OUTROS OLHARES

O BRASIL TENTA RESPIRAR

Entre novos aparelhos e equipamentos em manutenção, País precisa de 15 mil ventiladores pulmonares para combater a pandemia

Na última semana, o Brasil bateu recordes de mortes diárias e o número de infectados por coronavírus ultrapassou os 16 mil casos. Com UTIs cheias e alguns hospitais de campanhas ainda a caminho, começam a faltar instrumentos essenciais para a manutenção da vida. O País corre contra o tempo para obter 15 mil ventiladores pulmonares mecânicos estimados pelo governo para dar conta da fase atual da pandemia. Hoje, segundo o Ministério da Saúde, existem 65.411 aparelhos no País, 46.663 deles no Sistema Único de Saúde (SUS). Do total, porém, 3.639 estão em manutenção ou ainda não foram instalados.

Há projetos promissores sendo desenvolvidos nas universidades brasileiras. O grupo de pesquisadores batizado de Inspire, da Escola Politécnica da USP, produziu um protótipo com tecnologia nacional a um custo mais baixo, saindo por R$ 1 mil, ante os R$ 15 mil cobrados no mercado. O Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano, também tem um projeto em parceria com a Mercedes-Benz a um custo de R$ 300 por cada aparelho, mas ainda aguarda a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O Ministério da Saúde também vai consertar respiradores em manutenção. Uma parceria com as empresas Magnamed e Flextronics prevê a entrega de dois mil aparelhos esse mês e mais 4.500 até agosto, totalizando 6.500 unidades. As montadoras de automóveis também farão parte da força-tarefa – o SENAI fornecerá cursos de capacitação para seus funcionários. “Nossa equipe vai ajudar nesse momento difícil”, diz o gerente de tecnologia e inovação da GM na América do Sul, Carlos Sakuramoto. Segundo o diretor regional do SENAI em São Paulo, Ricardo Terra, há 90 aparelhos em manutenção em São Paulo.

FORÇA TAREFA

Para a Associação Brasileira de Indústrias de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o problema é que o Brasil depende da produção externa. “Por sorte ainda temos alguns fabricantes de válvulas, placas eletrônicas e sistemas. O País tem que entender que a saúde precisa estar no centro de políticas públicas de segurança. Hoje, quase 90% dos EPIs (equipamentos de proteção individual) são feitos pela China”, diz o diretor executivo de tecnologia da Abimaq, João Alfredo Saraiva Delgado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE ABRIL

LANÇAI FORA O VELHO FERMENTO

Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa… (1Coríntios 5.7a).

A Páscoa judaica foi instituída na noite da libertação. O cordeiro foi imolado e seu sangue aspergido no batente das portas. De igual modo, Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Isso tem a ver com nossa redenção. Nessa festa, o fermento deveria ser removido de todas as casas, e isso se relaciona à santificação. O fermento que leveda a massa é um símbolo do pecado que se infiltra na nossa vida e nos contamina. Não podemos participar da Páscoa com coração impuro, mente poluída e vida contaminada. Palavras sujas, atitudes grosseiras e pensamentos maus precisam ser banidos da nossa vida. Como vestes sujas, precisam ser despojados. Precisamos lançar fora o velho fermento, uma vez que somos nova massa. Recebemos um novo coração, uma nova mente, uma nova vida. Fazemos parte de uma nova família e temos uma nova pátria. Somos o povo de Deus, separado do mundo para sermos luz no mundo. Não podemos imitar o mundo, ser amigos do mundo nem amar o mundo. Não podemos conformar-nos com o mundo, para não sermos com ele condenados. Somos um povo santo, sem fermento, sem contaminação. Fomos salvos do pecado, e não no pecado. Fomos salvos para a santidade. Por isso, devemos andar em novidade de vida, de modo digno do evangelho, lançando fora o velho fermento.

GESTÃO E CARREIRA

O SHOW NÃO PODE PARAR?

Com o fechamento de teatros, museus, cinemas e casas de espetáculo, o setor da cultura pode sofrer um apagão de consequências dramáticas. sem público, a sobrevivência depende de crédito.

