OUTROS OLHARES

MINHA CASA, MEU MUNDO

Graças a apps de videoconferência, o distanciamento social imposto pela quarentena está sendo minimizado. Mas as relações humanas já passam por mudanças em razão da pandemia

Surtos epidêmicos estão na própria origem da palavra quarentena. As indicações históricas são deque o termo surgiu na Europa do século XIV, em meio à eclosão da chamada peste negra.

Uma cidade portuária governada por Veneza decretou que navios provenientes de regiões afetadas pela doença não atracassem, inicialmente, por um período de trinta dias (trentino). Mais tarde, a proibição se estenderia para quarenta dias – quarantino, que deriva do italiano quaranta (quarenta), matriz do termo em diferentes idiomas. Não é de estranhar, portanto, que a expressão “quarentena”, em uma conotação menos rígida quanto à duração do isolamento, tenha se transformado, nos quatro cantos do planeta, numa espécie de mantra nestes tempos de novo coronavírus. Por aqui, é verdade, o presidente Jair Bolsonaro estranha a atitude – a ponto de, na terça-feira 24, em um discurso à nação, haver pedido o fim do distanciamento social nas cidades do país. Mas a orientação dos profissionais de saúde de todo o globo é uma só: não saia. A exemplo do que tem ocorrido no exterior, a população brasileira está atendendo ao apelo. No domingo 22, antes mesmo de estar valendo a determinação do governador João Doria nesse sentido, 87% dos habitantes da capital paulista não saíram de seu bairro, segundo dados da startup ln Loco, de serviços de geolocalização. Em todos os estados do país, ao menos 35% de seus moradores estão respeitando a ideia de quarentena. No caso dos idosos, que lideram o grupo de risco, a tendência ao recolhimento é evidente – salvo necessidades mais imediatas, como vacinar-se contra a gripe. Para um número formidável de cidadãos, a casa virou o mundo.

Se isso não pôde ainda frear o avanço da Covid-19, já é notável seu impacto em outro aspecto: o das relações sociais. A começar pelo fato de que, apesar da distância física que o confinamento entre quatro paredes impõe, as pessoas continuam próximas daqueles que estimam e amam, mas com os quais não dividem o mesmo teto. O prodígio, é desnecessário sublinhar, decorre das extraordinárias conquistas da era digital. Desde o início das restrições de circulação, ferramentas de videoconferência saltaram para as primeiras colocações nas lojas de aplicativos, tornando viáveis os encontros com parentes, a happy hour entre amigos, as brincadeiras antes só experimentadas presencialmente.

O estudante de engenharia Juan Gongra, de 22 anos, mora em Cuiabá, em Mato Grosso, enquanto a família vive na cidade de Campinas, em São Paulo. Impedido de voltar para casa devido à quarentena, ele começou a encontrar-se com seus familiares nos fins de semana, após o almoço, por meio do aplicativo Zoom, que permite reunir até 1.000 pessoas na mesma chamada. “São momentos diferentes de quando eu ligava apenas para saber se estava tudo bem. Estamos nos atualizando mutuamente e até fazendo atividades em conjunto, como apreciar os desenhos do meu sobrinho, de 5 anos.” A lojista brasiliense Débora Moura conta que, apesar de nunca ter sido fã de videoconferências, passou a enxergá-las como uma saída de emergência para o tédio – sobretudo nos fins de semana. “Aos sábados e domingos bate aquela necessidade de socializar com os amigos. É preciso estar presente na ausência”, pondera. Ela, que tem 28 anos, usa o app Houseparty, que tem a capacidade de juntar oito pessoas ao mesmo tempo, para se divertir remotamente com os amigos – e jogar Imagem e Ação (brincadeira que envolve mímica).

Com um número maior de usuários na internet – em março houve um aumento de 40% no tempo de conexão via dispositivos fixos -, o tráfego de dados no Brasil bateu recordes e também nas nações mais afetadas pela doença, levando empresas como Netflix e YouTube a reduzir a qualidade de imagem em seus vídeos. A Anatel chegou a recomendar aos provedores que ampliem a capacidade de trânsito de dados disponibilizada para o público.

