OUTROS OLHARES

RECLUSÃO SAUDÁVEL

Que o momento de recolhimento seja também de autoconhecimento e de conexão com o próximo: em casa, sozinho ou com a família, o melhor lugar do mundo é onde você está

Reclusão saudável

E a pandemia chegou. Com ela, o isolamento social e seus muitos desafios. Você tem respeitado esse isolamento? Goste ou não goste, fique em casa. Com amor ou com raiva, fique em casa. Seja responsável. Cuide-se. Não seja um possível transmissor do coronavírus. Se onde você mora a quarentena ainda não é obrigatória, aguarde. Será. No mundo, muitos estão proibidos de sair de casa. Proibidos de andar nas ruas. O isolamento assusta de tantas maneiras. Há pessoas que detestam ficar sozinhas. Há quem não se lembre mais como é ficar com a família. Mas tudo é possível com um pouco de esforço.

Apreciemos ficarem casa. Não há para onde ir nem vir. Crie circunstâncias, valorize momentos importantes de silenciar, de meditar, de refletir em profundidade. De fazer nada. De ouvir e ver. De apenas estar presente. Não tenha medo da solidão. Esse vírus, para o bem ou para o mal, nos apresentou algumas lições. A principal delas: estamos todos interligados. Sem fronteiras, sem cores, sem etnias. Ele não discrimina. Por isso, o grande risco. Pode acontecer com você. Pode ser ele ou ela. Esse pequeno inimigo é extremamente democrático. Pior ainda, comunitário. Não há ninguém de fora: todos estão dentro das possibilidades de contágio. Por isso, comporte-se. Repito: fique em casa.

Aproveite o momento para observar. Observe com profundidade, observe com sabedoria. Há tanto que pode ser feito. Você pode ler, escrever, pintar, desenhar, sonhar. Pode cantar, declamar. Pode ouvir música sem dançar e sem cantarolar. Ouvir, apenas. E pode fazer tudo diferente, cantando e dançando. Pode rir, pode chorar. Tudo bem chorar. Enquanto o isolamento social for o melhor remédio, faça-o valer. Mas cuidado. Não beba muito. Não use drogas. Aprecie sua vida – não destrua células neurais. Sem beijos nem abraços, demonstre seu amor com a suavidade de uma folha caindo à brisa de outono.

Os otimistas acham que o isolamento fará com que as famílias voltem a sentar-se à mesa e a conversar. Será? Talvez nas casas onde alguém esteja contaminado e os cuidados devam ser redobrados. Quem sabe? Fica aqui um alerta: fomos tão bem treinados a sempre nos comunicar virtualmente que não farão muita diferença as portas trancadas. Abra as portas. Senão, serão mais e mais mensagens no WhatsApp dentro da mesma casa. Que a tecnologia não impeça a reunião familiar.

Mais difícil será ficar trancafiado com pessoas com as quais não mantemos bons relacionamentos – ou nenhum relacionamento. Recomendo que não exija dos outros o que eles não têm para oferecer a você. Veja as qualidades e não comente os defeitos – nem consigo mesmo. Tente. Se houvesse uma pandemia viral nos celulares, na internet, nas redes sociais, talvez fosse pior. Teríamos de olhar uns para os outros, de ouvir um ao outro. Teríamos de conversar: você lembra o que era conversar?

Quem é viciado em TV está feliz. Dia e noite, a TV ligada. Quem ama jogos virtuais se ocupará com eles até enjoar. Aprenda a se desligar. Aprenda a se desconectar. Escolha, neste momento: quer alimentar seus vícios ou suas virtudes? Que tal praticarmos virtudes nas semanas em cativeiro? Mas quem disse que é cativeiro? Sua casa pode se tornar o paraíso, um local sagrado de práticas espirituais. Podemos nos transformar, podemos responder de forma diferente das anteriores a esta intimidade forçada. Tudo depende de suas escolhas – e só suas. Não fique pensando no que deixou de fazer. No que está atrasado. Aprecie o agora, já. Aprenda a viver o agora. Você pode. Vamos apreciar mais a vida? Deixe o celular de lado de vez em quando. Na hora de comer, apenas coma. Na hora de dormir, apenas durma. Crie uma rotina saudável com atividade física, sono, alimentação natural, meditação, boa respiração e batimentos cardíacos regulares e tranquilos.