Entre as primeiras medidas anunciadas pela equipe de transição do governo Bolsonaro, ainda no final de 2018, estava a extinção do Ministério da Cultura. A pasta havia sido criada durante a presidência de José Sarney, em 1985. Como se sabe, além de político, Sarney é escritor e imortal pela Academia Brasileira de Letras. Já Bolsonaro tem pelas artes a mesma repulsa que o afasta da ciência e do conhecimento em geral. Tanto que, em novembro de 2019, ele transferiu o que restava da Secretaria da Cultura, já sucateada, para o Ministério do Turismo. Hoje sob comando da atriz Regina Duarte, a pasta tem função quase decorativa. Ainda que as leis de incentivo (como Rouanet e do Audiovisual) não tenham sido revogadas, a captação de recursos para a cultura por meio da renúncia fiscal, que vinha funcionando desde o início da década de 1990, ficaram inoperantes.

Foi nesse cenário de penúria, sem verba e sem perspectiva, que o setor da cultura recebeu seu mais duro golpe: a interrupção de quase toda a atividade devido ao isolamento social decorrente da pandemia de Covid-19. O fechamento de teatros, cinemas, casas de espetáculos e museus — medida necessária para conter o contágio — deixou sem a renda de bilheteria quem vive dessas formas de expressão artística, sejam empresários, produtores, atores, músicos, técnicos e até seguranças. “Esse segmento é o mais afetado pela quarentena. Foi o primeiro a fechar, porque aglomera pessoas, e será o último a reabrir, por não ser essencial”, diz Edgard Radesca, 73, diretor-geral do Bourbon Street Music, misto de bar, restaurante e casa de shows com 26 anos de existência. “Quando fomos obrigados a fechar, já havíamos vendido ingressos para vários dos shows da nossa programação. Alguns com lotação esgotada. Tivemos de devolver o valor e ficamos sem previsão de receita futura.” A sobrevivência depende agora exclusivamente de recursos que não virão do público pagante — mas deverão vir do poder público.

Segundo cálculo da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, a perda econômica do setor que responde por 3,9% do PIB estadual pode chegar a R$ 34,5 bilhões este ano, deixando 650 mil pessoas sem fonte de renda. Como forma de minimizar esse efeito devastador, o governo paulista anunciou na sexta-feira 27 um pacote de R$ 500 milhões em linhas de crédito subsidiadas (detalhes no quadro ao lado). “Queremos mitigar o impacto sobre o setor cultural e criativo para preservar a renda e o emprego, além de criar um cenário favorável para depois da crise”, afirma o secretário Sérgio Sá Leitão, que foi ministro da Cultura no governo Michel Temer. Para os pequenos produtores e empreendedores culturais, o Banco do Povo terá uma linha especial de até R$ 20 mil. E o limite de concessão de crédito sem avalista passa de R$ 1 mil para R$ 3 mil. “É uma excelente providência”, diz Radesca. “Precisamos ver como ela vai beneficiar quem precisa”, pondera, temendo que o dinheiro anunciado fique “empoçado”. A preocupação faz sentido. Um empreendedor do segmento que tentou obter capital de giro em uma das linhas emergenciais oferecidas pelo Desenvolve SP relatou, sob condição de anonimato, que as condições são demasiadamente rigorosas, impedindo o acesso de muitas empresas que estão descapitalizadas. É evidente que deva haver um controle rígido, já que se trata de dinheiro público. No entanto é preciso que haja alguma flexibilidade para impedir a falência generalizada do setor. “Estamos em tempos anormais. Os critérios de análise de crédito não podem ser um impeditivo para quem precisa de dinheiro de forma emergencial”, afirma.

RETORNO SOBRE INVESTIMENTO

Dados compilados pelo extinto Ministério da Cultura em 2018 revelam que cada R$ 1 investido em espetáculos musicais no País gerou R$ 8,25 de retorno. Há eventos que geram o dobro dessa média. O Festival de Inverno de Campos do Jordão (SP), em 2019, teve retorno de R$ 16,7 por R$ 1 investido. Na ponta do lápis, a cultura é um excelente negócio. “Sou um otimista permanente. Na minha visão, ao lado do problema existe uma oportunidade”, diz Radesca. “Neste caso, para empresas que queiram se associar ao histórico de 26 anos de sucesso do Bourbon Street. Seria muito legal ter um patrocinador na nossa reabertura.”