Para além do universo virtual, no mundo real o relacionamento entre pais, filhos e eventualmente outros parentes que vivam juntos tem também passado por transformações. Com a escola e o escritório transportados para o território doméstico -, o cotidiano de muitas famílias virou de cabeça para baixo. E o amor, nos tempos do coronavírus, registra, igualmente, mudanças significativas. “Durante a pandemia, todos terão a saúde afetada de um jeito ou de outro. No entanto, os relacionamentos conjugais são os mais suscetíveis nessa hora”, alerta a terapeuta de casais americana Melissa Thoen, do prestigioso Ackerman Institute for the Family, fundado em Nova York em 1960. “Saudáveis ou não, pessoas que ficam confinadas com seus parceiros começam a ver lados do outro que não conheciam”, observa. “Fora isso, há a pressão adicional para os que têm crianças”, completa ela.

Não se pode deixar de pontuar ainda que a Covid-19 assombra a Terra em um momento no qual o número de indivíduos que vivem sozinhos é o maior de toda a história. Trata-se de uma tendência que cresce desde o início do século XX entre os países industrializados, com acentuada aceleração nas décadas de 50 e 60. No caso brasileiro, o último levantamento feito pelo IBGE, entre 2005 e 2015, revelou um aumento de 10,4% para 14,6% na parcela de cidadãos que vivem sós. “Somos todos pinturas de Edward Hopper agora”, dizia um post que viralizou em março no Twitter ilustrado por quadros do artista americano (1882-1967), famoso por suas figuras solitárias – em um amargo paralelo com o momento de distância social imposto pelo novo coronavírus. Entre as obras destacadas nos compartilhamentos estava a belíssima Sol da Manhã (1952), que mostra uma mulher sentada em uma cama olhando para a janela (a modelo foi inspirada na esposa do pintor, Josephine Nivision).

Estudos recentes atestam que um estilo de vida no qual a pessoa se encontre mais vezes isolada faz crescer a ansiedade e cobra um pesado pedágio físico, inclusive no âmbito dos circuitos cerebrais. Se tal condição se prolonga, pode até haver crescimento nas taxas de mortalidade. Em 2015, Julianne Holt-Lunstad, neurocientista e psicóloga que atua na Universidade Brigham Young, publicou uma análise de setenta pesquisas, envolvendo 3,4 milhões de cidadãos, sobre os impactos da vida sem interação social. Ela constatou que a solidão aumentou em 26% a taxa de mortes precoces.

Na contramão dos habitantes de outras grandes cidades, os londrinos resistiram até há pouco a conceber a sinonímia entre epidemia e quarentena. No fim de semana de 21 e 22 de março, eles lotaram ruas, metrôs e parques. O governo britânico reagiu, chamou de “muito egoístas” aqueles que não acataram a recomendação anterior de recolhimento e decretou quarentena de três semanas. O exílio residencial, contudo – e não só o dos moradores de Londres -, poderá ser uma lição e tanto para guardar quando a Covid-19 houver passado: a humanidade começa no encontro de um com o outro. É o que faz da casa o mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 7 DE ABRIL

JESUS CURA OS DEZ LEPROSOS

Ao vê-los, disse-lhes Jesus: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. Aconteceu que, indo eles, foram purificados (Lucas 17.14).

O desespero de morrer num leprosário talvez fosse maior do que a própria lepra que devastava suas vítimas. Jesus se dirigia a Jerusalém quando passou por uma aldeia samaritana. Vieram a ele dez leprosos, que de longe gritaram: Jesus, Mestre, compadece-te de nós! (v. 13). Ao vê-los, Jesus lhes disse: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes (v. 14). Aconteceu que, indo eles, foram purificados. A lepra era uma doença incurável e segregadora. Os leprosos eram arrancados do convívio familiar e jogados num leprosário ou numa colônia para viverem isolados até a morte. Um leproso não podia aproximar-se de ninguém. Quando alguém se aproximava, devia gritar: “Impuro, impuro!”. A lepra era um símbolo de maldição. Como o pecado, separa, insensibiliza, contamina, deixa cicatrizes e mata. Jesus curou os dez leprosos dessa doença terrível, mas apenas um voltou para agradecer. Este recebeu não apenas a cura física, mas também a salvação de sua vida. A Bíblia diz que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Romanos 3.23). O pecado faz separação entre você e Deus.

Somente Jesus pode limpar sua vida, perdoar seus pecados e reconciliar você com Deus. Jesus ainda purifica os leprosos!

