culturais, científicas, esotéricas. Falar sobre o que o homem é ou deixa de ser é um ato político. E abster­se de dizer, ou ainda não se importar com isso, também constitui uma posição política. Reconhecer isso envolve riscos, o risco de se deparar com o Outro, isto é, o risco de ser repudiado, criticado, aviltado, menosprezado. Nosso desamparo está flagrante a todo momento, a toda nossa volta.

Falar sobre uma natureza humana ou sobre o que é próprio do humano é uma megalomania, já é estar com a postura da intolerância de alguém que diz: “Seja assim!”. Do contrário, você ou é marginal, criança, louco, comunista, anarquista, sonhador, otário, aliás temos também uma outra ditadura rolando por aí: a ditadura do malandro. O brasileiro – enquanto um sujeito que é o resultado do agenciamento de muitas e diversas civilizações – tem muita mania de acharque o Outro se acha malandro, se acha mais esperto do que ele. Vejam, não é que ele ache o outro mais esperto não, ele achaque o outro se acha mais esperto! A preocupação não é com a felicidade do Outro, ou com o que o Outro pode fazer para me prejudicar, a preocupação é saber o que esse Outro sabe de mim que eu mesmo não sei. Afinal, “posso ser pego de surpresa por esse Outro fazendo afirmações mais do que reveladoras a meu respeito”.

Afirmações mais do que reveladoras a meu respeito; o que poderia ser isso? São aquelas declarações que nos lembram que não temos, a princípio, uma essência nem humana, nem personificada e que nos diz: “Lembra o que você achava de si mesmo naqueles momentos de fracasso? Que você não é alguém especial”. E não é mesmo, você não é especial, alguém que veio ao mundo para cumprir uma missão de tal ou qual nobreza, você é que tem que se fazer alguém especial, a especialidade é uma luta, uma guerra que temos que travar com o Outro, com a alteridade, com a diferença, com aquela marca primordial que me constituiu, que me fez ser quem sou.

RESULTADOS

O que nos torna humanos não é compartilharmos uma linguagem supostamente ou pretensamente universal, ou telepática, clariaudiente ou clarividente; também não é apenas o fato de orarmos pelo próximo ou para nos religarmos com um criador; não é fazermos filantropia para apagar nosso sentimento de culpa – nada contra a filantropia, a menos que ela nos faça sentir especiais, sem dar uma justificativa para isso.

Trata-se de algo que vem antes disso. Não é sermos criatura, é sermos artesãos; artesãos de novas formas de mundo, de novas formas de existência, de novas formas de ciência, arte e organização social, de política. O que nos torna humanos é justamente essa linguagem frágil, metafórica, metonímica, que tenta desajeitadamente dar conta de simbolizar nossos “demónios” interiores, nossos gritos silenciosos e inefáveis, rebeldes à significação, à tentativa de tamponar esse ímpeto visceral que nos angustia.

Não há uma civilização que tenha sido supostamente erigida para se contrapor à barbárie das relações sociais. A barbárie é interna a cada indivíduo, ela é constitutiva do Sujeito, isto é, ela é estrutural. O que também nos torna humanos é o medo da morte, mas não um medo da morte qualquer, mas um medo da morte que ingenuamente se crê rebelde; que crê que conseguir acreditar em uma vida no além faz de nós ora mais inventivos, ora mais corajosos, ora aqueles que subverteram um destino natural. E estamos dispostos a fingir a todo custo e até o fim que não temos medo dela, de que não duvidamos nem um pouquinho da existência no além-túmulo.

Esse ímpeto angustiante que nos dá a sensação de que o mesmo veio do nada, está no nada e que irá para o nada nos coloca à deriva em uma existência que será nossa perdição ou nossa salvação: perdição se nos entregarmos docilmente ao gozo da “morte”, tanatos – o infeliz impulso para a autodestruição; será salvação se optarmos pelo trabalho de elaboração. Salvação é domarmos nossos “demónios” interiores. O “demónio” quer a destruição, pois a destruição leva à morte, e a opção inconsciente pela morte nada mais é do que mais uma forma de paz. Quem realmente fez uma opção quer a vida, pois a vida é guerra.

LUIZ MARCELLO DE AGUIAR – é psicólogo, clínico formado pela Universidade Federal Fluminense – UFF. Teve participação como aluno especial no Mestrado em filosofia na Pós-graduação em Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGFIL/UERJ e atuou como orientador na disciplina de Teorias e Técnicas Psicoterápicas (disciplina de conteúdo psicanalítico) na Faculdade de Psicologia da Universidade Federal Fluminense – UFF. E-mail.: lmarcellodeaguiar@hotmail.com

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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