O QUE DIZ A DESENVOLVE SP

“A Desenvolve SP – o Banco do Empreendedor, agência de fomento do Estado de São Paulo, está atrelada a regras do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central. Compomos uma política de governo que tem como objetivo preservar a saúde da população, os empregos e a sustentabilidade da economia neste período de pandemia que atinge o mundo inteiro.

Atentos aos impactos desse momento adverso na Cultura, disponibilizamos condições especiais de crédito ao setor. Todas as condições de financiamento estão em destaque em nosso site, www.desenvolvesp.com.br, por onde é possível tirar dúvidas mais frequentes, simular o financiamento, além de solicitar o crédito.  Os critérios técnicos que reprovaram alguns pedidos não inviabilizam que esses empresários voltem a pleitear os financiamentos novamente após sanadas as pendências, de acordo com normas e legislações vigentes.

Informamos ainda que a Desenvolve SP faz parte da comissão que avalia os impactos econômicos do coronavírus em São Paulo e estamos trabalhando para aumentar o volume de crédito disponível. O Governo de São Paulo tem feito reuniões com bancos privados e outros setores da economia para ajudar a manter empregos e as empresas paulistas em atividade.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POLÍTICA E TANATOS

A maioria esmagadora se julga dona da verdade. A única diferença é que uns assumem isso para si e outros não. Os que não assumem são pessoas que não estão muito preocupadas em serem éticas consigo mesmas

O texto a seguir trata da articulação das ideias apreendidas e debatidas em sala de aula pelo autor, quando de seu período como aluno graduando em Psicologia, na Faculdade de Psicologia da Universidade Federal Fluminense, entre os anos de 2004 e 2013. Essas ideias foram concebidas e articuladas em sala nas aulas das disciplinas do professor Valmir Sbano, do curso de graduação em Psicologia da UFF, nas disciplinas Psicanálise (no segundo semestre do ano letivo de 2004) e Teorias e Sistemas Psicológicos – disciplina também de conteúdo psicanalítico (no segundo semestre do ano letivo de 2012).

O artigo é o resultado de um trabalho de campo, construído em um processo de cognição social – isto é, de sua percepção do que seria essa suposta cognição coletiva em sala – feita nesta mesma sala de aula pelo autor, que se posicionava em sala não só como aluno mas também e principalmente como sujeito que se encontra em posição transferencial para o seu mestre (no caso, o professor), tendo como fundamentação teórica o pensamento político que o filósofo Michel Foucault usa em seu texto “Nietzsche, a genealogia e a História”, aplicado aos conceitos psicanalíticos de Política, Outro (a alteridade), Conflito e Tanatos (pulsão de morte).

A metodologia usada foi a utilizada pelo filósofo Gilles Deleuze em seu artigo “Rizoma”, de seu livro Mil Platas Capitalismo e Esquizofrenia, no qual usa o conceito de rizoma – a característica capilar e transconectiva da dimensão imanente da realidade – para pensar os fenómenos sociais. A característica simbiótica dos diferentes atores do plano dos acontecimentos (a sala de aula como campo de reflexão sobre os fenómenos sociais) não impede a emergência de conflitos, dada a utilização de uma fundamentação teórica foucaultiana para pensar os fenómenos sociais, na qual a questão do poder sempre está presente nas relações de intercâmbio entre saberes, linguagens, crenças, opiniões, verdades etc., considerando o caráter sempre histórico e político dos saberes compartilhados coletivamente.

Considerando ainda a postura de pesquisador de campo do autor, que utiliza uma forma de cognição social que, para a Psicanálise, também é inconsciente, e considerando também o caráter transferencial da atenção desse mesmo autor, na qualidade de um aluno que coloca o professor no lugar do Suposto Saber, toda forma de mapeamento do plano dos acontecimentos se passa de forma inconsciente, o que, pela leveza da técnica da associação livre das ideias, leva a uma sequência de palavras e frases que não se dá ao acaso, aparecendo aí e, justamente por isso, um discurso também atravessado pela metáfora e pela metonímia, antes de ser traduzido em linguagem escrita. Considerando seu método, o autor vai para campo com a metodologia de Deleuze – isto é, tentando dissolver seu ponto de vista enquanto observador -, mas enquanto sujeito encontra-se em sala de aula atravessado por relações de poder (como considera Foucault), amor (desejo) e ódio (como considera a Psicanálise): ele na verdade descobre que se encontra submetido à castração da linguagem e a uma entropia interna que lhe é estrutural.

