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A FÉ PREENCHE O VAZIO

Para evitarem aglomerações, as igrejas transferem os serviços religiosos para canais on-line. A adaptação pode ser difícil, mas atrai fiéis em busca de conforto

Com raízes fincadas no exclusivo mundo espiritual, as religiões têm nos rituais da liturgia o canal mais direto de conexão dos fiéis com a crença no que não está diante dos olhos. A presença no templo e, dentro dele, a repetição de atos de fé cuja origem se perde no tempo têm o poder de materializar no mais humano dos planos – o físico – a imaterialidade daquilo que é divino. Agora que o onipresente distanciamento social esvaziou os locais de devoção e os serviços são oferecidos em plataformas on-line, devotos em todo o mundo estão tendo de se adaptar à perda, pelo menos em parte, dos ritos que alicerçam as crenças – no justo momento em que mais precisam do conforto que tiram delas. Na sexta-feira 27, em um gesto de marcante simbolismo dos efeitos do novo coronavírus no catolicismo, o papa Francisco postou-se solitário no centro da Praça de São Pedro, no coração da Cidade do Vaticano, interditada aos 20.000 visitantes que recebe diariamente, e lá rezou pelo fim da pandemia. Em seguida, pronunciou, em caráter excepcional, a bênção Urbi et Orbi, reservada ao dia de Natal e ao domingo de Páscoa, oferecendo o perdão dos pecados aos católicos que perderam a vida sem confissão nem extrema-unção, segregados em leitos de hospital, bem como aos profissionais de saúde. “Nossa fé, porém, é fraca, e sentimo-nos temerosos”, disse.

A pandemia levou a maioria das dioceses dos países atingidos a suspender ações de rotina. No Brasil, decretos estaduais proibiram aglomerações e, por tabela, fecharam as portas dos templos. Jair Bolsonaro inseriu as igrejas na lista de atividades essenciais, preservando seu direito de manter as portas abertas, no entanto elas continuaram vazias. “O decreto permite o acesso ao prédio, onde padres e pastores seguem gravando serviços. Mas a quantidade de pessoas no local precisa atender às recomendações do Ministério da Saúde”, explica o advogado Jean Regina, do Instituto Brasileiro de Direito e Religião. Difícil mesmo, na transição da missa para o mundo virtual, é se conformar, por exemplo, com sacramentos modificados para o rebanho distante do altar. “O sacramento é a união de um símbolo físico – o pão, o vinho, a água, a bênção do padre – a uma experiência de fé. O que se experimenta como transcendente passa pela experiência sensorial”, explica o teólogo Felipe Magalhães, da PUC-MG.

O rito da comunhão é o ponto central da missa católica, obrigatório aos domingos, e a solução encontrada pela Igreja foi o padre oferecer a hóstia e bebero vinho enquanto cada fiel, ajoelhado em casa diante do monitor, faz uma oração recomendada, a chamada “comunhão espiritual”. “É muito diferente. Sinto como se minha comunicação com Deus fosse uma sintonia de rádio que agora sofre interferências”, diz a esteticista Agda Santana, de 49 anos, católica que costuma ir à missa diariamente. A aposentada Edileuza Caparica, de 70 anos, sente falta da confissão tête-à-tête com o pároco da Igreja da Penha, no Recife, onde também frequentemente se supre de água benta. “Quando eu faço alguma coisa errada, não fico em paz até me confessar. Agora eu rezo bastante, peço perdão a Deus mas me vem a sensação de que está faltando a bênção do padre com a mão na cabeça. Para a gente que não tem mais pai nem mãe, significa muita coisa”, emociona-se. O teólogo Magalhães vê no sacramento a distância um precedente que pode ter efeitos pós-pandemia. “A missa sem presença física nunca teve valor como preceito. Mas, aberta a exceção, quem sabe não se coloca a questão se o sacramento passa necessariamente pela experiência do corpo. A concepção de liturgia pode ser ampliada”, reflete.