Este é um momento precioso para repensar quanto tempo dedicamos às telas. Podemos ser atropelados, mas não largamos nossos amigos virtuais. Na mesa, no banheiro, no escritório, no ônibus ou metrô, nos táxis, Ubers, aviões, trens e mesmo andando a pé. Acabamos com um pequeno defeito na cervical de tanto olhar para baixo, para o celular. E por quê? São tantas notícias, informações, atualizações. E, quando você tenta se comunicar, as novidades que acabou de descobrir, o outro também já leu. Que tal desconectar-se? Está preocupado comas notícias ruins por todos os lados? Por que você está me lendo agora? Você já sabe. Tudo o que eu possa escrever é passado. Há dados mais recentes que os deste texto antigo. Antigo, sim. Está sendo escrito hoje, que é ontem do ontem do anteontem. E tudo está a mudar.

Lembre-se deque nada é fixo ou permanente. Eu e você, as lojas e as ruas, os pesares e as alegrias. Nada fixo, nada permanente. Perceba. A vida é um fluir incessante e incontrolável de instantes. Você é capaz de apreciar este momento mais do que reclamar dele.

Ouviu uma briga de casal? Interfira. Bata com o cabo da vassoura nas paredes. Grite pelas janelas. Chame a polícia. Nada de ficar brigando em casa. E controle o desejo de jogar alguém pela janela. Pode dar vontade. Mas não faça isso. Respire. Sorria. Aprenda a ter discussões saudáveis. Política, religião, relacionamentos. Está na hora de ouvir a opinião do próximo, pode ser divertido, pode ser estimulante. Você pode fazer de onde está o melhor lugar do mundo: porque é onde você está. Aqui, bem dentro de você, se manifesta e se abre um caminho iluminado. Sorria. É possível, sim.

Suponha que você tenha se comportado. Aguentou e não saiu de casa. Suponha que a curva exponencial da doença não tenha subido ao ponto mais alto. Ficou um pouco mais baixa. Valeu o isolamento forçado? Valeu o período consigo mesmo? Valeu ficar com essas pessoas ao seu redor? Ter de aguentar sermões e brigas: vem comer, larga o celular? Suas escolhas terão consequências. Então, ressalto: fique em casa. Não saia. Isole-se fisicamente, mas não emocionalmente. Superar essa pandemia depende de cada um de nós. Que a compaixão ilimitada e a sabedoria perfeita sejam nossas duas companheiras. Que possamos despertar e agradecer. Cada instante da nossa vida é assim. Aprecie.

Reclusão saudável. 2

MONJA COEN – é fundadora da Comunidade Zen Budista Brasil, é autora e apresentadora do Caminho Zen, no GNT.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 10 DE ABRIL

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JESUS VOLTA PARA O CÉU

Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu (Lucas 24.51).

Jesus veio do céu e ao céu retornou. Ele desceu da glória, vestiu pele humana e habitou entre nós. O Deus transcendente tornou-se Emanuel, Deus conosco. Viveu em santidade, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação. Ascendeu ao céu e está assentado à destra de Deus, de onde intercede por nós, governa sua igreja e reina soberano sobre todo o universo. A ascensão de Jesus é a prova de que sua missão foi plenamente cumprida e de que a nossa redenção foi cabalmente realizada. O menino que nasceu numa manjedoura e foi enfaixado em panos é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Ele está assentado na sala de comando do universo e tem nas mãos as chaves da morte e do inferno. Ele é o Cordeiro digno de abrir o livro da história e conduzi-la à sua consumação gloriosa. A ascensão de Jesus é a garantia de que ele voltará para buscar sua igreja e reinar para sempre com ela. Jesus virá em majestade e glória para julgar vivos e mortos, galardoar o seu povo e entrar com ele para a grande festa das bodas do Cordeiro. Você quer fazer parte desta festa? Renda-se, então, a Jesus. Ele é o caminho para Deus, a única porta do céu. Não há salvação em nenhum outro nome. Ele é o Salvador do mundo, o único mediador que nos reconcilia com Deus.

GESTÃO E CARREIRA

A SAÍDA DO VAREJO ESTÁ NA ENTREGA

Com portas fechadas, empresas adotam vendas sem contato com os clientes para garantir receita durante o período de distanciamento social.