ESSÊNCIA

O que caracteriza o homem é justamente ele não ter uma essência, é ele ser capaz de subverter, trapacear o instituído que forja, trama normatividades, que diz o que é e como devemos ser para sermos “livres”. É o instituído que naturaliza a liberdade, a coloca em uma origem mítica, um passado remoto, que supostamente falaria de nossa natureza, do que é desejar e até do que é recusar. Ser humano é subverter, e subverter dá trabalho… por isso o intolerante quer a morte do conflito, a morte do desejo.

A intolerância é algo inerente à estrutura da cultura. Toda cultura, todo campo de valores, é constituído por inclusões e exclusões não só de valores, mas de hábitos, costumes, crenças, perfis de visão de mundo… como diz Freud, toda cultura é baseada no amor entre “iguais”, e todo amor é baseado no ódio: “Nós sim… os outros não!”. Isto é, “estamos unidos porque lutamos contra os outros!”. Ou seja, contra o Outro, aquele que nos lembra algo inconveniente: que temos limitações, quais são essas limitações e que só “sou” o que sou devido a essas singulares limitações.

Dois cidadãos querem mudar o mundo. Um tem um projeto de um Deus que prega a heterossexualidade, a defesa da família hetero-normativa, a obediência cega às autoridades, não participar de sindicatos etc., um outro cidadão é filho de um Deus que prega a liberdade na sexualidade, contestação da legitimidade das autoridades, participa de sindicatos, se rebela contra o arrocho salarial do patrão… é possível haver respeito entre esses cidadãos! Em uma sociedade de líderes brutamontes, se um respeitar o ponto de vista do outro, ele automaticamente muda de ponto de vista.

Não nos deixemos iludir. A maioria esmagadora de nós se julga dona da verdade. A única diferença é que uns assumem isso para si e outros não. Os que não assumem são pessoas que não estão muito preocupadas em serem éticas consigo mesmas, não levam a vida tão a “sério”, e assim o fazem porque no fundo não são comprometidas com nada, dão à própria vida um tom prazeroso de irresponsabilidade. É mais fácil viver assim, além do que se é tido como alguém maduro, adulto, vivido. Adoramos uma pitada de cinismo para que esse cinismo nos dê um tom sisudo de alguém bem resolvido.

Ser o dono da verdade é, justamente, isso, é ser alguém que tem a coragem de dizer: “A natureza humana é assim” ou “A natureza humana não é assim” ou “A natureza humana não existe” ou “A natureza humana é uma construção”, e dizer isso, ainda assim, é falar de uma natureza, ainda que fajuta. Isso é algo megalômano, mas a mente humana, s6 por ser constituída pela linguagem, é por concepção megalómana. Precisamos dar um estatuto de coisa ao que dizemos e pensamos para poder fazer referência ao que não compreendemos, que vem a ser tanto o Outro, a diferença, quanto isso que insistimos em chamar de natureza, que queremos impor ao outro como aquilo que nos torna iguais, irmãos.

Falar sobre a natureza humana ou ausência de natureza humana é o mesmo que assumir uma postura política, ainda que essa postura política esteja para além de partidos, sindicatos, ideologias e filosofias sociais, religiosas, pedagógicas, culturais, científicas, esotéricas. Falar sobre o que o homem é ou deixa de ser é um ato político. E abster­se de dizer, ou ainda não se importar com isso, também constitui uma posição política. Reconhecer isso envolve riscos, o risco de se deparar com o Outro, isto é, o risco de ser repudiado, criticado, aviltado, menosprezado. Nosso desamparo está flagrante a todo momento, a toda nossa volta.

