A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NÃO APRENDEMOS A APRENDER

Em geral não somos ensinados a analisar nossos processos cognitivos. Somos incentivados a repetir padrões e memorizar informações desconexas e que não fazem sentido

Nesta coluna vou contar o caso de duas Bárbaras. Ambas serviram de inspiração para meu trabalho e para minha vida. Influenciaram a forma como eu aprendo e como eu ensino a aprender. A canadense Barbara Arrowsmith nasceu com acentuadas assimetrias no corpo e deficiências cognitivas que dificultavam sua vida desde muito pequena: tinha dificuldade na fala, no raciocínio espacial, tinha deficiência visual, era incapaz de entender noções de causa e efeito, o que impossibilitava entender as informações verbais e os conceitos matemáticos. Conceitos simples como maior e menor ultrapassavam sua capacidade de compreensão.

Contou com sua ótima memória e capacidade de observação e entendimento de sinais não verbais para decorar volumes imensos de conteúdo e, assim, percorrer todo o caminho acadêmico que a levou até a formação em Educação. Foi quando se deparou com artigo científico sobre plasticidade cerebral. Decidiu que modificaria seu próprio cérebro começando a exercitar relações simbólicas.

Elaborou um plano de exercícios a partir do funcionamento do relógio de ponteiros. Quando começou a entender o sentido do relógio, acrescentou o ponteiro de segundos. Depois o de sexagésimos de segundo. Até que, em algumas semanas de trabalho exaustivo, estava lendo relógios com dez ponteiros muito mais rapidamente que qualquer pessoa. E paralelamente à aquisição da habilidade, Barbara percebeu que uma mudança muito mais profunda estava acontecendo. Ela começou a entender o que lia, e o que as pessoas diziam a ela

Ainda antes da plasticidade cerebral ser aceita de forma unânime pelos cientistas, Barbara abriu uma escola para tratar crianças com transtornos de aprendizagem, a partir dos exercícios que a ajudaram a superar as dificuldades, uma a uma. Pessoas viajam de diversos lugares do mundo para frequentar sua escola, com resultados transformadores. Quem assistir a uma emocionante palestra no TED verá uma mulher genial e com uma capacidade incrível de expressão, sem nenhum traço da deficiência que marcou as primeiras décadas de sua vida.

A outra Barbara nasceu nos Estados Unidos. Era uma criança saudável, extremamente tímida, ótima aluna em línguas, mas com enorme dificuldade em entender os conceitos lógico-abstratos. Em uma trajetória parecida com a de Arrowsmith, ela já estava graduada quando decidiu que tentaria superar seus bloqueios em matemática e ciências. Dedicou-se de maneira intensiva ao estudo dessas disciplinas, de forma a aproveitar ao máximo a vantagem que um cérebro mais maduro tem na aprendizagem: da metacognição. Assim como a Barbara canadense, ela observou, a partir de suas próprias dificuldades, a forma como aprendia melhor e desenvolveu técnicas eficazes de estudo, que hoje divide em livros, cursos e palestras. É professora na área de engenharia, título jamais sonhado por quem fugia do monstro indecifrável que a matemática era para ela.

Crianças, em geral, não são ensinadas a analisar seus próprios processos cognitivos. Não aprendem a aprender. São ensinados a repetir padrões e memorizar informações desconexas e que não fazem sentido para elas. Por isso muitas têm dificuldade em prestar atenção e todas – mesmo as mais atentas e com bom desempenho – acabam esquecendo a maior parte do conteúdo estudado logo após as provas.

Informações entregues sem relação emocional com a criança e que não são utilizadas na vida prática ou na formulação de raciocínio de forma constante são inevitavelmente deletadas do cérebro, que precisa do espaço para funções importantes. Esse fato, sozinho, se fosse considerado, já serviria para uma mudança radical em todo o sistema educacional. A realidade é que grande parte do tempo passado na escola – talvez a maior parte, dependendo da instituição – é simplesmente jogada fora. Apesar disso, elas sobrevivem ao sistema. As que vão bem, muitas vezes nem questionam. Mas as que não se adaptam, como as Barbaras, essas se revoltam. E é dessa revolta que nascem as melhores formas de ensinar e aprender.

As crianças que sofreram no período escolar se veem obrigadas a refletir sobre aquilo que facilita e aquilo que lhes dificulta a aprendizagem e acabam desenvolvendo uma autoconsciência que pode coloca-las em vantagem em diferentes áreas do conhecimento. São elas que trazem a possibilidade de um sistema mais eficaz de ensino, que desenvolva habilidades que servirão para toda a vida: a curiosidade, a criatividade, o pensamento crítico, o raciocínio lógico e a capacidade de adquirir qualquer conhecimento sem se intimidar diante do material, com confiança e entusiasmo.

Com a intenção de superar as próprias dificuldades e traumas do tempo da escola, muitos desenvolveram técnicas que lhes garantiram maestria justamente nas áreas em que eram fracos. Quando comecei a investigar formas mais eficazes de estudar percebi que as melhores estratégias eram geralmente repassadas por pessoas que precisaram administrar o sentimento de fracasso que marcou a vida na escola. Aqueles que percorreram as extremidades do conhecimento são ótimos estudos de caso da Neurociência, que hoje atesta e justifica muitos dos métodos que utilizam. Como ensina Tim Ferri que sofreu para aprender na escola e hoje é um dos empresários mais bem-sucedidos do mundo e autor de livros sobre aprendizagem acelerada, “em qualquer habilidade, procure por extremos e anormalidades, descubra como fazem aqueles que são surpreendentemente bons em algo, pois eles estão usando técnica e não os genes. E técnica se aprende”.

MICHELE MULLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia, Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no Site: www.michelemuller.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.