A saída do varejo está na entrega

Em tempos de confinamento, em que as lojas têm de trabalhar de portas fechadas e as pessoas devem evitar a circulação pelas ruas, o jeito é cultivar a criatividade para amenizar os prejuízos causados pela pandemia de coronavírus. Quem resistia em adotar o e-commerce agora corre para montar sua loja virtual. Muitos passaram a utilizar também o delivery como forma de atender ao cliente. Outra saída para os empresários tem sido o drive-thru, populares nas redes de fast food, como McDonald’s e Bruger King. Mesmo sem a mesma estrutura para entrada e saída dos automóveis, pequenos estabelecimentos estão improvisando para levar o produto até o cliente, dentro do carro. “Estamos com cabeça de startup, sem barreiras no nosso pensamento e criando soluções rápidas para garantir as vendas”, afirma o CEO da Cacau Show, Alexandre Costa, que tem incentivado a adoção de drive-thru para seus cerca de 2,2 mil franqueados – dos quais apenas 10% segue de portas abertas. “Para nós, o momento de vender é agora. As duas semanas que antecedem a Páscoa respondem por 25% das nossas vendas anuais.”

Além do novo canal de vendas, o empresário garante que está buscando alternativas, como descontos agressivos, delivery e venda porta a porta. “Antes da crise, já estávamos estudando trabalhar com vendedoras domiciliares. Esse é o momento para colocar em prática”. O que é bom para a rede com faturamento de R$ 3,5 bilhões, é uma questão de sobrevivência para os franqueados. O empresário Miguel Monzu é um dos franqueados da Cacau Show que improvisou um drive-thru em sua loja no centro comercial Open Mall The Square, em Cotia, na Grande São Paulo. “É uma forma de reduzir perdas. Sem o drive-thru, não estaria vendendo quase nada. Com ele, consigo faturar 10% do que faturaria nessa época. Ajuda a pagar os salários.”

No mesmo centro de compras, outras quatro empresas adotaram a solução. É o caso de Fernanda Castanheda, cofundadora da marca Bolo da Madre, rede com 43 lojas em cinco Estados. “O drive-thru tem uma finalidade emergencial. As vendas pararam da noite para o dia, não dava para ficarmos engessados”, afirma. Já a empresária Lilian Zaboto, proprietária da clínica de vacinas Vacin Ville, que implantou o drive-thru no dia 21 de março, assim que recebeu o lote de vacinas contra a gripe, notou que a imunização dentro do carro disparou. “É uma forma de vacinar os idosos com segurança e isso ajuda a manter nosso movimento normal”, destaca.

O CEO da rede Espetto Carioca, Leandro Souza, orientou seus franqueados para que criassem alternativas urgentes para levar os produtos até o consumidor. Segundo ele, de suas 32 unidades, que só atendiam presencialmente, seis operam delivery e logo outras 15 lojas começarão a fazer o mesmo. Uma delas, em Copacabana, aproveitou a redução do trânsito para improvisar um drive-thru na rua mesmo. “Nossas lojas não foram concebidas para isso, os espaços não permitem. Mas sem trânsito, foi possível implantar nessa unidade”, diz.

A saída do varejo está na entrega. 2

CRIATIVIDADE

José Carlos Semenzato, CEO da SMZTO Holding, detentora de marcas como Oakberry, Instituto Embelleze, Espaçolaser, entende que o momento exige criatividade e flexibilidade na busca por alternativas que levem o cliente a perder o medo de comprar. “Esse é o caminho. Em uma de nossas franquias demos descontos de 40% a 60% para serviços. Apesar de não ser necessidade primária, houve muita adesão em meio a essa crise. Cada um tem de procurar onde estão as oportunidades”.

O empresário também aconselha as empresas a se digitalizarem e tentarem, a todo custo, não demitir funcionários. “O governo dá espaço para parcelar tributos, bancos oferecem capital de giro, tem como renegociar com fornecedores. Faça tudo para poder honrar a folha de pagamento”, afirmoa Semenzato, que comanda um grupo com 2 mil franqueados, gera 30 mil empregos e faturou R$ 2,4 bilhões no ano passado.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Antonio Bento Moreira Leite, garante que a entidade está muito preocupada porque os franqueados, motor econômico do segmento, são na maioria micro e pequenos. “É difícil para eles sobreviverem por um período superior a 30 dias, por causa da limitação de caixa”. A entidade está negociando com o governo alternativas para levantar recursos que ajudem as empresas do setor. “As medidas tomadas nos parecem aquém da necessidade do pequeno empreendedor. O governo tem papel importante no fomento a linhas de crédito com custos compatíveis a esses empresários”.