GESTÃO E CARREIRA

HOME OFFICE: CINCO APLICATIVOS QUE TE AJUDAM A TRABALHAR À DISTÂNCIA

Com a pandemia de coronavírus, muitas empresas instruíram seus funcionários a trabalhar remotamente

Muitas empresas estão fechando as portas temporariamente por conta do surto de coronavírus que assola o mundo. Com isso, o trabalho remoto, o home office, se torna vital para que muitas companhias sigam produzindo durante esse período.

Estar afastado do seu computador de trabalho pode te privar de várias ferramentas importantes do seu dia-a-dia. Mas alguns aplicativos podem facilitar o seu trabalho e te ajudar a manter contato com a equipe, mesmo que você esteja longe de seus colegas. Confira:

GOOGLE HANGOUTS MEET

Já popular no mundo corporativo por permitir teleconferências de maneira rápida, o Google Hangouts Meet se torna uma necessidade extra no trabalho remoto. Às vezes, para tomar determinadas decisões no trabalho, é preciso conversar cara-a-cara com seus colegas em vez de apenas mandar e-mails.

Uma vantagem é que o serviço é gratuito: com o surto de coronavírus, o Google anunciou que todas as ferramentas pagas da plataforma estariam de graça até 1º de julho. Em nota, a empresa afirmou que “com mais funcionários, educadores e estudantes trabalhando remotamente como resposta ao surto de Covid-19, queremos fazer nossa parte e ajudá-los a seguirem conectados e produtivos.”

SLACK

Outra plataforma também popular, o Slack permite trocar mensagens rapidamente entre membros de uma equipe e permite a criação de diversos grupos de trabalho. Assim, é possível garantir que a conversa esteja sempre focada no que é importante.

Nesta semana, o Slack confirmou que recebeu um aumento significativo de usuários da versão gratuita da plataforma desde o começo da pandemia.

MAIL BIRD

O Mail Bird tem como objetivo transformar seu e-mail em uma plataforma mais inteligente. O usuário pode conectar mais de uma conta, personalizar pastas e contatos para garantir que o mais importante sempre tenha destaque na caixa de entrada.

Por exemplo, em vez de ser interrompido várias vezes por notificações de e-mails desnecessários, o sistema do Mail Bird pode ser customizado para garantir que você receba apenas as notificações de mensagens realmente relevantes. O sistema é exclusivo para Windows.

STRICT WORKFLOW

O nome diz tudo: fluxo de trabalho rígido. Essa extensão do Chrome controla seu navegador, bloqueando sites que possam te distrair do trabalho. Você pode customizar a lista de sites bloqueados, mas o serviço já fornece uma lista dos “mais comuns” para procrastinação.

O aplicativo, no entanto, não serve apenas para te privar do que você gosta. Ele funciona em um cronograma de 25 minutos de trabalho para cada 5 minutos de folga — um método popularmente conhecido como “pomodoro”. Quando você termina uma sessão de trabalho, ele automaticamente libera os seus sites bloqueados para a “folga”. As paradas intermitentes permitem que você se distraia de forma organizada e evite um possível burnout.

CHROME REMOTE DESKTOP

Às vezes não é possível levar o trabalho para casa. Esse aplicativo pode ser instalado em seu navegador ou smartphone e permite que você acesse, de forma remota, o seu computador de trabalho. O app ainda tem serviços de suporte remoto.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MUITO ALÉM DE SENTIMENTOS E SENSAÇÕES

A Psicanálise avalia como o medo e a ansiedade estão intrinsecamente ligados à dor da alienação, ao desalojamento do corpo próprio e ao não pertencimento

A depressão e a síndrome do pânico são consideradas o mal do século XXI, atingindo cerca de 350 milhões de pessoas, segundo estimativas. Da mesma forma que, num plano individual, teorias bioquímicas e psicológicas competem pelo fornecimento de explicações sobre a etiologia dessas condições, em termos populacionais também há questões referentes à causa da abrangência desses males, que podem envolver fatores sociais e ambientais, pelo menos como “gatilho” para essas condições. Como fonte de angústia permanente e massacrante para grandes conjuntos de pessoas afetadas diretamente, surge a insegurança gerada não somente por crises econômicas, que levam a desemprego volumoso, mas também por fatores como a globalização e a consequente perda da solidez de valores e de identidades.