As igrejas evangélicas praticam a Santa Ceia em média uma vez por mês e o rito não requer um sacerdote presente. Na casa da estudante de marketing Sara Fabiane, de 22 anos, em Barueri, São Paulo, os serviços religiosos on-line já viraram rotina. “A gente sente falta de estar com o pessoal da igreja, mas assistir ao culto a distância nunca foi um problema”, diz Sara, que, nas redes sociais, se define como “webcrente”. O computador fica instalado em um cantinho da mesa, conectado à TV. “No momento da comunhão, cada um pega um pedacinho de pão e toma um gole de suco de uva ” descreve. Na sede da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, os cultos são gravados na presença do pastor, um músico e dois operadores de câmera e som. “As mega-churches não foram pegas desprevenidas. Abrimos canais de WhatsApp e telefone para os fiéis”, conta o pastor Flavinho Marques. Para a cientista da religião Lídice Meyer, da Universidade de Lisboa, a maior vantagem dos evangélicos neste momento é a quantidade de jovens. “A média de idade é menor do que entre os católicos praticantes, e eles sempre exploraram rádios e canais religiosos”, lembra Lídice.

Os sacerdotes católicos, enquanto isso, vão aprendendo a pregar nestes tempos. Falar a 50.000 pessoas pelo YouTube, aponta o padre Omar Raposo, da Paróquia São José da Lagoa, é muito diferente de se dirigir a um público de 300 fiéis. “O discurso tem de ser direto, sem muita firula. Segurar a atenção exige assertividade”, afirma. Na Igreja de Nossa Senhora do Bom Parto, no Tatuapé, bairro da Zona Leste de São Paulo, a capela onde as missas são gravadas ganhou uma imagem nova de Nossa Senhora Aparecida. “A gente tem de investir no visual, porque a pessoa também reza com os olhos”, justifica o pároco Tarcísio Mesquita.

Esta não é a primeira vez que uma pandemia impõe limites à prática da religião. Durante a gripe espanhola, de 1918, as igrejas protestantes e algumas dioceses católicas nos Estados Unidos fecharam as portas. Séculos antes, quando a peste negra varreu a Europa, padres católicos estavam entre os mais atingidos por causa do contato frequente com infectados. Creia-se ou não, as religiões costumam estar na linha de frente do combate e, principalmente, do consolo em meio a crises humanitárias. Não surpreende, portanto, que na última sexta-feira de março, com a pandemia devastando o planeta, 11 milhões de pessoas tenham se conectado para receber a bênção papal e se solidarizar com o senhor de 83 anos, sem a parte superior do pulmão direito, que do centro da praça deserta lembrou: “Estamos todos no mesmo barco”. Francisco não via ninguém à sua frente. Mas era ouvido por uma multidão em busca do conforto – virtual, que seja – que a fé pode suprir nos momentos mais terríveis.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 13 DE ABRIL

QUAL É A NATUREZA DO CASAMENTO

Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne (Efésios 5.31).

A sociedade contemporânea perdeu o senso de valores. Está confusa acerca das coisas mais simples da vida. Desde que o mundo é mundo, sabe-se que o casamento é a união de um homem e uma mulher. Hoje, questiona-se o gênero. Fala-se em casamento entre homem e homem, entre mulher e mulher. Isso é um desatino, um erro, uma torpeza, uma disposição mental reprovável, uma abominação. Quais são os pilares de um casamento? Busquemos na Palavra de Deus essa resposta: Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne (Genesis 2.24). O casamento tem três pilares.

PRIMEIRO, o casamento é heterossexual. O casamento é a união entre um homem e uma mulher e não a união entre dois homens ou entre duas mulheres. Ainda que nossas cortes supremas legitimem a relação homossexual, ela estará sempre em desacordo com os princípios divinos.

SEGUNDO, o casamento é monogâmico. A poligamia está em desacordo com o projeto de Deus.

TERCEIRO, o casamento é monossomático, ou seja, marido e mulher tornam-se uma só carne. Sexo antes do casamento é fornicação e fora dele é adultério. As duas práticas são contrárias à santidade. Mas sexo no casamento é ordenança divina e uma dádiva a ser desfrutada com alegria, prazer e santidade.

GESTÃO E CARREIRA

COMO SEUS PAIS INFLUENCIAM SEU COMPORTAMENTO NO TRABALHO

A natureza do relacionamento dos seus pais pode ter influenciado a maneira como você se relaciona com as outras pessoas

Uma série de fatores afeta a maneira como você age no trabalho: a personalidade dos colegas, o tipo de chefe que você tem e a cultura da empresa de uma maneira mais ampla.

No entanto, se você se pegar repetindo os mesmos padrões contraproducentes — como dificuldade em aceitar críticas, receio de pedir ajuda a outras pessoas ou medo de errar —, pode ser que a origem dos seus problemas não seja tão óbvia.