A saída do varejo está na entrega. 3

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INCENTIVO LÚDICO

São atribuições da Psicopedagogia acreditar na capacidade e promover situações nas quais o sujeito possa aprender de diversas maneirasIncentivo lúdico

Em Psicopedagogia, temos como objeto de estudo a aprendizagem, por isso o atendimento está centrado no sujeito que aprende e a interface escolar torna-se o foco, já que é no espaço escolar que ocorre a sistematização do conhecimento. Por isso, inclui-se no atendimento o uso de elementos escolares, não apenas, mas também é necessário atentar-se para outras aprendizagens em que o sujeito é capaz de obter êxito, pois para ir do não aprender ao aprender, é recomendável que comecemos por aquilo que o sujeito é capaz de aprender, pois acreditamos na capacidade que todos temos de aprender com as diversas nuances do que podemos pensar sobre o aprender. É premissa da Psicopedagogia acreditar na capacidade de aprender daquele que está diante de nós.

É função do psicopedagogo promover situações onde o sujeito possa aprender. Há diversos modos de se promover aprendizagem. Ilustraremos brevemente alguns destes, para que o leitor possa consigo mesmo pensar outras situações possíveis de se criar oportunidade de aprendizagem. Um dos caminhos possíveis é por meio de perguntas que provoquem novas formas de pensar, ou mesmo propondo desafios que estejam ao alcance do sujeito superá-los.

Também podemos propor formas diferentes de fazer determinadas atividades, para as quais ele não se reconheça capaz, mas para que essas tarefas sejam possíveis de serem realizadas é preciso pensarem cada sujeito que tem diante de si, pois se tratando de desenvolvimento humano sabe-se que o que dá certo com um outro pode não se identificar a outrem e vice-versa. Por isso, o que usar, como usar, tem que ser pensado para cada um que está diante de nós.

Contudo, é importante afirmar que o melhor instrumento de avaliação psicopedagógica é o próprio psicopedagogo, ou seja, como ele se posiciona diante do outro é que vai possibilitar um vínculo onde seja possível ressignificar a sua aprendizagem, que é antes subjetiva, e o modo como essa subjetividade opera no sujeito (aquilo que está inscrito em mim) é que vai permitir ou não uma interação saudável com a objetividade (a sistematização esperada por todos os indivíduos inseridos na sociedade), encontrando o equilíbrio necessário para os processos de assimilação e acomodação, pré-requisitos para a aprendizagem escolar.

Em se tratando da temática proposta neste texto, a técnica “Hora do Jogo” é uma das mais importantes destas que comumente usamos, pois ali você vê o sujeito livremente operando com suas capacidades que estão disponíveis. Ali também se observam o vínculo que está se fazendo com o psicopedagogo e os vínculos já construídos anteriormente, pois estes aparecem na cena explícita ou implicitamente.

Os aprendentes atendidos em Psicopedagogia, em sua maioria, podem apresentar um déficit lúdico que, em algumas situações, está ancorado o prejuízo na aprendizagem. E, por meio da “Hora do Jogo”‘, podemos perceber a capacidade de jogar, pois esse recurso nos mostra com quais recursos ele conta para aprender. Por isso, há que se cuidar da proposição do jogo e dos elementos contidos nele.

No decorrer da aplicação da técnica percebem-se os momentos estabelecidos, observando: inicialmente como classifica o conteúdo da caixa que nos mostra, como é a interação entre sujeito e objeto de conhecimento quando ele experimenta seu funcionamento, manipula o material comas mãos ou por meio do olhar, avalia o material que tem para determinar o uso do que poderá fazer, que tipo de material escolhe para si. Seguidamente a observação está na exploração e seleção do material, usa o que está ao alcance das mãos sem se importar com o restante, faz brincadeira criativa ou repete o convencional, há planejamento e concentração na brincadeira, aparecem na brincadeira situações de desmanchar, separar, dividir, cortar ou reunir, juntar, construir, colar, usa o corpo na medida em que precisa, movimenta, troca de lugar. E, finalizando, a técnica dá-se no momento de integração e apropriação quando se observa se põe ou não sentido no que fez, estrutura uma brincadeira com início, meio e fim; dá explicações do que está fazendo durante a brincadeira.

A interpretação que o psicopedagogo fará da aplicação da técnica deve ter como ponto de partida principalmente o modo como o sujeito se envolveu na brincadeira, seguido pelo relato proferido, pois é dele o jogo e não podemos inferir senão a partir dele próprio.