Não pretendo defender uma tese em que fatores sociológicos isolados estejam no cerne de uma causação, mas, sim, que seja possível considerar o efeito desses fatores nas estruturas de personalidade e de desordens levando-se em consideração o desenvolvimento psicossexual na metapsicologia freudiana – o que nem todas as correntes em Psicologia admitem ou utilizam. Como analista reichiano, este será o meu ponto de partida. Necessário, mas não suficiente. A vivência da corporeidade, o “habitar ou não a própria existência” são dados importantes e reveladores.

Como mamíferos que somos, dependemos exaustivamente de cuidados parentais para o bom desenvolvimento e para o estabelecimento da capacidade egóica de vivenciar as intensidades da sexualidade, da sensorialidade e das experiências emocionais – isto é, habitar o corpo próprio. Assim, os termos alienação e pertencimento apontam, em meu texto, não somente para um sentido da ordem de condições culturais, políticas e/ ou sociológicas, mas também nomeiam elementos significativos da vida emocional.

Como mencionado, a globalização e o capitalismo tardio têm sido frequentemente apontados como causa da desterritorialização das identidades, o que sublinha uma dimensão econômica, além de tecnológica, como elemento principal das inseguranças. Aqui define-se o fim do século XX e o início do XXI como referência temporal. Mas é possível demonstrar como alterações paradigmáticas marcantes, já do início do século XX, antecedem esse período da modernidade liquida e afetam as identidades e o sentimento da solidez dos valores.

Desenvolvidas no começo do século XX, duas produções científicas de peso abalam a noção de identidade “em si”‘: a Relatividade Geral, de Einstein, que altera as noções intuitivas de tempo e de espaço, e a Mecânica Quântica, com seu princípio de incerteza. “Tudo é relativo”: a teoria einsteiniana modifica a noção de tempo e espaço absolutos (“em si”) e coloca ênfase na localização e na velocidade relativas do observador. O que é “para um” pode não ser “para outro alguém” localizado em outro referencial tempo­espacial. A Mecânica Quântica, segundo a interpretação de Copenhague, destrói o sentido de identidade “em si”. As coisas, e não só numa dimensão subatómica, seriam fundadas pela relação observador (mensuração) e coisa mensurada. Seguindo essa lógica, nem se poderia falar dessa relação antes da própria mensuração, poiso observador e a coisa só existiriam potencialmente. As “verdades”, ou melhor, as “identidades”‘ tornam-se relativas e, resumindo, uma questão de “ponto de vista”. A formulação dessas teorias e o consequente espraiamento na vida cultural antecedem os da globalização.

Há qualquer coisa de fluido, fugaz e transitório nessas identidades assim formuladas. É possível traçar um paralelo entre o esgotamento, culturalmente falando, da noção de uma delimitação definida e intrínseca de uma “coisa” do mundo e o esfumaçar das identidades pessoais. De um ponto de vista psicológico, há um paradoxo no anseio angustiado de se tentar “voltar para uma casa”, que não está mais lá, enquanto se é empurrado inexoravelmente e com mais rapidez à tentativa de encontrá-la “mais à frente”. Nesse paradoxo se produzem ansiedade e sofrimento. Ainda paradoxalmente, a identidade é vivida como aprisionamento num mundo globalizado e que promete ilusoriamente infinitas possibilidades de intercâmbios de todos os tipos.

O leitor que acompanha o desenrolar do texto deve ter percebido a ênfase que coloco na questão da identidade e a sugestão implícita de que a perda desta é acompanhada ou precedida por alienação de algum tipo. Do latim, alienus, “algo que pertence a outra pessoa”: alienado é alguém que transmite, cede a própria identidade a alguém, a uma doutrina ou a uma ideologia. Isso implica a perda ou a diminuição da capacidade de pensar ou de agir por conta própria. Sublinhe-se que essa noção contém de forma implícita a ideia de que existe um “si mesmo, preexistente que seria perdido na alienação. Evidentemente, no viés psicológico e psicanalítico, a identidade é construída numa relação (parental) e através de mecanismos de introjeção e identificação etc.