Falar sobre uma natureza humana ou sobre o que é próprio do humano é uma megalomania, já é estar com a postura da intolerância de alguém que diz: “Seja assim!”. Do contrário, você ou é marginal, criança, louco, comunista, anarquista, sonhador, otário, aliás temos também uma outra ditadura rolando por aí: a ditadura do malandro. O brasileiro – enquanto um sujeito que é o resultado do agenciamento de muitas e diversas civilizações – tem muita mania de acharque o Outro se acha malandro, se acha mais esperto do que ele. Vejam, não é que ele ache o outro mais esperto não, ele achaque o outro se acha mais esperto! A preocupação não é com a felicidade do Outro, ou com o que o Outro pode fazer para me prejudicar, a preocupação é saber o que esse Outro sabe de mim que eu mesmo não sei. Afinal, “posso ser pego de surpresa por esse Outro fazendo afirmações mais do que reveladoras a meu respeito”.

Afirmações mais do que reveladoras a meu respeito; o que poderia ser isso? São aquelas declarações que nos lembram que não temos, a princípio, uma essência nem humana, nem personificada e que nos diz: “Lembra o que você achava de si mesmo naqueles momentos de fracasso? Que você não é alguém especial”. E não é mesmo, você não é especial, alguém que veio ao mundo para cumprir uma missão de tal ou qual nobreza, você é que tem que se fazer alguém especial, a especialidade é uma luta, uma guerra que temos que travar com o Outro, com a alteridade, com a diferença, com aquela marca primordial que me constituiu, que me fez ser quem sou.

RESULTADOS

O que nos torna humanos não é compartilharmos uma linguagem supostamente ou pretensamente universal, ou telepática, clariaudiente ou clarividente; também não é apenas o fato de orarmos pelo próximo ou para nos religarmos com um criador; não é fazermos filantropia para apagar nosso sentimento de culpa – nada contra a filantropia, a menos que ela nos faça sentir especiais, sem dar uma justificativa para isso.

Trata-se de algo que vem antes disso. Não é sermos criatura, é sermos artesãos; artesãos de novas formas de mundo, de novas formas de existência, de novas formas de ciência, arte e organização social, de política. O que nos torna humanos é justamente essa linguagem frágil, metafórica, metonímica, que tenta desajeitadamente dar conta de simbolizar nossos “demónios” interiores, nossos gritos silenciosos e inefáveis, rebeldes à significação, à tentativa de tamponar esse ímpeto visceral que nos angustia.

Não há uma civilização que tenha sido supostamente erigida para se contrapor à barbárie das relações sociais. A barbárie é interna a cada indivíduo, ela é constitutiva do Sujeito, isto é, ela é estrutural. O que também nos torna humanos é o medo da morte, mas não um medo da morte qualquer, mas um medo da morte que ingenuamente se crê rebelde; que crê que conseguir acreditar em uma vida no além faz de nós ora mais inventivos, ora mais corajosos, ora aqueles que subverteram um destino natural. E estamos dispostos a fingir a todo custo e até o fim que não temos medo dela, de que não duvidamos nem um pouquinho da existência no além-túmulo.

Esse ímpeto angustiante que nos dá a sensação de que o mesmo veio do nada, está no nada e que irá para o nada nos coloca à deriva em uma existência que será nossa perdição ou nossa salvação: perdição se nos entregarmos docilmente ao gozo da “morte”, tanatos – o infeliz impulso para a autodestruição; será salvação se optarmos pelo trabalho de elaboração. Salvação é domarmos nossos “demónios” interiores. O “demónio” quer a destruição, pois a destruição leva à morte, e a opção inconsciente pela morte nada mais é do que mais uma forma de paz. Quem realmente fez uma opção quer a vida, pois a vida é guerra.

LUIZ MARCELLO DE AGUIAR – é psicólogo, clínico formado pela Universidade Federal Fluminense – UFF. Teve participação como aluno especial no Mestrado em filosofia na Pós-graduação em Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGFIL/UERJ e atuou como orientador na disciplina de Teorias e Técnicas Psicoterápicas (disciplina de conteúdo psicanalítico) na Faculdade de Psicologia da Universidade Federal Fluminense – UFF. E-mail.: lmarcellodeaguiar@hotmail.com