A natureza do relacionamento dos seus pais, e especialmente se eles resolviam os problemas de maneira amigável e construtiva ou partiam para o conflito, pode ter influenciado a maneira como você se relaciona com as outras pessoas. No jargão psicológico, se seus pais estavam sempre discutindo, eles podem ter influenciado seu “estilo de apego”. E isso pode interferir na sua capacidade de estabelecer relacionamentos saudáveis ​​no trabalho.

A teoria do apego, proposta pela primeira vez pelo psicólogo britânico John Bowlby em meados do século passado, sugere que nossos primeiros relacionamentos — especialmente com nossos pais — influenciam como nos relacionamos com outros indivíduos ao longo da vida, ou melhor, o nosso padrão ou “estilo de apego”.

Em linhas gerais, as pessoas podem apresentar um padrão de “apego seguro”, o que significa que são confiantes do seu valor e confiam nos outros; um “apego ansioso (ambivalente)”, em que têm baixa autoestima e temem ser rejeitadas e negligenciadas, buscando segurança constantemente; ou um “apego evitativo”, que significa que também têm baixa autoestima e pouca confiança nos outros, mas enfrentam a situação evitando acima de tudo se aproximar muito das pessoas.

Há muitos fatores que contribuem para o tipo de padrão de apego que desenvolvemos, incluindo a receptividade dos nossos pais, assim como nossa própria personalidade, que é reflexo de uma mistura de fatores ambientais e genéticos. Mas o relacionamento de nossos pais também é relevante.

Para as crianças, os pais oferecem um modelo de como as divergências devem ser resolvidas nos relacionamentos — ou até mesmo se podem ser resolvidas. E pesquisas sugerem que isso tem consequências para o padrão de apego posterior das crianças.

Esses estudos geralmente esbarram em um conflito genético — ou seja, qualquer associação entre o comportamento das crianças e o comportamento dos pais pode ser explicada, pelo menos em parte, pelo fato de terem genes compartilhados.

Apesar desta limitação, um estudo envolvendo 157 casais mostrou que os indivíduos cujos pais se divorciaram na infância eram mais propensos a ter um padrão de apego inseguro na vida adulta. E uma pesquisa de psicólogos da Purdue University, no estado americano de Indiana, pediu para 150 estudantes de graduação recordarem o nível de conflito no relacionamento dos pais e, na sequência, avaliou o perfil de apego de cada um. Os alunos que se lembravam de mais conflitos tendiam a apresentar padrões de apego mais ansiosos e evitativos.

Por muitos anos, a teoria do apego foi usada principalmente para analisar como o estilo de apego dos indivíduos, formado na infância, influencia o comportamento nos relacionamentos românticos na vida adulta — e não surpreende que os dois padrões de apego inseguros estejam associados a relacionamentos de pior qualidade.

Cada vez mais, no entanto, os psicólogos do trabalho estão recorrendo à teoria do apego para ajudar a explicar o comportamento dos funcionários no ambiente de trabalho — o número de artigos que adotam essa abordagem aumentou consideravelmente nos últimos anos.

ESTILO PESSOAL

Há várias maneiras pelas quais seu estilo de apego pode afetar seu comportamento no trabalho. Por exemplo, se você apresenta um padrão de apego ansioso, pode ter mais medo de ser rejeitado por apresentar um desempenho fraco (pelo lado positivo, você também pode estar mais alerta a ameaças, o que talvez faça de você um bom informante).

Se você tem um estilo de apego evitativo, é mais provável que desconfie de seus gestores e colegas. Esses processos psicológicos profundamente arraigados também afetam os chefes — por exemplo, aqueles com um padrão de apego seguro são mais inclinados a delegar.

Tais descobertas são confirmadas por histórias pessoais. Sabrina Ellis, de 32 anos, enfermeira de saúde mental e psicóloga organizacional, relembra a violência verbal e física entre os pais e, mais tarde, entre a mãe e o padrasto.

“Quando cresci… não havia adultos na minha casa em quem eu pudesse confiar, sentia que precisava me proteger mesmo no começo da vida adulta”, diz ela.

Sabrina acredita que isso causou problemas no início da sua carreira, especialmente na hora de recuperar a confiança em colegas do sexo masculino que a decepcionaram.

A consultora de administração Kiran Kaur, de 34 anos, acredita que o relacionamento de seus pais a afetou tanto positiva quanto negativamente. Eles evitavam conflitos entre si e formavam uma frente única (algo que Kaur adotou no trabalho em equipe), mas, ao mesmo tempo, eles afastavam perspectivas alternativas.

