A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONFLITOS COM OS FILHOS

O desejo de incentivar a autonomia das crianças não contraria a necessidade de impor regras na educação e limites às vontades e desejos. É um processo que exige vigilância, cuidado e diálogo

Todos os pais já tiveram momentos em que ao perderem a paciência com seus filhos acabaram encontrando um grande problema a resolver: o ressentimento da parte das crianças e adolescentes, que se sentiram frustrados por terem que obedecer sem ter tido oportunidade de expor seu ponto de vista.

É natural que os pais, por serem adultos, tenham uma visão diferente das crianças e dos jovens em  quase todos os assuntos e que, para seguir uma orientação coerente na educação que decidiram  adotar, tenham que tomar medidas que às  vezes parecem autoritárias, arbitrárias, mas corretas, pois eles são os guardiões legais e sua responsabilidade é enorme. E atitudes aparentemente intransigentes para os pequenos muitas vezes são necessárias, indispensáveis e imprescindíveis.

Crianças não têm condição de se responsabilizar por decisões que podem vir a prejudicá-las. A ideia de que deixar as escolhas para os filhos fazerem pode vir a ensiná-los a se comportar diante das opções da vida é válida desde que a criança já tenha maturidade para responder pelas eventuais consequências de sua decisão. E esse é um processo gradual e que merece cuidado.

Sair de short e camiseta no frio, por exemplo, pode dar chance de uma gripe aparecer, assim como sair com roupas inadequadas a idade cronológica, expõe a criança a comentários e até ao bullying. E é possível citar perigos ainda maiores, como a erotização, que prejudica o desenvolvimento da criança, sua escolaridade fica empobrecida e o risco de ser vítima de um adulto inescrupuloso aumenta muito.

Deixar o filho de sete anos dormir na casa do amigo porque todo mundo faz isso? Todo mundo'” não tem pai, mãe ou família, nem certidão de nascimento: verificar quem é a família do amigo e como conduz a educação dos filhos é uma medida de segurança que todos os pais devem tomar, da mesma forma como mandar para acampamento da moda, ou para onde o amiguinho vai requer análise e um eventual “você não vai”.

Mas dito com calma e propriedade, de modo que a criança entenda que o adulto está cuidando dela e não apenas a aborrecendo, contrariando ou sendo injusto.

“Pegar o carro só para dar uma voltinha no condomínio”, além de ilegal, expõe o jovem menor de idade e sem carta a um problema gigantesco, com consequências impensáveis e desnecessárias. E os pais também. Claro que concordar com tudo não é possível, assim como não ouvir o que a criança ou adolescente têm a dizer prejudica o vínculo entre pais e filhos, desencoraja a criança a expor suas ideias, o que também traz rupturas no entendimento futuro.

Comentários que diminuem a importância do pensamento dos filhos não consistem em opção condizente com alguém que deseja educar seus filhos com respeito e amor. Frases como “você não entende mesmo”, “essa bobagem só podia vir de você”, “não tenha ideias”, “você não pensa” etc. são armas de efeito bombástico na educação, pois diminuem a autoestima e enfraquecem o diálogo.

Quando não concordamos, é melhor parar e pensar se entendemos realmente o que nosso filho tentou nos dizer, pedindo que explique mais seu ponto de vista. Isso ajudará ambos a raciocinarem, clarearem as ideias e acharem pontos em comum.

Mas pode haver discórdia total e então dizer coisas como “compreendi sua ideia, é boa, mas não será possível, pois não tenho a mesma opinião sobre o assunto”, ou “agradeço que tenha tentado me explicar, mas estou seguro de que devemos fazer como eu penso, vai ser melhor para você”, “escutei e achei seus argumentos muito bons, mas não são consistentes e teremos que fazer de outro modo”.

Hoje tornou-se mais complicado distinguir quando podemos deixar nossas crianças e jovens decidirem por si sós e quando devemos impor nossa vontade. Parte disso deve-se a um subterfúgio nem sempre consistente de não se ter mais tempo para acompanhar os filhos e assim deixá-los aprender na prática as consequências de seus atos. Essa parece ser uma ideia que justifica muito bem a premissa.

Mas temos visto que crianças e pré­ adolescentes que se tornam adultos mais seguros e conscientes de seus atos são justamente aqueles que tiveram pais que acompanharam seu desenvolvimento de modo mais tradicional.

Incentivar a adolescência precocemente nas crianças é o pior de todos os enganos: ninguém amadurece de uma hora para a outra e sem ter passado por algumas experiências e ser poupado de muito a outras. O excesso de provações tira a confiança nos pais e dá a ideia de negligência e abandono.

O desejo de tornar o filho autônomo não contraria a necessidade de impor regras na sua educação e limites às suas vontades e desejos. Mas exige vigilância, cuidado e diálogo. As crianças se sentem mais seguras quando sabem que há alguém que cuida delas e as supervisiona com frequência; embora reclamem de não fazerem ou terem tudo o que queriam, aprendem a pensar sobre as consequências de seus atos futuros e vão dominando a noção de responsabilidade nas suas pequenas decisões do dia a dia.

O mais importante é manter o diálogo respeitoso, ser firme e coerente nas decisões e respeitar a idade cronológica da criança: mesmo parecendo muito esperta, uma criança não deixa de ser uma criança!

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuro aprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuro aprendizagem irenemaluf@uol.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.