Incentivo lúdico. 2

INTERDISCIPLINAR

Como a Psicopedagogia é uma área de conhecimento de natureza interdisciplinar, seja um instrumento de avaliação ou uma técnica aplicada não vão conseguir descrever isoladamente a situação de aprendizagem na qual o sujeito esteja envolvido, a esta devem se somar outros recursos a serem propostos pelo psicopedagogo e, quando necessário, ampliar a visão interdisciplinar, convocando outros profissionais nessa intersecção educação e saúde para que haja integração entre todo e parte, pois muitas vezes a precisão da avaliação psicopedagógica é marcada por essa capacidade de dialogar com outros profissionais, na busca de uma compreensão adequada das profissionais teremos como referência para nossos estudos, pois quanto mais o conhecimento se propaga e globaliza tanto mais aparecerá uma vastidão de opções teóricas, e a excelência profissional é saber quem eu sou, quem está comigo, com quem estou e aonde quero chegar. Para tanto, definir o que embasa minha atuação profissional é pressuposto para a competência profissional, e essa escolha tem que estar baseada na nossa própria área de conhecimento, ou seja, é preciso que habite em mim um outro psicopedagogo que me antecedeu, pois assim, ao lidar com as áreas de fronteiras de conhecimento com a Psicopedagogia, estará estruturado em mim qual é o meu lugar nesse cenário. Sem dúvida, as áreas de conhecimento nos complementam, ampliam nossos conhecimentos, mas não podem ser o cerne de nossa apropriação teórica, senão estamos nos desviando do caminho a ser seguido. É preciso trazer em si a pergunta: qual é o meu lugar? Para que não fiquemos perdidos na mediocridade de um mercado que muitas vezes quer nos confundir para que não tenhamos apropriação de nosso fazer, hoje vemos uma necessidade tola de nomeação que saiu da qualificação para a quantificação de títulos obtidos, sabe-se lá a qual custo. Quanto mais o mundo se torna confuso, mais clareza precisamos ter de quem somos e o que fazemos; único meio de fortalecer nossa identidade profissional, temos que reconhecê-la a cada instante diante de nós mesmos em primeiro lugar e diante do outro que se coloca junto de nós.

Por isso, a obrigatoriedade de leituras constantes, de formação continuada, da supervisão que nos ampara e abre outras possibilidades que de tão perto muitas vezes não conseguimos ver, enfim cuidar de nós, da nossa formação, da nossa identidade profissional e do nosso fazer psicopedagógico, para que possamos ser capazes de promover a transformação desse outro que se coloca diante de nós.

Incentivo lúdico. 3

UMA BREVE REVISÃO

Vários autores como Winnicott (1975), Pain (1985), Fernández (1990, 2001), Huizinga (2001), dentre outros, atribuem ao brincar da criança uma potência e uma grande oportunidade para conhecer e compreender seu modo de pensar e agir. Conhecer os singulares e surpreendentes caminhos tecidos pela criança na magia do brincar se constitui em imperativo para quem ocupa uma função mediadora junto a elas.

A Psicopedagogia, cuja função é mediar o processo de aprendizagem de quem se acha impossibilitado de fazê-lo e resgatar o prazer de aprender, encontra na ação do brincar os principais fundamentos para a sua prática emancipatória com crianças, pois não há como fazer Psicopedagogia fora da perspectiva lúdica, já que lúdico implica construção, autoria e prazer. É na construção lúdica realizada pela criança, no ato dinâmico do brincar, que colhemos significativos elementos para conhecer e compreender o funcionamento cognitivo do sujeito e a partir dele realizar a devida intervenção psicopedagógica.

O brincar e o aprender apresentam estruturas e dinâmicas similares. Para melhor compreender os processos de aprendizagem humana convém compreender os processos pelos quais o sujeito brinca, pois “o saber se constrói fazendo próprio o conhecimento do outro, e a operação de fazer próprio o conhecimento do outro só se pode fazer jogando” (Fernández, 1990, p. 165).

Pain (1985) considera que a atividade lúdica inclui os três aspectos da função semiótica, que se inicia aos dois anos de idade, quando construído o mundo prático, sendo o jogo, a imitação e a linguagem os três aspectos dessa função. O jogo é uma atividade predominantemente assimilativa, por meio da qual o sujeito alude a um objeto, propriedade ou ação ausentes, por meio de um objeto presente. A imitação, no entanto, é uma ação postergada, internalizada como imagem e que permite à criança realizar ações simbólicas sobre objetos simbólicos, que têm por base o seu próprio corpo (Pain, 1985).