“Isso impactou minha abordagem no trabalho com equipes, porque eu também não convidava a discussões abertas”, diz ela.

Mas nosso estilo de apego não é predestinado. Pesquisas recentes mostram que o padrão de apego evolui até certo ponto ao longo da vida em resposta às circunstâncias atuais. Se você tiver a sorte de ter um parceiro confiável e amoroso, isso provavelmente vai aumentar sua confiança nos outros — favorecendo a manifestação de um estilo de apego seguro.

Este é um processo chamado de “paradoxo da dependência”, ou seja, quando depender de alguém aumenta nossa autonomia.

Além disso, ter mais consciência de qual é sua tendência nos relacionamentos, com base em suas experiências de infância, pode permitir que você tome medidas para atenuá-las ou tire proveito das mesmas.

Kaur conta que a atitude de evitar conflitos e a mente fechada, que ela acredita ter herdado dos pais, é algo que ela vem trabalhando há 10 anos, desde que um colega chamou a atenção dela pela primeira vez para esse fato.

“Chamo agora para discussão e tento ser o mais aberta possível”, diz ela.

Ellis também conseguiu se adaptar de forma positiva.

“Ao longo da minha carreira, evitei conflitos e aprendi conscientemente novas maneiras de resolver problemas e lidar profissionalmente com preocupações, mantendo o foco na solução”, diz ela.

“Tem sido muito produtivo e (me ajudou a ser) bem-sucedida como gestora de equipes e como colega de outros profissionais.”

A maneira como você se relaciona com outras pessoas no trabalho pode ter raízes profundas, mas se a psicologia nos ensinou algo, é que o aprendizado é possível ao longo da vida. Isso se aplica ao seu estilo de apego e personalidade, tanto quanto a aprender um novo esporte ou idioma.

Falando como um psicólogo, estar mais ciente desses processos interpessoais e de suas raízes significa que não há razão para que você não consiga se adaptar e se tornar um gestor ou colega de trabalho mais eficiente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMPACTO NO AMADURECIMENTO

O desenvolvimento da autonomia estimula os aspectos sociais, cognitivos e motores da criança. No entanto, para isso, alguns obstáculos precisam ser superados

Recentemente, foi publicada uma pesquisa realizada por profissionais da Universidade San Diego, nos Estados Unidos, em que foi constatado que os jovens norte-americanos estão levando um tempo maior para amadurecer. Uma das possíveis razões para isso ocorrer é justamente o desenvolvimento da autonomia – ou a falta dela.

Etimologicamente, a palavra autonomia origina-se do grego autos, que significa “a si mesmo, reflexivo, e nomos, que se refere a “normas, leis”. Como propôs Mill (2000), “sobre si mesmo, seu corpo e sua mente, o indivíduo é soberano”. Já Kant (2009) diz que o querer próprio e a capacidade de escolha devem ser, para o indivíduo, “como uma lei uni versal”. No dicionário, autonomia é “liberdade moral ou intelectual”. Em todas essas formas de pensar, temos um comum acordo do quanto se misturam os conceitos de autonomia e liberdade.

A autonomia tende a se desenvolver praticamente pela vida inteira. É o que define a capacidade que o indivíduo tem de evoluir nas questões pessoais e de lidar com as situações de enfrentamento e interação social que encontrará ao longo da vida, refletindo sobre seus objetivos e tomando decisões baseadas nessa reflexão. Ou seja, o desenvolvimento da autonomia desde a infância para a fase de transição para a vida adulta consiste na competência de exercer a sua liberdade de forma responsável, tomar decisões por si mesmo, definir metas e objetivos e encontrar os meios de como realizá-los.

A IMPORTÂNCIA DOS PAIS

A formação de crianças autônomas está diretamente ligada às relações familiares. É unanimidade que crianças que crescem em um ambiente saudável e feliz, onde os pais dão espaço e incentivam a quebra do elo de dependência, conseguem enfrentar melhor as situações de adversidade, sejam elas no âmbito familiar ou escolar.

Nesse sentido, o comportamento dos pais é determinante no que concerne à forma como seus filhos vão desenvolver tais capacidades. Não somente com relação à vida social, a saber se portar e lidar frente aos desafios de uma vida adulta, mas também no que se refere às suas habilidades cognitivas e motoras.