Mas haverá algo mais? O pressuposto de que meu “eu” se resume à presença do “outro” em mim parece deixar de lado qualquer substância, qualquer elemento anterior ao relacional, em um dos componentes da situação, aquela do “eu”. A perspectiva de eliminação do alienamento parte da premissa dessa existência, passível, então, de recuperação, ou surgimento. Importante ressaltar que a definição de identidade formulada aqui engloba o “habitar o corpo próprio”, ou seja, inclui uma dimensão somática e energética, no viés reichiano, e não somente psíquica ou psicológica. Freud já postulava que o “ego, antes de mais nada, é um ego morto.

Assim, pode-se perguntar: será a subjetividade passível de ser tomada de assalto inexoravelmente por medidas de controle, intencionais ou não, de forma a produzir seres automatizados? Será a alienação um preço a se pagar devido ao desespero na busca do pertencimento?

A ALIENAÇÃO E O PULSIONAL

Certamente, uma das maneiras de se definir o que objetiva uma análise (dentre o conjunto das psicanálises, no plural) é que esta visa favorecer o encontro do desejo singular de cada um. Esse desejo é definido segundo pautas diferentes, podendo ser realização erótica, falta absoluta etc., de acordo com o entendimento e a definição de cada escola. O “si mesmo” radicado na assunção do desejo próprio e o termo alienação aplicam­ se ao âmbito da Psicologia, não só da sociologia e da política. Dito isso, passo à questão desta seção: embora a depressão seja avassaladoramente presente, por questões de espaço será a desordem do pânico a ser examinada preferencialmente, já que os elementos empregados em seu entendimento e em sua abordagem são igualmente válidos para outras condições.

A desordem do pânico, em suas fases mais agudas, destaca tanto elementos psicológicos, mentais, quanto fisiológicos. Envolve sintomas como medo de ficar louco, de perder o controle ou morrer, sensação de despersonalização e sinais fisiológicos: parestesias, sensação de sufocamento e falta de ar, tremores, sudorese intensa, tontura, desequilíbrio, vertigem, palpitações etc. Surgem fobias relacionadas a situações “gatilho”, que foram vividas como tendo dado origem ao ataque de pânico.

Uma síntese inicial das conclusões sobre essa condição revela dois componentes principais: ansiedade de separação, mobilizada por algum evento do presente, e também a mobilização de uma forma extragenital de descarga orgástica, na forma de convulsões, que se manifestam quando da abordagem clínica. É necessário detalhar um pouco mais o segundo elemento mencionado. Quando um determinado impulso surge como ameaçador, seja por recalcamento insuficiente, seja por ausência de representação (mentalização), ou mesmo por motivo de atuação (acting out), em determinadas estruturas de personalidade isso pode estimular atividade reflexa do tipo convulsão orgástica, mesmo se o impulso for de outra ordem. Um exemplo disso é um impulso agressivo voltado para alguém afetivamente importante para quem vive a desordem. Como forma de defesa, o medo e a culpa podem fazer surgir uma espécie de somatização, uma descarga primária. Mas isso é uma simplificação, colocada apenas em termos didáticos. A capacidade orgástica, tanto em termos fisiológicos quanto emocionais (vinculação indissolúvel), dado clínico importante no referencial reichiano, é outra coisa. O que vemos no caso da desordem do pânico é uma funcionalidade essencial para a vida emocional, utilizada parcialmente para fins defensivos na desordem.

RELATO DE UMA CRISE

Encontramos, num livro destinado a servir de orientação ao público leigo, um relato fácil de assimilar e simples de um ataque de pânico, em que se evidenciam algumas das noções expostas há pouco, quando mencionamos a relação entre o modo somático de expressão da desordem e a atividade reflexa orgástica, ou melhor, sinais de angústia orgástica. Destaquei, a seguir, alguns pontos:

“É difícil descrever o pânico para quem nunca passou por isso. A sensação do pânico não é a mesma que a do medo, embora o pavor possa ser um sentimento dominante à medida que as emoções prosseguem, crescendo até um ponto máximo… a primeira coisa que senti foi meu rosto e meu pescoço tornarem-se quentes de repente. Fragmentos de imagens assustadoras – todas irracionais – dominaram o meu pensamento… esses pensamentos iam e vinham acompanhados de um terror que eu não conseguia controlar no estado em que me encontrava. Minha pulsação havia disparado. Meu coração batia acelerado. A essa altura eu tinha pressentimentos horríveis, o medo aumentando por eu achar que estava à beira da morte. Ondas de adrenalina, como se fossem calafrios profundos, disparavam descargas elétricas pelo meu couro cabeludo, pescoço e peito. Talvez tivesse passado um minuto enquanto eu me achava naquele estado de mais completo pânico… mal conseguia respirar… meus rins doíam com a intensidade da pressão arterial. Então, a tempestade começou a passar. Em poucos minutos, eu me encontrava pálida, suada e trêmula…”.