Para a autora, muito antes de ser capaz de desenhar e expressar graficamente, a criança é capaz de imitar. A compreensão em forma de imitação aparece precocemente na vida infantil, sobretudo quando ela empresta seu próprio corpo para construir uma cena lúdica. É no jogo que a criança combina e integra propriedades, “numa alquimia peculiar na qual o impossível pode ser experimentado” (Pain, 1985, p. 50).

Pain (1985) diz que a atividade lúdica nos dá informações sobre os esquemas que organizam e integram o conhecimento num nível representativo, considerando importante para o diagnóstico do problema de aprendizagem observar como o paciente joga. Estar atentos à dinâmica utilizada pela criança e os recursos por ela utilizados é indispensável na compreensão de sua modalidade de aprender.

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ESTRATÉGIA

A “Hora do Jogo”‘ como estratégia psicopedagógica para avaliação e diagnóstico está ancorada no seguinte, para Pain (1985): diagnosticar o processo de construção do simbólico; descobrir como a criança brinca; investigar o momento da ruptura na aprendizagem deficitária e o nível de sua gravidade e proporcionar a atividade lúdica num canal de aprendizagem.

Para Fernández (1990), os objetivos da “Hora de Jogo” são: compreender processos que podem ter levado à gestação de uma patologia no aprender; compreender a inter-relação, inteligência-desejo-corporeidade e o processo de construção do símbolo; observar os processos de assimilação-acomodação e seus equilíbrios, desequilíbrios e compensações; ajudar a criança a recuperar a autonomia e o prazer perdido de aprender. As autoras concordam que um dos objetivos centrais da “Hora do Jogo” é observar a aptidão da criança para criar, refletir, imaginar e produzir. A partir disso, é possível afirmar que o foco de atenção será sempre a potência do sujeito e jamais a fratura do seu aprender, geralmente transitórias e pontuais.

Em relação ao tempo e espaço de jogo, Huizinga (2001) diz que o jogo é limitado no tempo e no espaço. Mas a limitação do espaço é ainda mais flagrante que a limitação no tempo, pois todo o jogo se processa e existe no interior de um campo previamente delimitado, seja ele de maneira materializada ou imaginária. No brincar, a criança vive uma realidade de autoria. Por isso mesmo tem domínio sobre o tempo e espaço dessa ação.

Na Psicopedagogia tem especial importância a narrativa feita a partir do que foi construído pelo sujeito. Leboci e Diatkine (1985) dizem que a criança que não brinca não se aventura em algo novo. “Se, ao contrário, é capaz de brincar, de fantasiar, de sonhar, está revelando ter aceito o desafio de crescimento, a possibilidade de errar, de tentar e arriscar para progredir e evoluir” (p. 7).

Não existe um pensamento inteligente e outro simbólico. Ambos estão entrelaçados como fios, perfazendo uma trama na qual ambos se completam, e na falta de um deles não se constrói a trama. Nesse sentido, a capacidade de organização lógica e a significação simbólica acontecem concomitantemente e “o simbolismo não pode manifestar-se independentemente da intelecção, porque esta lhe dá a possibilidade de congruência” (Fernández, 1990, p. 219). Também para Pain (1996, p. 66), fantasia e conhecimento se constroem de modos diferentes e têm funções distintas. A questão é uni-los sem que formem uma patologia. Para isso, é necessário que funcionem independentemente, que cada um faça o seu trabalho e que se unam fluidamente no pensamento.

Nessa direção é possível dizer que o brincar, compreendido como processo de transformação do objeto (real ou imaginário) e caracterizado sempre por alguma forma de construção, resulta em aprendizagem e conhecimento, pois “conhecimento é essencialmente construção· (Piaget, 1996, p. 409). O mesmo autor, em relação à inteligência nos seus aspectos simbólicos e afetivos, diz que a inteligência e afetividade “são, pois, inseparáveis embora distintas. Assim, não se poderia raciocinar, inclusive em matemática pura, sem vivenciar sentimentos e que, por outro lado, não existem afeições sem um mínimo de compreensão” (Piaget, 1975, p. 33).

Sobre o brincar no campo psicopedagógico é possível dizer com Winnicott (1975) que “é no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação” (p. 79), construindo-se como sujeito aprendente.

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