Sabemos que a infância é justamente o momento em que ocorre a construção da personalidade da criança, o que é um fator decisivo no desenvolvimento da autoestima e da evolução cognitiva e escolar. Ainda, é nessa fase que definimos a forma como serão as nossas relações ao longo da vida. Crianças com autonomia se sentem capazes de realizar ações, comunicar-se com os elementos ao seu redor, absorvendo novos conhecimentos, processando essas informações e fazendo suas próprias escolhas. O senso de independência é fundamental para que elas saibam tomar decisões, ter persistência em situações difíceis e interagir com o mundo lá fora, tornando-se adultos capazes de resolver seus próprios problemas.

Por outro lado, é notório que, em muitas situações, os pais não permitem que os filhos executem e tentem resolver atividades sozinhos. Além disso, devido ao modelo de vida que levamos nos dias de hoje, muitos deles acabam por terceirizar a criação das crianças.

PAIS SUPERPROTETORES

Poder de autodeterminação não é uma característica comum a todas as pessoas. Essa capacidade não é inata, ela se desenvolve no indivíduo durante toda a sua existência, mas precisa ser estimulada no início da vida.

Infelizmente, é muito comum observarmos mães e pais que fazem tudo pelos filhos: dão comida na boca, banho, penteiam os cabelos, amarram os sapatos, escolhem o vestuário, até mesmo vestindo e despindo a criança. Por consequência, não dão liberdade para que a própria criança exercite essas habilidades, que são tão importantes para o seu desenvolvimento cognitivo e psicomotor. É essencial fazer o alerta de que zelo e carinho nada têm a ver com isso: é primordial dar espaço para que o indivíduo evolua e tenha progressos por conta própria.

Ao nascer, o bebê conhece o mundo através dos olhos dos pais, que são as primeiras pessoas com quem desenvolve uma relação. Esses primeiros contatos com o exterior podem se dar de diferentes formas. Alguns pais superprotetores acabam evitando o contato do filho com a vida real, mantendo-o encasulado e limitando o mundo e as relações àquilo que se tem dentro de casa, evitando até mesmo a participação de outras pessoas. Dessa forma, o que seria um meio de proteger a criança torna-se um guia para um caminho de incapacidades, insegurança na administração de situações inevitáveis, que são inerentes ao convívio humano.

O ideal seria que essa criança já nascesse e começasse a se desenvolver em um ambiente social, observando e internalizando regras de convivência, o que interfere intimamente nas capacidades de ser autónomo e ser sociável. Estimulada desde cedo, ela se tornará um indivíduo decidido, independente, que sabe o que quer porque aprendeu a fazer escolhas durante a vida. Do contrário, é comum observarmos crianças com dificuldades de aprendizagem, atrasos no desenvolvi­ mento da fala, das habilidades motoras, além de outros aspectos.

Dificultar o direito de uma criança de desenvolver o seu senso de independência é negar-lhe a liberdade das suas ações, desconsiderando sua capacidade de análise e de agir conforme suas próprias normas, estabelecidas por ela mesma com base nas informações disponíveis.

Quando os pais não estimulam a evolução das habilidades da criança, podem fazer com que ela cresça pensando que não precisa realizar as tarefas porque vai ter sempre alguém para interceder por ela. Porém, isso traz de­ safios enormes para lidar com a fase escolar, já que nesse ambiente ninguém pode aprender em seu lugar e é preciso ter persistência para vencer os obstáculos nos processos de leitura, escrita e socialização com os colegas.

É evidente que a escola ocupa um papel de destaque nos processos de aprendizagem da criança, no exercício de suas habilidades e sociabilidade, mas não é responsável pela construção da autonomia das crianças. Hoje em dia, muitas delas chegam à escola totalmente dependentes, sem saber ir ao banheiro, fazer a sua higiene e abrir o seu lanche, pois as pessoas que convivem com elas é que fazem isso, muitas vezes por considerarem mais prático e rápido. Porém, é fundamental ressaltar que os jovens precisam ser independentes e que a escola só obterá resultados satisfatórios se tiver um terreno fértil para o aprendizado da criança.

ATRASO

Pesquisadores de San Diego analisaram dados a respeito do comportamento de mais de 8milhões de adolescentes, com idade entre 13 e 19 anos, ao longo da década de 1970 até o ano de 2016. O estudo concluiu que os jovens dos Estados Unidos estão demorando mais tempo para amadurecer. Suspeita-se que esse fenômeno também esteja ocorrendo em muitos outros países. Mas quais as razões que podem ser apontadas?