Trago, agora, um exemplo em que a expressão extragenital surge como defesa contra um impulso e conscientização.

Uma paciente, também acometida de pânico, costumava se sentir tonta cotidianamente, uma tontura que se intensificava sempre que entrava na sala de atendimento. Havia um diagnóstico de labirintite e medicação. A análise evidenciou que a tontura sempre se apresentava quando ela era assoberbada transferencialmente por um impulso raivoso contra a pessoa do analista ou outra figura afetivamente significativa para ela, impulso do qual ela não era consciente. Nesses momentos, seu rosto tinha uma expressão ausente que contrastava com a qualidade aflita do seu modo de falar. Quando, então, ela era interrompida e se solicitava que tentasse definir o que sentia naquele momento, a tontura chegava subitamente a um extremo, de tal forma intensa que ela, mesmo estando sentada, se agarrava com força aos braços da poltrona, com medo de cair, e, então, também de forma abrupta, a tontura era substituída por “arrancos” do tronco para frente e para trás, movimento que denunciava o caráter “serpenteante” que, por fim, tomava todo o corpo quando ela se deitava e o movimento podia surgir com amplitude total. Ao fim de tudo, a tontura desaparecia e, mais importante ainda, ela se dava conta, “só agora”, de como antes estava se sentindo com raiva.

Esse exemplo descreve o prestar atenção em si mesmo, detalhado em outro lugar. Aqui, como na análise do caráter, são os modos de comportamento, o “como… o paciente se expressa, que são também fontes de informação, por serem historicamente significativos, não somente os conteúdos ideativos.

ESSENCIAL

Igualmente importante e presente nessa condição, e implicitamente na depressão, a ansiedade de separação, mencionada nos estudos de Bowlby, revela-se um componente essencial. Um determinado cliente, ao cumprir a rotina semanal de levar de carro a esposa ao aeroporto, pois ela viajava frequentemente a trabalho, numa ocasião, no momento mesmo em que ela passava pela porta de entrada do aeroporto, teve a sensação de que estava tendo um ataque cardíaco e foi levado às pressas ao hospital. Aqui, o elemento simbólico (alguém que parte, vai embora) foi o gatilho para o desenrolar da desordem.

Psicanalíticas são todas as escolas que adotam a hipótese do inconsciente, conforme formulada por Freud, o que significa que é a teoria empregada e não o setting que define a atividade clínica. A técnica da análise do caráter, na clínica, divide espaço com a abordagem corporalista, como contraponto. A lógica que dá sentido à atividade reflexa que surge nas crises, tanto na ótica do reflexo de Moro quanto na do reflexo orgástico, é igualmente aplicável às neuroses de guerra estudadas por Ferenczi. Um detalhamento maior a esse respeito pode ser encontrado na obra Síndrome do Pânico: Sistêmica Organísmica versus Isomorfismo Mente-Cérebro.

O fator central na desordem do pânico é essencialmente um: o temor da movimentação involuntária convulsiva. É essa a razão da atenção aguda que o indivíduo que sofre dessa desordem coloca sobre o próprio corpo e as sensações, tentando, mesmo inconscientemente, controlá-las. A existência das parestesias, da falta de ar, do medo de morrer ou de ficar louco deve-se essencialmente à existência de uma reação convulsiva “engatilhada”, prestes a se dar, à flor da pele. La petite mort, expressão em francês que designa o orgasmo, e a temporária perda de consciência, quando este se dá de luto, elucidam com clareza a relação entre o temor de morrer e as crises.

Mas a experiência orgástica é também uma experiência emocional, também psíquica, portanto, não se trata somente de uma atividade fisiológica e biológica. Lembremos: nos outros animais não se conhece a existência espontânea de crises de pânico.

A compreensão da alienação e da perda do “si mesmo” envolve elementos da Psicologia profunda e também de funções primevas do vivo, um religare com elas. Essa compreensão transcende o território da clínica e abrange a própria organização das sociedades humanas.