* Atualmente, as crianças e adolescentes recebem uma enxurrada de informações, principalmente pelo crescimento da internet e das redes sociais. Isso contribui para o aparecimento da puberdade de maneira precoce, mas não caracteriza o desenvolvimento da autonomia.

* Outro aspecto que pode ser considerado como uma das razões é que, em muitos casos, os pais querem evitar situações as quais acreditam ser de sofrimento e frustração ou querem recompensar a criança por alguma falha. Dessa maneira, eles acabam tomando as decisões e as atitudes que os seus filhos deveriam ter. Esses fatores impactam na capacidade do indivíduo de tomar decisões e corroboram para a formação de uma criança dependente e um adulto despreparado para enfrentar o dia a dia com todas as suas nuances.

ESTÍMULO DA APRENDIZAGEM

Grande parte dos pais, especialmente aqueles de primeira viagem, têm receio de deixar a criança “andar com as próprias pernas”. Todavia, é preciso ter em mente que o aprendizado é adquirido não somente através de experiências positivas, mas de negativas também.

Nesse sentido, o fomento à aprendizagem ainda nos anos iniciais da criança, como permitir que ela escove os dentes sozinha, se alimente com as próprias mãos, possa escolher as suas próprias roupas, entre outras coisas, traz muitos benefícios para o seu desenvolvimento autônomo.

Desse modo, a criança percebe que ela mesma pode realizar suas tarefas, exercitando a capacidade de persistir, quando algo não sai como o esperado, e ainda trabalha o seu desenvolvimento psicomotor. Por exemplo, quando toma banho sozinha, ela vai ter que trabalhar todo o seu esquema corporal. Quando escova os dentes, vai exercitar e desenvolver melhor o seu movimento de pulso e assim sucessivamente.

PAIS E DESENVOLVIMENTO

Como os pais podem propiciar o desenvolvimento da autonomia da criança?

RESERVAR UM TEMPO DURANTE O DIA PARA BRINCAR E INTERAGIR COM A CRIANÇA: ter momentos de interação, procurando deixar que ela proponha e direcione o rumo das brincadeiras, é essencial para que ela desenvolva autoconfiança e segurança para a tomada de decisões no decorrer da vida;

NÃO CARREGAR A MOCHILA DOS FILHOS: a mochila é o que simboliza a escola. Quando a carregamos, em vez de deixar que eles façam isso, estamos tirando uma responsabilidade que é deles. Ademais, é necessário ter um lugar adequado para que ela seja guardada em casa. Jamais devemos permitir que ela fique jogada no chão, pois tudo que envolve a escola merece respeito;

COMEMORAR OS ACERTOS EM VEZ DE SOMENTE CRITICARAS FALHAS: é muito importante comemorar quando a criança consegue realizar tarefas nas quais antes tinha dificuldades. Quando a criança falhar em algo, o ideal é ajudá-la a entender os motivos de não ter dado certo, em vez de criticá-la. Mas, é claro, lembrando sempre que elogiá-la em tudo o que faz pode ser tão prejudicial quanto criticar demais;

INCENTIVAR O GOSTO PELA ESCRITA: com tantas possibilidades tecnológicas ao seu dispor, como tablets e smartphones, muitas crianças acabam por não gostar de escrever. É impreterível tentar reverter esse quadro, estimulando a escrita para um bom desenvolvimento cognitivo e psicomotor;

TRATAR OS FILHOS ESPECIAIS DA MESMA FORMA COMO TRATA OS FILHOS NEUROTÍPICOS: crianças especiais não precisam e não devem ser tratadas de maneira diferente. Muito pelo contrário, elas devem ser estimuladas da mesma forma para que consigam se desenvolver ao máximo dentro das suas limitações;

ENVOLVER, AOS POUCOS, A CRIANÇA EM TAREFAS DO DIA A DIA AUXILIA NO SENSO DE RESPONSABILIDADE E DE DECISÃO: guardar os brinquedos sozinha, escolher as roupas e aprender a vestir-se, pôr a mesa, levar o lixo para a rua, entre outras tarefas simples do cotidiano;

FAZER COM QUE O INDIVÍDUO ENTENDA AS CONSEQUÊNCIAS DE SUAS ESCOLHAS: é indicado mostrar para a criança ou adolescente que toda escolha implica em consequências, tanto boas quanto ruins. Deixá-la ciente sobre isso antes que tome uma decisão é dar a ela a oportunidade de refletir sobre seus atos.